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CHAPTER 6: FINDINGS

6.1. Comprehensibility

Tentamos em seguida explorar os factores que podem ajudar a compreender o preconcei- to em relação aos imigrantes (seja na sua dimensão mais declarada seja entendido como percepção da diferença cultural), nomeadamente as características sociodemográficas dos inquiridos (sexo, instrução, idade), os seus valores sociopolíticos, os factores socioe- conómicos (como a precariedade na situação de emprego ou o sentimento subjectivo de insegurança económica) e, ainda, outras variáveis relacionadas com o tema em estudo, como a experiência (pessoal ou indirecta219) de emigração.

Em termos gerais, pode-se dizer que a relação entre cada um dos referidos factores explicativos e as medidas construídas de preconceito em relação aos imigrantes (Índice de Racismo e Índice de Percepção da Diferença Cultural) revelou algumas regularidades, como se passa a explicar em detalhe.

No que respeita às variáveis sociodemográficas, o sexo não revelou relações estatisticamente significativas com as variáveis dependentes em causa, com excepção de uma ligeira tendên- cia para um maior sentimento racista entre os homens, em relação aos brasileiros.220 Quanto à idade, verifica-se que, à medida que esta aumenta,

aumenta igualmente a tendência dos indivíduos para manifestar atitudes racistas, indicando que os mais velhos manifestam mais preconceito.221 Pelo contrário, no que respeita à percepção da diferença cultural, verifica-se que esta diminuiu à medida que aumenta a idade, para o caso dos imigrantes em geral e também no caso dos brasileiros.222 Contudo, não se verificam correlações significativas em relação aos imigrantes africanos nem de Leste.

219 Considera-se como “experiência indirecta” de emigração a existência de pelo menos um familiar emigrante. 220 F(1,1506)= 6,42; p=0,01. 221 ρ de Spearman p<0,01. 222 r de Pearson p<0,01. É, pois, possível proceder à construção de uma nova variável que exprima o preconceito em

relação aos imigrantes – entendido enquanto percepção desses imigrantes como diferentes da sociedade de acolhimento, no que se refere aos aspectos culturais inquiridos – com base na soma das médias dos inquiridos aos dois indicadores mencionados, para todos os grupos em geral; e para cada um dos grupos, em particular. Os seus valores variam entre 1 (nada diferen- tes) e 3 (muito diferentes) e o seu ponto médio é 2, podendo esta medida ser entendida como uma aproximação às expressões mais subtis do preconceito em relação aos imigrantes e ser tomada como variável, quer dependente quer independente, nas análises que se seguem. O mesmo tipo de tratamento pode ser utilizado a respeito da percepção que os portugue- ses fazem dos diversos grupos de imigrantes, de forma a saber se ela é diferenciada em função da proveniência dos imigrantes, no que respeita às medidas de preconceito. Com base nestes dois indicadores, constituiu-se a Tabela 71, onde se vê que, no que se refere à medida de racismo, os respondentes registaram classificações médias mais elevadas na nova variável em relação aos africanos e aos imigrantes de Leste quando comparados com os brasileiros. As suas diferenças em relação a estes são sensivelmente as mesmas. Resultados semelhantes são os que se encontram na mesma tabela relativa- mente ao índice de percepção da diferença cultural. Mas as diferenças entre africanos e de Leste, por um lado, e brasileiros, por outro, são mais pronunciadas. Como é obvio, as diferenças relativas aos imigrantes africanos e de Leste não são significativas.

Tabela 71. Diferenças na classificação média dos inquiridos nas medidas de preconceito

Diferença de Médias Desvio-Padrão T Sig.

