3 Teoretisk støtte og enkelte begrepsavklaringer
3.2 Mintzberg om strategisk styring i organisasjoner
Os sermões cristãos são publicados não apenas de acordo com uma tradição religiosa, mas também envolvem a subjetividade e a pré-figuração de cada pregador. Para Chartier, mesmo aqueles documentos que aparentam ser mais objetivos quanto aos seus objetos de referência, como inventários post-mortem, registros administrativos, catálogos de bibliotecas e sermões, “todos supõem escolhas e triagens – logo, exclusões. Todos são organizados a partir de categorias, classificações e fórmulas que não são neutras, mas que submetem à suas lógicas as ‘realidades’ de que se apoderam.” (CHARTIER, 1995, p.8).
A caracterização da existência como um caminho vem sendo usada há séculos para descrever a vida humana neste mundo. Para a modernidade, a imagem está bem difusa. As pessoas não se dão conta de que a evocam ao dizer, por exemplo, “que levamos a termo um trabalho ou que uma coisa vai bem, quando falamos de rumos da vida ou de andamento do discurso, ou quando dizemos estar atrás de um pensamento.” (SNELL, 2005, p. 248) 166.
A ideia da vida como um caminho não é exclusiva do Cristianismo167. Porém, a ideia do ser humano como um peregrino tem tido uma conotação mais religiosa168. Na tradição judaico-
165 O tópico sobre topografia se parece com o ético. Entendi que a diferença entre eles está no fato de que, no ético,
destacam-se os deveres ordinários e previsíveis do peregrino, enquanto que, no aspecto topográfico, o triplo desafio da caminhada (os três inimigos do cristão) possui, por natureza, um caráter imprevisível e acidental.
166 Outras metáforas relacionadas são “eles se perderam”, “estamos andando em círculos”, “ela realmente sabe para
onde está indo”, “nós estamos numa encruzilhada”, etc. (CARTER, 2004, p. 120, tradução nossa)
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cristã, a metáfora do peregrino foi usada para retratar personagens bíblicos em particular (como Abraão) e, de modo geral, o povo de Deus no período do Antigo e Novo Testamentos, conforme a carta aos Hebreus, capítulos 10 e 11. Além dos personagens bíblicos, os puritanos recém- chegados à América também se apropriaram dessa figura.
Contudo, a figura do peregrino não costuma ser usada, na tradição cristã, para descrever o ser humano de modo geral, mas apenas os seres humanos que se fazem cristãos. No entanto, em seu primeiro sermão, Simonton amplia a imagem em relação ao seu uso tradicional e passa a aplicá-la indiscriminadamente, a todos os seus leitores169. Em sua prédica, ser um “peregrino” é mais profundo do que uma escolha religiosa ou moral do indivíduo: Trata-se de algo simplesmente inevitável.
Tendes não só o direito, mas a obrigação de escolher, dentre os caminhos propostos, aquele que é seguro e reto, e conduz à felicidade eterna. É-vos forçoso caminhar, mas é livre a escolha do caminho e da direção da viagem. (SIMONTON, 2008, p.15, grifo nosso) .
Tanto na Bíblia como entre os Puritanos, essa metáfora servia para orientar o cristão a desapegar-se deste mundo, para que, confirmado a cada dia no caminho estreito, finalmente chegasse ao Reino dos céus. Porém, Simonton, sem abandonar a ideia de esforço (sentida por todo o sermão, do início ao fim170), faz um uso inovador da figura, fundindo parte do aspecto doutrinário com o evangelístico e deslocando o uso do tropo, da esfera da santificação cristã para a esfera da salvação.
Primeiro, ele fez uso de termos relacionados à metáfora principal, como jornada, caminho, viagem, estradas e viajante 171, e dá explicações adicionais: “Sobre o sentido espiritual que convém dar a estas palavras, felizmente não há dúvida: Jesus nos diz: ‘Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo... ’ ‘Eu sou o caminho [...] ’” (SIMONTON, 2008, p. 17). Desse modo, ele dá à figura, neste primeiro sermão, um sentido mais amplo e inclusivo, tornando-a válida tanto para os de fora quanto para os de dentro da comunidade protestante: 168 Para Johnsson, no entanto, essa figura, de apelo cada vez mais remoto, não teria vindo ao pensamento ocidental
diretamente da Bíblia, sendo, antes, “uma vaga amálgama dos Pais Peregrinos, os Contos da Cantuária e o Progresso do Peregrino [de Bunyan].” (JOHNSSON, 1978, p. 239, tradução nossa).
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Também por isso esta pesquisa entende que essa metáfora, que em Simonton recebe contornos ontológicos, é a mais abrangente entre as cinco estudadas (ver tópico 4.6.2., Metáforas), pois envolve não apenas aspectos morais e espirituais, mas um resumo de toda a existência humana: “Somos peregrinos neste mundo.” (SIMONTON, 2008, p. 209, grifo nosso).
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Devo esta observação a Mendonça (2008, p. 278).
171 Além das figuras relacionadas à principal, Simonton ainda usa um exemplo do seu tempo, valendo-se da ideia de
movimento: “Nos países onde há muitas estradas de ferro, e os trens vão e voltam constantemente, sucede às vezes que um viajante, querendo ir a uma parte, toma por engano o trem que vai par outra.” (SIMONTON, 2008, p. 16).
“[N]ão há salvação sem haver santificação. Eis aqui a estreiteza da porta. Para lá entrar é preciso largar os vícios, os maus pensamentos e os desejos impuros.” (SIMONTON, 2008, p. 17).
Esse tipo de leitura feita por Simonton talvez seja explicado pelo grau de consciência que ele possuía sobre a metáfora do peregrino, naquele momento172. Aparentemente, houve certa distração com sua própria tradição, causada talvez pelo desejo de usar, a serviço do seu impulso de converter seu público, uma figura facilmente inteligível e também familiar aos brasileiros e que certamente teria um apelo natural sobre eles. Apesar desse deslocamento com relação à sua tradição, no decorrer dos sermões (e também nesta primeira prédica) é possível verificar que Simonton não levou o aspecto ético dessa metáfora tão longe ao ponto de comprometer suas convicções teológicas mais básicas.
Mesmo tendo elastecido a figura em relação ao seu uso tradicional, Simonton a usou criativa e funcionalmente. Em seus sermões, essa e outras metáforas servirão como instrumentos de interação do missionário com o seu público, visando impulsioná-lo à ação por meio da confiança no modelo apresentado.