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Kapittel 3: Data og metode

3.8 Statistisk usikkerhet

A preocupação com o modo de organização e funcionamento dos discursos artísticos remonta à Grécia antiga. Ainda que contestada pelos autores e críticos literários a partir do século XVIII, em grande parte por não apresentar critérios excludentes para os gêneros literários, a poética clássica criou os alicerces do sistema moderno de gêneros.

Para Roberto de Oliveira Brandão (1997), a sistematização fornecida pelos gregos permanece até os dias de hoje27, mas faz-se necessário voltar constantemente aos textos fundadores, a fim de se recuperar os princípios norteadores de um estudo que visava menos a transmitir um ensinamento do que a refletir sobre o conhecimento. Com efeito, a tendência em ver na poética aristotélica um “preceituário de soluções práticas que deviam orientar a

criação e a avaliação das obras concretas” (BRANDÃO, 1997, p. 4) contraria o propósito inicial dos filósofos gregos.

Coube à escola a tarefa de transmitir os conhecimentos elaborados nos manuais de retórica e de poética, pelo método filológico da explicação de textos escritos por autores latinos. Passando a integrar o currículo escolar, a poética, assim como ocorrera com a retórica, sofre por sua vez as imposições naturais do novo contexto de aplicação. Diante das mudanças políticas e sociais observadas ao longo do tempo, a prática de leitura de textos antigos torna-se obsoleta e contribui para artificializar o ensino.

Profondément liées à une perspective normative, les poétiques étaient d’abord faites pour fabriquer des individus cultivés. Elles cherchaient à former les jeunes gens à l’idéal antique en attirant leur attention sur les traits caractéristiques des oeuvres sacralisées pour qu’ils les intériorisent comme des normes constituant par la suite la base de leurs propres productions. (BRANCA-ROSOFF, 1996, p. 195)

O objetivo didático de formar jovens cultos pela orientação clássica vai se complicando à medida que surgem novos gêneros literários e, do ponto de vista pedagógico, à medida que as pesquisas voltadas para a educação estabelecem novos paradigmas, com destaque especial para a linguística do texto e a teoria da enunciação no século XX.

Não obstante a defasagem dos estudos clássicos do ponto de vista de uma concepção moderna dos gêneros, literários e outros, é notável a influência das noções mais elementares da poética clássica para a própria ideia de genericidade. Esta se refere à natureza genérica de toda obra ou texto, fundada na experiência – afinal, as obras são categorizadas, nas bibliotecas e livrarias, por etiquetas convencionais – e/ou na cultura – visto que os “novos” gêneros se reportam, de uma forma ou de outra, aos gêneros precedentes. A genericidade responde, assim, não somente a critérios formais (estilísticos), mas, também, cognitivos e sócio-históricos.

Na Antiguidade grega, o termo “poética” remete à dimensão criativa das formas artísticas em geral, mas, diferentemente de outras artes, que representam pelas cores (pintura), pela voz (música) e pelo ritmo (dança), a poesia é a arte da “imitação (representação) das ações humanas por meio da linguagem” (FERRATER-MORA, 2004, p. 2.306).

Foram os filósofos gregos, em particular Platão e Aristóteles, os primeiros a teorizar sobre os gêneros artísticos da representação das ações humanas pela palavra, que constituem os primórdios das classificações de gêneros na literatura até os nossos dias. Os dois autores

divergiam, entretanto, quanto ao modo de concepção das formas poéticas. Para Aristóteles, elas são consideradas modos de imitação28 (mimèsis), pela justificativa de que “imitar é natural ao homem desde a infância” (ARISTÓTELES, 1997, p. 21) e que “aprender é sumamente agradável não só aos filósofos, mas igualmente aos demais homens” (idem, p. 22). Uma visão condenada por Sócrates e seu discípulo Platão, que viam na ideia de representação o caráter dissimulado dos poetas e o descompromisso para com a finalidade última da filosofia, a saber, a busca da verdade.

Nesse trabalho, optamos por examinar a teorização fornecida por Aristóteles, tendo em vista que a literatura ocidental desde sempre se reportou à Arte Poética. Além disso, ela nos interessa pelos problemas que coloca para nossa reflexão sobre a noção de gênero nas ciências da linguagem.

Logo no início da Arte Poética, Aristóteles (1997) define a poética como “a arte que se utiliza apenas de palavras, sem ritmo ou metrificadas, estas seja com variedade de metros combinados, seja usando uma só espécie de metro” (idem, p. 19). Estabelecendo cinco

espécies de representação – “a epopeia, o poema trágico, bem como a comédia, o ditirambo

e, em sua maior parte, a arte do flauteiro e a do citaredo” (idem, p. 19), Aristóteles fornece as bases do sistema de gêneros empregado pela literatura ocidental, representado pela tríade

lírico-épico-dramático.

