A partir da escolha da metodologia geral desta tese, foi preciso escolher fontes de pesquisa. Porém, antes de ir ao campo, uma pergunta me guiou: o que perguntar às fontes? Eu estava buscando categorias de pesquisa, eixos, pontos de demarcação, enfim, eu precisava de uma “bússola” para mapear meu campo. O próprio roteiro desenhado por Latour foi este guia. Assim sendo, procurei por informações que me dessem notícias das conexões entre os circuitos que poderiam (ou não) fazer parte do Projeto Lopes Rodrigues. Evidentemente, não há como conectar o que não se conhece. Desta forma, cada vez que entrava em contato com um elemento que fosse inerente ao meu objeto, eu o recolhia e o estudava, sem saber a priori, se ele teria condições de ser aproveitado não apenas como uma
descrição, mas como uma conexão.
8 Fonte: LATOUR, Bruno. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos
Por exemplo, quando descobri, pelos jornais de 1929, que a nomeação política de Lopes Rodrigues como diretor do Instituto Raul Soares tinha sido tão conturbada, não imaginava como aquela “posse triunfante” seria tão importante para o desgaste das relações de trabalho dentro do Instituto. Muito menos imaginava em que medida esse evento traria conseqüências muito mais abrangentes, atrapalhando em alguma medida, o tratamento dos doentes mentais do Instituto Raul Soares e atingindo seu trabalho como professor. Estou falando de conexões entre política, medicina, sociedade e educação, no mínimo.
As fontes primárias e diretas como os jornais foram as que mais apontaram para o meu objetivo. Os jornais são extremamente interessantes. Eles nos mostram a notícia que estamos investigando entre outras tantas daquele dia pesquisado. Em volta da notícia procurada, algumas totalmente conectadas, ou nada conectadas àquela, e outras possivelmente conectadas.
Os jornais e as revistas de circulação entre 1920 e 1930 foram instrumentos fundamentais para me embasar nas informações coletadas, e principalmente para efeito de avaliação da difusão dos conhecimentos e notícias entre comunidades como a cidade de Belo Horizonte, a Faculdade de Medicina, ou entre estes contextos e a realidade carioca. Basicamente, a leitura sistemática desses jornais me ajudou a reunir informações indispensáveis para minhas análises e considerações finais presentes nesta tese. Posso adiantar que esse trabalho de coleta permitiu, através das minhas apropriações, novos olhares sobre fatos já narrados na história da psiquiatria, e me ajudou a dimensionar ou redimensionar o impacto de vários fatos descritos e analisados no decorrer desta pesquisa.
Os jornais pesquisados estavam principalmente na Hemeroteca Municipal de Belo Horizonte, no Arquivo Público Mineiro, nos arquivos do Jornal Estado de Minas, no Arquivo da Imprensa Oficial, na Seção de Obras Raras da Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Biblioteca Central da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. A escolha dos anos obedeceu ao meu recorte temporal e aos fatos correlatos ao meu objeto. Muitos outros jornais foram consultados, mas o quadro abaixo reúne os que mais forneceram dados para esta pesquisa. O ano de 1929 foi o mais explorado, por ser o ano em que se desenvolveu o Projeto Lopes Rodrigues.
DENOMINAÇÃO DO
JORNAL ANO PERÍODO
Jornal Minas Gerais 1922 Julho/Agosto/Setembro
1923 Todos os doze meses
1924 Agosto/Setembro
1929 Todos os doze meses
1930 Todos os meses, exceto
Maio e Junho
Jornal Estado de Minas 1928 Agosto/Setembro
1929 Todos os doze meses
1930 Todos os doze meses
Jornal Diário de Minas 1929 Todos os doze meses
Jornal “O Horizonte” 1929 Todos os doze meses
Correio Mineiro 1929 De Julho a Outubro
Diarinho Reclame 1929 Abril e Maio
Jornal da Noite 1929 Novembro
Jornal Acadêmico 1929 Janeiro
Folha da Noite 1929 Abril
Revista Ilustração Mineira 1929 De Abril a Setembro
Quadro 1: Listagem de jornais pesquisados
Algumas revistas de circulação ampla também tiveram importância. Em uma delas (Ilustração Mineira) havia uma reportagem inteira (OS CONSAGRADOS, 1929) sobre Lopes Rodrigues. A dificuldade maior, no caso das revistas, era a irregularidade de sua existência, ou por não terem sido encontradas em um mesmo local, ou por interrupção de sua publicação.
Revistas científicas também foram pesquisadas, porém as principais só começaram a circular depois do ano de 1930, como é o caso da Revista dos
Arquivos de Assistencia Hospitalar do Estado de Minas (1933-4), publicação
trimestral dirigida por Zoroastro Vianna Passos (1887–1945) e da Revista dos
Arquivos de Neurologia e Psiquiatria (1940), fundada por Galba Velloso. Além disto,
temos a Revista Médica de Minas, da qual Lopes Rodrigues era um dos editores, também a partir de meados da década de 1930.
