3 Teoretisk støtte og enkelte begrepsavklaringer
4.3 Strategiene
Walter Ong (2002, p. 17), chama atenção para a antiguidade da tradição religiosa de buscar maior especificidade no discurso por meio do uso de linguagem escrita. Ele cita um trecho do livro bíblico de Eclesiastes, escrito séculos antes de Cristo, que aponta para a tradição oral da qual o texto do pregador foi extraído: “Além de sábio, Qoheleth [o pregador] ensinou ao povo conhecimento, e pesou, esquadrinhou e compôs muitos provérbios. Qoheleth procurou encontrar dizeres agradáveis, e escrever dizeres verdadeiros com precisão.” (Eclesiastes 12:9-10).
Considerando o foco da tradição Reformada sobre a Bíblia, não é surpreendente que Simonton desejasse escrever seus sermões. Os Reformados, especialmente os puritanos, foram influenciados pelos exemplos de personagens bíblicos como Moisés, Jeremias e Habacuque que, mesmo sendo profetas, foram orientados a escrever (“Escreve num livro todas as palavras que eu
176 Ele usa novamente a abordagem metonímica no sermão “Cristo Crucificado”: “Oxalá que todos os púlpitos do
Brasil falassem esta linguagem, dando testemunho de Jesus crucificado como a sabedoria de Deus e a virtude de Deus para a salvação de todos os que crêem!” (SIMONTON, 2008, p.210).
disse”, Deus ordenou a Jeremias). Eles viam a escrita “como um meio de graça especialmente valioso por causa de sua permanência.” (BREKUS, 2006, p. 21, tradução nossa). Manchados pelo pecado original, “os humanos eram muito imperfeitos para lembrar-se de todas as suas experiências religiosas, mas se elas fossem depositadas no papel, poderiam preservá-los contra o esquecimento.” (BREKUS, 2006, p. 21, tradução nossa).
Além da sua própria tradição, Simonton tinha motivos pessoais e práticos para escrever e publicar seus sermões.
Considerando sua dificuldade com o idioma português, o ato de escrever os sermões talvez tenha dado ao missionário a chance de que precisava para dizer ao povo brasileiro, com exatidão, o que gostaria, diferente talvez do que teria acontecido com seus sermões em estilo oral.177 O processo de escrita e publicação das prédicas pressupõe a escolha das melhores palavras, estruturas sintáticas, divisões, subdivisões e outros aspectos que caracterizam a lógica do discurso escrito178.
Segundo Tannen, a maioria das pesquisas que comparam o discurso oral ao discurso escrito parte de duas hipóteses básicas e recorrentes:
(1) que o discurso falado é altamente contextualizado, enquanto que a escrita é descontextualizada [...] e (2) que a coesão é estabelecida no discurso falado por meio de canais paralinguísticos e não-verbais (tom de voz, entonação, prosódia, expressão facial e gestos), enquanto que, na escrita, a coesão é estabelecida por meio de lexicalização e estruturas sintáticas complexas que tornam os conectivos explícitos, e que mostram o relacionamento entre proposições através de subordinação e outros artifícios em primeiro plano ou em plano de fundo. (TANNEN, 1982, p. 3, tradução nossa).
Contudo, a autora entende que existe certo intercâmbio entre os dois tipos de discurso, já que ambos partem e se nutrem de uma mesma fonte, a linguagem. Daí sua pergunta: “Se o discurso é uma corrente da linguagem, falada ou escrita, porque falar sobre linguagem falada versus escrita?” (TANNEN, 1983, p. 79, tradução nossa). Ela sugere, então, que a distinção entre escrita e fala, literalidade e oralidade, não é primária, mas que as diferenças entre elas “podem, de fato, crescer a partir de outros fatores: especificamente, metas comunicativas e focos relativos sobre envolvimento interpessoal.” (TANNEN, 1983, p. 80, tradução nossa).
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“Correções no desempenho oral tendem a ser contraproducentes, e a expor o orador como alguém não convincente. [...] Na escrita, as correções podem ser extremamente produtivas, pois como o leitor saberia se elas foram feitas alguma vez?” (ONG, 2002, p. 102, tradução nossa).
