CHAPTER 5: METHODOLOGY
5.2. Research Design
Tendo em conta o que ficou dito, os indicadores de racismo considerados neste estudo não são originais, encontrando-se o seu uso relativamente generalizado na literatura sobre o tema. No caso do preconceito declarado, ou das formas mais clássicas de racismo,
Pelo contrário, verifica-se uma ligeira descida da percentagem de portugueses que não responderam afirmativamente perante o cenário de colocar os seus filhos numa escola em que os filhos de imigrantes fossem mais de metade.
Gráfico 115. Percentagem de inquiridos que não responderam ‘Sim’ à pergunta ‘Colocaria os seus filhos numa escola em que os filhos de imigrantes [...] fossem mais de metade?’,
nas sondagens de 2002 e de 2004
Os dados relativos à rejeição de intimidade revelam alguma complexidade em relação aos anteriores. Embora a maioria dos inquiridos tenha declarado não se sentir nada incomodada com o cenário proposto, a soma das primeiras três categorias (‘muito inco- modado’, ‘incomodado’ e ‘pouco incomodado’), todas elas reportando-se a algum grau de desconforto, mostra que um pouco mais de um terço dos inquiridos declara sentir-se de alguma forma incomodado no caso de um familiar directo (filho ou irmão) casar com um imigrante africano, brasileiro ou de Leste. Esta diferença é ligeiramente maior em relação aos africanos.
conduzida em tempos de colonização e dos “brandos costumes” que nos “caracterizam”, não ficaria bem ser racista, não só em termos de percepção de si como de comporta- mentos efectivos perante o diferente.
No entanto, chama-nos a atenção o facto de um pouco mais de um terço dos inquiridos ter respondido que não aceitaria ter como chefe um imigrante e que não colocaria os seus filhos numa escola com muitos imigrantes. Vejamos, pois, alguns aspectos que merecem ser destacados e ser alvo de uma reflexão mais aprofundada.
Por um lado, das três origens territoriais consideradas, os imigrantes de Leste e os imigrantes africanos são aqueles em relação aos quais um maior número de inquiridos respondeu negativamente, ou seja, em relação aos quais podemos suspeitar da existên- cia de uma maior rejeição.
Por outro lado, quando comparados com os dados de 2002, estes resultados revelam uma ligeira subida da percentagem de inquiridos que rejeitam a ideia de proximidade nas relações de trabalho, em relação a qualquer uma das origens nacionais consideradas. Estas duas tendências são bem visíveis na figura que se segue.
Gráfico 114. Percentagem de inquiridos que não responderam ‘Sim’ à pergunta ‘Aceitaria ter como chefe um imigrante...?’, nas sondagens de 2002 e de 2004
Uma das possíveis justificações para esta aceitação acrescida das minorias imigrantes pode estar relacionada com o seu maior tempo de convivência com população autóctone, convivência essa que diminuiria o distanciamento entre ambas e, consequentemente, o preconceito. Mas esta diminuição da distância também aponta para um fenómeno de con- solidação da norma anti-racista e anti-discriminatória, com progressiva interiorização das atitudes socialmente aceites. Neste sentido, indicadores da rejeição da intimidade, como o que aqui foi utilizado, tornar-se-iam cada vez menos eficazes para medir o racismo. A única excepção à conformação com a norma refere-se, como vimos, ao cenário de ter como chefe um imigrante, o que é interessante se pensarmos que aumentou também, de 2002 para 2004, a percentagem de inquiridos que pensam que ‘os imigrantes trabalham mais do que os portugueses’ ou que ‘no futuro os imigrantes vão ocupar lugares de maior importância que muitos portugueses’ (cf. Tabela 61).
Finalmente, no que respeita à medida de aceitação/rejeição da proximidade em relação a grupos socialmente estigmatizados217, verifica-se que apenas menos de um em cada cinco inquiridos declararam abertamente que não aceitavam ser vizinhos de imigrantes brasileiros ou de Leste. Como se pode observar no Gráfico 117, os imigrantes africanos surgem destacados negativamente nas avaliações dos portugueses inquiridos, nomeada- mente por comparação com os imigrantes brasileiros.
