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Kapittel 6: Årsaksanalyse

6.4 Økonomisk modell kontrollert for demografiske variabler

Uma das primeiras teorizações sobre os gêneros do discurso aparece no final dos anos 1920. Nessa que já pode ser considerada o início da fase linguística do círculo de Bakhtin, a crítica à concepção monológica extrapola o campo dos estudos literários e se volta para os enunciados da vida cotidiana, que constitui o pano de fundo para a edificação de uma teoria da linguagem.

Muitas vezes tomada como noção descritiva, útil para detectar a alternância de vozes na materialidade verbal, o dialogismo intervém, nesse ponto de nossas reflexões, como abordagem teórica, ou seja, como princípio que orienta e explica o funcionamento social e ideológico da linguagem sob a forma de gêneros discursivos.

A controvérsia gerada em torno da autoria e das publicações das obras e a proliferação dos conceitos e noções elaboradas por Bakhtin e seus pares nas ciências da linguagem exigem, contudo, um retorno às “condições de produção” da concepção dialógica da linguagem.

Em obra que aborda pela primeira vez na Europa a nebulosa criada em torno da autoria das obras do filósofo russo Mikhail Bakhtin, Todorov (1981) aventa a hipótese de que a adoção, por Bakhtin, de pelo menos dois pseudônimos – Volochinov e Medvedev71 – se justificaria por razões políticas (marxismo) e religiosas (cristianismo ortodoxo), prováveis causas de sua passagem pela prisão em 1929 e por sua condenação a cinco anos em campo de concentração. A questão tornou-se polêmica, entretanto, por dois fatores. Não apenas o pseudonimato era considerado uma prática subversiva na Rússia do início do século XX, mas, ainda, os pseudônimos em questão não eram fictícios, visto que se tratava de dois amigos e membros do círculo, o poeta e musicólogo Volochinov e o crítico Medvedev.

Contrariando a hipótese de que os autores pseudônimos apenas ocultavam o nome de Bakhtin, Todorov acredita que seus “colaboradores” tiveram influência decisiva sobre os textos publicados, o que pode ser observado pelo emprego de um estilo claro e simples, muito distinto daquele que caracteriza as obras efetivamente assinadas por Bakhtin72. Propondo colocar um fim à polêmica, de difícil solução, Todorov conclui que “os textos foram

71 Dentre as obras pseudônimas, estariam Marxismo e filosofia da linguagem, por Volochinov

(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2002) e El método formal en los estudios literarios: introducción crítica a una

poética sociológico (Medvedev. Madrid, Alianza Editorial, 1994/1928).

72 Para Sériot, por exemplo, Volochinov e Medvedev devem ser considerados “como autores de fato, e não como

clones” (SÉRIOT, 2007, p. 3). O autor também considera que os outros membros do círculo de Bakhtin ainda não foram descobertos no mundo francófono.

concebidos pelo(s) mesmo(s) autor(es), mas redigidos, em parte ou na totalidade, por outros” (TODOROV, 1981, p. 20). Assim, sob a designação “círculo de Bakhtin”, Todorov encontra uma solução paliativa para o mistério que continua a rondar a autoria dos textos.

Um mistério que poderia ser explicado, ainda, de acordo com Clark e Holquist (1998), autores de obra dedicada à biografia intelectual de Mikhail Bakhtin, pela personalidade plural e muitas vezes contraditória do filósofo. Passando por diferentes fases – filosófica (1918 a 1924), sociológica (1925-1929), literária (anos 1930) e linguística (décadas de 1960 e 1970), o pensamento multifacetado de Bakhtin manifestaria razões pessoais, em particular o conflito entre sua condição de cristão e marxista.

Segundo Clark e Holquist, o pensamento de Bakhtin tinha como maior preocupação “abranger diferenças numa simultaneidade” (CLARK; HOLQUIST, 1998, p. 36). Sob a forma de questionamentos, os autores da biografia resumem, na citação a seguir, as preocupações do filósofo.

Como pode a exigência de estabilidade, que é própria das sociedades, ser conciliada com a sua necessidade de adaptar-se a novas condições históricas? Como pode um texto ser o mesmo e, no entanto, diferente em contextos diferentes? Como pode um self individual, um eu, ser único e, ainda assim, incorporar também tanta coisa que é compartilhada com outros? (CLARK; HOLQUIST, 1998, p. 37)

As ideias propostas pelo círculo refletiriam, assim, as novas tendências da filosofia da época, que, seguindo a linha moderna da filosofia das ciências humanas, opera um salto importante entre a visão dialética e partitiva do conhecimento e uma difícil opção: dar conta do “embate ininterrupto entre forças centrífugas, que se empenham em manter as coisas variadas, separadas, apartadas, diferenciadas umas das outras, e centrípetas, que se empenham em manter as coisas juntas, unificadas, iguais” (CLARK; HOLSQUIST, 1998, p. 35).

