Segundo Van de Ven et al. (1989) é necessário o desenvolvimento de uma perspectiva administrativa da inovação, que se concentre nos problemas e desafios principais com os quais os gestores se confrontam enquanto iniciam ou dirigem o desenvolvimento de uma inovação. Enquanto há muitos livros e artigos que se preocupam com os antecedentes (facilitadores/inibidores) ou com as consequências (resultados) da inovação, são poucos os que têm examinado diretamente como e
por que as inovações realmente emergem, se desenvolvem e terminam (VAN DE VEN et al., 1999). Em outras palavras, é necessária uma teoria que indique qual modelo de gestão favorece o surgimento de inovações.
O trabalho do Minnesota Innovation Research Program (MIRP) se destaca como o mais importante nesse campo (HAGE, 1999). Esse programa de pesquisa acompanhou o desenvolvimento longitudinal de 14 inovações, da concepção à conclusão, ao longo de duas décadas, com o objetivo de produzir uma teoria que fornecesse ao gerente de inovação um mapa que explicasse como e por que as inovações se desenvolvem e quais caminhos são mais prováveis de conduzir ao sucesso ou ao fracasso (VAN DE VEN et al., 1989). Segundo os autores, tal mapa seria necessário pois poucos estudos haviam examinado o processo de inovação em tempo real e consequentemente pouco se sabia sobre como e por que o processo de inovação emerge, se desenvolve, prossegue e termina. O grupo de inovações examinadas foi amplo incluindo inovações tecnológicas, de produtos, de processos e administrativas, em organizações públicas, privadas e do terceiro setor.
O programa buscou responder três questões chave: (1) Como e por que as inovações realmente se desenvolvem ao longo do tempo, desde a concepção até a implementação? (2) Qual processo de inovação conduz ao sucesso e qual conduz ao fracasso? e (3) em que medida o conhecimento do processo de inovação pode ser generalizado de uma situação para outra?
A fim de possibilitar comparações dos resultados entre os estudos, de forma a produzir uma teoria geral do processo de inovação, os pesquisadores utilizaram uma estrutura conceitual comum, centrada em cinco conceitos básicos: ideias, pessoas, transações, contexto e resultados. Esses conceitos foram selecionados porque representavam as principais preocupações apontadas por gerentes envolvidos em inovações (VAN DE VEN; ANGLE; POOLE, 1989). De uma perspectiva administrativa, o processo de inovação consiste em “motivar e coordenar pessoas para desenvolver e implementar novas ideias, que se envolvem em transações (relacionamentos) com outros, realizando as adaptações necessárias para atingir os resultados almejados dentro de um contexto institucional e organizacional em mudança”3 (VAN DE VEN et al., 1989, p. 9).
As observações de campo revelaram um importante desafio à literatura dominante, desmistificando o caráter linear, sequencial e planejado do processo de inovação. O que dali emergiu foi um processo caracterizado pelos pesquisadores como um sistema dinâmico não linear. Segundo Van de Ven et al. (1999), essa dinâmica não linear nos informa que “a jornada inovadora não é estável e previsível, nem estocástica e aleatória"4 (VAN DE VEN et al., 1999, p. 5). Em outras palavras, o comportamento imprevisível não significa aleatoriedade, significa que o processo de inovação pode ser extremamente sensível às condições iniciais (dependência do caminho). O Quadro 4 apresenta as diferenças entre as premissas encontradas na literatura existente sobre os cinco conceitos principais do MIRP e o que foi de fato observado durante os estudos do MIRP.
Quadro 4 – Premissas e observações sobre os conceitos-chaves do MIRP
Premissas encontradas
na literatura: O que foi observado pelo MIRP: Ideias Uma invenção, operacionalizada. Reinvenção, proliferação, reimplementação, descarte e interrupção.
Pessoas Um empreendedor com uma equipe dedicada durante todo o tempo.
Muitos empreendedores engajando-se e desligando-se em uma variedade de papéis organizacionais ao longo do tempo.