178 O distanciamento que o ato de escrever efetua “desenvolve um novo tipo de precisão na verbalização, removendo-
No caso de Simonton, sua meta comunicativa (a ampliação do alcance do seu discurso) deve ser o que mais influenciou (embora não se possa dizer precisamente o como nem o quanto179) seu modo de escrever. Tal meta, no entanto, cobrava seu preço e certamente exigiu de Simonton uma elaboração mais detida e articulada dos seus pronunciamentos.
Para fazer-se claro sem gesto, sem expressão facial, sem entonação, sem um ouvinte real, você tem que antever prudentemente todos os significados possíveis que uma declaração pode ter para qualquer possível leitor em qualquer situação possível, e você deve fazer sua linguagem funcionar de modo que tudo fique claro por si só, sem um contexto existencial. (ONG, 2002, p. 101-102, tradução nossa).
Na escrita dos seus sermões (e, portanto, no seu modo de ler a Bíblia para compô-los), Simonton é guiado por preocupações que não afetavam os leitores leigos da comunidade presbiteriana nascente. Era natural para ele, como líder de um grupo e fundador de um jornal, não ler a Bíblia somente para suprir necessidades pessoais ou familiares. Além dessas preocupações, ele também lia (e produzia escritos) motivado pelo que entendia ser a principal carência dos seus leitores naquele momento, a de abraçarem a nova fé e serem nutridos por ela. Esses dois propósitos acabaram moldando a maioria das seleções que fez de trechos da Bíblia sobre os quais escreveu e publicou.
A ausência de público real exigiu que, ao escrever, Simonton criasse audiências imaginárias 180
em contextos igualmente imaginários181, algo que pode ser observado na leitura das prédicas. Tal ficcionalidade, no entanto, refere-se a algo inerente ao gênero retórico escrito, não à intencionalidade do escritor. Para Simonton, só existem realmente – independentemente do gênero - duas audiências e dois tipos de leitores, sejam eles concretos ou implicados.
Em alguns dos seus sermões, é possível identificar os dois tipos de “audiência”. Simonton parece alternar a direção, ora falando aos “meus ouvintes”, ora falando a “meus irmãos”, como é o caso no sermão Deus é caridade (SIMONTON, 2008, p. 35). Também no sermão Tudo está cumprido, ele exclama: “Meus irmãos na fé de Jesus, o sacrifício é um só [...]” (SIMONTON, 2008, p. 172). No final do sermão, dirige-se aos ouvintes ainda sem compromisso formal: “Meu
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Não houve, nesta pesquisa, como saber se o texto da coletânea foi escrito antes ou depois de Simonton tê-lo pregado. Também não houve como saber se Simonton inseriu marcas textuais (com o fim de ampliar o alcance do que disse) ou se marcas de oralidade foram inseridas, para criar um efeito de sentido mais pessoal ao texto escrito.
180 Por causa da escrita e conseqüente emancipação do sermão em relação ao seu ambiente natural (isto é, falado a
um grupo específico), a “audiência” de Simonton tornou-se um conceito abstrato. Agora, como escritor, ele deve “configurar um papel que leitores ausentes e muitas vezes desconhecidos possam desempenhar.” (ONG, 2007, p. 99, tradução nossa).
181 “Esses contextos implicados podem ser artificiais, mas eles devem criar um relacionamento real entre o autor e o
amigo, rogo-te que faças, sem mais demora, o que até agora nunca tiveste ânimo bastante para fazer. [...] Atreve-te a crer no que o Redentor disse.” (SIMONTON, 2008, p. 174).
