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da teoria Construcionista Social são pautadas no respeito pelas histórias alheias, acreditando que a contribuição do outro é, no mínimo, promissora.

Pensar nas possibilidades que se abrem a partir desta teoria remete ao entendimento de que uma realidade, ao ser acompanhada de perto, permite não só que se veja seu nascimento, mas que à medida que esta acontece possa ser assinada por todo indivíduo, numa co-construção de realidade, legitimando-o como co-partícipe de sua história. O ponto que aqui se destaca é o convite que o construcionismo faz, de permitir pensar possibilidades, onde as competências de cada um podem ser contempladas nesse processo de favorecer uma realidade satisfatória, servindo como alavanca para lhes outorgar reconhecimento e posse de recursos próprios, que se constituem ferramentas eficazes para construir um lugar melhor a partir da narrativa.

2.3 As Fases do Ciclo Vital

2.3.1 Fase de Namoro

Nesta fase, os adolescentes acabam por estender suas características de amadurecimento a toda a sua família, promovendo grandes transformações em todo o sistema que, de acordo com Cerveny (1995 apud BERTHOUD, 2004, p. 61), adolesce junto. Preto (1995) reforça as palavras de Cerveny, ressaltando ainda a renegociação de papéis que ocorre neste período.

Segundo Preto (1995), adaptações estruturais e organizacionais na família com adolescentes fazem-se necessárias, podendo ocorrer em paralelo a mudanças de outros membros familiares, que muitas vezes se encontram em outros momentos do ciclo vital familiar. As adaptações estruturais e a renegociação de papéis acabam por gerar mudanças nos relacionamentos familiares, especialmente entre as gerações.

2.3.2 Fase de Aquisição

A Fase de Aquisição, como seu próprio nome retrata, caracteriza-se pela aquisição de bens materiais, pelo estabelecimento de um estilo de vida e pela construção de padrões de interação. Inicia-se com a união do casal, passando pelo nascimento, crescimento e desenvolvimento dos filhos, até que estes alcancem a fase adolescente (BERTHOUD, 2004).

Pode-se considerar que a Fase de Aquisição é constituída sempre que há a formação de um novo núcleo familiar, seja por casamentos em primeira união, re- casamentos, ou outros fenômenos de união da contemporaneidade, tais como indivíduos solteiros tendo ou adotando filhos ou ainda o casamento homossexual (BERTHOUD, 2004).

2.3.3 Fase Madura

Uma das maneiras de compreender esta fase é que, pelo fato desta envolver transformações de várias ordens, incluindo estruturais e dinâmicas, esta pode se caracterizar como a fase mais longa e difícil do ciclo vital familiar, especialmente porque neste período os filhos adquirem uma autonomia gradativa, saem de casa, podendo ainda haver novas constituições familiares, com o aumento da composição do quadro familiar por inclusão de agregados (por exemplo, genros e noras) e a perda de entes familiares (OLIVEIRA; CERVENY, 2004).

Desta forma, podemos citar como fatos típicos desta fase eventos como:

1) a saída do primeiro filho de casa; 2) a inclusão da terceira geração e parentes por afinidade; 3) cuidados com a geração mais velha e conseqüente mudança no relacionamento; 4) significado e função do casamento (CARBONE; COELHO,1997, p.103-104).

Diante da quantidade de informações, mudanças e adaptações pelas quais um casal na Fase Madura pode enfrentar, gostar-se-ia de olhar de perto de que forma tais dinâmicas de enfrentamento poderiam refletir na sua conjugalidade.

2.3.3.1 O Relacionamento Conjugal na Fase Madura

Neste momento percorrer-se-á caminhos conjugais, no intuito de descobrir em que aspectos este período da vida se traduz como maduro.

Maturana (2002) tem sido referência quando diz que o indivíduo passa por um processo adaptativo de respeito e aceitação, que lhe proporciona uma vida adulta e responsável e que irá condizer com suas novas condições de estar para o outro na conjugalidade, para sua família, para a sociedade e para o mundo.

Há uma série de outras mudanças características desta fase de vida como a aproximação da aposentadoria, da menopausa e da andropausa, e a redução do quadro de membros da família, entre outros, levando pai e mãe a reavaliarem sua dinâmica como marido e mulher. Por estes motivos, a família enfrenta um momento que se assemelha à contraposição de forças como em um jogo, onde a tensão se faz muito presente (CARBONE; COELHO, 1997).

