CHAPTER 5: METHODOLOGY
5.4. Trustworthiness
A percepção do Outro como diferente do ponto de vista cultural tem sido considerada como um indicador possível das transforma- ções na expressão das atitudes racistas. Segundo vários autores, estas traduziriam uma transferência no processo de diferenciação relativamente a aspectos relacionados com a cultura, em detri- mento de aspectos fenotípicos (como a cor da pele) ou genotípi- cos (como a raça). A este respeito, Pettigrew e Meertens (1995) propuseram o conceito de racismo subtil, testado em Portugal por Vala, Brito e Lopes (1999). Pettigrew e Meertens propõem uma escala de 10 itens para medir aquilo a que chamam uma “teoria do racismo subtil”, de que fazem parte três componentes: a defesa de valores tradicionais (as minorias violariam os valores tradicionais das maiorias dominantes); o exagero das diferenças culturais (as desvantagens das minorias seriam atribuídas à sua grande diferença em relação às maiorias dominantes, em termos culturais); e a negação de emoções positivas em relação aos membros dessas minorias. Estes três componentes ou dimen- sões partilham entre si o facto de serem socialmente aceites, por se enquadrarem nas normas de comportamento aceitável nas sociedades ocidentais, facto de onde derivaria a sua natureza “encoberta” ou subtil.
217 Esta pergunta tem sido incluída em estudos internacionais, como o European Values Survey, embora frequentemente apareça formulada na negativa, i.e., “Se depen- desse de si, quais destes grupos não gostaria de ter como vizinhos?” Uma vez que a formulação negativa das perguntas traz dificul- dades à implementação do inquérito, nomeadamente no que respeita à correcta interpretação da questão, resolveu-se no presente trabalho formulá-la posi- tivamente. Esta alteração compromete, no entanto, a comparação directa dos resultados com os desses mesmos inquéritos interna- cionais.
218 A associação entre as variáveis revelou-se sig- nificativa: p de Spearman significativo a p<0,01; α=0,72. Este Índice de Racismo varia entre 0 e 12; o seu valor médio é 3,7 e, quanto mais alto uma pessoa pontuar na escala, tanto mais poderemos considerá-la aberta e mani- festamente racista.
consideravam os imigrantes diferentes dos portugueses, relativamente a cinco itens. A Tabela 69 apresenta os valores médios das classificações dos inquiridos em relação a cada um dos itens e a cada um dos três grupos de imigrantes considerados. Na escala utilizada, os valores variavam entre 1 (‘muito semelhantes’) e 4 (‘muito diferentes’). Assim, na tabela, os valores médios mais altos indicam maior atribuição de diferenças culturais aos imigrantes.
Tabela 69. Percepção das diferenças culturais: média das classificações (2002)
Se comparar os imigrantes Africanos/Brasileiros/de Leste
com os portugueses, consi- dera-os muito diferentes, um
pouco diferentes, um pouco semelhantes ou muito seme-
lhantes no que respeita a...
Africanos Brasileiros De Leste
Média DP Média DP Média DP
Maneira como educam os
filhos 2,96 0,98 2,35 0,99 3,10 0,97
Crenças e práticas religiosas 2,91 0,96 2,42 1,01 3,22 0,88
Valores e comportamentos
sexuais 2,69 1,04 2,36 1,02 2,77 1,10
Língua que falam 2,80 1,04 1,61 0,86 3,80 0,54
Usos e costumes 3,18 0,85 2,29 0,97 3,37 0,80
A leitura destes valores revela que os imigrantes de Leste, seguidos dos africanos, foram aqueles que os portugueses consideraram, em 2002, como mais diferentes: em relação a todos os itens contemplados, mais de metade dos respondentes consideraram estes imigrantes como ‘um pouco’ ou ‘muito diferentes’ dos portugueses. No que respeita aos imigrantes brasileiros, a tendência vai no sentido de os considerar mais semelhantes aos portugueses do que quaisquer outros. Mas o padrão desenhado é algo ambivalente, já que os respondentes os consideram quer um pouco semelhantes quer um pouco diferentes.
Na sua resposta a este artigo, os autores da teoria do racismo subtil voltam a sublinhar a importância de considerar as três componentes para conseguir captar essa dimensão encoberta do preconceito (defesa de valores tradicionais, exagero das diferenças cultu- rais e negação das emoções positivas). Para eles, o fraco poder explicativo da escala de percepção da diferença cultural, assim como o facto de esta estar pouco correlacionada e não ter as mesmas variáveis preditoras que o racismo tradicional, poderiam dever-se à utilização de apenas uma dessas dimensões (Pettigrew e Meertens, 2001). Mais ainda, dizendo que a crítica à sua proposta se deve à ausência de uma teoria que conduzisse a análise empírica dos dados, por parte dos seus críticos, Pettigrew e Meertens defendem a percepção da diferença cultural como indicador de preconceito, apoiando-se numa longa tradição teórica, mas também empírica e experimental, da Psicologia Social (v.g. os estudos de Rokeach sobre a dissemelhança de crenças, 1960). Reafirmam assim o que tinham dito no artigo original de 1995: «Estas diferenças [culturais] são muitas vezes genuínas; mas o preconceito subtil exagera-as através de estereótipos grosseiros.» (Pettigrew e Meertens, 1995: 58). Mais ainda, apoiando-se no pensamento de Rokeach, defendem que, ao contrário do igualitarismo, o preconceito subtil se concentra e coloca o acento nessa diferença, exagerando-a (por exemplo, quando um indivíduo prefere res- ponder, em relação aos imigrantes, que estes são ‘muito diferentes’, no que respeita aos seus usos e costumes, em vez de ‘nada diferentes’ ou ‘um pouco diferentes’).
