A composição de uma narrativa de história implica, para alguns de seus estudiosos, dentre outras habilidades do narrador, a representação de um fato por meio de cenas que, articuladas entre si por modos de agir ou de proceder de personagens, explicitam-se por ações. Essas ações modalizadas por circunstâncias que tipificam o lugar e, necessariamente, o tempo, transformam o “estado” das personagens, bem como as relações entre elas, de sorte que as histórias, focalizadas por essa perspectiva, têm sido explicadas por quatro cenários: apresentação, complicação, clímax e desfecho. Orientando-se por essas orientações, o pesquisador, tomou essas quatro categorias como parâmetro para o procedimento analítico, abaixo registrado.
► APRESENTAÇÃO - Um pobre lavrador precisava construir a casa de sua pequena granja, mas não conseguia realizar esse sonho, pois o que ganhava mal dava para alimentá-lo, junto com sua mulher. Por mais economia que fizesse, não conseguia juntar o necessário para começar a construção.
● uso de tempos verbais, concordância entre eles e outros elementos léxico- gramaticais:
a) precisava – empregado no pretérito imperfeito funciona para designar um fato passado = a necessidade de construir a casa de sua pequena granja” que se faz extensiva na linha do tempo como um sonho não realizado; logo, uma ação não conclusa;
b) mas não conseguia realizar esse sonho = informa ao leitor para ele não projetar a possibilidade de o granjeiro tê-la construído, ou seja, reafirma a continuidade do processo: sonhava e continua sonhando com a possibilidade de poder vir a construí- la;
c) pois o que ganhava....= o uso da conjunção “pois” explicita e justifica para o leitor a razão pela qual não conseguia realizar esse sonho = construir a casa....: “o que ganhava mal dava para alimentá-lo, junto com sua mulher; por isso mantém o verbo “ganhar” no imperfeito do indicativo para que o leitor possa estabelecer os sentidos de proporcionalidade entre o desejo não realizado e o ganhar apenas para sobreviver: ambas as ações são permansivas e se fazem extensivas à existência da vida cotidiana do casal;
d) por mais economia que fizesse, não conseguia juntar o necessário para começar a construção. = o uso da locução conjuntiva “por mais que fizesse = o subjuntivo: tempo verbal que funciona para ligar uma ação não realizada (1ª oração) e dependente dessa outra; d.1) antecedido da expressão “por mais que” = denomina o percurso de um tempo extensivo entre dois limites de uma situação que perdura no tempo e no espaço e reveste a ação verbal – referente ao construir a casa - de sentidos afetivos = aquele inscrito no uso de “pobre granjeiro” = avaliação do sujeito da enunciação; d.2) logo, acentua a intensidade do desejo do lavrador associada ao esforço por ele despendido e acrescenta, para o leitor, a informação de ele haver se esforçado para realizar seu sonho: edificar na sua granja uma casa que melhor o abrigasse, junto com sua mulher, da chuva, do sol, do sereno e onde pudessem viver de modo mais adequado = abrigar adequadamente a família. Todavia, a sua
condição econômica impossibilitava a conquista do bem material com o qual só poderia sonhar.
■ Esse processo de descodificação significativa, fundamentado em consultas a dicionários e gramáticas, para verificar a função dessas unidades léxico-gramaticais, mas sem desconsiderar as significações a eles indexadas pelo modelo de contexto que facultou compreender a situação de necessitado, possibilitou a produção de várias proposições. Essas foram qualificadas como aquelas que organizam a chamada base de texto explícita em correlação com a implícita, ordenadas semanticamente pelo produtor leitor, (cf. Cap.I) conforme registro a seguir:
- O pobre lavrador tinha conhecimentos para:
a) cultivar a terra e dela retirar o mínimo de que precisava para assegurar a sua sobrevivência e a da sua mulher;
b) saber que não basta ter pedaço de terra, pois o homem também precisa produzir o seu alimento e construir uma moradia para proteger a si e à sua família;
c) por isso sonhava em construir uma casa na sua granja;
d) precisaria economizar para comprar material e iniciar a construção da casa com que sonhava;
(MAS),
- O pobre lavrador não tinha conhecimentos para:
a) cultivar a terra de modo que ela produzisse não só os alimentos de que precisava para sobreviver, mas também excedentes;
(POR ISSO)
a.1) acredita que poderá economizar o que não tem, pois se empregasse o que
produzia na terra na construção da casa, não só morreria como também mataria sua mulher;
a.2) descobre ser impossível fazer qualquer economia, quando apenas se dispõe do
mínimo necessário para sobreviver.
a.3) a construção da casa é um sonho impossível, mas permansivo.