Indice de racismo

Africanos/Brasileiros 0,20 0,02 8,85 0,00

Africanos/Leste 0,00 0,02 0,19 0,853

Brasileiros/Leste -0,19 0,02 -9,51 0,00

Índice de percepção da diferença cultural

Africanos/Brasileiros 0,31 0,63 17,58 0,00

Africanos/Leste 0,03 0,64 1,35 0,176

No que respeita às variáveis económicas, verifica-se uma relação bastante ténue entre a insegurança económica objectiva e o racismo em relação aos imigrantes em geral, aos africanos e aos brasileiros229. São principalmente os indivíduos que passaram, no último ano, pela experiência do desemprego que menos tendem a manifestar atitudes racistas. Por outro lado, quanto mais negativamente os inquiridos percepcionam a sua situação económica futura menos consideram culturalmente diferentes os imigrantes em geral, brasileiros e de Leste230. Note-se que existe, também, uma relação entre esta percepção subjectiva e o rendimento auferido, na medida em que, quanto maior o rendimento, tanto mais os inquiridos tendem a avaliar a sua situação económica como ‘muito boa’ ou ‘boa’.

No que respeita à posição religiosa, nota-se que os inquiri- dos que se identificaram com alguma religião manifestam mais atitudes racistas em relação aos imigrantes em geral, assim como relativamente a cada um dos grupos em estu- do.231 Porém, esta variável não apresenta relação significa- tiva com a medida de percepção da diferença cultural. As variáveis sociopolíticas revelam, porém, as relações mais interes- santes, estatisticamente significativas, com a medida de racismo. Tem atitudes mais racistas quem defende valores materiais,232 quem se situa à direita no espectro político233 e defende os valores da autoridade.234 Do mesmo modo, manifestam menos atitudes racistas os indivíduos que consideram que se deve ‘garantir a todos as mesmas oportunidades’235, ao contrário de quem pensa que se deve ‘compensar melhor os que mais trabalham’236 e ‘proteger os mais desfavorecidos’237. No entanto, este tipo de valores não exerce efeito sobre a medida de percepção da diferença cultural.

229 ρ de Spearman: p<0,05. 230 r de Pearson: p<0,01, excepto no caso dos imigrantes de Leste, em que p<0,05. 231 Respectivamente: F(1,1507)= 27,76, p<0,00; F(1,1507)= 31,12, p<0,00; F(1,1507)= 10,46; p=0,05; F(1,1507)= 31,79, p<0,00.

232 Em relação aos imigrantes em geral: F(2,1357)= 15,16, p<0,00. Africanos: F(2,1357)= 18,29, p<0,00. Brasileiros (2,1357)= 10,13, p<0,00. Leste(2,1357)= 10,99, p<0,00. 233 ρ de Spearman: p<0,01. Imigrantes em geral: F(4,970)= 9,792, p<0,00. Africanos: F(4,970)= 11,832, p<0,00. Brasileiros: F(4,970)= 5,335, p<0,00. Leste: F(4,970)= 8,568, p<0,00. 234 ρ de Pearson p<0,01. 235 V.g. “Para reduzir a crimi- nalidade são necessários mais polícias e penas mais duras” e “O respeito pela autoridade é o mais importante dos valores”. Imigrantes em geral: F(1,1422)= 51,885, p<0,00. Africanos: F(1,1422)= 58,635; p<0,00. Brasileiros: F(1,1422)= 34,759; p<0,00. Leste: F(1,1422)= 39,122; p<0,00. 236 Imigrantes em geral: F(1,1422)= 44,207; p<0,00. Africanos: F(1,1422)= 36,834; p<0,00. Brasileiros: F(1,1422)= 39,054; p<0,00. Leste: F(1,1422)= 36,793; p<0,00. 237 Imigrantes em geral: F(1,1422)= 4,710; p=0,030. Africanos: F(1,1422)= 4,996; p=0,026. Brasileiros: n.s. . Leste: F(1,1422)= 7,062; p<0,01.

A cor da pele do inquirido foi, igualmente, considerada na análise, manifestando-se uma tendência por parte dos brancos a manifestarem mais atitudes racistas que os não bran- cos, o que, porém, só ocorre em relação aos imigrantes africanos.223 Esta variável não exerce influência sobre a medida de percepção da diferença cultural.

