A concepção de texto como uma construção singular de conhecimentos plurais remete-se ao princípio da intertextualidade inscrito na interdiscursividade, ou vice- versa, segundo seus estudiosos. A atribuição desta qualificação aos processos de produção de sentidos leva van Dijk (2002) a conceber os textos por uma dupla dimensão às quais se tem designado por texto-produto e texto-processo: o primeiro
se explica pela perspectiva de um olhar que o focaliza na sua dimensão linguística; o segundo, na sua dimensão psicolinguística. Assim, ao romper os limites da leitura descodificativa por meio da leitura significativa, tendo como ancoragem o processamento de informações por meio de conhecimentos prévios, os sentidos passam a ser produzidos por remissões a outros textos: aqueles já lidos, ou aqueles que se fazem necessários ler para melhor compreender o que se está lendo. Pode- se considerar que a leitura significativa implica, por um lado, os sentidos atribuídos aos textos que já se leu e, por outro, pode criar a necessidade de retomar textos já lidos.
Essa recuperação de outros textos pela memória de trabalho, durante o processamento de informações, foi proposta por Kristeva, em 1969, e explicitada por Barthes (2003) para quem “todo e qualquer texto é um intertexto”, ou seja, espaço habitado por outros textos, sob formas mais ou menos reconhecíveis. O intertexto, compreendido por esta dimensão psicolinguística, é uma citação sem aspas daqueles que se integram ao repertório sociocultural e aos quais os leitores já tiveram acesso por meio de suas práticas de leituras, mas cuja origem raramente é recuperável. Beaugrand e Dressler (1981) situam a intertextualidade e a interdiscursividade como fatores constitutivos dos processos de textualização, implicados na composição do texto processo, materializado em língua pelo uso de vários recursos como, por exemplo, a citação, a alusão, o comentário, a paráfrase, ou a paródia. A intertextualidade, ao remeter um texto a outros textos, situa o produtor leitor entre o passado e o futuro, no tempo presente de suas práticas de produção textual-discursiva que, segundo Bakthin se qualificam como dialógicas.
A leitura do texto escrito, concebida por esta perspectiva, assegura a existência dos textos produzidos por um ou vários autores, quando há o encontro entre ambos pela dialogia. Neste encontro, segundo Gusdorf (1995), inscrevem-se habilidades de os leitores evocarem e invocarem, chamar e introspectar seus interlocutores e, assim procedendo, dar voz às formas do texto-produto interanimando as palavras que devem passar a circular entre ambos. Trata-se de um diálogo inscrito na reflexão do pensamento crítico-reflexivo, construído pela projeção de outros: aqueles com quem se deve aprender a conversar em silêncio. Focalizada por esta perspectiva a intertextualidade se inscreve na interdiscursividade, ou vice- versa, que se qualifica por um conjunto de habilidades que facultam a estes leitores
interanimarem as palavras de seu(s) escritor(es), inscritas na materialidade dos sinais escritos; logo, a leitura significativa é assegurada pela prática da dialogia. A dialogia, portanto, é assegurada pelo fato de as palavras – e não as letras, ou as formas vocabulares – passarem a circular entre tais produtores de sentidos que, assim procedendo, coloca-as entre si, em curso; razão por que a leitura, assim concebida, tipifica-se como “prática discursiva”.
A intertextualidade, afirmam Kleiman e Moraes (1999, p. 63) “é um fenômeno cumulativo, pois, quanto mais se lê, mais se detectam vestígios de outros textos naqueles que se está lendo e mais fácil se torna perceber as suas relações com outros objetos culturais e, portanto, mais fácil é a compreensão”. Esses vestígios intertextuais-discursivos referem-se aos designados repertórios culturais – tipos de textos, de gêneros, de atos de fala, de registros e de estilos, de formas léxico- gramaticias, segundo Bakthin (1981) – e funcionam como chaves que dão acesso à leitura significativa. Para essas autoras, dentre elas, o gênero seria a chave da porta principal que faculta ao leitor se deslocar de uma leitura significativa para aquela interpretativa. A escolha de um gênero, dentre vários que se integram ao repertório cultural do produtor de sentidos, carrega consigo várias funções:
a) informar ao seu leitor, por exemplo, que o texto composto pelo produtor autor teve por objetivo contar a ele uma história, um causo, uma anedota, por exemplo;
b) cria a posição a ser assumida no quadro enunciativo pelo produtor-leitor: a de ouvinte-atento que, para compreendê-la, não deve intervir ou tomar a palavra até o término do processamento do texto;
c) orienta o comportamento do leitor, pois ao final, se anedota, poderá rir à vontade.
Neste mesmo sentido, se o produtor autor optar pelo gênero do tipo “crônica”, não se fará necessário registrar informações como: caro leitor, a estória que vou lhe contar está fazendo uma crítica aos costumes, à política, ou a alguma outra instituição social. Sabemos que a crônica é diferente do causo, ou da anedota porque somos leitores de crônicas, porque já conhecemos o gênero. (KLEIMAN; MORAIS, 1999, p. 64).
Nessa perspectiva, a intertextualidade se inscreve na interdiscursividade, ou vice-versa, ou seja, dentre os vestígios, acima mencionados, pois, em se identificando o gênero, identifica-se por ele o interdiscurso, na medida em que todo discurso é perpassado pela interdiscursividade. Concebido como um espaço em que se inscrevem diferentes discursos - sejam eles inerentes a um campo do discursivo,
ou a campos distintos, configurados por um mesmo gênero – com os quais um discurso particular está em relação explícita ou implícita. Trata-se de um jogo de reenvio entre discursos que tiveram, ou têm por ancoragem outros textos, em que se inscreveram outras vozes, às quais todo discurso faz remissão, seja para se contrapor a elas, evocando aquelas que se inscrevem em outro campo, de modo a complementá-las ou ressignificá-las.
Nessa acepção, aquele que toma a palavra para dela fazer uso, passa a se expressar de modo a complementar, a responder, a refutar, a concordar com o dizer de outrem, é sempre um interlocutor daquele que o precede, ou que estava com a palavra. O fundamento das práticas sócio-cognitivo-interacionais, conforme apontado, qualifica-se como ato de troca de informações no espaço das ações comunicativas que devem orientar a aprendizagem da leitura.
Observa-se, portanto, que cada texto, concebido na sua individualidade, é um recorte do saber enciclopédico humano: uma pluralidade de inúmeros e incontáveis textos que fazem remissão uns aos outros. Esse processo remisso integra-se aos conhecimentos prévios dos leitores que se faz extensivo por meio dos próprios processos de produção de sentidos, assegurados pela intertextualidade e/ou interdiscursividade, por meio das quais se rompem as fronteiras de um ponto de vista unidisciplinar. Esse ponto de vista unidisciplinar, fundador da aprendizagem da leitura circunscrita à descodificação dos sinais gráficos do texto-produto, não faculta a compreensão e a interpretação dos textos que se busca ou se pretende ler.