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A Marinha Mercante brasileira, herdeira direta da frota portuguesa, tem exercido um relevante papel na construção e desenvolvimento do país desde a sua emancipação. A sua participação corajosa garantiu as rotas de suprimento de produtos entre portos nacionais e

internacionais, mesmo nos períodos de conflito agudo, como os que se verificaram na Grande Guerra e na Segunda Guerra Mundial. Com uma trajetória marcada por períodos de crescimento e declínio impõe aos seus principais artífices, os seus Oficiais, grande dose de perseverança para suportar os momentos mais difíceis.

Atualmente, a Marinha Mercante brasileira passa por um ciclo de crescimento, mercê de políticas governamentais que privilegiam a retomada da construção naval, a adoção de regras para conteúdo local e a contratação obrigatória de mão de obra nacional, mesmo em navios de bandeira estrangeira. Em pouco mais de uma década saiu-se de um período de completa estagnação, sucateamento e desemprego para um crescimento vertiginoso impulsionado pelas demandas da indústria do petróleo.

Com o mercado aquecido observou-se um desequilíbrio marcante entre a oferta e a demanda por Oficiais da Marinha Mercante, chegando a ameaçar a sustentabilidade do crescimento da indústria pela escassez de profissionais. Diante desse cenário a existência de altas taxas de evasão dos OMM, nos anos iniciais da carreira embarcada, cerca de trinta por cento, cria ainda mais dificuldades para que as empresas de navegação consigam manter as suas operações de modo sustentável.

Desta forma, ao longo desta dissertação pretendeu-se compreender quais os fatores contribuintes para a evasão dos OMM nos anos iniciais da carreira embarcada. Para tal, definimos o sujeito Oficial da Marinha Mercante como o profissional, brasileiro, formado nas escolas de formação administradas pela Marinha do Brasil e certificado, de acordo com as normas internacionais assinadas pelo Brasil, para o exercício de tarefas a bordo de navios.

O OMM é um indivíduo imerso na cultura brasileira e sujeito ao processo de socialização marcante de nosso país, constituído por descendentes de uma mistura de matrizes que formaram uma etnia própria, única, diferenciada com uma dinâmica marcada pelo sincretismo, por uma nova estrutura societária. Com seus costumes, ideias, hábitos alimentares, linguagem corporal e idioma os brasileiros apresentam uma identidade diferenciada com traços característicos.

A motivação foi um elemento importante e estruturante do nosso trabalho, pois é a partir dela que o sujeito decide agir, realizar, progredir, procura buscar um equilíbrio entre as suas expectativas imaginadas e a realidade. Nesse aspecto ressaltamos as motivações intrínsecas como essenciais no processo de tomada de decisão dos OMM entre permanecer na carreira embarcada ou buscar outras oportunidades em terra firme. As íntimas convicções formadas ao longo da vida, pelo convívio social e processo de amadurecimento, delineiam os

contornos da trajetória de vida. Para uns a mudança de carreira pode parecer algo positivo, desafiador e, ao mesmo tempo necessária para o crescimento profissional e pessoal. A outros essa decisão denota quebras de contratos psicológicos, de dívida com a organização, com a família, com os amigos e consigo mesmo. Entender como atuam esses mecanismos não é tarefa fácil, porém os relatos aqui apresentados indicam alguns elementos que inquietam os OMM enquanto ainda estão embarcados.

Um dos fatores apontados em nossa pesquisa no campo, como contribuinte, para a alta taxa de evasão foi a dificuldade de conciliar as demandas da família com o trabalho, ou, vida pessoal com vida profissional. Os conflitos trabalho-família sobressaem como fator de primeira grandeza no processo de decisão dos OMM entre ficar ou sair da profissão. Alguns consideram desafiador conviver com as rupturas, com as descontinuidades impostas pelo embarque e não reagem com tranquilidade às ausências prolongadas de seus entes mais próximos, seus familiares, parentes e amigos.