No que diz respeito às características da zona onde reside o inquirido e onde o inquérito foi realizado, verifica-se que os inquiridos alentejanos tendem a manifestar mais atitudes racistas em relação aos imigrantes de Leste do que os nortenhos e os habitantes da região de Lisboa e Vale do Tejo (regiões NUT).224 O mesmo se pode afirmar em relação aos inquiridos que residem em meio rural, por oposição aos que vivem em meio urbano, em relação aos imigrantes em geral, africanos, brasileiros e de Leste.225 No entanto, estas duas variáveis não exercem efeito sobre a medida de percepção da diferença cultural. Em termos de variáveis socioeconómicas e culturais, no que respeita à instrução, verifica- se que, à medida que esta aumenta, diminui a tendência para que os indivíduos manifes- tem atitudes racistas, sendo os menos instruídos os mais preconceituosos. No entanto, no que respeita à percepção cultural, a tendência é inversa (e inesperada): aumenta a tendência para considerar os imigrantes em geral e os imigrantes brasileiros mais dife- rentes à medida que aumenta a instrução.226 Já no caso dos imigrantes africanos, essa

relação é mais ténue. E em relação aos imigrantes de Leste os resultados não são significativos. Não se deve esquecer na inter- pretação destes dados que existe alguma relação entre a idade e a instrução, na medida em que os indivíduos mais novos têm níveis de instrução mais elevados.

Quanto ao rendimento, à medida que este aumenta diminui a ten- dência para a manifestação de atitudes racistas.227 No entanto, o contrário acontece em relação à percepção da diferença cultural: à medida que o rendimento aumenta aumenta também a percepção da diferença cultural em relação aos imigrantes em geral e aos imigrantes brasileiros.228 Porém, esta relação não se revela signi- ficativa relativamente aos imigrantes africanos e aos de Leste. 223 F(1, 1538)= 12,54; ρ<0,00. 224 F(4,1537)= 4,065; ρ<0,00. Post-Hoc test ρ<0,05. 225 Respectivamente: F(1, 1537)= 7,825; ρ<0,01; F(1, 1537)= 8,960; ρ<0,00; F(1, 1537)= 6,055; ρ=0,014; F(1, 1537)= 5,141; ρ=0,024. 226 r de Pearson: ρ<0,01. 227 r de Pearson: ρ<0,01. 228 r de Pearson: ρ<0,01.

No que respeita aos valores individuais, têm atitudes mais racistas os indivíduos que dão menos importância a ‘gozar a vida’ e ‘sentir-se bem consigo mesmo’242, o que em certa medida contradiz o que era de esperar. Estes valores não parecem influenciar, porém, a percepção da diferença cultural. Em sentido inverso, os indivíduos que dão menos impor- tância a ‘ajudar os necessitados’ têm valores mais elevados em ambas as medidas de preconceito243, enquanto os indivíduos que dão menos importância a ‘dedicar a vida aos outros’ têm valores mais elevados na medida de percepção da diferença cultural.244 4. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A partir destas análises e reflexões, o modelo que iremos testar comporta quatro grandes grupos de variáveis, três dos quais acabámos de descrever. O quarto grupo de variáveis explicativas é constituído pelos estereótipos em relação aos imigrantes, explorados no capítulo anterior. Parte-se da hipótese de que, quanto mais estereótipos os indivíduos partilharem a respeito de um grupo – neste caso, os imigrantes – mais tenderão para o preconceito em relação a esse grupo.

Preditores do racismo

A tabela que se segue apresenta-nos os coeficientes normalizados das análises de regressão linear múltipla realizadas, tendo como variáveis dependentes os índices de preconceito construídos a partir das variáveis atrás descritas.245 Enquanto preditores, foram introduzidos quatro grandes grupos de variáveis: socio- demográficas e situação económica (objectiva e/ou subjectiva), interpessoais, valores sociais e políticos, e estereótipos. No que respeita às variáveis sociodemográficas, incluíram-se: a dimen- são do habitat (rural vs. urbana), a cor da pele do inquirido (outros vs. branco), a idade, a escolaridade, o rendimento e a posição religiosa (sem religião vs. com religião). Nas variáveis interpessoais, contam-se o facto de ter sido emigrante, de ter um familiar emigrante e o número de contactos pessoais com

242 ρ de Spearman: p<0,01 para todos os casos, excepto em relação aos imigrantes de Leste, em que p<0,05. 243 ρ de Spearman: p<0,01.