Transações Rede fixa de pessoas/ empresas trabalhando sobre detalhes da ideia.
Expansão e contração da rede de
stakeholders ao longo do tempo, divergindo e convergindo quanto às ideias.
Contexto
O ambiente estabelece oportunidades e
restrições no processo de inovação.
O processo de inovação é limitado por e cria múltiplos ambientes.
Resultados Orientação ao resultado final; surge uma nova ordem estável.
O resultado final pode ser indeterminado; múltiplas avaliações do processo em
andamento e spinoffs; integração da nova à velha ordem.
Processo Uma simples sequencia cumulativa de estágios. Múltiplos caminhos, convergentes, divergentes e paralelos, alguns
relacionados e cumulativos, e outros não. Fonte: Adaptado de VAN DE VEN et al., 1999, p. 8
A partir da análise de uma variedade de inovações técnicas e administrativas incluídas no programa, Schroeder et al. (1989) descreveram a evolução e o
desenvolvimento de novas ideias ao longo do tempo. Esses autores propuseram um modelo de processo que é baseado nas seguintes observações empíricas: (1) a inovação é estimulada por choques tanto internos como externos à organização - quando o indivíduo se sente descontente ou desmotivado com algo e alcança o limiar da insatisfação, ele iniciará uma ação para resolver essa insatisfação; (2) uma ideia inicial tende a proliferar em múltiplas e divergentes ideias no decorrer do processo de inovação; (3) frequentemente surgem retrocessos, planos são muito otimistas, comprometimentos aumentam, erros se acumulam e ciclos viciosos podem se desenvolver; (4) a aprendizagem é limitada em virtude da prevalência de mensagens misturadas com informações positivas e negativas aleatoriamente ordenadas no tempo, bem como ao fato de que muitos dos resultados são devidos a outros eventos que ocorrem à medida que a inovação se desenvolve; (5) enquanto uma inovação está sendo desenvolvida, novas ideias coexistem com velhas práticas e precisam ser integradas; (6) a organização pode ser reestruturada para melhor lidar com o processo de inovação; (7) a alta gerência frequentemente envolve-se proativamente ao longo do período de desenvolvimento da inovação e desempenha um papel importante não só no patrocínio, mas também no julgamento e modelagem da inovação. As intervenções externas controlam proliferações, lidam com reveses e círculos viciosos, ajudam a ligar o velho ao novo, a reestruturar a organização da forma necessária, a fornecer objetivos gerais e recursos para apoiar as inovações.
Tendo como ponto de partida os cinco conceitos-chave - ideias, pessoas, transações, contexto e resultados – foi elaborado o modelo conceitual do processo de inovação. Os pesquisadores do MIRP postularam dimensões (construtos) que teriam impacto sobre o processo de desenvolvimento de inovações. Na Figura 1 são apresentadas as dimensões que compõem o modelo conceitual do MIRP, agrupadas e integradas logicamente.
As dimensões internas são relacionadas aos processos e ao contexto dentro da unidade organizacional inovadora; as dimensões externas abrangem o ambiente global e de transações onde a unidade inovadora se insere e são avaliadas separadamente das dimensões internas pois pertencem a diferentes níveis de análise; a efetividade percebida com a inovação é utilizada como critério para validar tanto as dimensões externas quanto as internas; e os fatores contingenciais e situacionais, medidos com outros instrumentos (e não com o MIS) e acrescentados ao modelo uma vez que se relacionam com a teoria contingente que subjaz os estudos do MIRP (VAN DE VEN; CHU, 1989).
Dimensões Internas Ideias inovadoras Dificuldade Variabilidade Pessoas Competência Tempo investido Influência nas decisões Liderança
Transações internas
Padronização de procedimentos Frequência de comunicação Frequência de conflitos
Métodos de resolução de conflitos
Contexto
Ambiente inovador (organização que aceita riscos; liberdade para
expressar dúvidas; protecionismo) Expectativa de recompensas e sanções
Escassez de recursos
Fatores Situacionais e Contingenciais:
Grau de novidade da inovação; Tamanho e escopo da inovação; Estágio da inovação (idade).