Essa abordagem pode ser vista em outros pregadores do seu tempo, como o Rev. Modesto Perestrelo Barros de Cavalhosa, que foi aluno de Simonton no Seminário Primitivo. Num mesmo sermão, A Luz do Mundo, ele fala aos de fora da sua comunidade: “Meus ouvintes: Se ainda vos deleitais em cometer o pecado, se as coisas que são puramente mundanas têm para vós mais atrações do que aquelas que são divinas [...] não podeis ainda dizer que sois cristãos – que estais na luz.” (CARVALHOSA, 1892, p. 89). No final do mesmo sermão, dirige-se aos que já fazem parte da comunidade protestante:
Façamos bem, enquanto temos tempo, a todos os homens. Envidemos todos os esforços para que conheçam o Salvador e se salvem crendo. Vejam eles brilhar sobre nós a luz benéfica do Glorioso Sol de Justiça e venham colocar-se também sob sua salutar influência. (CARVALHOSA, 1892, p. 92).
Outro pastor da época, o Rev. Miguel G. Torres (também ex-aluno de Simonton), em seu sermão O preço da redenção, baseado no evangelho de Marcos, 15:31, também se dirige a duas audiências. Primeiro, exclama:
Admirável! Meus irmãos, nessa cruz em que resplandece em toda a grandeza de sua glória o amor redentor de Deus para conosco no sacrifício de seu amado Filho, vemos também a santidade e a inexorabilidade da justiça divina para com o pecado! (TORRES, 1889, p. 317).
Na mesma página, ele pergunta, acerca do que ocorreu a Cristo:
E perante essa cena em que a ira divina contra a transgressão da Lei se ergue mais formidavelmente que na condenação dos anjos, que nos próprios tormentos dos condenados, quais são, ó homem, os vossos sentimentos? (TORRES, 1889, p. 317).
A seguir, deixa claro que fala a outra audiência, não-protestante182.
No sermão A ceia do Senhor, Simonton escreve: “Meus irmãos [...] nossos corações estão franqueados ao Salvador.” (SIMONTON, 2008, p. 127). No parágrafo seguinte, ele se volta como que para os de fora da comunidade, dizendo: “Neste ato ele [isto é, Cristo] bate de modo que os
182 Na página 320 do mesmo sermão, Torres fala ao público católico: “Merecimentos dos santos a nosso favor! Mas o
que é isso? Tenho lido durante anos as Sagradas Escrituras, mas nunca achei essa doutrina ou coisa que com ela se pareça.” (TORRES, 1889, p. 320). No parágrafo final do sermão, dirige-se claramente a duas audiências: “Oh! Irmãos [...] apegai-vos com Jesus [...]” (TORRES, 1889, p. 321). Então, parafraseando a voz de Cristo, escreve: “Vem, ó pecador! [...] Crê-me e recebe-me como o teu Redentor, e tu, feliz já neste mundo, feliz na hora da morte, sê-lo-ás também em minha glória comigo para sempre.” (TORRES, 1889, p. 321). Contudo, há sermões da época em que o pregador se dirige apenas à igreja protestante, mas ataca durante toda a prédica, doutrinas da Igreja Católica. (Ver, para isso, ver sermão do Reverendo Antônio P. C. Leite, O fundamento da igreja cristã, baseado em Mateus 16: 18,19, um dos textos mais disputados entre católicos e protestantes, em O PÚLPITO EVANGÉLICO, v. II. Jornal publicado pela Associação evangélica e literária de Campinas. Campinas: 1889, p. 329-337).
sentidos o percebem. Ó, incrédulos! Cristo está batendo à porta! [...]” (SIMONTON, 2008, p.127). No sermão Sem efusão de sangue não há remissão, “Pregado por ocasião da ceia do Senhor” (SIMONTON, 2008, p. 43), assim como no sermão Ação de graças a Deus (uma espécie de retrospecto sobre os vários endereços do trabalho presbiteriano no Rio de Janeiro, de 1861 a 1867), ele parece dirigir-se unicamente aos já convertidos ao protestantismo.
São esses os dois grandes grupos de ouvintes implicados nos sermões de Simonton, embora não sejam mencionados claramente em todas as prédicas183. Foi tendo esses dois grupos em vista que ele pregou textos mais apropriados à evangelização (visando aos de fora da comunidade) e à doutrinação (para fortalecer espiritualmente aos de dentro). Era nesse contexto que sua tarefa como leitor-pregador era executada.
