Figura 6 : Émil Kraepelin18
Kraepelin nasceu em Neustrelitz, uma aldeia perto do mar Báltico. O pai de Émil era ator e apoiou seu filho mais velho, Karl, a tornar-se professor de ciências biológicas. Influenciado pelo irmão, Kraepelin decidiu ser médico e acadêmico. Durante os estudos na Escola de Medicina de Würzburg já se interessava por psiquiatria, e em 1876 passou o verão em Leipzig estudando com Wilhelm Max Wundt (1832-1920). Wundt foi um médico, filósofo e psicólogo alemão. Acreditava que a vida mental era fruto da experiência em detrimento das idéias inatas, e que os fenômenos mentais do presente se baseavam em experiências passadas. O seu laboratório foi cenário de muitas experiências importantes, como os estudos das sensações e da percepção, onde foram medidas e classificadas as sensações no seu aspecto visual, tátil, olfativo e cinestésico.
Kraepelin pesquisou os sentimentos, a vontade e a emoção, e registrou variações físicas das alterações da respiração e da pulsação, entre outras. Os estudos feitos por Wundt foram férteis e abundantes. À medida que a ciência desenvolvia-se, o laboratório tornava-se mais produtivo. E com isso surgiram várias ramificações, dando assim novas tendências que se estruturaram ao longo do século
XX como o Estruturalismo, o Funcionalismo, o Behaviorismo, a Gestalt, e a Psicanálise, por exemplo. Cada uma dessas escolas caracterizou-se pela sua definição de psicologia, pelos seus conteúdos e pelos métodos que eram empregados no decorrer de suas atividades.
Após estudar com Wundt, Kraepelin formou-se em 1878, e foi estudar em Munique com o neuro-anatomista Bernhard Von Gudden (1824-1886) durante quatro anos. Aos 28 anos Émil tinha se tornado chefe no hospital mental de Leubus. Em seguida, ele continuou seus estudos neuro-patológicos em Leipzig com P. E. Flechsig (1847-1929), que realizava autópsias em pacientes que tinham morrido de doenças cerebrais orgânicas. Depois, voltou a estudar com Wundt:
Depois de pouco tempo Kraepelin retornou à pesquisa experimental psicofarmacológica e psicofisiológica com Wundt e ficou tão impressionado pela ação de drogas sobre o cérebro que decidiu ser a pesquisa neurofisiológica sua verdadeira vocação. A conselho de Wundt, porém, Kraepelin voltou à psiquiatria clínica e durante vários anos lecionou em Dorpat e depois em Heidelberg. Finalmente, em 1903, Kraepelin foi nomeado professor de psicologia clínica em Munique, onde passou os dezenove anos seguintes; em 1922 retirou-se do magistério para assumir um cargo do Instituto de Pesquisa de Psiquiatria em Munique.
(ALEXANDER & SELESNICK, 1968, p.222).
A leitura atenta de Griesinger, e as influências de professores e colegas acabaram por estimular as inclinações de Kraepelin para os aspectos orgânicos da doença mental. Wundt, professor de Kraepelin, sugeriu ao seu aluno a redação do
Compêndio de Psiquiatria, em 1883. Segundo Bercherie (1980), a primeira edição
tinha trezentas e oitenta páginas, mas se transformaria em uma obra de duas mil e quinhentas páginas, fruto do imenso trabalho de seu autor para por em ordem o campo das doenças mentais.
Émil era um incansável observador dos sintomas de seus pacientes hospitalizados. Pensava que quando um adolescente tem alucinações e delírios e se comporta de maneira bizarra tendendo a piorar, sofre de Demência Precoce, como pensava o médico austríaco Benedict Morel (1809-1873).
Benedict Augustin Morel (1809-1873) defendeu, no início de sua carreira,
que se dava ênfase excessiva ao aspecto orgânico da doença mental, recomendando que os médicos estudassem a vida emocional dos doentes. Mais tarde, contudo, influenciado por naturalistas como Jean Baptiste Lammarck (1744- 1829) Morel acreditava que os indivíduos herdavam dos pais sua deterioração de
comportamento. Segundo Alexander & Selesnick, para Morel, as degenerações são desvios do tipo humano normal, que são transmissíveis pela hereditariedade e se deterioram progressivamente no sentido da extinção:
Figura 7: Benedict Morel19
Assim sendo, uma geração podia ser simplesmente nervosa, por exemplo; a geração seguinte seria mais nervosa; a terceira poderia ser inteiramente psicótica; e todas as gerações posteriores seriam dementes até que a família se extinguisse. (ALEXANDER & SELESNICK, 1968, p.221).
Em 1850, Morel observou indivíduos deteriorados cuja doença tinha começado na adolescência. Concluiu então que esses indivíduos sofriam de uma doença hereditária iniciada após a infância e que invariavelmente levava à deterioração mental. Chamou a essa condição de “Demência Precoce20”,
considerando que ela era uma forma prematura de demência.
Kraepelin uniu as idéias de Morel com as contribuições de Kahlbaum21 e Hecker22 na formulação do seu conceito de “Demência Precoce”: assim, se o paciente é mudo às vezes e violento outras vezes, tem demência precoce catatônica; se for tolo e inadequado é hebefrênico. Quando tem delírios de perseguição, tem paranóia, originalmente considerada como doença separada, mas
19 Fonte: www.ihm.nlm.nih.gov/ihm/images/B/21/318.jpg 20 Démence Précoce
21 Karl Kahlbaum (1828-1899) foi um médico alemão que acreditava que os sintomas podiam ser
agrupados. Introduziu termos novos, como “ciclotimia” (disposições alternadas entre depressão e satisfação) e “catatonia” (a manutenção de uma postura rígida peculiar acompanhada de mudez).
22 Ewald Hecker (1843-1909) foi um dos principais discípulos de Kahlbaum, apresentando em 1871
uma descrição onde o indivíduo exibe maneirismos inapropriados e tolos, com comportamento extremamente regredido. Deu a esse estado o nome de “hebefrenia”. Os pacientes hebefrênicos muitas vezes parecem estar mentalmente deteriorados.
depois incluída como um subtipo da Demência Precoce. As idéias de Kraepelin seriam questionadas logo no início do século XX por um psiquiatra suiço, Eugen Bleuler.