Os referenciais teóricos usados para dimensionar a apropriação de Lopes Rodrigues relativos ao então recente conceito de esquizofrenia no Brasil, foram encontrados na leitura de suas teses para o Concurso de professor Catedrático em
Clínica Psiquiátrica, de 1926 (RODRIGUES, 1926a e 1926b). Ambas as teses estão arquivadas no Centro de Memória da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, e se revelam um original e autêntico material para outros estudos, como a história da recepção do debate europeu acerca das mudanças que levaram à progressiva adoção do termo esquizofrenia no Brasil. Esse termo foi descrito na introdução e será discutido no próximo capítulo desta tese.
O grande referencial teórico das idéias que guiavam Lopes Rodrigues em seu projeto está mesmo é no seu relatório de gestão (RODRIGUES, 1930a), repleto de menções aos avanços da psiquiatria contemporâneos ao Projeto Lopes Rodrigues e que foram fundamentais para mapear suas apropriações em termos de teoria e prática.
Leis e mensagens presidenciais foram muito úteis, principalmente por localizar com mais segurança as conexões que aparecem entre psiquiatria e política nesse período. Por muito tempo, os documentos oficiais permaneceram como as únicas ou principais fontes das pesquisas em história da educação. Para mim, de acordo com Galvão e Batista (2003), esses documentos ajudam a instituir e normatizar aquilo que deveria já estar instituído ou por se constituir, ou seja, projetam, em muitos casos, uma situação ideal.
Pesquisamos várias leis que organizaram a assistência aos doentes mentais a partir de 1893 até 1930, com ênfase no período escolhido (1920-1930), demarcadas pelas categorias de pesquisa. Essas leis nem sempre foram efetivadas, mas seu estudo foi fundamental para a determinação de ações no âmbito da psiquiatria. Documentos como “Mensagens Presidenciais” também foram utilizados, principalmente de 1900 a 1930, sendo privilegiadas aqueles onde a assistência e sua relação com ensino em psiquiatria era contemplada. As leis foram pesquisadas na Coleção de Leis do Arquivo Público de Minas Gerais (1893-1946) e na Hemeroteca Pública de Belo Horizonte.
Em 1927, uma nova mudança na legislação referente aos alienados, com o decreto 5148-A (Reorganiza a Assistência a Psychopatas no Districto Federal), reflete algumas “trocas de denominação” nas categorias referentes à doença mental. Apesar da aparência de uma simples mudança de designação, este decreto na verdade traduziu uma dimensão ampliada do grau de periculosidade contido no antigo termo "psicopata" que substitui "alienado" na ementa do novo decreto que regulamenta a assistência. Como um efeito desse decreto no cotidiano da
organização assistencial aos doentes mentais mineiros, o próprio Instituto Raul Soares, a partir de 1927, passou a ser gerido em termos legais pela Secretaria de Segurança e Assistência Pública substituindo a Secretaria do Interior, o que gerou a superlotação já referida neste trabalho.
O estudo de documentos pedagógicos foi imprescindível nesta tese. Eles podem ser divididos em dois grupos. No primeiro, localizo os mais formais, como as inúmeras atas da Congregação da Faculdade de Medicina e normas e estatutos regentes do funcionamento da faculdade. Em um segundo grupo, que chamo de
documentos informais, estão reunidos registros de horários de aulas, anotações em
caderno, anotações dos professores e outros vestígios que fornecessem notícias sobre o cotidiano daquela comunidade acadêmica. No enfoque que quis dar a este trabalho, confesso que eram os que mais me interessavam.
Não obstante ao meu interesse e esforço, consegui muito menos documentos
informais do que gostaria ou imaginava existir. No início, eu vivia atrás de cadernos
da época, pequenas anotações, detalhes que me auxiliassem a sair daquela neutralidade e repetição que havia no tom monocórdio das atas e leis. Como todo esforço gera algum produto, achei muitas pérolas, como o programa de curso de Clínica Psiquiátrica do professor Lopes Rodrigues para o ano de 1929, e quadros com horários das aulas e locais onde elas aconteciam. Embora o leitor possa estar neste momento pensando como me apropriei desses documentos, terá que esperar por minhas “considerações finais”. Custei a me dar conta que estava procurando relatos sobre o cotidiano de 1929, simplesmente separados por quase oitenta anos do momento em que apresento esta tese (2008).
Penso que parte desta pretensão descobridora de fontes mais precisas de vestígios íntimos de um outro tempo, foi o fato de ter tido contato com um material fotográfico riquíssimo. Fiz questão de reproduzir esse material nesta tese, tanto pelo interesse que causa, quanto pela importância documental adquirida por eles após todos esses anos. É necessário afirmar que essas fotos não estavam adequadamente arquivadas e identificadas, e sim perdidas entre caixas de papelão empilhadas e mofando. Foi preciso o auxílio de um profissional da área para me ajudar, e pretendo em breve organizar esse e outros materiais no Centro de Memória do Instituto Raul Soares.
