5.2 CSD analysis
5.2.2 Application to Breast Cancer Intrinsic Subtypes
Figura 2: Philippe Pinel10
Philippe Pinel nasceu em 20 de Abril de 1745, em Jonquières, no sul da França e morreu aos 81 anos em Paris, em 25 de Outubro de 1826. Filho de médico, Pinel estudou teologia em Toulouse, depois matemática. Graduou-se em medicina em 1773, aos 28 anos. Em 1778, fixou-se em Paris, onde trabalhou como professor de filhos de famílias ricas. A partir de 1886 trabalha na “Pensão” de Jacques Belhomme, destinada a receber doentes mentais ricos.
Marceneiro de ofício, Belhomme e sua esposa resolveram abrir essa casa para acolher inicialmente imbecis e dementes, mas por influência de Pinel passou a receber todo tipo de alienado. Após esta primeira experiência com a doença mental, Pinel foi nomeado médico do hospício de Bicêtre por um decreto datado de 06 de agosto de 1793, assumindo suas funções no dia 11 de setembro do mesmo ano. Antes de chegar a ocupar este posto, no entanto, Pinel já havia publicado suas impressões acerca da doença mental e seu tratamento em 1789 na “Gazette de
Santé” , segundo Domont de Serpa (1996):
Este artigo, intitulado “Observations sur le régime moral qui est le plus propre à rétablir; das certains cas, la raison égarée des Maniaques”, consiste na primeira abordagem daquilo que será considerada a grande originalidade da medicina mental, o tratamento moral.Por “regime moral”, Pinel vai entender aqui, sobretudo, um tratamento destinado à organização da vida do paciente no ambiente hospitalar. No entanto, abordará aspectos referentes à relação do médico com os seus pacientes, enfatizando o tipo de atitude que aquele deve ter em relação a estes: autoridade, firmeza, benevolência, compreensão. Neste trabalho, mencionará também a necessidade da melhoria dos estabelecimentos públicos destinados aos alienados e destacará a importância da assiduidade e da presença dos médicos junto aos insensatos que têm sob seus cuidados. (DOMONT DE
SERPA, 1996, p.34).
É em Bicêtre que Pinel vai colocar em prática muitas dessas idéias pois este Hospital “[...] só recebia os loucos tidos como incuráveis e o seu ambiente, em muito se assemelhava a uma prisão. Muitos eram os loucos que viviam acorrentados” (DOMONT DE SERPA, 1996, p.35). Pinel argumenta na direção contrária: logo depois, em outubro de 1800 publica seu Tratado médico-filosófico sobre a alienação
mental ou a mania, onde irá defender que a melhor postura em relação aos
alienados deve ser “franca e amistosa”:
Na própria enfermaria dos alienados, que era isolada do hospício e estava fora da vigilância do chefe comum, quantas vezes aconteceu, em função de brincadeiras infelizes ou tolas zombarias dos enfermeiros ou de grosserias brutais, que alienados calmos, e em vias de cura, recaíssem em acessos de furor, por contrariedades descabidas ou atos de violência? Contrariamente, alienados transferidos para o hospício, considerados em sua chegada como sujeitos a grandes transtornos e suscetíveis a atos perigosos, por terem sido exasperados por pancadas e maus tratamentos anteriores, parecem repentinamente adquirir o natural oposto, porque se lhes falava com brandura, porque suas infelicidades mereciam compaixão e porque lhes era dada a esperança consoladora de um destino mais feliz A convalescença tinha a seguir, os progressos rápidos ocorrendo sem nenhum outro artifício. Enfim, a experiência mais constante não ensina que, para tornar mais duráveis e sólidos os efeitos do temor, esse sentimento deve ser aliado com o da estima, à medida que a razão retoma seus direitos? O que supõe que a repressão não se caracterize pelo caráter intempestivo, nem pela rigidez arbitrária, e que não foi empregada senão para vencer a petulância indócil do alienado com uma força apenas proporcional ao seu grau de resistência, e que se não foi levado senão pelo desejo sincero de restituir o alienado a si mesmo, como poderá comprovar, imediatamente após seu arrependimento, uma explicação franca e amistosa. Aí estão os princípios seguidos estritamente no hospício de alienados de Bicêtre. (PINEL, 2007, p.113).