Desse campo de forças nasceria um pensamento orgânico e plural, avesso às abordagens formais e estruturalistas da obra literária. Essa “sensibilidade para a variedade” (idem, p. 33) exerceu grande fascínio sobre as ciências humanas, de que dá prova a atualidade dos temas tratados pelo círculo nas pesquisas científicas contemporâneas.

Mas, se por um lado, o poder de sedução das ideias do círculo, veiculada na “profusão de assuntos, ideias, vocabulários, períodos e disfarces autorais” (idem, p. 31) reside na possibilidade de “mudar as categorias básicas que a maioria de nós utiliza para organizar o próprio pensamento” (idem, p. 33), por outro, a apropriação generalizada e generalizante dos

conceitos e noções elaborados por Bakhtin e seus pares comporta inúmeros riscos, cujo mais evidente é a descontextualização, geográfica e científica, das obras.

No artigo “Generalizar o único. Gêneros, tipos e esferas em Bakhtin”, o linguista Patrick Sériot (2007) condena, por assim dizer, a apropriação da aparelhagem teórica de Bakhtin por parte dos cientistas e intelectuais europeus à época das primeiras traduções francófonas do autor na Europa73. Afirmando que a leitura “monológica” (SÉRIOT, 2007, p. 4) e “provinciana” (idem, p. 4) dos textos de Bakhtin na França pecam por “rigor filológico” (idem, p. 4) e conduzem ao anacronismo, Sériot aconselha ler Bakhtin “esquecendo tudo de Ducrot, Benveniste ou Kristeva” (idem, p. 4).

Com efeito, a obra de Bakhtin dialoga com o contexto soviético dos profusos anos 1920-1950, período que assistiu à glória e à derrocada do líder comunista Josef Stalin, fundador da União Soviética. No artigo “Os gêneros do discurso”, datado do início dos anos 1950, Bakhtin teria sofrido pressão para adotar o discurso oficial da época por meio de citações à obra Le marxisme et les questions de linguistique (1950), de autoria de Stalin. De acordo com Sériot, Bakhtin não teria se oposto a essa intervenção, mas seu editor, S. Bočarov, teria suprimido as tais passagens na edição de 1979, publicada após a morte de Bakhtin, que vem a ser a versão traduzida na Europa. Para Sériot, uma vez expurgado na edição dos anos 1970, o artigo responsável por introduzir as noções de gênero e enunciado no ocidente ficou seriamente comprometido.

A exemplo de outros estudiosos – como Todorov (1981) e Nowakowska (2005) – Sériot evoca, ainda, o problema da tradução de termos russos, presentes nas obras originais do círculo, para a tradução francesa. O termo “rečevye”, traduzido para o francês e para o português por “discurso”, no título russo “rečevye žanry” (“gêneros do discurso”), seria lido de uma forma totalmente diferente se traduzido por “fala” (“parole”). A crítica, nesse caso, recai sobre as aproximações entre os conceitos e noções forjados pelo círculo de Bakhtin e a teoria da enunciação e do discurso no contexto científico francês.

73 Poderíamos enxergar o ensaísta e teórico da literatura búlgaro Tzvetan Todorov como um dos alvos dessa

crítica. Considerado o introdutor da abordagem formalista na França, Todorov revê essa posição após entrar em contato com as obras de Bakhtin, podendo ser considerado, igualmente, o introdutor oficial de Bakhtin na França, com a publicação, nos anos 1980, da obra comentada Mikhaïl Bakhtine. Le principe dialogique. No prefácio à obra Estética da criação verbal, de Bakhtin (2003), Todorov considera que o russo inaugurou uma nova linguística, a “translinguística”, que corresponderia à pragmática atual, “cujo objeto já não é o enunciado, mas a enunciação, ou seja, a interação verbal” (BAKHTIN, 2003, p. XXVII), ao passo que, para Sériot (2007), o objeto privilegiado de Bakhtin era o enunciado. Na realidade, a crítica de Sériot se refere à impossibilidade de distinguir, em russo, os termos enunciado e enunciação.