Sobre a metodologia do uso de fotos em trabalhos acadêmicos, é importante tecer algumas considerações. Segundo Kossoy (2001):
Toda fotografia é um testemunho segundo um filtro cultural, ao mesmo tempo em que é uma criação a partir de um visível fotográfico. [Desse modo,] toda fotografia representa o testemunho de uma criação. [E,] por outro lado, ela representará sempre a criação de um testemunho
(KOSSOY, 2001, p. 50).
A pesquisa em História já apontou que a fotografia deixou a muito tempo de servir como uma simples ilustração em trabalhos de cunho historiográfico. Conectada com variadas fontes, a imagem fornece uma via de acesso para o alcance de cotidianos e experiências passadas. Em alguns momentos, a foto foi inserida no texto nesta tese para fornecer ao leitor uma aproximação com aquele contexto, com aquele dia descrito, com aquela experiência que estava sendo analisada. Para realizar este trabalho vi dezenas de fotos de Belo Horizonte entre 1920 e 1930 (tarefa realizada com muito prazer, aliás). As fotos também apontam conexões: “[...] a memória do indivíduo depende do seu relacionamento com a família, com a classe social, com a escola, com a profissão; enfim, com os grupos de convívio e os grupos de referências peculiares.” (BOSI, 2001, p. 54).
No campo da Educação e sua História, as fotos também vêm sendo usadas em trabalhos sobre historiografia educacional. Trabalhos como os de VIDAL (1998), SOUZA (2001) e MORAES e ALVES (2002) destacam o papel da fotografia como “[...] imagens do passado, que apesar de desterradas do caráter de uma verdade, abrem-se à leitura de múltiplas verdades sobre o ontem” (VIDAL, 1998, p. 86). Aqui vai um agradecimento pessoal a Juliano Moreira pelo conselho dado a Lopes Rodrigues por meio de uma carta, para que fotografasse sua experiência: “Não se esqueça de ir documentando tudo que fôr fazendo (...) Documente-se o quanto puder. Envie-me algumas fotografias” (MOREIRA apud PIRES, 1959, p. 68). Depois desta tese, as fotografias viraram mais que simples registros para seu autor. São também documentos de uma época.
Embora eu não tenha desenvolvido uma metodologia própria para Relatos
Orais, e não tenha desenvolvido nenhum instrumento como a construção de um
questionário formal nesta pesquisa, eu tive contatos e conversas com pessoas que foram ex-alunos de Lopes Rodrigues em 1959. Muito interessante também o contato com a secretária de consultório particular de Lopes Rodrigues, que aos 93 anos me concedeu uma agradável entrevista. Na verdade, achei que já tinha fontes suficientes e, além disso, os ex-alunos de 1959 afirmaram duas idéias muito
repetidas em suas falas: a primeira, é que Lopes Rodrigues era muito sedutor do ponto de vista intelectual, demonstrando imensa erudição. A segunda fala deles é que naquele tempo, poucos médicos se interessavam por psiquiatria, uma disciplina e uma prática que afirmam terem aprendido por conta própria9.
Infelizmente, não consegui encontrar informações detalhadas sobre os dados biográficos de Hermelino Lopes Rodrigues. Procurei principalmente na Bahia, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, sendo ajudado por pessoas que se propuseram a levantar dados acerca da sua vida. O que mais encontrei foi uma “biografia acadêmica”, com dados sobre Lopes Rodrigues a partir da época em que ele estudava na Faculdade de Medicina de Salvador (1915-1919). Não consegui contato com nenhum familiar de Rodrigues. Graças à dedicatória que ele escreveu em livro seu (RODRIGUES, 1934), descobri que foi casado com uma senhora de nome Eunice, de quem ficou viúvo. Não consegui descobrir se teve filhos ou se tem descendentes vivos.
Do mesmo modo, Lopes Rodrigues não deixou muitas pistas acerca do seu foco de interesse após sua saída da direção do Instituto. Na Academia Nacional de Medicina encontrei uma lista dos trabalhos que publicou, mas eles vão apenas até 1941, quando Rodrigues se torna membro da Academia. A única referência que encontrei sobre a sua infância foi uma menção que o seu professor de psiquiatria, Henrique Roxo, fez em uma solenidade. Segundo Roxo, quando perguntavam a Lopes Rodrigues sobre o motivo de tanta reserva acerca de seus assuntos pessoais, ele respondia que quando criança tinha recebido o seguinte conselho de sua mãe: “Meu filho, nunca deixe o mundo ver o fundo do seu coração” (BRASIL, 1959, p.79). Psiquiatras radicados em Salvador e que conheceram Lopes Rodrigues, como Carlos Alberto Kruschewsky, me informaram recentemente que há grandes chances de Rodrigues ser filho do famoso pintor Manoel Lopes Rodrigues. Não consegui confirmar esta informação em nenhuma referência encontrada.
9 Dos ex-alunos de Lopes Rodrigues, pelo menos três deles, Athaulfo da Costa Ribeiro, Ronaldo
Simões Coelho, João Amílcar Salgado me disseram isso. A entrevista com dona Guaraciaba Garcia Fonseca, secretária de Lopes Rodrigues, está reproduzida nos anexos desta tese.