• No results found

3.5 Investigation of Network Modules

4.2.2 Hubs and Assortativity

Os avanços da segunda metade do século XIX formaram o cenário para o trabalho de uma das mais importantes e influentes figuras da história da psiquiatria e mesmo da história da civilização ocidental: Sigmund Freud. Ele nasceu em 1856 na pequena cidade industrial de Freiberg, na província austríaca da Morávia, se mudando aos três anos para Viena. Dessa forma, mesmo não sendo suíço, Freud se aproxima mais dessas contribuições do que das francesas e alemãs.

Quando Freud iniciou seus estudos, a medicina estava tomada pelas ciências naturais. Em relação à sua orientação científica, era um autêntico representante de seu tempo: era um grande estudioso de neurologia e histopatologia23. Graças a uma observação cuidadosa e um raciocínio rigoroso, Freud sabia o que era um prova científica, e legitimou a Psicanálise como um método que efetivamente produzisse efeitos sobre o comportamento humano, apesar das bases desse procedimento não obedecerem a um padrão estritamente científico.

A contribuição de Freud ao conhecimento da natureza do homem é inestimável. Logo no início de sua carreira, Freud percebeu que na base da cura das doenças mentais está a compreensão da sua natureza e para interpretar um fenômeno é preciso observá-lo sistematicamente. Isso levou ao princípio vitalmente significativo da Psicanálise como método de observação. Como resultado, Freud conseguiu pela primeira vez uma explicação do comportamento humano em termos psicológicos e demonstrar que este pode ser modificado nas circunstâncias adequadas.

Esse fato marcou de modo inequívoco os rumos da psiquiatria. Como vimos neste capítulo, não era a primeira vez que aspectos de outra ordem que não os biológicos eram abordados no estudo das manifestações mentais. Apesar de Freud ter dito que um dia a psicologia seria substituída pela química, segundo Alexander & Selesnick, (1968), ele se debruçou nos estudos sobre o inconsciente, base de todo seu método. A psiquiatria nunca mais seria a mesma, segundo Franz Alexander e Sheldon Selesnick:

Que circunstâncias históricas predestinaram Freud a introduzir com êxito o método psicológico na psiquiatria após terem malogrado sistematicamente as tentativas iniciais anteriores? Vimos como os psiquiatras românticos, apenas meio século antes, haviam reconhecido que a doença psiquiátrica exige métodos psicológicos de conhecimento e tratamento. (...) No entanto esse período psicologicamente orientado teve curta duração. Então, o que levou Freud a vencer onde seus predecessores falharam? Da perspectiva do presente a resposta é simples: Freud tornou operacional o que outros antes dele – entre os quais Pinel, mais de cem anos antes postularam em termos gerais e vagos: que a doença mental é resultado de experiências de vida de uma pessoa. (ALEXANDER & SELESNICK, 1968, p. 246).

23 Histopatologia é o estudo das doenças (patologias) que acometem a estrutura microscópica dos

Figura 8: Sigmund Freud24

Desta forma, a biografia de uma pessoa passava a ser de extrema importância na pesquisa da gênese de uma manifestação mental. Em 1895, Freud desenvolve o método da “livre associação”, que consistia em pedir a seus pacientes que abandonassem o controle consciente sobre seus pensamentos, dizendo tudo que lhes vinha à cabeça. A partir desse fluxo, Freud procurava organizar o material que escutava do paciente. Em 1896, Freud empregou pela primeira vez o termo “psicanálise”.

A Psicanálise, por suas características, se propõe a analisar e interpretar o inconsciente também através da interpretação de sonhos. Quanto mais Freud interpretava sonhos, mais se convencia que os impulsos sexuais desempenhavam

um papel decisivo sobre as doenças mentais, o que não era uma opinião fácil de sustentar na virada do século XIX para o século XX. Freud se sente sozinho, conforme podemos verificar na citação abaixo:

As idéias de Freud mudaram muito a concepção do homem sobre seu próprio eu. Inevitavelmente provocaram violenta reação, de início quase universal, que durante dez anos ele teve de enfrentar no que chamou de “esplêndido isolamento”. Durante a última década do século XIX, quando esteve tão isolado, Freud sofria com a solidão. Todavia, como observou mais tarde, podia também concentrar-se em seu trabalho sem ser perturbado pelas dissensões que logo surgiram entre seus primeiros adeptos e pela necessidade de discutir com adversários mal informados.