Em particular, Sériot discorda da leitura francesa do “sujeito” em Bakhtin, muitas vezes aproximado da problemática da enunciação. Assim, diferentemente de Benveniste, que opera uma distinção entre o sujeito falante, ou locutor, e o sujeito da enunciação, projetado na língua, Bakhtin sequer propõe um estudo formal da inscrição dos falantes na materialidade verbal. Na realidade, a concepção de linguagem de Bakhtin corresponde, segundo Sériot, a uma abordagem filosófico-antropológica da comunicação, que considera que “o mundo é feito de indivíduos que entram em interação pela fala, mas que pré-existem enquanto indivíduos à tomada da fala” (SÉRIOT, 2007, p. 12).

A mesma crítica é feita com relação à aproximação entre os enunciados típicos dos falantes, os gêneros discursivos, e o conceito de discurso herdado da AD histórica, disciplina em pleno desenvolvimento à época da chegada do artigo na França. Assim, o termo “discurso”, na tradução “gêneros do discurso”, estaria contaminado por uma concepção do sujeito inconsciente e dividido, que caracteriza a abordagem althusseriana e lacaniana da construção do sentido na/pela linguagem.

Para Sériot, o sujeito de Bakhtin é concreto, “feito de carne e osso” (idem, p. 12), consciente e dotado de vontade própria. Se há contato com o outro, este é compreendido como um enriquecimento, o que Sériot interpreta como um aspecto moralizante do pensamento de Bakhtin.

Ce qui importe, dans tous ces cas, est que ces personnages sont des personnes, et non des positions discursives ou des sujets de l'énonciation. Bakhtine insiste constamment sur le fait que ses personnages sont des “participants réels de la communication verbale” (p. 170), des “personnes participant à la communication verbale”, (p. 180), des “participants directs de la communication” (ib). (SÉRIOT, 2007, p. 12)

A penetração das ideias desenvolvidas pelo pensamento do círculo russo, especialmente a teoria do dialogismo, é indissociável, por outro lado, do contexto intelectual em que se desenvolvem as reflexões sobre a literatura. Nos anos 1920, os estudos literários ainda estão dominados pela estética romântica, essa corrente subjetivista combatida pelo círculo desde os primeiros escritos.

O interesse manifesto do círculo pelo caráter difuso e instável das produções verbais concretas e espontâneas dos falantes contribuiu sobremaneira para caracterizar um pensamento profuso e eclético, uma das razões aventadas para o sucesso de suas obras. Volochinov (1981a) mostra, assim, que os gêneros produzidos pelas esferas verbais do cotidiano refletem formas de comunicação “pouco estáveis e fixadas pelo modo de vida e

pelas circunstâncias” (VOLOCHINOV, 1981a, p. 291). Para Bakhtin (2003), a “heterogeneidade funcional” (BAKHTIN, 2003, p. 262) que caracteriza os tipos de enunciados produzidos pelos falantes constituiria, à primeira vista, um entrave à descrição da natureza da linguagem. Para ele, no entanto, tal limitação deveria, ao contrário, instigar os linguistas a extrapolar os limites da frase. Isso porque, para o círculo, a natureza do enunciado é social e não estética, na medida em que está fortemente arraigada na ideologia do cotidiano. Em outras palavras, as formas mais simples da comunicação oral espontânea – os gêneros primários – formariam a base de constituição das trocas culturais mais complexas, em particular as do discurso artístico, científico e sociopolítico, que Bakhtin designa como “gêneros secundários”.

O viés sociológico da abordagem dialógica da linguagem é explicitado em “A estrutura do enunciado”, escrito datado de 1930 e atribuído a Volochinov (1981a). A linguagem é aí definida como “produto da vida social” (VOLOCHINOV, 1981a, p. 288) e os enunciados como “unidade de comunicação e totalidade semântica [que] se constitui e se efetiva precisamente em uma interação verbal determinada e engendrada por certa relação de comunicação social” (idem, p. 290).

Percebe-se, desde o início, o peso determinante do exterior da linguagem, isto é, do contexto74, sobre a matéria linguística na abordagem dialógica. Com efeito, segundo Volochinov (1981a), o “enunciado da vida cotidiana comporta (...), com sua parte verbal expressa, uma parte extraverbal não expressa, mas subentendida, formada pela situação e pelo auditório” (idem, p. 290). A situação, definida como “a realização efetiva, na vida concreta, de tal ou tal formação, de tal ou tal variedade da relação de comunicação social” (idem, p. 289), pressupõe, além do enunciado, a presença de pelo menos dois interactantes. Além disso, é considerada fundamental para a formação do enunciado, ao ponto em que “é somente porque existe algo de ‘subentendido’ que a comunicação e a interação verbais se tornam possíveis” (idem, p. 303).