A psicologia do desenvolvimento há tempos discute o fenômeno do “ninho vazio”, que diz respeito ao casal conjugal já sem os filhos presentes em casa. Assim, os pais enfrentam um processo de separação destes, os quais se tornam filhos adultos, e poderão agora fazer parte de uma comuna de iguais (CARBONE; COELHO, 1997).

A própria visão de casamento enfrenta momentos de plena revisão na contemporaneidade, uma vez que as relações amorosas vêm sofrendo influência de toda a evolução tecnológica, consumista, midiática, que repercute também em mudanças de valores que convivem com novas configurações relacionais e conjugadas permeando o território relacional íntimo.

A família, de um modo geral, passa por mudanças internas provenientes de ajustes decorrentes das mudanças de fases do ciclo vital a que está sujeita, a qual por sua vez se insere em ajustes maiores, que as envolvem pelo próprio dinamismo contingente de redes sociais próximas ou distantes a que pertencem. Justamente por considerar o contexto acima citado e a crescente onda de violência pela qual passam o país e o mundo, é de se esperar que sentimentos como insegurança, estresse, descrença e irritabilidade, entre outros, caminhem

lado a lado com fatos chocantes e notícias de última hora, com os quais convivem cotidianamente e que, mais uma vez, vêm somar ao clima de instabilidade emocional pelo qual passam os casais nos já existentes ajustes contínuos das diferentes Fases do Ciclo Vital.

Nesse sentido, vai se instalando um clima familiar que pode se ressentir da tensão enfrentada nos momentos de intimidade relacional, quando a própria comunicação pode se constituir em mais uma das dificuldades a fazer parte da gama de estressores presentes. Fazendo esta consideração, Cerveny (2008, p.13- 14) diz ser possível

assegurar que a maioria das queixas que levam as pessoas à terapia refere-se à dificuldade na comunicação. Indivíduos que não se sentem ouvidos ou entendidos, que não conseguem expressar seus sentimentos e desejos, que se submetem ou se violentam por causa da comunicação, que se pautam mais pelo que não é dito, que não confiam nas palavras são apenas alguns dos inúmeros exemplos de problemas de comunicação nas relações humanas, e que estão presentes nos lares.

Com base em leituras e reflexões, e conforme apontam Carbone e Coelho (1997), observa-se que na Fase Madura os filhos já não dependem mais dos cuidados da família como nas fases anteriores. Essa fase também assinala outro aspecto muito importante, que é o fato de o casal se ver às voltas com a possibilidade de estarem a sós com mais freqüência depois de um longo período de dedicação a tarefas e divisão do tempo com outros membros nas fases anteriores à Madura. Ficar a sós pode sugerir, algumas vezes, privacidade conjugal, o que é muito bom e necessário para o ambiente de intimidade do casal, mas que também pode ser motivo de desconforto quando inevitavelmente se fica de frente também para possíveis crises, abismos relacionais, questionamentos, vazios e dificuldades comunicacionais que podem permear o vínculo conjugal nesse período.

Quanto ao significado do casamento na família madura,

o casal é um grupo em crescimento, em desenvolvimento, em movimento. Como em qualquer outro sistema vivente, não se pode esperar que seu funcionamento seja equilibrado ou estático permanentemente. Há avanços, retrocessos, paradas, transformações, adaptações. Tanto os momentos de paz e tranqüilidade como os de

desorganização são geralmente transitórios (LEVINTON, 1985 apud CARBONE; COELHO, 1997, p. 115).

Uma revisão de trajetória sói acontecer para um casal que sobreviveu aos inúmeros turbilhões das águas matrimoniais, que algumas vezes contêm, em simples chuviscos, anúncios de verdadeiras tempestades conjugais. Exatamente por entender que todos esses aspectos permeiam uma união é que se pretende navegar um pouco mais mar adentro da Fase Madura, no intuito de responder a inquietante pergunta inicialmente estabelecida de visitar a maturidade que se faz presente em casais nesta fase da conjugalidade.

Um casal desta fase no mínimo acumulou todo o aprendizado das anteriores. Oliveira e Cerveny (2004, p. 87) dizem, a respeito da fase em evidência, que

a família adquire novos significados, novas formas de funcionamento, novos desafios e novas expectativas”. Segundo pesquisa dessas autoras, elas observaram alguns fenômenos psicológicos envolvendo essa fase; a saber: os casais estão “remodelando suas relações, adaptando-se às mudanças, acomodando a estrutura e funcionamento da família, enfrentando desafios e olhando para o futuro.

