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CHAPTER 6: FINDINGS

6.2. Manageability

6.2.1. Stressors

Chegados a este ponto, importa recordar que o nosso objectivo principal é compreender em que medida o preconceito pode contribuir para explicar as atitudes dos portugueses face à imigração e aos imigrantes: a sua permanência em Portugal, os seus direitos, o seu contributo para a sociedade de acolhimento. Partimos, inicialmente, do pressuposto de que, tal como foi enunciado por diversos autores (vg. Pettigrew e Meertens, 1995 e 1999, e, para o caso português, Vala et al., 1999), as formas mais manifestas de racis-

os que percebem menor diferença cultural é igual a percentagem dos que respondem ‘manter-se’ e ‘diminuir’, naqueles que exageram as diferenças culturais, a diferença entre estas duas categorias de resposta ascende a 25%.

Gráfico 120. Resistência à imigração, por percepção da diferença cultural (%)

Quando se consideram as respostas dos inquiridos relativamente a cada um dos princi- pais grupos de imigrantes presentes em Portugal, verifica-se, mais uma vez, uma diferen- ça marcante entre indivíduos menos racistas e mais racistas (Gráfico 121). No entanto, é em relação aos imigrantes africanos que mais indivíduos responderam que o seu número deveria diminuir, não só e principalmente entre os mais racistas mas também entre os que tiveram valores mais baixos nessa escala de racismo. Em contrapartida, não se verificam diferenças significativas nas respostas a respeito dos imigrantes brasileiros e de Leste.249

Gráfico 121. Percentagem que respondeu ‘diminuir’, por atitudes racistas

249 χ2=23,30; p<0,00.

Resistência à imigração

Quando se cruzam estas novas variáveis com as atitudes face à presença dos imigrantes em Portugal verifica-se, tal como era esperado, que os mais racistas são aqueles que mais responderam que o número de imigrantes deveria diminuir. No entanto, é interes- sante notar que apenas uma percentagem muito reduzida considera que esse número deveria aumentar, concentrando-se a maioria das respostas dos indivíduos que podemos considerar menos racistas nas opções ‘diminuir’ e ‘manter-se’ (Gráfico 119).248 Por outras palavras, ainda que os menos racistas respondam menos que os mais racistas que o número de imigrantes deveria diminuir, as suas respostas repartem-se entre o ‘manter-se’ e o diminuir’, com ligeira preferência para esta última. Assim, poderá colocar- se a questão de saber até que ponto estas respostas reflectem a manifestação de um preconceito que, inibido pela norma anti-discriminatória nas respostas aos indicadores de racismo tradicional, emerge neste tipo de pergunta.

Gráfico 119. Resistência à imigração, por atitudes racistas (%)

A mesma relação existe entre a resistência à imigração e a percepção da diferença cultu- ral. São os indivíduos que mais exageram essa diferença que mais tendem a responder

que esse número deveria diminuir, conforme se pode constatar pelo Gráfico 120. Aqui, é interessante verificar que, enquanto para 248 χ2=37,65; p<0,00.

Atitudes face aos direitos dos imigrantes

Como vimos em capítulo anterior, as atitudes face aos direitos dos imigrantes podem desdobrar-se em três grandes dimensões: direitos dos imigrantes legais; direitos dos imigrantes ilegais; e repatriação condicional.

No que respeita aos direitos dos imigrantes legais, verifica-se que são, sistematicamente, os indivíduos mais racistas e que tendem a exagerar a diferença cultural aqueles que menos concordam com essa atribuição de direitos. Essa diferença só não se revela significativa para o último indicador, no que respeita à percepção da diferença cultural (cf. Tabela 74).

Tabela 74. Atitudes face aos direitos dos imigrantes legais, por atitudes racistas e percepção da diferença cultural (% que concorda)

Direitos dos imigrantes a residir legalmente em Portugal Menos racistas Mais racistas Menor diferença percebida Maior diferença percebida Devem poder votar como

os portugueses 250

81,6 69,6 80,3 74,5

Deve-lhes ser facilitada a naturalização 251

88,1 71,9 86,3 78,5

Devem poder trazer a sua família para Portugal 252

93,6 72,5 90,1 83,7

Devem ser reenviados para os seus países, mesmo tendo filhos nascidos em Portugal 253

85,5 74,2 83,1 82,2

250 Racismo: χ2(1,1459)= 26,449; p<0,00. Diferença Cultural: χ2(1,1459)= 6,557; p<0,01.

251 Racismo: χ2(1,1409)= 56,208; p<0,00. Diferença Cultural: χ2(1,1329)= 14,002; p<0,00.

252 Racismo: χ2(1,1465)= 123,359; p<0,00. Diferença Cultural:χ2(1,1380)= 12,787; p<0,00.

253 Racismo: χ2(1,1384)= 25,162; p<0,00. Diferença Cultural: n.s.. É interessante verificar que, quando consideramos a percepção da diferença cultural,

encontramos exactamente a mesma tendência: para além de serem os indivíduos que mais exageram essa diferença que mais responderam ‘diminuir’ em relação a todos os grupos, os imigrantes africanos são claramente destacados de forma negativa, principal- mente pelos que exageram as suas diferenças culturais (Gráfico 122).