As questões de gênero são igualmente percebidas como fundamentais na intensidade das taxas de evasão. As mulheres, segundo os relatos, aparentemente apresentam maior dificuldade de ajuste ao trabalho embarcado, tendo em vista a cobrança social imposta pelos estereótipos, da maternidade, pelo seu papel estruturante na família, por pertencer a uma sociedade ainda marcada pelo androcentrismo e paternalismo. É importante realçar que a presença de OMM do gênero feminino embarcadas é algo recente no Brasil, pouco mais de uma década. Nesse sentido, o seu espaço ainda está sendo conquistado, no entanto a cobrança e as percepções obtidas nos relatos demonstra a existência de um teto de vidro reduzindo as perspectivas de progressão na carreira.

Os brasileiros são, por essência, ligados à família, integrados, criados com o sentimento de valorização do convívio familiar, dos laços fortes, da proximidade e do afeto. Os relatos demonstraram a dificuldade e o conflito vivido pelos OMM quando embarcados. A tristeza, a angústia, o sentimento de impotência e frustração provocadas pela ausência frequente faz com que considerem sair da carreira, mesmo em troca de recompensas financeiras inferiores. A sua busca enseja o desejo de ser feliz, de ter um equilíbrio emocional e do ajuste social obtido com a possibilidade de compatibilizar os seus papéis na vida pessoal e profissional.

No processo de decisão tomado pelo OMM que podemos considerar como um somatório de fatores entram aspectos intrínsecos, mas também alguns provocados pelo ambiente profissional. Fica evidente que a existência de um bom ambiente a bordo dos navios

facilita o processo de ajuste do OMM. Nesse aspecto, a adoção de práticas que melhorem a integração cultural, o conforto, o apoio social aos familiares e a melhoria das comunicações interpessoais parecem ser recomendadas para a redução das taxas de evasão e, consequentemente, aumentar a retenção.

O convívio permanente por dias a fio e a alternância subjetiva entre trabalho e descanso no mesmo local fechado, evidenciam o trabalho em ambiente confinado, com suas características totalizantes, de estrutura própria, de sistemas únicos de adaptação e ajuste. Os OMM reagem de modo distinto aos ditames da rotina de trabalho confinado, realizam processos de adaptações primários, secundários, misturam-nos e reorganizam a sua vida para se ajustarem.

No caso das mulheres OMM embarcadas percebe-se pelos relatos como ainda mais acentuado os efeitos do trabalho no ambiente fechado, impondo efeitos decorrentes da dificuldade, ou mesmo incompatibilidade de desempenho dos seus papéis na sociedade. Para elas a decisão de permanecer ou sair da carreira se vê tomada quando se aproxima as exigências da maternidade.

A evasão dos OMM nos anos iniciais da carreira embarcada indica ser um fenômeno causado por fatores diversos e que atuam igualmente com distintas características, dependendo do indivíduo, dos fatores pessoais e do ambiente, ou das alternativas apresentadas pelo mercado. O nosso estudo revelou que os períodos de expansão e declínio da Marinha Mercante ocorreram ao longo de toda a sua história com efeitos marcantes na formação dos OMM. As descontinuidades e as incertezas compartilhadas por gerações de OMM podem ter contribuído para gerar uma classe de profissionais descrentes com a carreira. Nesse sentido, chama atenção em alguns relatos a percepção da importância das recompensas financeiras como responsáveis primordiais pela permanência do OMM. A falta de uma vocação marítima dos brasileiros, atribuída a traços culturais, pode também ser influenciada pelas lembranças de anos difíceis, o imaginário coletivo de sacrifício e o desconhecimento objetivo da profissão.

Faz-se, portanto, relevante observar que a evasão dos OMM não é algo novo, inédito, ao contrário decorre da própria natureza humana, na sua capacidade de adaptação ao trabalho em ambiente confinado, às ausências prolongadas, às partidas e chegadas, aos choques culturais e às intempéries da vida no mar. Compreender a impossibilidade de dissociar vida pessoal e profissional, ou terra e mar, revela-se primordial para aqueles que dependem desses profissionais para o sucesso do seu negócio.

Vemos, assim, uma extensa e rica oportunidade de novas pesquisas nesse campo aprofundando questões que aqui, por impossibilidade, ou limitação do autor, foram apenas tangenciadas. Nesse sentido, os aspectos ligados ao embarque das OMM mulheres parece ser um instigante objeto de estudo, como também parecem ser os aspectos ligados aos choques culturais no ambiente fechado dos navios. Além desses, certamente há outros que merecem o interesse do pesquisador para contribuir por um entendimento mais acentuado da carreira dos OMM.