■ Essas microproposições, dentre outras possíveis de serem construídas por inferência, possibilitaram construir a seguinte macro-proposição: Os homens
simples sonham em conquistar um pedaço de terra próprio, em alimentarem a si e sua família e ter uma casa como abrigo, mesmo que suas condições de vida sejam precárias = Síntese: A Casa é para o Homem um dos maiores bens que pode almejar: ela simboliza abrigo e proteção.
■ A categoria da apresentação, assim compreendida, foi representada pelo produtor- leitor pela total impossibilidade de realização de seu sonho, devido às condições de vida do granjeiro, qualificadas pela sua situação de “necessidade de sobreviver” e a total impossibilidade de ele conseguir ultrapassar os limites, dada pela sua simplicidade. O uso predominante do pretérito imperfeito, como designação de ações não conclusas, possibilitou que se considerasse que seu sonho jamais se realizaria.
► COMPLICAÇÃO - Um dia, estando a caminhar pelo seu pedaço de chão, mergulhado em tristes pensamentos, deu com um velho esquisito que lhe disse com voz desagradável:
- Pára de preocupar-te, homem. Eu posso resolver o teu problema antes do primeiro canto do galo, amanhã cedo.
- Como assim? – espantou-se o lavrador.
- Tu precisas construir a casa da granja, certo? Pois eu me encarrego de construir e entregar-te essa obra, antes do canto do galo, em troca de uma pequena promessa tua.
- Que promessa? Não tenho nada para te oferecer em troca de tal serviço.
- Não importa: o que quero que me prometas é um bem que tu tens, mas ainda não sabes. É topar ou largar.
O pobre granjeiro pensou com seus botões: “o que é que eu tenho a perder?” e, sem hesitar mais, respondeu ao velho que aceitava o trato e fez uma promessa.
- Só que quero ver a casa da granja construída, amanhã, antes do canto do galo – observou, ainda meio incrédulo.
E voltou correndo para casa, para comunicar à esposa o bom negócio que acabara de fechar. A pobre mulher ficou horrorizada:
- Tu és um louco, marido! Acabas de prometer àquele velho, que só pode ser o próprio diabo, o nosso primeiro filho, que vai nascer daqui a alguns meses!
O homem, que não sabia da gravidez, pôs as mãos na cabeça, mas não havia mais nada a fazer: o pacto estava selado.
● Observa-se nas análises apresentadas que o primeiro cenário, ou categoria funcionam para situar o granjeiro como: proprietário de um pequeno pedaço de terra por ele cultivado = lavrador, homem simples e necessitado. A granja também é situada como lugar em que a ação do desejar se inscreve na linha de uma temporalidade inacabada, mas permansiva.
● O enunciado com que é iniciado o cenário da complicação, pela seletividade lexical de “Um dia, quando caminhava Um dia, quando caminhava...” O primeiro enunciado - Um dia, estando a caminhar... = quando caminhava pela sua granja, mergulhado em tristes pensamentos, deu com (encontrou um...)