A abordagem é explicitamente marxista, haja vista que a natureza social da linguagem é associada à “organização social do trabalho e da luta de classes” (idem, p. 287). Para ilustrar a relação da língua às determinações socioeconômicas, Volochinov (1981a) concebe um esquema hierárquico que liga os dois extremos:

74 Volochinov (1981a) fala em “situação”. À primeira vista, trata-se de uma concepção restrita de contexto, ou

seja, limitada ao quadro comunicativo em que se desenrola a interação. Mas, como veremos, o diálogo em face a face constitui uma mera analogia que serve para ilustrar a relação dialógica entre os enunciados do locutor e os outros enunciados (do destinatário, do próprio locutor, dos predecessores e até mesmo de instâncias metafísicas) já proferidos ou aptos a serem proferidos.

ESQUEMA 2 – RELAÇÃO ENTRE LÍNGUA E DETERMINAÇÕES SOCIOECONÔMICAS

Organização econômica da sociedade

Relação de comunicação social

Interação verbal

Enunciados

Formas gramaticais da linguagem FONTE: Volochinov (1981a)

Excluindo o discurso artístico da análise75, Volochinov (1981a) explica em maiores detalhes as relações de comunicação social. Como se vê pelo esquema, a organização econômica da sociedade ocupa o topo do esquema, influenciando, na sequência, as relações de comunicação social, que são de quatro tipos: 1) relações de produção (indústrias); 2) relações de negócios (organismos públicos); 3) relações cotidianas (encontros, conversas); 4) relações ideológicas (escola, ciência, filosofia, propaganda).

As relações de comunicação social, poderíamos dizer, as instâncias discursivas, influem de modo decisivo no quadro da interação, que pode ser compreendido, num primeiro momento, como um diálogo comum, apesar de não se restringir a ele. É precisamente nesse

75 Por questões metodológicas, Volochinov (1981a) exclui o discurso artístico da análise. Mas, como vimos

ponto que surge a teorização mais concisa sobre a teoria do dialogismo na linguagem, não restrita, portanto, ao discurso literário.

O enunciado não nasce no decorrer da troca verbal, não é um ato isolado. No momento preciso da troca, o locutor é aquele que enuncia e o destinatário, aquele que compreende. Mas, diferentemente da concepção tradicional da linguística geral, que estabelece uma atitude passiva para o ouvinte, Bakhtin (2003) e Volochinov (1981a) afirmam que locutor e destinatário pré-existem enquanto indivíduos à interação.

Se, por um lado, o locutor é aquele que enuncia individualmente – nesse sentido, seus enunciados são monológicos – por outro, ele se dirige a um destinatário que, real, virtual ou imaginário76, também é um falante potencial. Portanto, os enunciados do locutor dialogam,

in presentia ou in absentia, com um destinatário. Inversamente, em algum momento o

ouvinte-destinatário se torna locutor, perpetuando, assim, o fluxo da fala. Nessa abordagem, o papel ativo do outro é evidenciado.

...o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante. (BAKHTIN, 2003, p. 271)

A interação oral constitui, na realidade, um simulacro da forma mais natural – “mais simples e clássica” (BAKHTIN, 2003, p. 279) – da comunicação: o diálogo real. A metáfora do diálogo desempenha um papel primordial ao ilustrar o caráter fundamentalmente responsivo dos enunciados. Assim, ao modo da alternância de réplicas em um diálogo, o que precede um enunciado determina, na sequência, sua resposta, a qual, por sua vez, determina uma nova resposta.

76 Volochinov (1981a) considera, de fato, que o destinatário pode não corresponder a um interlocutor real. Nos

casos em que o locutor está sozinho, seu discurso interior é dirigido a um ouvinte virtual ou potencial, “ainda que a representação de tal auditório não seja clara para o espírito do locutor” (VOLOCHINOV, 1981a, p. 294). A constatação do caráter dialógico dos “discursos mais íntimos” (idem, p. 294) é explicada por Volochinov pela imagem de uma reflexão interior, sob a forma de um debate dialogado, com perguntas e respostas, “feito de afirmações seguidas de objeções” (idem, p. 294). Essa “voz da minha consciência” (idem, p. 295) dialoga, ainda, com uma terceira instância, o supradestinatário, assim definida por Bakhtin (2003): “...além desse destinatário (segundo), o autor do enunciado propõe, com maior ou menor consciência, um supradestinatário superior (o terceiro), cuja compreensão responsiva absolutamente justa ele pressupõe quer na distância metafísica, quer no distante tempo histórico. (...) Em diferentes épocas e sob diferentes concepções de mundo, esse supradestinatário e sua compreensão responsiva idealmente verdadeira ganham diferentes expressões ideológicas concretas (Deus, a verdade absoluta, o julgamento da consciência humana imparcial, o povo, o julgamento da histórica, etc.)” (BAKHTIN, 2003, p. 333).