É precisamente este aspecto que consideramos importante ter em conta, no presente estudo, para melhor compreender as atitudes face aos imigrantes. Assumindo parcial- mente o argumento de Pettigrew e Meertens, consideramos que o exagero das diferenças culturais pode constituir um indicador de preconceito não declarado. No entanto, dize- mos “parcialmente” na medida em que, para os autores, apenas a consideração conjunta das três componentes atrás referidas permite captar o preconceito subtil. É por essa razão que a nossa análise se dirige exclusivamente à percepção e exagero da diferença cultural e não ao preconceito subtil.
No trabalho realizado em 2002, cujos dados têm vindo a ser alvo de comparação com os da presente investigação, a percepção da diferença cultural foi operacionalizada a partir de uma pergunta em que se pedia aos inquiridos que avaliassem em que medida
os imigrantes ‘nada diferentes’ e ‘um pouco diferentes’ aos que simplesmente os consi- deram ‘muito diferentes’.
Os resultados dizem que uma percentagem considerável de inquiridos considera os imigran- tes ‘muito diferentes’ dos portugueses, no que respeita quer à maneira como eles educam os filhos quer aos seus usos e costumes, o que aponta para um exagero das referidas diferenças. Note-se, ainda, que esse exagero das diferenças percebidas é maior no caso dos imigrantes africanos, no que respeita aos usos e costumes, apesar de este ser o grupo que vive entre nós há mais tempo, o que poderia ter contribuído para o esbatimento delas. Por outro lado, na avaliação da maneira como os imigrantes africanos e de Leste educam os filhos, não se notam diferenças entre os inquiridos que mais os diferenciam cultural- mente dos portugueses e aqueles que tendem a fazê-lo menos. No entanto, os imigrantes brasileiros distanciam-se claramente destes dois grupos, em ambos os indicadores.
Gráfico 118. Percepção da diferença cultural: percentagem de inquiridos que considera os imigrantes ‘muito diferentes’, na sondagem de 2004
Deste modo, a identificação do Outro como culturalmente diferente, em relação ao Nós, não implicou entre os portugueses inquiridos um encobrimento das suas posições, talvez por ser percebida como socialmente aceitável. Ao contrário do que acontece com as posições percebidas como abertamente racistas, o facto da afirmação da diferença cultural não contrariar a norma que proíbe a discriminação das minorias não obriga ao seu encobrimento (Meertens e Pettigrew, 1999: 25).
Finalmente, é de salientar que, em 2002, se verificou uma percentagem elevada de não-res- postas, principalmente em relação a indicadores como ‘valores e comportamentos sexuais’ e ‘usos e costumes’. Pelo menos um em cada quatro inquiridos não conseguiu ou não quis posicionar-se a respeito destas questões. Em alguns casos, essa percentagem ascendeu a mais de 50%, sendo a respeito dos do Leste da Europa que maior percentagem de portugue- ses não respondeu (mais de 60%, no item relativo aos ‘valores e práticas sexuais’). No estudo de 2004, esta dimensão do preconceito, enquanto percepção das diferenças culturais, foi operacionalizada apenas a partir de dois aspectos: ‘maneira como educam os filhos’ e ‘usos e costumes’. A pergunta foi feita em relação aos três grupos de imi- grantes em estudo. A Tabela 70 apresenta a classificação média dos inquiridos dos três grupos de imigrantes em relação a cada um dos indicadores de percepção da diferença cultural previstos. Na escala utilizada em 2004, os valores variavam entre 1 (Muito dife- rentes) e 3 (Nada diferentes), mas foram recodificados para 1 (Nada diferentes), 2 (Um pouco diferentes) e 3 (Muito diferentes), de modo que valores médios mais altos indicam, agora, maior atribuição de diferenças culturais aos imigrantes.
Tabela 70. Percepção da diferença cultural: média das classificações (2004)
‘Se comparar os imigrantes Africanos/Brasileiros/de Leste com os portugueses, considera-os muito, um pouco ou nada diferen-
tes no que respeita a...’
1 (Nada diferentes) a 3 (Muito diferentes) Africanos Brasileiros De Leste
Média DP Média DP Média DP
Maneira como educam os filhos 2,22 0,72 1,95 0,69 2,23 0,70
Usos e costumes 2,37 0,66 2,03 0,67 2,31 0,67
Verifica-se mais uma vez que os imigrantes africanos e do Leste europeu são aqueles que os portugueses avaliam como mais diferentes, estando ambos muito próximos nas repre- sentações destes a respeito da atribuição de diferenças culturais. Num sentido inverso, os imigrantes brasileiros surgem como os mais semelhantes aos portugueses. Uma vez que, como vimos, é o excesso na afirmação das diferenças que tomamos como indicador do preconceito, é interessante agregar estas respostas opondo todos os que consideram
Os dados mostram, pois, com clareza que é maior o preconceito dos portugueses em relação aos imigrantes africanos e da Europa de Leste do que relativamente aos brasilei- ros, no que respeita quer ao racismo quer à percepção da diferença cultural.