3 Teoretisk støtte og enkelte begrepsavklaringer
4.1 Den strategiske styringen
4.1.2 En sterkere styring år for år
A divisão tríplice das provas aristotélicas normalmente é entendida como sendo baseada na situação retórica do orador (ethos), no ouvinte (pathos) e no argumento (logos). (SCHÜTRUMPF, 2007, p. 38). Embora isso ajude a entender os princípios da retórica, não se pode pensar que uma distinção absoluta entre as três provas ocorra na prática, já que, mesmo em Aristóteles, o caráter da pessoa que faz um discurso “implica ambos os aspectos: o orador e a audiência.” (SCHÜTRUMPF, 2007, p. 39, tradução nossa). Isso naturalmente dificulta a análise de sermões escritos, já que estes, por natureza, substituem a interação imediata entre orador e audiência por uma interação mais ampla e menos pessoal entre escritor e leitor. Essa substituição reforça consideravelmente o aspecto lógico do discurso por meio da relação entre escritor e leitor. Por outro lado, diminui (ou modifica de outro modo) a interação emocional própria da interação oral.
Esse tópico, portanto, trata daquilo que, ao menos em parte, foi perdido nos sermões de Simonton, quando suas prédicas foram transpostas para a linguagem escrita.
172 Segundo Carter, os oradores possuem graus variados de consciência, “quando extraem comparações para realçar
Ao chegar ao Rio de Janeiro, Simonton é um jovem de 28 anos, recém-saído de um avivamento em sua terra, pensando em inglês e se esforçando para falar e escrever em português. Chega a um Brasil rural, investido de autoridade religiosa protestante, com um sotaque que certamente causava impressão especial em seus ouvintes, com todos os seus ritmos, pausas, entonações e ressonâncias típicos. Embora não haja como saber exatamente qual o peso da sua presença pessoal e da oralidade em suas prédicas, há como levantar algumas possibilidades, a começar da importância que o próprio Simonton dava ao assunto.
Durante uma exposição oral, há uma interação natural e emocional com a audiência. Simonton sabia da importância da oratória nesse processo. A julgar pelo que escreveu em seu diário, já em solo brasileiro, ele tinha grande interesse em atrair a atenção das pessoas. “É bom pregar para quem quer ouvir”, escreveu, em 30/12/1860 (SIMONTON, 2002, p. 144). Também registrou as impressões que teve das pessoas que compunham sua audiência religiosa: “todas muito atentas” (2002, p.126); “a audiência estava atenta” (2002, p. 128). Ele procurou maior envolvimento com seus ouvintes, arriscando-se a falar “sem anotações” (SIMONTON, 2002, p. 129), obtendo inicialmente, segundo escreveu, bons resultados: “Ontem [03/10/1859] preguei na Saúde. Usei notas, prática em que não devo continuar quando falar a esse povo. No domingo anterior, em que falei de improviso e sem anotações, ganhei a atenção de todos e lhes causei impressão mais profunda.” (SIMONTON, 2002, p. 130, grifo nosso). Porém, o missionário nem sempre obteve sucesso e chegou ao ponto de considerar-se, no manejo da língua portuguesa, melhor escritor do que orador173. “Quando falava na saúde [08/11/1859], domingo, gaguejei muito. Quase desespero de vir um dia a falar de improviso com fluência e sucesso. Estou numa situação difícil. O estilo em que escrevo está muito acima deles e os improvisos são áridos e pobres.” (2002, p. 132). No ano seguinte (11/04/1860), ele registrou considerável melhora: “Falei
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Desde o início do século dezenove, alguns escritores “apontavam a dureza e a artificialidade tanto no estilo como na transmissão, promovida, ao menos em parte, pela prática de ler sermões" (HOSHOR, 1954, p. 148, tradução nossa) e defendiam a fala improvisada “como um remédio para essa imperfeição." (HOSHOR, 1954, p. 148, tradução nossa). Outros, como John Quincy Adams, defendiam um equilíbrio entre oralidade e escrita, já que, para ele, ambas possuíam “vantagens e inconvenientes”, devendo a preferência ser decidida “antes pelo caráter dos talentos do pregador, do que por qualquer regra de uniformidade.” (ADAMS, 1810, p. 340, 341, tradução nossa). Contudo, tanto elocucionistas como homiletas, de modo geral, “igualmente enfatizavam a dependência fundamental da oratória para a transmissão efetiva e promoveram a noção de que nenhum orador público poderia esperar alcançar os efeitos da verdadeira eloqüência sem ter primeiro dominado as habilidades da elocução.” (JOHNSON, 1991, p. 149, tradução nossa). O avô de Simonton, John Snodgrass, “era pastor protestante e um orador eloquente, pregador que ‘jamais utilizara uma expressão gramaticalmente incorreta no púlpito’. O avô possuía uma voz forte e pregava sem recorrer à leitura dos sermões, habilidade que Ashbel tentou desenvolver anos depois no Brasil, sem muito sucesso.” (WATANABE, 2012, p. 17).