244 ρ de Spearman: p<0,01, excepto em rela- ção aos imigrantes brasilei- ros, em que p<0,05. 245 As análises foram realizadas utilizando o método forward. Na Tabela 72, só são apresentados os resultados do último mode- lo obtido.

No que respeita às variáveis interpessoais, o número de contactos pessoais com imigran- tes revela uma correlação positiva com a medida de racismo, tendendo o preconceito a ser menor entre os indivíduos com maior número de contactos pessoais com imigrantes 238. Esta relação não se verifica relativamente à percepção da diferença cultural dos imigrantes.

Teve-se também em conta, como possível variável preditora do preconceito, o número de filhos em idade escolar, na medida em que uma das perguntas inquiria acerca das atitudes dos respondentes portugueses a respeito de ter os filhos em escolas com maioria de imigrantes. No entanto, esta variável não revelou qualquer relação estatisticamente significativa com as medidas de preconceito consideradas.

A experiência da emigração também só revelou relações significativas com a medida de racismo em relação aos imigrantes brasileiros, tendendo os indivíduos com história de emigração para valores mais baixos neste índice239. Contudo, o facto de ter um familiar próximo emigrante está relacionado significativamente com as duas medidas de precon- ceito (à excepção da diferença cultural em relação aos africanos e aos brasileiros): os familiares de emigrantes manifestam menos atitudes racistas em relação aos imigrantes em geral, africanos, brasileiros e de Leste240, assim como tendem a percepcionar como culturalmente diferentes os imigrantes em geral e de Leste241.

Também o grau de satisfação com a vida pode ter influência no preconceito em relação aos imigrantes. Segundo a teoria do bode expiatório, a frustração seria a primeira causa da agressividade, podendo ser desviada da sua causa primária e concentrada num substituto (Dollard et al., 1939; Adorno et al., 1950, citados por Echabe, 1997). Neste sentido, o grau de insatisfação com a vida pode constituir uma medida indirecta dessa frustração. No entanto, não se verificou qualquer relação significativa entre esta variável e as duas medidas de preconceito.

238 r de Pearson <0,01. 239 F(1, 1524)= 4,806; p=0,024. 240 Respectivamente: F(1,1519)= 22,565; p<0,00; F(1,1519)= 15,932; p<0,00; F(1,1519)= 25,142; p<0,00; F(1,1519)= 17,612; p<0,00. 241 Respectivamente: F(1,1424)= 4,279; p=0,039; F(1,1424)= 6,833; p<0,01.

«Garantir a todos as mesmas oportuni-

dades» -0.115*** -0.108*** -0.070 -0.070*

«Compensar melhor os que mais traba-

lham» 0.084* 0.074*

Posicionamento político (Esquerda-

Direita) 0.151*** 0.123*** 0.110*** 0.128*** Valores de autoridade 0.069* 0.070* Simpatia -0.159*** -0.166*** -0.104** -0.148*** Competência -0.132** -0.127*** -0.133*** Rectidão -0.110* -0.172*** -0.116** -0.131** Imigrantes e crime 0.078* 0.098** Variância explicada: 22% 21% 16% 22%

*p<0,05 **p<0,01 ***p<0,001; Método Forward; Missing Pairwise

Quando se controla o efeito das restantes variáveis, verifica-se que a importância das variáveis sociodemográficas é menor do que a análise fazia esperar. O sexo e o grau de instrução apenas se mantêm significativos no que respeita às atitudes face aos brasilei- ros; e a expressão de sentimentos racistas é menor entre as mulheres e os indivíduos mais escolarizados. Por outro lado, o racismo em relação aos imigrantes africanos e de Leste é maior entre os indivíduos com religião do que entre os que não se identificam com nenhuma.