Gráfico 122. Percentagem que respondeu ‘diminuir’, por percepção da diferença cultural

Em suma, quer a medida de racismo quer a medida de percepção da diferença cultural contribuem para compreender melhor a resistência à entrada e presença de imigrantes em Portugal (atitude a que, como desenvolvido em capítulo anterior, chamámos resistên- cia à imigração, seguindo a terminologia de Coenders et al., 2005). Por um lado, são os mais racistas e os que mais tendem a exagerar a diferença cultural dos imigrantes aque- les que mais rejeitam a sua presença no país. Por outro lado, os imigrantes africanos são claramente destacados de forma negativa nas respostas dos portugueses. Finalmente, a percepção da diferença cultural, enquanto exagero dessa diferença, parece efectivamente contribuir para explicar as atitudes mais negativas face à imigração, o que corrobora o seu uso como um indicador, muito embora insuficiente, do preconceito mais encoberto.

imigrantes ilegais que não têm trabalho ou os imigrantes legais que ‘cometerem algum tipo de crime’. Desta forma, e tal como os racistas subtis de Pettigrew e Meertens (1999: 23), estes indivíduos dão uma «justificação aparentemente não racista para expressar a sua oposição à imigração»: no primeiro caso, a situação de ilegalidade dos imigrantes, no segundo caso, a criminalidade, ambas tidas consensualmente como violações das normas de comportamento aceitáveis na sociedade de acolhimento.

Tabela 76. Atitudes face à repatriação dos imigrantes, por atitudes racistas e por percepção da diferença cultural (% que concorda)

Os imigrantes devem ser reenvia- dos para os seus países...

Menos racistas Mais racistas Menor diferença percebida Maior diferença percebida Devem ser reenviados para os

seus países se não tiverem traba- lho (Imig. Legais) 258

57,8 69,0 58,8 64,2

Devem ser reenviados para os seus países se não tiverem traba-

lho (Imig. Ilegais) (n.s.)

74,0 77,1 73,1 76,7

Devem ser reenviados para os seus países se cometerem algum tipo de crime (Imig. Legais) (n.s.)

79,0 80,6 78,8 79,7

Estas tendências, que acabámos de descrever detalhadamente, encontram-se igualmente representadas na Tabela 77, onde se apresentam as correlações entre as variáveis contí- nuas que agregam os diferentes indicadores de cada componente das atitudes face aos direitos dos imigrantes (vide capítulo 5) e as duas medidas de preconceito utilizadas. Como se pode constatar, verifica-se uma relação significativa com as diversas dimen- sões das atitudes, mais forte no caso da medida do racismo.

Essa relação é inversa quando se trata de atribuir direitos aos imigrantes (quer legais quer ilegais), o que significa que quanto mais os indivíduos tendem a manifestar atitudes racistas e a exagerar a diferença cultural dos imigrantes tanto menos tendem

258 Racismo: χ2(1,1376)= 15,708; p<0,00. Diferença Cultural: χ2(1,1299)= 3,840; p=0,028.

Encontramos exactamente a mesma tendência quando estão em jogo os direitos dos imigrantes ilegais (cf. Tabela 75).

Tabela 75. Atitudes face aos direitos dos imigrantes ilegais, por atitudes racistas e percepção da diferença cultural (% que concorda)

Direitos dos imigrantes a residir ile- galmente em Portugal Menos racistas Mais racistas Menor diferença percebida Maior diferença percebida Devem ser protegidos nos

