• No results found

A vida do OMM a bordo de um navio mercante é repleta de significados. O embarque simboliza o início de uma jornada rica em experiências e sentimentos que só terá fim com o regresso ao porto. Distante de casa, às vezes, por meses a fio, os OMM experimentam a sensação de descontinuidade provocada pela impossibilidade de cumprir com o seu papel de marido, esposa, pai, mãe, filho, filha, e outros graus de parentesco e afinidade familiar. Sentem-se comprimidos entre os deveres do ofício que os levam a navegar e os que deixaram em casa, na família, em terra firme.

Segundo Greenhaus e Beutell (1985), o conflito trabalho–família é uma forma de disputa entre papéis em que as pressões advindas dos domínios trabalho e família são, em alguma medida, mutuamente incompatíveis. Para eles, o conflito baseado no tempo surge da disputa entre os múltiplos papéis exercidos por uma pessoa. Os relatos a seguir evidenciam algumas experiências vividas pelos OMM em sua carreira embarcada:

[...] Eu acho que é o ponto mais crítico essa questão social, familiar que pesa bastante é.. independente da questão salarial que é boa, mas às vezes as pessoas acham que não compensa[...] (E06)

[...] Se você botar na ponta do lápis você ganha um pouco mais, mas em compensação você tem um nível social, não tem muito contato, a família não tem você não acompanha o crescimento dos filhos, não tem aquela sequência de vida, então é difícil. É o ponto principal [...] (E06)

Fica evidente nos relatos obtidos no campo a dificuldade enfrentada pelas mulheres na tentativa de conciliar os seus papéis de OMM, esposa, mãe e estruturadora da família. Para elas os conflitos trabalho-família decorrentes do embarque parecem ser ainda mais sensíveis e intensos, influenciando na sua decisão de sair ou permanecer na carreira embarcada.

Segundo Macedo, Boava, Cappele e Oliveira (2012), as conquistas obtidas pelas mulheres no mercado de trabalho ocorrem de modo gradual, sem conseguir quebrar aspectos que alicerçam o patriarcado, ou seja, a mulher conta com um aparente teto de vidro realçado no momento da maternidade. Nesse ponto a conciliação de papeis, para muitas, torna-se insustentável, como atestam alguns relatos obtidos no campo:

[...] quer dizer então não é a questão do casamento, o casamento até daria para levar [...]

[...] o problema é no momento em que tem o filho que complica bastante [...]

[...] já pesa mais, porque o casamento você consegue conciliar, muitas das vezes até acostuma vamos dizer assim, já tem aquela questão de costume. Você vai viaja e daqui a pouco volta. Até acho que não é o problema principal, é mais a questão mesmo de filho às vezes pesa bastante. (E06)

[...] A gente tem casos de casais, pessoas que se conhecem na escola. De uma turma e de outra, vem trabalhar junto, são um casal, tem que compatibilizar e acaba saindo um e saindo o outro. Sai um da empresa e sai o outro. (E07)

Como vimos em Cramer, Capelle, Andrade e Brito (2012), no encaminhamento do processo de construção da sua nova identidade, na sociedade, as mulheres buscam enfrentar os desafios de exercerem atividades tradicionais do universo masculino, entretanto lutam para desconstruir os estereótipos do papel de mãe e esposa, enraizados no tecido social brasileiro. Podemos ver, pelos relatos a seguir, a dificuldade e, até mesmo, a impossibilidade das mulheres em prosseguir na carreira embarcada, após assumirem a maternidade como papel principal. As razões para essa decisão parecem indicar uma tentativa de evitar o sentimento de culpa, nutrido pelo possível afastamento do filho.

[...] A necessidade de estar em terra para poder ter o filho, criar o filho e montar uma família. (E04)

[...] Hoje eu posso dizer que um dos maiores fatores é a questão emocional né... familiar... por passar muito tempo longe da família dependendo da situação passa 3, 4 meses longe e assim não compensa a questão de convívio familiar, social, então tem essa dificuldade, mas ao mesmo tempo tem, por eu ser mulher tem a questão também que também gera praticamente também chega ao mesmo ponto de família questão do filho né...chega uma hora que a mulher quer ter filho e ai isso dificulta mais pelo fato de deixar uma criança com alguém e você voltar a embarcar. (E06)

Ao mesmo tempo, podemos perceber, pelos relatos abaixo, a existência de uma percepção androcêntrica, sobre o papel da mulher na atividade de OMM, sendo a lógica subjacente predominante calcada em valores masculinos e carregados de preconceito.