O fraco poder explicativo das variáveis sociodemográficas pode estar relacionado, por um lado, com o grande número de variáveis incluídas na análise. Por exemplo, à medida que as restantes variáveis vão entrando no modelo, o poder preditivo da escolaridade diminui, deixando de ser significativa a certo momento. Isto é particularmente verdade quando são introduzidos no modelo os valores sociais e políticos. Este resultado remete, pois, para a dificuldade de captar o poder explicativo de factores sociais, como a escolaridade, sempre que está em jogo um número considerável, e muito diversificado, de variáveis e, mais ainda, quando as mesmas remetem para o domínio dos valores (por exemplo, os valores sociais e políticos) ou das representações (por exemplo, os estereótipos). os imigrantes. Quanto aos valores sociopolíticos, foram incluídos valores materiais246,

‘garantir a todos as mesmas oportunidades’, ‘compensar melhor os que mais trabalham’, ‘proteger os mais desfavorecidos’, o posicionamento político (esquerda-direita), ‘gozar a vida’, ‘sentir-se bem consigo mesmo’, ‘ajudar os necessitados’ e um índice que exprime a concordância dos inquiridos com valores de autoridade. No que respeita aos estere- ótipos, nomeadamente positivos, foram consideradas separadamente as dimensões da simpatia, competência e rectidão, identificadas em capítulo anterior. Foi também incluída uma variável que exprime a associação dos imigrantes ao crime. Finalmente, foi ainda incluída como variável independente a situação económica, objectiva e subjectiva. No entanto, e uma vez que estas variáveis não se relacionam todas, como vimos, com as quatro variáveis dependentes, em cada uma das quatro análises só foram incluídas aquelas que haviam, pre- viamente, revelado relação significativa com a respectiva variável dependente.

Verifica-se que as variáveis que se revelam mais importantes na predição do preconcei- to declarado são as relações pessoais com imigrantes, a estereotipização e os valores sociopolíticos.

Tabela 72. Racismo em relação aos imigrantes: análises de regressão linear múltipla

Regressão Linear Múltipla Índice de Racismo em relação aos imigrantes (Coeficientes normalizados)

Variáveis Explicativas Em geral Africanos Brasileiros Leste

Sexo (M=0; F=1) -0.073*

Grau de instrução -0.069*

Religião (sim) 0.074* 0.078*

Familiar emigrante (sim) -0.068* -0.079* 0.066*

Contacto interpessoal entre imigrantes e

portugueses -0.138*** -0.138 -0.138*** -0.125***

Valores materiais 0.067*

«Ajudar os necessitados» -0.064* -0.075*

246 Esta variável pode assumir os seguintes valores: 1 (Valores Pós- Materiais), 2 (Mistos) e 3 (Valores Materiais).

Preditores da percepção das diferenças culturais

Para o estudo da percepção das diferenças culturais utilizámos um modelo semelhante, tendo também retirado, à partida, as variáveis que a análise prévia não identificou como significativamente relacionadas com esta medida de preconceito.

O aspecto mais interessante a realçar é que os valores sociais e políticos não revelam a mesma importância na explicação do preconceito, quando este é concebido enquanto percepção do Outro como diferente do ponto de vista cultural. Apenas o altruísmo (‘aju- dar os necessitados’ e ‘dedicar a vida aos outros’) mantém uma relação significativa com esta medida de preconceito. Quanto mais importante é, para os inquiridos, ‘dedicar a vida aos outros’ menos tendem a manifestar preconceito em relação aos imigrantes em geral e africanos em particular. Por outro lado, os inquiridos para quem é mais impor- tante ‘ajudar os necessitados’ tendem menos a considerar os imigrantes brasileiros e de Leste como diferentes dos portugueses, do ponto de vista cultural.