(ALEXANDER & SELESNICK, 1968, p. 281).

Não seria sem razão, portanto, que muitos anos depois Hermelino Lopes Rodrigues compararia Freud com Robinson Crusoé perdido em sua ilha. No início do século XX, no entanto, Sigmund Freud começa a sair de sua “esplêndida solidão” e o movimento psicanalítico procura novos adeptos para se fortalecer. Em 1902, um pequeno grupo de médicos começou a se reunir na casa de Freud, até que em 1907, em Viena, organizou-se a primeira Sociedade Psicanalítica formal, com Freud na direção. Também é em 1907 que Freud se encontra pela primeira vez com Carl Jung (1875-1961), Karl Abraham (1877-1925) e Max Eitingon25 (1881-1943), todos

eles alunos de Eugen Bleuler no Burghölzi, hospital público de doenças mentais, em Zurique.

Em 1910, foi realizado em Nuremberg o segundo congresso psicanalítico internacional, ocasião da fundação da Associação Psicanalítica Internacional. Ernest Jones (1989), em sua biografia de Freud, aponta que ele pensava a Associação a partir de uma estrutura hierarquizada ao invés de uma organização democrática. Não era o que pensava Eugen Bleuler, conforme a citação abaixo:

A rigidez resultante foi responsável por grande parte da controvérsia que envolveu o movimento psicanalítico, da qual a primeira vítima foi Eugene Bleuler (1857-1939), professor de psiquiatria no hospital de Burghölzli. Bleuer retirou-se da Associação por motivos que tinham relação com seu desprazer pela maneira autoritária como estava sendo dirigida a entidade. Freud tentou, mas sem êxito, convencer Bleuler a reingressar na sociedade. A correspondência entre os dois sobre essa questão sugere que profundas divergências sobre orientação cultural talvez tenham sido um fator significativo. No que se refere ao movimento psicanalítico e ao papel que a psicanálise desempenhou na história da psiquiatria, é

25 Segundo Alexander & Selesnick (1968), Max Eitingon foi o primeiro psiquiatra a submeter-se a uma

lamentável que esses dois homens de absoluta integridade não pudessem colaborar mutuamente, mas de qualquer maneira, isso era inevitável.

(ALEXANDER & SELESNICK, 1968, p.282-283).

Não foi apenas pela competência de Bleuler que Freud tentou fazer com que ele voltasse para a sociedade psicanalítica. Mais que os seus discípulos, Freud percebia que através do Hospital de Burghölzli a psicanálise talvez pudesse se estabilizar academicamente, principalmente pelo respaldo de um importante representante da psiquiatria acadêmica como Bleuler.

Após o rompimento com Bleuler, Freud ainda tinha esperanças de que a psiquiatria suíça pudesse sustentar a psicanálise nos moldes concebidos por ele e ainda tinha esperança de que Jung participasse com ele na liderança do movimento psicanalítico. Porém, a orientação de Jung em relação à psicologia era afetada por

um pensamento um pouco mais místico. Mas esse não era o único problema. O rompimento com Jung teve razões diferentes das de Bleuler: Jung escrevera da

América para Freud afirmando que estava conseguindo vencer as resistências ao texto freudiano e que pensava que talvez o fator sexual não fosse tão importante na neurose. Esse era um ponto intocável na ótica de Freud, que “[...] odiava concessões em questões científicas” (ALEXANDER & SELESNICK, 1968, p. 287).

Não obstante esses rompimentos, no fim da primeira década do século XX, a influência de Freud sobre a psiquiatria não se limitou a seus adeptos. De todos os psiquiatras acadêmicos desta virada de século, o professor Eugen Bleuler era um dos que mais tinha uma concepção da importância que os aspectos psicológicos tinham na composição dos quadros mentais. Isso o tornou singularmente suscetível aos ensinamentos freudianos, conforme veremos a seguir.