com desembaraço, muito além de minha expectativa.” (2002, p. 139). Mesmo assim, considerava seu uso da língua portuguesa ainda “muito limitado.” (SIMONTON, 2002, p. 143).
Além da questão especificamente ligada ao discurso oral, ainda há outro aspecto que confere força aos sermões, mas que se perdeu, ao serem eles escritos: Trata-se do poder de influência do espaço sacro, onde os sermões de Simonton foram muitas vezes pregados.
Embora no Brasil do final do século 19 ainda vigorasse a lei de que os ambientes destinados a reuniões religiosas de acatólicos não poderiam ter fachada de templo, havia certamente, no interior desses lugares, alguns marcadores sociais considerados sagrados e legitimadores, que constituíam verdadeiros espaços retóricos ou proxêmicos, isto é, ligados à “percepção, organização e uso de distância interpessoal e espaço como comunicação.” (BURGOON; HUMPHERYS; MOFFITT, 2008, p.789, tradução nossa).
A presente pesquisa não conseguiu levantar informações precisas sobre como seriam exatamente os espaços internos adaptados para culto protestante no tempo de Simonton. Contudo, é possível fazer algumas considerações, baseando-se num estudo dos modos gerais como as principais correntes religiosas cristãs costumam arranjar seus ambientes interiores.
Segundo Kieckhefer, existem três tradições amplas no design de igrejas: (1) A Sacramental clássica, cujo ponto focal “é o altar, o lugar do sacramento para o qual o espaço longitudinal conduz.” (KIECKHEFER, 2004, p. 11, tradução nossa). Nessa tradição encontram-se as igrejas Oxtodoxa, Católica e Anglicana. (2) A Evangélica clássica, que visa principalmente a pregação:
O interior é um auditório, tendo o púlpito como seu ponto focal. Seu espaço é, com freqüência, relativamente pequeno, encorajando interação espontânea entre pregador e congregação. A principal meta estética é criar um espaço para edificação de indivíduos e da congregação. A edificação em si pode ser relativamente simples; em todo caso ela será normalmente menos adornada com decorações simbólicas do que uma igreja sacramental clássica. (KIECKHEFER, 2004, p. 11, tradução nossa).
(3) A Comunal moderna é edificada tanto por congregações protestantes como por católicas. Esse tipo de igreja normalmente enfatiza “a importância de reunir pessoas para adoração, frequentemente ao redor do altar ou do púlpito.” (KIECKHEFER, 2004, p. 12, tradução nossa).
Tal igreja é normalmente edificada com amplo espaço para contatos sociais na entrada; a importância de reunir pessoas é realçada por esta provisão do espaço social. [...] A atmosfera é criada para ser acolhedora e convidativa, criando um ambiente de hospitalidade para a celebração. (KIECKHEFER, 2004, p. 12, tradução nossa).
É provável que, por razões doutrinárias, Simonton tenha evitado o tipo de arranjo da primeira tradição (Sacramental clássica) e que, por pura impossibilidade ele não tenha feito um arranjo na tradição Comunal moderna. Restaria, assim, algo próximo da segunda tradição (Evangélica clássica).
Ao contrário da tradição luterana, na tradição calvinista há uma clara subordinação do altar ao púlpito174. Assim, é possível que, em termos de arranjo, o púlpito fosse o ponto focal do ambiente em que Simonton pregava, para o qual o espaço longitudinal do interior do templo naturalmente conduzia o olhar das pessoas175. O rito da Ceia do Senhor pode até ocorrer em tal ambiente, “mas é subordinado à adoração verbal: a mesa da comunhão é frequentemente colocada abaixo do púlpito centralmente posicionado, como uma pista clara dessa subordinação.” (KIECKHEFER, 2004, p. 45, tradução nossa).