Pensando em outros tipos de amadurecimento, tentou-se fazer uma correlação no sentido de esclarecer e enriquecer o que está envolvido num processo de amadurecimento. Analogamente pode-se pensar, por exemplo, em uma fruta madura, quando sua própria cor ou aspecto externo anunciam esse cumprimento de ciclo. O que será que sinalizaria uma família madura, ou um casal maduro? Que aspecto perceptível anunciaria esse fato? Uma fruta madura está no auge de sua apreciação e de seu vigor; é quando está mais suculenta, mais doce, saborosa e apetitosa aos olhos. O perfume que exala é o mais autêntico convite para que sejam provadas. Porém, nem todas são colhidas a tempo. De fato, algumas caem por terra, antes mesmo de sua apreciação. Mas algo surpreendente acontece com as frutas - com as colhidas e com as que caem, igualmente - é que elas segregam nas sementes, que todas contêm a possibilidade de serem frutos de novo, numa próxima estação.

Trazendo essa reflexão para iluminar o contexto da conjugalidade na Fase Madura, o processo de amadurecimento desta é contínuo, como que se a cada mudança de fase se cumprisse o ciclo das quatro estações, como acontece com as frutas, porém com o atenuante da sobreposição de fases intermitentes (o que equivaleria dizer, no caso da fruta, que dentro da mesma unidade existiriam partes que amadureceriam em momentos diferentes, ou processos evolutivos diferentes, porém, ao mesmo tempo), o que acontece na família. Sabe-se que esta variedade de acontecimentos evolutivos, adaptativos e contínuos deixa seus membros ativamente envolvidos, para não dizer alvoroçados vez por outra, nas tramas das diferentes dinâmicas que co-constroem pais e filhos, marido e mulher, irmão e irmã, inter e intra-geracionalmente, ao longo de cada etapa vencida no ciclo de suas vidas.

Essa reflexão comparativa leva a crer que lentamente no dia-a-dia algo muito sólido vá sendo construído; afinal somente com muita força, conhecimento, sensibilidade e habilidade é possível passar por tantos ajustes e ao mesmo tempo manter a estrutura familiar, subsidiando também o equilíbrio aos demais subsistemas. Uma família que chega à Fase Madura conquistou e solidificou sua essência enquanto tal, conforme foi sedimentando nutrientes em forma de vivências, assegurando o crescimento gradativo da intimidade nas entrelinhas do tempo. Com a autonomia e a independência dos filhos o casal fica mais parceiro e menos pai e mãe. Nesse processo de deixar os filhos crescerem e partirem os pais podem se reconhecer num momento novo, em que poderão realçar o teor do laço conjugal, tornando-se convidativos um ao outro em se experimentarem mais livres no auge da sabedoria como um casal maduro, que vive, na intimidade, dias de plena realização. Um casal maduro poderá enxergar nos filhos adultos o resultado do alicerce por ele edificado, podendo espelhar em gerações futuras os frutos de seu empenho do que foi construído na relação.

Acredita-se que o sabor esperado e de fato experimentado pelos casais que chegam a essa fase seja um misto de satisfação por colherem os frutos da dedicação que empreenderam para com os filhos, entremeado de uma sensação de alívio, cunhada de um agradável sabor de missão cumprida. Afinal, é sabido

que o maior desejo dos pais parece ser o de poder bem encaminhar os filhos de acordo com suas crenças e valores. Por mais que algumas diferenças aí residam, em sua maioria, acredita-se que encaram as lutas como tendo valido as duras penas, ao menos no que diz respeito ao bom direcionamento da vida dos filhos.

Por isso, pensa-se que o casal pode se dizer em lua-de-mel madura, pois é chegado o momento de investir novamente na “relação amorosa, uma vez que se sentem liberados das obrigações que tanto consumiram suas vidas até então, em especial o cuidado dos filhos” (OLIVEIRA; CERVENY, 2004, p.104).

Esses sentimentos únicos que podem permear esse estágio relacional de um casal não devem ser vistos como coincidências com a Fase Madura. Devem, antes, revelar a nobreza de valores comuns construídos na lentidão e empenho de uma semente plantada que germina, rompe o solo, enfrenta todo tipo de sorte, vai ganhando corpo, altura, raízes, conferindo à conjugalidade madura uma fisionomia de cultivo e cuidado contínuos, próprios de casais que se deixaram amadurecer ao longo das outras fases do ciclo vital, para assim se coroarem na Fase Madura.