Em contraste, o grau de instrução não revelou qualquer relação significativa, controladas as restantes variáveis, com o racismo. Mas esta variável é significativa em relação aos africanos: os indivíduos mais escolarizados tendem mais a exagerar a diferença cultural dos imigrantes – o que não deixa de ser um resultado surpreendente. Também a idade é significativa em relação aos brasileiros, sendo os indivíduos mais velhos quem menos os consideram diferentes culturalmente. O facto da idade representar um preditor pouco consistente do racismo tem sido referido em diversos trabalhos empíricos (vg. Pederson e Walker, 1997; Vala, Brito e Lopes, 1999: 51), muito embora contrariando resultados de outros estudos (vg. Pettigrew e Meertens, 1995). São também os indivíduos com maiores rendimentos que mais tendem a percepcionar os imigrantes em geral e os brasileiros em particular, como culturalmente diferentes.

Por último, os estereótipos revelam ser, mais uma vez, o grupo de variáveis mais associa- do ao preconceito, o que não surpreende, por serem dois aspectos da mesma realidade. Por um lado, quanto mais os inquiridos atribuem aos imigrantes estereótipos negativos (violência, crime, prostituição, tráfico de droga) tanto mais tendem a percepcioná-los Os melhores preditores do racismo em relação aos imigrantes são os contactos pessoais entre

imigrantes e portugueses, os valores sociais e políticos e os estereótipos, quer positivos, quer negativos (nomeadamente, a associação dos imigrantes ao crime). No primeiro caso, verifica- se uma relação inversa entre os dois fenómenos, ou seja, quanto mais os indivíduos tendem a ter relações pessoais com imigrantes menos tendem a pontuar no índice de racismo. Por outro lado, o facto de ter um familiar emigrante revelou-se um preditor do racismo em relação aos imigrantes em geral, brasileiros e de Leste, mas não em relação aos africanos.

Quanto aos valores sociais e políticos, destaca-se o posicionamento esquerda-direita: os indi- víduos que se situam mais à direita no espectro político tendem mais a manifestar atitudes racistas em relação aos imigrantes. São igualmente mais preconceituosos os inquiridos com valores meritocráticos (que consideram que se ‘deve compensar melhor os que mais traba- lham’), embora apenas no que se refere aos imigrantes brasileiros e de Leste. Por outro lado, quanto mais os inquiridos consideram que se deve ‘garantir a todos as mesmas oportunidades’ tanto menos atitudes de preconceito têm. Entre os três grupos de imigrantes considerados, esta relação é mais forte quando relativa aos africanos. Também apenas em relação a estes e aos de Leste os indivíduos que pensam que se deve ‘ajudar os necessitados’ tendem menos a manifestar atitudes racistas. O racismo é ainda maior entre os indivíduos que defendem valores materiais, mas apenas se mantém significativa no que respeita aos imigrantes africa- nos. Finalmente, os indivíduos que defendem valores de autoridade tendem a manifestar mais racismo, quer em relação aos imigrantes em geral quer em relação aos imigrantes de Leste. Os estereótipos revelam igualmente algum poder preditivo das atitudes racistas. De facto, é entre os indivíduos que mais associam os imigrantes a imagens de violência ou crime que se constata um maior preconceito em relação a esses grupos. No entanto, isto é verdade em relação aos imigrantes em geral e aos africanos, mas não se revela significativo para os outros grupos. Pelo contrário, quanto mais os portugueses inquiridos associam os imigran- tes à ‘simpatia’, ‘competência’ ou ‘rectidão’ tanto menos tendem a revelar preconceito em relação aos mesmos. Note-se que a imagem de ‘competência’ não se revela significativa na explicação do preconceito em relação aos africanos, ao passo que é a mais importante, dos três tipos de estereótipos aqui testados, no preconceito em relação aos brasileiros e a segun- da mais importante para explicar o preconceito em relação aos imigrantes de Leste.

modelo, que permitiriam explicar melhor a percepção da diferença cultural. Por outro lado, está provavelmente relacionado com o facto dos indicadores usados para construir esta dimensão serem bastante reduzidos, limitando-se, como vimos atrás, a uma das componentes propostas pelos autores do ‘racismo subtil’ – a percepção da diferença