seus direitos laborais 254 73,2 57,0 72,7 61,9

Deve-lhes ser facilitada

a legalização 255 83,0 60,6 82,6 67,9

Devem ser todos reenviados para os

seus países de origem 256 257 39,1 55,0 40,9 46,8

Pode-se, pois, perguntar: se uma tão elevada percenta- gem de inquiridos considera que o número de imigrantes em Portugal deve diminuir – e isto para todas as origens territoriais consideradas (ainda que com algumas diferen- ças entre elas) – o que fazer com os imigrantes que já residem entre nós? Quando inquiridos acerca da eventual repatriação dos imigrantes, em determinadas condições, verifica-se que são igualmente os indivíduos mais racistas e que exageram a diferença cultural dos imigrantes que consideram que estes devem ser repatriados se não tive- rem trabalho (Tabela 76). No entanto, no que respeita aos indicadores socialmente mais aceitáveis, que não envol- vem recriminação social, nem põem em risco a auto-defi- nição destes indivíduos como ‘não-racistas’, esbatem-se as diferenças nas respostas de racistas e não racistas, assim como daqueles que percebem maior e menor diferença cultural: por exemplo, quando se trata de repatriar os 254 Racismo: χ2(1,1433)= 36,724; p<0,00. Diferença Cultural: χ2(1,1352)= 17,712; p<0,00. 255 Racismo: χ2(1,1407)= 83,307; p<0,00. Diferença Cultural: χ2(1,1327)= 39,110; p<0,00. 256 Racismo: χ2(1,1418)= 30,713; p<0,00. Diferença Cultural: χ2(1,1337)= 4,630; p=0,018. 257 Como vimos no capítulo 5 em que se descrevem as atitudes face aos imigrantes, a análise fac- torial em componentes principais identificou que este indicador se correlaciona negativamente com os direitos dos imigrantes ilegais. Assim, ele foi usado para construir esta dimensão das atitudes face aos direitos dos imigrantes, sendo essa a razão pela qual figura neste quadro e não no relativo à repatria- ção condicional.

aqueles que as tendem a exagerar, nomeadamente no que se refere a ‘fazerem os trabalhos que os portugueses não querem’, ou a ‘receberem da segurança social mais do que dão’.

Tabela 78. Valorização da imigração, por atitudes racistas e por percepção da diferença cultural (valores médios)259

Menos racistas Mais racistas Menor diferença percebida Maior diferença percebida A sua presença enriquece a vida cultural do

nosso país 2,02 2,32 2,04 2,20

São fundamentais para a vida económica do

país 2,12 2,32 2,13 2,24

Fazem os trabalhos que os portugueses não

querem 1,83 2,00 1,86 1,92

Recebem da segurança social mais do que dão 2,84 2,52 2,75 2,73 A convivência entre imigrantes e portugueses

traz sempre problemas e conflitos 2,76 2,39 2,70 2,56

Escala: de 1 = Concordo totalmente a 4 = Discordo totalmente

Em suma, as análises realizadas sugerem que o preconceito sen- tido pelos portugueses em relação aos imigrantes continua a ser uma variável importante para a compreensão das atitudes face à presença, aos direitos e contributos dos imigrantes em Portugal. Mais concretamente, a distinção entre o racismo dito tradicional e a percepção da diferença cultural parece-nos útil para desvendar as áreas de sombra que, no estudo das atitudes e valores huma- nos, surgem inevitavelmente. De facto, as atitudes mais negati- vas em relação aos imigrantes são manifestadas não só pelos indivíduos classicamente considerados racistas mas também por aqueles que percepcionam os imigrantes como culturalmente diferentes, principalmente quando exageram essa diferença.

259 Racismo: p<0,00 para todos os indicadores. Percepção da diferença cultural: p n.s. para “Fazem os trabalhos que os portugueses não querem” e “Recebem da segurança social mais do que dão”; p<0,01 para “São fundamentais para a vida económica do país” e “A convivência entre imi- grantes e portugueses traz sempre problemas e confli- tos”; p<0,00 para “A sua presença enriquece a vida cultural do nosso país”.

a defender os seus direitos. Por outro lado, são os indivíduos mais racistas e que mais exageram a diferença cultural aqueles que mais defendem a repatriação dos imigrantes, em determinadas condições.

Tabela 77. Correlações entre as atitudes face aos direitos dos imigrantes e as duas medidas de preconceito (racismo e percepção da diferença cultural)

ρ de Spearman Índice de Racismo Índice de Percepção da Diferença Cultural Direitos dos Imig.

Legais Coeficiente Correlação N -0,294*** 1522 -0,132*** 1427 Repatriação Condicional Coeficiente Correlação N 0,097*** 1502 0,074*** 1411 Direitos dos Imig.

Ilegais Coeficiente Correlação N -0,254*** 1503 -0,152*** 1413 Direitos dos Imigrantes (Total) Coeficiente Correlação N -0,295*** 1524 -0,163*** 1429 *** p<0,001 6. VALORIZAÇÃO DA IMIGRAÇÃO

Finalmente, importa olhar para a última das dimensões das atitudes face aos imigrantes: a valorização do seu contributo, a diversos níveis, para o desenvolvimento da sociedade portuguesa. Verifica-se que são os indivíduos menos racistas aqueles que mais tendem a valorizar esse contributo, ou seja, mais tendem a considerar que a presença dos imigran- tes ‘enriquece a vida cultural do país’, que eles são ‘fundamentais para a vida económica’ e que ‘fazem os trabalhos que os portugueses não querem’ (Tabela 78). Pelo contrário, são os indivíduos mais racistas aqueles que mais consideram que os imigrantes ‘recebem da segurança social mais do que dão’, e que a sua ‘convivência com os portugueses traz sempre problemas e conflitos’.

No entanto, quando se trata da percepção da diferença cultural, nem todos os indicadores revelam diferenças significativas entre os indivíduos que percebem menores diferenças e

CAPÍTULO 8.