Essa tripartição baseia-se, por sua vez, nos modos de representação, que vêm a ser critérios puramente enunciativos. Assim, no gênero lírico (ditirambo29) fala o poeta. No gênero épico (epopeia ou poesia épica), falam o poeta e as personagens. No gênero dramático (tragédia e comédia), falam as personagens. A imitação propriamente dita se dá “pelo ritmo, pela palavra e pela melodia” (idem, p. 19).

As espécies de poesia se distinguem em três níveis: “imitam ou por meios diferentes, ou objetos diferentes, ou de maneira diferente e não a mesma” (idem, p. 19). Assim, no gênero dramático, a tragédia representa “ações” (temas) sérias – “da vida, da felicidade, da desventura” (idem, p. 25) – realizadas por caracteres superiores, reais e fictícios e “melhores

28 Os gêneros da poética eram encenados, razão pela qual o termo “representação” é mais comumente empregado

no lugar de “imitação”.

29 O ditirambo se define como um hino coral em louvor ao deus Baco. Segundo Collot (2001), “nas origens de

todas as literaturas, a forma versificada aparece em relação estreita com a tradição oral” (COLLOT, M. “Poésie”. In: Dictionnaire des genres et notions littéraires, 2001, p. 590-599). Concebidos para serem encenados diante de uma plateia, os gêneros eram indissociáveis de recursos corporais e vocais, que contribuíam para uma melhor comunicação das ideias e sentimentos. A partir do desenvolvimento das literaturas escritas, especialmente no final da Idade Média, a forma versificada passa a se limitar ao gênero lírico, que corresponde atualmente à forma canônica do poema, com versos, rimas, imagens e embreagem enunciativa de primeira pessoa (“eu lírico”). Ainda segundo Collot, no poema, o significado entretém uma relação profunda com o significante (forma).

do que nós” (idem, p. 35), como, por exemplo, na tragédia Antígona, de Sófocles. A comédia representa personagens inferiores, fictícios, “por ser o cômico uma espécie do feio” (idem, p. 24). Próxima da tragédia, a epopeia representa ações da ordem do maravilhoso, baseadas em narrativas históricas reais, compostas por personagens reais ou fictícias, de caracteres igualmente superiores, como na Ilíada, de Homero.

No tocante à linguagem, Aristóteles apenas menciona a tragédia e a epopeia. Segundo ele, ambas são “imitação metrificada de seres superiores” (idem, p. 24). Há, entretanto, algumas diferenças estilísticas substanciais entre as duas espécies. A epopeia desenvolve uma metrificação uniforme e seu estilo é prosaico, isto é, próximo das “palavras correntes” (idem, p. 44) ou “termos ordinários” (idem, p. 44). A tragédia faz amplo uso de uma linguagem “clara sem ser chã” (idem, p. 43), com uso expressivo de tropos (metáforas e analogias).

Ambas diferem, ainda, quanto à organização textual (“partes”). A tragédia é mais prescritiva do que a epopeia, exibindo um plano textual composto por: prólogo, episódio, êxodo e canto coral. Já a epopeia, por ser narrativa, não tem duração limitada.

Na tabela a seguir, concentramos as principais características dos gêneros e espécies de poesia estabelecidas pela poética aristotélica.

TABELA 2 – GÊNEROS DA POÉTICA CLÁSSICA SEGUNDO ARISTÓTELES

GÊNEROS

Espécies Tema Caracteres Estilo Organização textual Modos de enunciação LÍRICO Ditirambo Não mencionado Não mencionado Vocábulos duplos; Metáforas Não mencionado Poeta ÉPICO Epopeia Narrativa histórica Elevados Termos correntes ; Vocábulos raros Narrativa Poeta e personagens DRAMATICO Tragédia

Comédia Cômico/feio Desventuras Elevados Baixos Tropos Metrificada Personagens

FONTE: O Autor

Como é possível observar, o gênero lírico, representado pelo ditirambo, é apenas sugerido por Aristóteles, no início da Arte Poética, como o gênero que representa ações pela voz do poeta. Por outro lado, a comédia é definida como a representação de caracteres

inferiores, não havendo menção aos seus outros elementos constitutivos. Na realidade, a poética de Aristóteles trata essencialmente da tragédia e da epopeia30. Uma das razões aventadas para o caráter rudimentar da obra é o fato de ela não ter sido redigida por Aristóteles, constituindo apenas anotações escritas de suas aulas. Diz-se, ainda, que esses escritos chegaram ao ocidente em uma versão fragmentada. Esse e outros fatores fazem com que o tratado poético legado por Aristóteles seja considerado por muitos autores como um “princípio de classificação” (COMPAGNON, 2001), e menos como um sistema definitivo de gêneros literários.

Tal como é conhecida hoje, a tríade poética corresponde a uma concepção historicista dos gêneros literários, após séculos de ajustes e modificações, no vasto período que vai da Idade Média ao final do século XVIII.

1.3 OS GÊNEROS LITERÁRIOS NO OCIDENTE: DA IDADE MÉDIA AO SÉCULO XIX