As classificações de inovações empregadas no setor privado não podem ser adotadas da mesma forma para o setor público. O projeto MEPIN5 usa e recomenda a seguinte classificação de inovações: (1) inovação de produto é a introdução de um serviço ou bem que é novo ou significativamente melhorado em comparação com bens ou serviços existentes na sua organização, abrangendo melhorias significativas nas características do serviço ou do bem, no acesso ao cliente ou na forma como ela é usada; (2) inovação de processo é a implementação de um método para a produção e prestação de serviços e bens que é novo ou significativamente melhorado em comparação com os processos existentes na organização, envolvendo melhorias significativas nos equipamentos e / ou habilidades e também em funções de apoio, tais como informática, contabilidade e compras; (3) inovação organizacional é a implementação de um novo método para a organização ou gestão do trabalho que difere significativamente dos métodos existentes na organização, incluindo melhorias significativas para os sistemas de gestão ou de organização no local de trabalho; (4) inovação na comunicação é a implementação de um novo método de promover a organização ou os seus serviços e produtos ou de novos métodos para influenciar o comportamento dos indivíduos,
5 O Projeto MEPIN foi um projeto financiado pelos países nórdicos, cujo principal objetivo era
desenvolver diretrizes e um questionário para a coleta de dados internacionalmente comparáveis sobre a inovação no setor público.
que sejam significativamente diferentes dos métodos de comunicação já existentes na organização.
O Quadro 5 compara os tipos de inovação nos setores público e privado. Quadro 5 -Tipos de inovações: setor privado x setor público
Manual de Oslo (setor privado) Setor Público
Inovação de produto Inovação de serviço Inovação de processo Inovação de processo Inovação organizacional Inovação organizacional
Inovação de marketing Inovação de comunicação Fonte: Elaboração própria
Baseando-se no trabalho do Projeto Publin6, Halvorsen et al. (2005) apresentam uma tipologia de inovações no setor público na qual a inovação pode ser: um serviço novo ou melhorado (por exemplo, cuidados de saúde em casa); inovação de processo (a alteração na fabricação de um produto ou serviço); inovação administrativa (por exemplo, o uso de um novo instrumento de política, o que pode ser resultado de uma mudança de política); inovação sistêmica (um novo sistema ou uma mudança fundamental de um sistema já existente, por exemplo, a criação de novas organizações e novos padrões de cooperação e interação); inovação conceitual (uma mudança na perspectiva dos atores, essas mudanças são acompanhadas pelo uso de novos conceitos, como por exemplo, a gestão integrada de recursos hídricos) e mudança radical da racionalidade (mudança da visão de mundo ou da matriz mental dos funcionários).
Ainda de acordo com Halvorsen et al. (2005), as inovações podem ser classificadas nas seguintes formas: (1) inovações incrementais versus inovações radicais, denotando o grau de novidade; (2) de cima para baixo versus de baixo para cima, denotando quem iniciou o processo, se os níveis superiores na hierarquia ou servidores públicos e gerentes de nível intermediário; (3) dirigidas para necessidades versus dirigidas para eficiência, indicando se o processo de inovação
6 O Projeto Publin foi um projeto de pesquisa da União Européia que estudou políticas de
aprendizagem e de inovações técnica e administrativa no setor público e tentou obter uma melhor compreensão das mudanças de comportamento, de processos de aprendizagem e da implementação de tecnologias novas ou aperfeiçoadas em organizações públicas. O estudo abrangeu inovações em organizações formuladoras de políticas, agências reguladoras e empresas públicas e levou em consideração a influência de traços culturais, política, gestão, redes e cooperação, empreendedorismo.
foi iniciado para resolver um problema específico ou para tornar mais eficientes produtos e serviços já existentes.
Inovações de serviços são definidas como novos serviços oferecidos por organizações públicas para atender um usuário externo ou demandas do mercado (WALKER, 2006). Walker identifica três tipos de inovação em serviços: totais, expansionistas e evolucionárias. Inovações totais dizem respeito à prestação de novos serviços para novos usuários. Inovações expansionistas envolvem a oferta de serviços existentes para um novo grupo de usuários. O terceiro tipo, inovações evolucionárias, envolve a oferta de novos serviços para usuários existentes.
Na literatura de inovação de serviços, pequenos ajustes em relação a determinados clientes também podem ser considerados inovações, chamadas inovações ad hoc (GALLOUJ; WEINSTEIN, 1997). Inovações ad hoc são alterações que levam à criação de novas competências, que se tornam parte integrante de um serviço e acabam por mudar o serviço de forma indireta (FUGLSANG, 2010).
Nas organizações públicas, a imitação de inovações que se originam no ambiente externo é encorajada como forma de divulgar novas ideias, práticas e comportamentos entre as organizações do setor, fazendo com que prevaleça a adoção em vez da invenção (WALKER, 2006).
A questão da origem e autoria das iniciativas inovadoras nas organizações suscita discussões. Borins (2001) entrevistou mais de 300 inovadores premiados em dois principais concursos de inovação da gestão pública, um nos Estados Unidos e outro na Commonwealth. Os dados revelaram que nos países desenvolvidos o pessoal do nível operacional e os gerentes de nível intermediário são os iniciadores mais frequentes de inovações na gestão pública. Nos países em desenvolvimento verificou-se semelhante participação dos gestores de nível intermediário, porém uma participação bastante reduzida do pessoal da linha de frente (7% nos países em desenvolvimento contra 39% nos países desenvolvidos). Para o autor, esse resultado pode ser atribuído à falta de inclinação dos países em desenvolvimento em promover o empoderamento dos funcionários.
Os contrastes encontrados por Borins (2001) podem estar relacionados às diferenças culturais entre países ricos e em desenvolvimento apontadas por Motta (2007): nos países mais avançados a ideologia liberal centrada no indivíduo valoriza a iniciativa, o espírito empreendedor e o desempenho e a realização individuais; enquanto que um traço prevalente no mundo latino-americano é o personalismo, que
faz ver o poder como centrado na figura de um líder, um dirigente, e não como o resultado da gestão de recursos inerente a estruturas formais. Como consequência do personalismo, “a maioria das pessoas, subordinadas nas organizações de trabalho — públicas ou privadas —, sente-se presa às suas condições sociais e julga ser inútil ou fora de seu alcance ter iniciativa, ambição ou ilusão de que a ordem social e administrativa poderia ser diferente” (MOTTA, 2007, p 89).
Ferrarezi, Amorim e Tomacheski (2010) pesquisaram 69 iniciativas inovadoras premiadas no Concurso Inovação da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), encontrando que a autoria das ações deve-se majoritariamente à equipe de servidores da instituição (36%), seguida pelo dirigente da instituição (16%) e por um gerente ou coordenador de equipe (16%). O resultado revela a importância do envolvimento dos servidores como fator significativo para a atividade inovadora, em contraposição aos resultados obtidos por Borins (2001).