Alguns dos seus sermões “foram publicados na Imprensa Evangélica, outros em panfletos e no O Púlpito’[outro jornal protestante da época].” (RIBEIRO, 1987, p.122).
A importância que Simonton deu à imprensa pode ser medida por um dos seus discursos, feitos no Brasil, intitulado, “Os meios necessários e próprios para plantar o Reino de Jesus Cristo no Brasil”, no qual elenca “os meios adequados à conversão das almas”. Logo após destacar a necessidade, por parte dos crentes, da pregação por meio de uma vida santa, ele aponta como segundo meio a disseminação da Bíblia, de livros e folhetos religiosos. “Nesta época”, escreve ele, “a imprensa é a arma poderosa para o bem, ou para o mal”. (SIMONTON, 2002a, p. 181).
O jornal Imprensa Evangélica, fundado pelo missionário, ajudou a criar e a fortalecer toda uma comunidade protestante de leitores que teria, naquele periódico quinzenal, suprimento didático tanto para suas leituras pessoais (mais reflexivas) como também para aquelas ligadas ao ambiente familiar (mais intercomunicacional) e até para pequenas congregações cristãs:
Desde o seu primeiro número (05/11/1864), o jornal Imprensa Evangélica, além de considerações gerais sobre religião, também trazia tópicos especificamente destinados à edificação pessoal, familiar, além de assuntos de interesse geral, como mostram os títulos das matérias a seguir: “Testemunhos de homens distintos sobre a excelência da Bíblia”; “Instrução e culto doméstico” e “O Pai Nosso”; “Para decorar”; “Lúcia ou a leitura da Bíblia”, “A experiência de um velho cristão”, “A Epístola de S. Paulo aos Romanos, analisada”, entre outros (SANTOS, 2009, p.71-72).
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Em certos sermões de Simonton, como A vida eterna: em que consiste, ele se dirige, aparentemente, apenas a um grupo de leitores não protestantes: “Meus prezados ouvintes, este solene fato vos patenteará todo o perigo do vosso estado e a urgência dos convites de Jesus Cristo.” (SIMONTON, 2008, p. 225). No final desse mesmo sermão, ele retoma o discurso direto: “Porventura vós credes no Filho de Deus? De duas uma: ou não credes, ou tendes a vida eterna.” (SIMONTON, 2008, p. 225). Em todo esse sermão, não há referência direta a um público protestante, ao contrário do que ocorre no sermão Ação de graças a Deus (SIMONTON, 2008, p. 130-134), dirigido unicamente aos membros da igreja.
Para Ribeiro, a publicação foi a grande integradora da jovem denominação presbiteriana. Enquanto não havia missionários suficientes para atenderem às demandas da obra protestante. “Em Ubatuba, a igreja nasceu em torno dela, e como resultado de sua leitura antes que ali chegassem pregadores.” (RIBEIRO, 1981, p. 101).
Além de fortalecer os já convertidos, o jornal também visava alcançar pessoas de fora do círculo protestante. Entre seus leitores,
[...] estavam os que queriam tomar conhecimento dos artigos de teor religioso e, outros, para acompanhar as disputas religiosas publicadas em todas as edições. Independentemente da razão pela qual os leitores assinavam os compravam números avulsos do periódico protestante, eles eram alcançados pela mensagem protestante. (SANTOS, 2009, p. 56) 184.
Assim, os sermões escritos e publicados tinham como vantagem sobre o discurso oral, além de uma maior articulação lógica, a possibilidade de ampliação do público e do alcance geográfico e temporal:
[O] discurso escrito suscita para si um público que, virtualmente, se estende a todo aquele que sabe ler. A escrita encontra, aqui, seu mais notável efeito: a libertação da coisa escrita relativamente à condição dialogal do discurso. O resultado é que a relação entre escrever e ler não é mais um caso particular da relação entre falar e ouvir. (RICOEUR, 1990, p. 53).