Kapittel 7: Oppsummering og konklusjon
7.2 Sterkere alderseffekter enn kohorteffekter
Recentemente, a publicação do número 56 da revista Linx, intitulada “Linguistique des genres: le programme de Bakhtine et ses perspectives contemporaines” (2007), e a organização de uma jornada de estudos inteiramente dedicada à relação dos gêneros do discurso à gramática da língua (2009) constituem alguns dos fatos reveladores de uma nova tendência: a busca de articulação entre os gêneros - entidades linguageiras dinâmicas – e a língua – sistema semiótico regrado.
A título de exemplo, no artigo da revista Linx intitulado “Contribuição a uma linguística neo-sassuriana dos gêneros da fala”90, Denise Malrieu parte da assunção de que o uso do pronome “on”, em francês, é regulado pelos domínios e gêneros discursivos envolvidos situação de fala (parole). Assim, só é possível falar em normatividade genérica se os gêneros forem tomados como “práticas culturais” (MALRIEU, 2007, p. 158), é possível acrescentar, sujeitas à variação.
No mesmo número, Branca-Rosoff (2007a) preconiza a importância do suporte do gênero para a orientação e a moldagem da mensagem. A autora fornece o exemplo do gênero chat, ou bate-papo virtual, em que a gestão dos turnos de fala – na realidade, a troca de mensagens escritas em tempo real (on-line) – difere daquela observada em uma “simples conversação” em face a face. Em particular, a autora menciona a substituição da linguagem verbo-gestual por pictogramas (emoticons) e a necessidade de estabelecer previamente os papéis discursivos dos locutores e destinatários, tratando-se, em suma, de um gênero fortemente regrado.
Essa visão dinâmica dos gêneros na interface com a gramática da língua também foi objeto da “Journée d’Études: Les genres du discours vus par la grammaire de la langue”, organizada pelo Centre de Recherche Textes et Culture, da Université de Bourgogne (Dijon). Por trás dessa nova tendência, aparece a necessidade de integrar a noção de gênero à linguística descritiva, como explica Mustapha Krazem, organizador do evento, no texto de apresentação:
L’objet de cette journée d’étude sur les “genres de discours vus par la grammaire de la langue” se situe résolument du côté des faits de langue afin
90 Malrieu, Denise. Contribution à une linguistique néo-saussurienne des genres de la parole (2): analyse des
valeurs d’indexicalité interlocutoire de on selon les genres textuels. Linx, n. 56, “Linguistique des genres. Le programme de Bakhtine et ses perspectives contemporaines”, p. 157-178, 2007.
d’ “imaginer” ou identifier ce que les faits linguistiques peuvent dire des genres et inversement ce que la notion de genre peut apporter aux faits de langue dans leurs caractéristiques intrinsèques. Il s’agira ainsi de dépasser (si cela s’avère pertinent) leur statut d’indices ou de catégorie descriptive pour leur supposer une fonction dynamique tant pour la compréhension du système linguistique que pour la compréhension des genres de discours, pour peu que cette opposition soit finalement opératoire. (KRAZEM, 2009)91
O semanticista François Rastier (2001a), na obra Arts et sciences du texte, também se interessa pela questão. Para ele, essa “gramática” dos gêneros leva o nome de “poética generalizada” (idem, p. 227), e tem por objetivo “descrever a diversidade dos discursos (literário, jurídico, religioso, científico, etc.) e sua articulação aos gêneros” (idem, p. 227). Esses últimos devem ser compreendidos como ponto de intersecção entre os textos e os discursos, ideia que o autor desenvolve nessa citação:
Puisque tout texte se rattache à la langue par un discours et à un discours par la médiation d’un genre , l’étude des genres doit devenir une tâche prioritaire pour la linguistique. Elle revêt une importance primordiale, dans la mesure où le lexique, la syntaxe, pour une bonne part, et l’ensemble des structures textuelles sont contraintes par les genres. (...) la méthodologie de la linguistique descriptive dépende elle-même des genres et doit s’y adapter, car les parcours de production et d’interprétation sont relatifs à des genres déterminés, d’où le caractère primordial de leur étude. (RASTIER, 2001a, p. 230)
Ainda com relação à problemática do texto, é interessante citar as pesquisas recentes da argentina Florencia Miranda (2004, 2007, 200-?) sobre os processos de semiotização do gênero. Segundo ela, os elementos formais dos gêneros são materializados na estrutura semiótica do texto. Para dar conta dessa hipótese, a autora estuda o “cruzamento de gêneros”, que ela define como “uma modalidade de construção textual em que é possível identificar a co-presença de elementos associáveis a gêneros diferenciados (dois ou mais) no espaço de um texto” (MIRANDA, 2004, p. 195).
Trata-se de um corpus idêntico ao nosso, mas, como se vê, a prioridade é dada aos mecanismos textuais que permitem detectar a co-presença de aspectos de gêneros, que ela designa “marcadores de gêneros”92. Promissora, essa proposta corre o risco, entretanto, de se polarizar no texto. Pois, se, por um lado, essa proposta revela-se altamente produtiva para
91 Disponível em: <http://tabarqa.u-bourgogne.fr/publications/conferences/genre/index.html>. Acesso em:
05.05.2009.
92 Explicaremos com mais detalhes os marcadores de gêneros, na análise do funcionamento semiótico do
descrever a articulação entre o gênero e o texto, por outro, é de se perguntar até que ponto esse procedimento é suficiente para explicar o cruzamento de gêneros para além do texto e da situação imediata da enunciação.
Nesse sentido, a ideia de uma normatividade genérica, evocada, entre outros, por Malrieu e Branca-Rosoff (2007a; 2007b), só pode ser coerente com a proposta bakhtiniana se o analista levar em conta a associação intrínseca entre “de um lado, formas, de outro, tudo o que ancora o discurso em um contexto social” (BRANCA-ROSOFF, 2007a, p. 129).
Uma gramática dos gêneros deve ser compreendida, portanto, como o estudo dos elementos estáveis dos gêneros, que são de natureza discursiva (concreta) e não exatamente linguística (abstrata). Pela ótica do discurso, uma “linguística dos gêneros” repousa sobre o postulado de que os enunciados dos gêneros são relativamente estáveis, como dissera Bakhtin (2003), de acordo com as características e dinâmicas próprias das esferas discursivas que estabelecem o “que pode e deve ser dito” em função do posicionamento adotado e do contexto de recepção. Nesse sentido, a língua constituiria um elemento cristalizador das práticas discursivas verificadas em diferentes esferas sociais, épocas da história e momentos discursivos.
Por essas razões, o objeto de estudo desse trabalho, isto é, o diálogo entre gêneros no discurso publicitário, é vislumbrado não apenas como uma mescla observável de um ou mais gêneros na espacialidade do texto, mas, além disso, como um fenômeno de heterogeneidade genérica radical, cujas raízes entretêm uma relação imediata com as lógicas próprias da instituição discursiva da publicidade.
No próximo capítulo, nosso objetivo é refinar o objeto do estudo e propor uma articulação entre o gênero em uma perspectiva dialógica – de onde, ademais, a noção provém – e discursiva.