Essa dialogização interior do enunciado corresponde ao que Bres (2005) designa posteriormente “dialogismo interdiscursivo77” e “dialogismo interlocutivo”, assim definidos:

Cette double orientation déterminante vers l’amont et l’aval, se réalise comme interaction elle-même double :

- le locuteur, dans sa saisie d’un objet, rencontre les discours précédemment tenus par d’autres sur ce même objet, discours avec lesquels il ne peut manquer d’entrer en interaction ;

- le locuteur s’adresse à un interlocuteur sur la compréhension-réponse duquel il ne cesse d’anticiper, tant dans le monologal que dans le dialogal. (BRES, 2005, p. 52)

A dialogicidade dos tipos de enunciados não se restringe, entretanto, à interação verbal oralizada. Na realidade, a analogia à forma canônica do diálogo pretende explicar a inter-relação do discurso do locutor ao discurso do outro na estrutura do enunciado, e que, segundo Bakhtin, não concerne às relações sintáticas, isto é, às unidades linguísticas, mas, às relações que existem entre as réplicas do diálogo.

Desse modo, até mesmo nos “campos da comunicação cultural (científica e artística) complexamente organizada” (BAKHTIN, 2003, p. 279), os enunciados possuem uma forte orientação dialógica. O exemplo empregado pelo autor é, novamente, a literatura. Na obra literária, a voz do autor ressoa ao lado das outras obras, nas quais ele se inspira ou às quais se opõe. É importante ressaltar, porém, que o dialogismo não se confunde com o conceito de polifonia, como mostra Nowakowska (2005) na citação a seguir:

Le texte russe fait apparaître que la polyphonie se différencie du dialogisme par le fait qu’elle s’applique au champ d’études littéraires, afin de définir un type particulier d’oeuvre romanesque, alors que le dialogisme est un principe qui gouverne toute pratique langagière, et au-delà toute pratique humaine. La polyphonie décrit les différentes structures d’un type de roman, alors que le dialogisme se déploie dans le cadre de l’énoncé, qu’il soit dialogal ou monologal, romanesque ou ordinaire. (NOWAKOWSKA, 2005, p. 26)

Para evitar os “deslizes polissêmicos” (BRES, 2005, p. 4) da metalinguagem empregada por Bakhtin, Bres (2005) propõe uma distinção entre dialogal/monologal, útil para delimitar os usos de “dialógico” e “monológico”. O modo dialogal refere-se à forma prototípica da alternância de réplicas no diálogo. Nesse caso, pelo menos dois pares gerem a

77 Apesar de se tratarem de problemáticas diferentes, a aproximação com o conceito de interdiscurso, elaborado

interação – locutor e interlocutor – como em uma entrevista, uma mesa-redonda, um fórum de discussão na internet, etc. Já o modo monologal refere-se à gestão individual da troca por um único locutor: um conferencista, um editorialista, um escritor, etc.

A partir dessa distinção, é possível definir o dialógico, como faz Bres (2005), como “a orientação de todo enunciado (...), constitutiva e no princípio de sua produção, (i) em direção dos enunciados realizados anteriormente (...), e (ii) da resposta que ele solicita” (BRES, 2005, p. 52, grifos do autor). Nesse sentido, o enunciado monológico perde sua pertinência. Segundo Bakhtin/Volochinov (2002), a atividade mental do eu só existe em um estágio primitivo, no “instante do ato fisiológico de materialização da palavra” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2002, p. 113). A partir do momento em que a palavra é materializada como signo, isto é, quando ganha um conteúdo ideológico, a atividade monológica “tende à auto-eliminação” (idem, p. 115), visto que “sem uma orientação social de caráter apreciativo não há atividade mental” (idem, p. 114).

Nos escritos dos anos 1950, a teoria do enunciado ganha contornos mais firmes. Bakhtin (2003) falará em gêneros do discurso para definir “tipos relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, 2003, p. 262, grifos do autor), dotados de um tema, um estilo e uma construção composicional mais ou menos recorrentes e associados a uma esfera de utilização da língua.

É igualmente nesse escrito que Bakhtin desloca o alvo da crítica aos formalistas russos para a teoria linguística dos signos, condenando a concepção tradicional do estilo, segundo a qual existiria um estilo individual convivendo lado a lado com outros registros (popular, vulgar, falado, oficial, etc.). Segundo ele, ao postular a existência de um estilo