Resultados Efetividade da inovação Dimensões Externas Transações externas (ao grupo) Dependência Formalização Influência Efetividade Incerteza do ambiente externo Tecnológica Econômica Demográfica Legal / regulatória
Figura 1 - Modelo Estrutural de Medida das Dimensões do MIRP Fonte: Van de Ven e Chu (1989, p. 56)
Na estrutura conceitual do MIRP, indicada na Figura 1, a efetividade percebida com a inovação é, por hipótese, uma função das dimensões internas. Essa relação é mediada pela natureza da inovação (isso é, grau de novidade, escopo, tamanho e estágio de desenvolvimento) e uma teoria de contingência subjaz o modelo, isso é, espera-se que fatores externos à unidade inovadora possam influenciar tanto os processos internos da unidade inovadora quanto o seu desempenho (VAN DE VEN; CHU, 1989).
Para medir as dimensões, foram definidos os indicadores (afirmativas) que integram o questionário Minnesota Innovation Survey (MIS), o qual se tornou uma metodologia de medida dos processos de inovação nas organizações (VAN DE VEN; CHU, 1989).
O questionário MIS é dividido em duas partes: Parte I com 51 questões sendo 41 questões objetivas e 10 questões subjetivas, as quais tratam de fatores internos e externos à organização que podem interferir nos processos de inovação; e Parte II, com 20 questões, que trata dos relacionamentos do grupo responsável pela inovação com outros grupos dentro e fora da organização. As questões objetivas se desdobram em 93 afirmativas com opções de respostas escalonadas em escala Likert de cinco pontos.
Silva (2011) relaciona diversos trabalhos realizados no país, a partir da metodologia MIRP, que objetivavam a identificação de ambiente propício à inovação em empresas.
Foram propostas adaptações da metodologia MIRP visando a redução da quantidade de dimensões do modelo (MACHADO; CARVALHO, 2011), a incorporação na análise da variável cultura organizacional e a mudança do foco do instrumento, do processo de inovação para o ambiente de inovação (MACHADO; CARVALHO; HEINZMANN, 2012).
Embora reconhecendo os não poucos méritos dos trabalhos do MIRP, críticos lamentam sua incapacidade para alcançar a meta inicial de gerar uma teoria geral dos processos de inovação (EVELAND, 1991).
2.4 INOVAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES PÚBLICAS
A literatura sobre inovação no âmbito do setor público tem origem em uma variedade de estudos no campo das ciências políticas, sociais e da administração. Representa, dessa forma, uma variedade de perspectivas teóricas, cada uma delas enfatizando diferentes áreas. Nessa seção, a inovação no setor público é analisada sob duas diferentes perspectivas: (1) a modernização da administração pública em geral e o papel da Nova Gestão Pública (NGP) em particular e (2) a natureza do processo de inovação dentro das organizações públicas, com ênfase no estudo dos fatores organizacionais que possam ser gerenciados para estimular a formação de um ambiente propício à inovação nessas organizações. Antes, porém, os conceitos de inovação e os seus tipos são reapresentados, considerando as especificidades do setor público. Também são tecidas considerações acerca das diferenças entre os setores público e privado e as consequências para a gestão da inovação.
É importante ressaltar que o foco do presente estudo são os fatores de nível organizacional que impactam no processo de inovação. Porém, nesta seção busca- se analisar a inovação no contexto do setor público, ressaltando as diferenças para o setor privado. O objetivo aqui é identificar as condições de contorno presentes no setor público que o diferenciam do setor privado e de que modo tais condições influenciam o processo de inovação. Assim, nesta seção, o nível de análise ora recai sobre o setor público como um todo (nível macro de análise) ora sobre a organização (nível meso de análise).