Pinel permaneceu em Bicêtre até o início de 1795, a partir de quando se tornaria médico-chefe do hospital de Salpêtriere até sua morte, em 1826. Também foi professor da Escola de Medicina de Paris, de 1794 a 1822, primeiramente como
adjunto das disciplinas de higiene e física médica, depois ocupando a cátedra de Patologia Interna (MOREL, 1997).
O gesto libertador de Philippe Pinel desacorrentando os loucos em Bicêtre é relatado como sendo empreendido pessoalmente por ele. No entanto, autores como Domont De Serpa (1996), Weiner (1994) e Oda e Dalgalarrondo (2007) comentam que o “gesto de Pinel” nunca ocorreu de fato, sendo um mito construído após sua morte por pessoas próximas a ele, apesar de suas incansáveis defesas de um tratamento mais humanizado aos insanos. 11
O conceito de mito será tomado nesta tese a partir de autores como Silva (2005) que o enuncia tendo como referência o filósofo Roland Barthes:
Já em Mitologias, primeiro trabalho assumidamente semiológico de Barthes, pratica-se a conjunção entre os pólos lingüístico e social, a partir da qual se articula uma possível função para os estudos semiológicos. Aí, estuda-se o mito, isto é, o processo semiológico praticado em torno de uma determinada classe, no caso, da burguesia. Para Barthes, o mito é o fenômeno semiológico que oblitera seus vínculos sociais, políticos e históricos para que seus valores sejam apresentados como algo factual: "todo o sistema semiológico é um sistema de valores; ora, o consumidor do mito toma a significação por um sistema de fatos: o mito é lido como um sistema factual, ao passo que ele é, apenas, um sistema semiológico". Trata-se da indiscriminada proliferação de valores burgueses na cultura de massa dos anos 1950 (filmes, jornais, espetáculos, programas de televisão, política etc.), que naturaliza esses valores, tornando-os fatos por meio dos quais a sociedade concebe e sanciona a si mesma. (SILVA,
2005, p. 4).
Em Bicêtre, Pinel havia encontrado um ex-paciente que ficou internado por nove anos tratando de tuberculose ganglionar: Jean-Baptiste Pussin. Após ter sido curado, Pussin optou por permanecer no Hospital, prestando serviço como governador do “Pavilhão Saint-Prix”, destinado aos insanos. Assim como Pinel, ele também defendia uma postura mais amigável com os doentes mentais. A relação que se inaugurou entre Pinel e Pussin continuou em Salpêtriére:
11 Voltaremos a abordar essa questão acerca do mito libertador de Pinel no fim desse trabalho, pois
Hermelino Lopes Rodrigues é apontado como o “Pinel Brasileiro” por alguns autores. Pelo material pesquisado é possível que um mito semelhante tenha sido formulado em torno da figura de Rodrigues, como veremos .
Figura 3: Pinel desacorrenta os loucos12
Uma vez instalado no outro serviço, Pinel se empenhará incansavelmente para ter novamente ao seu lado o seu “fiel escudeiro”, o que obterá em 1801. Pussin permanecerá na Salpêtriére até a data de sua morte em 1811. Pinel o substituirá por ninguém menos que aquele que será seu ilustre discípulo, Esquirol. Nesta ocasião se encerrará a colaboração, fundamentada numa partilha hierarquizada de tarefas, entre o médico- chefe e o “empírico”. (DOMONT DE SERPA,1996, p.37).
Para além da classificação das manifestações mentais dos doentes atendidos por Pinel, neste trabalho interessa o aspecto da eleição clínica, da presença sensível de um olhar a partir da freqüência assídua ao campo da observação. Esse esmero se tratava do desejo de se aproximar ao máximo da realidade do doente ou como nos diz Paul Bercherie, “[...] uma freqüentação tão extensa quanto possível do real, isto é, no caso, da clínica, donde sua confiança nas opiniões de homens “desprovidos” de saber, como Pussin, o vigia de Bicêtre” (BERCHERIE, 1980, p.33). O trabalho de Pinel continua a partir de seu discípulo, Esquirol.
12 Fonte: www.culture.gouv.fr/.../images/096.jpg. Essa tela é do pintor Tony Robert-Fleury (1837-