Gráfico 117. Percentagens de respostas não à pergunta ‘Se dependesse de si, aceitava ser vizinho de...?’: percentagens válidas (2004)
Tabela 68. Rejeição da intimidade: percentagens válidas (2004)
Como se sentiria se um filho seu casasse com
um imigrante... Africano Brasileiro De Leste
Muito incomodado 8,4 4,7 7,2 Incomodado 11,3 8,1 9,2 Pouco incomodado 17,4 18,0 17,8 Nada incomodado 63,0 69,2 65,9 Total 100,0 100,0 100,0 N 1463 1463 1450
Se compararmos estes dados com os de 2002 (Gráfico 116), em que, na categoria ‘inco- modado’ estão juntas todas as gradações de incómodo constantes do inquérito, segundo a definição acima, notamos que, em geral, esse sentimento é menos expresso em 2004 do que em 2002, sobretudo em relação aos africanos e aos imigrantes de Leste. A implí- cita rejeição da intimidade relativamente a estes grupos quase está uniformizada com os brasileiros, os quais possivelmente representariam o máximo possível, nas actuais circunstâncias, da aceitação do diferente. De facto, enquanto, em 2002, a diferença entre os africanos e de Leste, por um lado, e os brasileiros, por outro, era de 12 e 10 pontos percentuais, agora reduzem-se a 6 e 3 pontos, respectivamente.
Gráfico 116. Percentagem de inquiridos que declararam sentir-se incomodados relativamente à pergunta ‘Como se sentiria se um filho (irmão) seu casasse com um imigrante?’,
Parece-nos que esta abordagem das formas não declaradas de preconceito é essencial para compreender as atitudes em relação aos imigrantes a viver entre nós, principalmente num contexto em que as normas de comportamento socialmente aceitáveis, “politicamen- te correctas”, cada vez mais pressionam os indivíduos a dar uma imagem de si mesmos como igualitários ou, pelo menos, não discriminatórios. Não sendo nossa intenção, como foi referido atrás, proceder a um teste do conceito de racismo subtil, interessa-nos, ainda assim, compreender em que medida uma das suas importantes componentes – a percep- ção e exagero das diferenças culturais – pode estar relacionada com a maior ou menor aceitação dos imigrantes no nosso país. Mais especificamente, pretendemos compreender as cambiantes que este aspecto assume em relação aos três grandes grupos de imigrantes presentes em Portugal: africanos, brasileiros e do Leste da Europa.
Tomar a percepção da diferença cultural como indicador de preconceito encontra, porém, resistências, quer por parte do senso comum quer mesmo no seio da comunidade científica. Afinal, se as diferenças culturais existem mesmo (e negá-las pode, até, ser interpretado como uma tendência hegemónica de uniformização cultural, com base nos critérios das maiorias), por que razão a sua simples constatação deve ser interpretada como uma forma de preconceito?
Entre os estudiosos, esta questão tem suscitado algum debate. Num artigo publicado em 2001, Coenders et al. reanalisam os dados usados por Pettigrew e Meertens para propor a sua teoria do racismo subtil e declaram que, usando métodos de análise de dados diferentes dos destes autores, chegam a duas escalas diferentes: uma que pode ser rela- cionada com o racismo tradicional; uma segunda que respeita à percepção da diferença cultural. Segundo Coenders et al., esta última não corresponderia propriamente a uma dimensão do racismo, por estar pouco relacionada com o racismo tradicional e nem reve- lar as mesmas variáveis preditoras nem um poder explicativo semelhante. Por outro lado, se as diferenças culturais existem mesmo, a identificação “correcta” dessas diferenças é um acto “realista” e não deve ser tomada como uma expressão do preconceito. Para poder ser considerada como tal, seria necessário captar não tanto a percepção dessa diferença cultural mas principalmente a sua avaliação (Coenders et al., 2001: 288). Uma vez que todos estes indicadores exprimem uma dimensão mais declarada de racis-
mo, quer através de aspectos que tentam medir as atitudes face ao contacto pessoal com os imigrantes (variáveis ‘chefe imigrante’, ‘filhos em escolas de imigrantes’ e ‘casa- mento com imigrante’) quer através da medida de distância social em relação a grupos socialmente estigmatizados, podem ser reunidos numa única medida de racismo218, que usaremos nas análises que se seguem.
2. A PERCEPÇÃO E EXAGERO DAS DIFERENÇAS