No protestantismo calvinista mais recente, o púlpito é normalmente localizado num ponto ligeiramente mais alto, visível de qualquer lugar no interior do ambiente. É usado quase que exclusivamente por pessoas autorizadas pela própria igreja (pastores, presbíteros, missionários) e por isso tende naturalmente a reforçar a legitimidade de um discurso.
Simonton não pregava apenas por si, mas era representante de uma denominação religiosa. Sabia que o púlpito era o lugar dos pronunciamentos oficiais dessa igreja: “Todas as vezes que um pregador sobe ao púlpito, deve certificar a todos os cegos e pobres em relação às coisas do Espírito que Jesus Nazareno está perto deles e que querendo podem dirigir-lhe suas súplicas.” (SIMONTON, 2008, p.69). Ele aponta a importância do púlpito como objeto consagrado à mensagem autorizada e, portanto, digna de crédito. “A única matéria de pregação, no sentido de Jesus Cristo, é o evangelho. É esta uma verdade que deve estar na consciência de todo pregador. Ministros de Cristo, lembrai-vos disto cada vez que subis ao sagrado púlpito!” (SIMONTON, 2008, p.137, grifo nosso). No sermão “Tudo está cumprido”, chega a fazer uma identificação
174 “Lutero estava mais preocupado em evitar insistência dogmática sobre qualquer convicção do que em articular
suas próprias preferências. Ainda assim, suas inclinações básicas são claras: ele não insistiu em redefinir o altar como uma mesa de comunhão, nem instituiu uma mesa ao redor da qual os participantes pudessem realmente se assentar, como fez a tradição calvinista. [...] Ainda assim ele quis que o púlpito fosse efetivamente disposto para a proclamação da palavra, e preferiu uma mesa simples, parecida com um altar, que permitisse ao pastor ficar de frente para a congregação.” (KIECKHEFER, 2004, p. 90-91, tradução nossa).
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O púlpito, espécie de tribuna cristã, nem sempre esteve no centro espacial dos ambientes de culto protestante. Isso porque os primeiros reformadores “mais adaptaram igrejas existentes do que edificaram novas, e seus maiores talentos foram frequentemente dedicados à reconcepção do espaço longitudinal medieval. Eles normalmente estabeleciam púlpitos no meio do caminho de um dos lados da nave [de templos anteriormente católicos], transformando espaços longos em espaços amplos” (KIECKHEFER, 2004, p. 46, tradução nossa).
entre o púlpito e a própria pregação, como que mostrando o lugar oficial e legítimo, de onde a palavra de Deus deve ser anunciada:
São essas doutrinas necessárias à salvação, e o púlpito que as não pregar não conseguirá nada de bom. O pregador (seja ele quem for) que lê a palavra divina, ou consulta a voz da sua própria consciência, sem se convencer de que a morte de Jesus Cristo na cruz é o único remédio eficaz para o pecado, é cego e surdo, e no púlpito há de mostrar-se também mudo em face de tudo o que há de realmente valioso no evangelho. (SIMONTON, 2008, p.170) 176.
Com a transcrição dos sermões, os efeitos possíveis causados por esses persuasores retóricos mencionados tornam-se, em grande parte, inverificáveis. Porém, mesmo sofrendo variações de intensidade, nenhuma das provas aristotélicas (lógica, caráter, interação emocional) é totalmente suprimida na transcrição de um discurso, e o pesquisador continua tendo todos os seus objetos de pesquisa, embora, nessa nova configuração, prevaleça o aspecto lógico. O ethos (o caráter do orador) sempre estará ligado à lógica de qualquer tipo de discurso (oral ou escrito), já que tanto ouvintes como leitores avaliarão, consciente e logicamente, a confiabilidade do orador/escritor. (RICHARDS, 2008, p. 33). Quanto às emoções que o discurso pretendeu suscitar na audiência, elas ainda podem ser observadas em sermões escritos, ao se estudar a intencionalidade do escritor.