[...] a mulher tem uma tendência maior de sair do que o homem... dependendo da vida que ela vai levar porque o que acontece a família sempre pode ficar longe do homem, né?

[...] O pai sempre pode viajar e deixar assim, mas a mãe é sempre mais complicado [...]

[...] então quando ela quer montar uma família, ela vai fazer um pé de meia aqui e vai sair, olha está na hora de ter um filho, ela pede e ai [...]

[...] a questão do filho [...]

[...] mas ainda assim nem só a questão do filho ou de montar uma família eu acho que mais a questão mesmo de vida. (E07)

[...] pelo menos as que eu tive contato e conheci a bordo em muitos dos casos quando casou engravidou e não voltou mais [...] (E09)

Seguem ainda outros relatos reforçando a tendência a uma imagem estereotipada da mulher na sociedade brasileira e a crença na impossibilidade de conciliação dos papeis OMM e mãe.

[...] Eu acredito que as mulheres têm uma tendência maior de sair da carreira porque eu acho que elas pensam em ter filhos, formar família, mais cedo ou mais tarde a mulher quer ter filhos, então ela pensa, ela não fica muito tempo em comparação aos homens na área, embarcada e tenta sempre galgar postos em terra, ser uma Gerente de Base, trabalhar em terra pela empresa. (E10)

[...] eu vejo que a mulher... tem uma carência maior de ficar próxima a família.... tem umas que ficam bastante tempo, mas a grande maioria que eu vejo....ou antes de ter filho....forma uma família e já quer ficar fora...às vezes o marido não consegue dar um apoio para ela ganhar um salário um pouco melhor[...] (E11)

A partir dos estudos das cinco dimensões elaborados por Hofstede (1980), que apresentam traços culturais dos países, podemos inferir que os brasileiros apresentam uma maior propensão a experimentarem conflitos trabalho-família quando desempenhando uma carreira embarcada, pois são submetidos a longos períodos de afastamento dos seus familiares.

Segundo Hofstede (1980), no que tange a dimensão individualismo versus coletivismo, o Brasil obtém grau 38 de um total de 100, significando que as pessoas desde o nascimento estão integradas em grupos coesos e fortes que continuam protegendo em troca de lealdade. Alguns relatos dão indícios de que podemos estabelecer esta correlação:

[...] Com certeza afastamento da família, essa parte de escala muito grande, fator preponderante para as pessoas saírem da área de Marinha Mercante [...] (E10)

[...] O fato de estar longe da família, seja a família a esposa, ou marido no caso da mulher, ou os pais.... tem gente que não é casada, mas mesmo assim eu já vi amigos meus saindo até primeiro do que eu da Marinha Mercante e não eram casados. (E11)

Os OMM estão fortemente sujeitos aos conflitos trabalho-família e vice-versa, na medida em que vêm seus papeis na sociedade disputarem o mesmo espaço de tempo. A impossibilidade de se desempenharem, adequadamente, em todas as suas obrigações, os fazem experimentar sentimentos diversos de tristeza, angústia e, ao mesmo tempo, impotência. Essa situação contribui para a sua decisão de sair da carreira embarcada em busca de uma vida que possibilite uma maior proximidade física com a sua família. O relato a seguir demonstra este sentimento:

[...] Na sua casa as coisas continuam acontecendo... seu filho está aprendendo a andar... sua família fica doente e está tudo acontecendo e essas informações chegam para a gente e a gente não pode estar lá dando aquele amparo para a família isso é uma coisa forte assim [...] (E11)

Pelos relatos acima enunciados fica claro que os OMM vivenciam conflitos trabalho-família quando ingressam na carreira embarcada. Na medida em que o tempo é disputado pelos papeis profissionais e familiares o indivíduo se vê diante da impossibilidade de conciliá-los pela distância física que separa as duas instituições. A sensação de conflito é acentuada pelas questões de gênero relacionadas aos estereótipos femininos, do androcentrismo e da forte ligação com a família apresentada como traço característico da cultura brasileira.