a) apresenta para o leitor o granjeiro se deslocando pela sua propriedade, e o seu estado era o da tristeza – possibilita compreender que ele não era triste, mas a tristeza era um consequência do que ele estava pensando, enquanto caminhava;
b) contudo, o seu encontro inesperado (deparou = aparecimento repentino) com um velho esquisito (estranho, de aparência não natural, diferente de outros até então dele conhecidos ) e de voz desagradável (que causa desprazer, estranhamento) = essas sensações causadas pela percepção que tem do velho, muda o foco de sua atenção e, consequentemente, o seu estado de tristeza. Observa-se, em todo o fragmento que o granjeiro não identifica esse velho, não sabe quem ele é; c) mas o velho lhe dirige a palavra (passa a conversar com ele e ele com o velho); logo, na sua simplicidade ingênua, ele passa a conversar com a estranha criatura que a ele dirige a palavra;
d) essa nova circunstância, inscrita no 1º. enunciado, tem a função de ampliar os sentidos da expressão “pobre velho” (cf. 1º. parágrafo do texto) como um homem simples, destituído de curiosidade e, por isso, sequer identifica aqueles com quem fala, ou seja, o produtor-autor explicita melhor para o seu leitor os sentidos da pobreza que qualifica o granjeiro e faz uso do chamado “discurso direto” - estratégia discursiva por meio da qual o narrador, depois de tornar uma da personagens conhecidas do seu e lhe apresentar a outra, permite que elas falem por si mesmas, limitando-se a reproduzir o que cada uma diz, por meio de palavras: aquelas que elas mesmas poderiam ter selecionado e enunciado;
d.1) a função dessa estratégia discursiva - a reprodução textual das falas das personagens, no caso, o granjeiro e o “velho esquisito e de voz desagradável” que se dará a conhecer por meio de uma encenação da chamada “interação face a face”, quando os interlocutores estão situados no mesmo lugar, na granja, e no mesmo tempo – é investir a narração de maior grau de expressividade, pois o discurso direto coloca diretamente em cena, pela voz da personagem, sua real situação de vida, com maior naturalidade e vivacidade;
d.2) essa força expressiva é assegurada pela tonalidade da voz - para expressar espanto, dúvida, decisão, indecisão, horror, desespero... por meio de sinais de pontuação, ou de gestos – “por as mãos na cabeça”4;
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Neste caso, o produtor autor não faz uso dos chamados verbos “discendi”, como, por exemplo, interpelou o velho, disse o granjeiro, afirmou o velho, ponderou o granjeiro, perguntou, respondeu...; todavia já informou ao leitor que a voz do velho era desagradável e o camponês era um humilde homem; logo esse será o tom da leitura interpretativa da fala de cada uma dessas personagens: são esses dois tons, o recurso do sinal de travessão e aqueles de pontuação que irão diferenciar uma personagem da outra;
d.3) além desses sinais, o uso do verbo “espantar”, é empregado para se referir ao estado de “espantado” do lavrador.
● A situação de complicação construída por dois fragmentos dialogados, ordenados por dois tempos, um subsequente ao outro:
1º) o aparecimento inexplicável do velho que interrompe os tristes pensamentos do lavrador e coloca em foco o principal objeto de suas preocupações: a construção da casa e lhe ordena para deixar de se preocupar com ele - Pára de se preocupar... -, visto que ele, o velho, poderá resolvê-lo, em menos de 24 horas: antes do primeiro canto do galo, amanhã cedo. Espantado e incrédulo, o lavrador lhe pergunta como = em que circunstâncias ele faria a construção e em resposta, o velho lhe propõe um pacto = acordo firmado e sustentado apenas pelo poder da força palavra dada a outrem, sem registro escrito (contrato)5 e que tem por ancoragem o princípio da fidelidade inscrito na própria palavra.
1.1) neste ato de negociação, regulado pelo pacto – o lavrador informa nada ter para oferecer ao velho, em troca da construção da casa desejada. o que quero que me prometas é um bem que tu tens, mas ainda não sabes. É topar ou largar.
1.2) Observa-se o registro da seguinte reflexão do lavrador que se segue à proposta: O que é que eu tenho a perder? e não qual é o bem que ele sabe que eu tenho, mas que eu não sei – mas esta indagação, feita pelo lavrador não está autorizada, pois o enunciador narrador, ao qualificar o lavrador como “pobre homem”, já informou ao leitor que ele não seria capaz de tal façanha, ou seja, de produzir raciocínios complexos, além daqueles inerentes aos homens comuns. 1.3) o negócio é fechado pelo lavrador, agora, crente de que só terá a ganhar: conquistará o objeto mais desejado por ele. Por isso, reitera o trato: a casa estará construída antes do amanhecer do dia seguinte “E voltou correndo para comunicar à esposa o bom negócio que acabara de fechar”, com o velho estranho e dele desconhecido. = para o lavrador o que acabara de vivenciar era um fato extraordinário, no qual não podia acreditar = sentia-se “meio incrédulo”: ora
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O pacto, assim compreendido, é próprio da Civilização do Oral, visto que ao ser pronunciada, como um ato de fala referente à “promessa”, torna-se “palavra dada a outrem” e, já tendo sido dada, não possibilita o “voltar atrás; razão de ser da expressão “homem de palavra, ou seja, o prometido já estava dado).
acreditava, ora não. Mas tinha a certeza de que fizera um bom negócio = por ignorar não só o bem, mas também o valor que esse poderá ter para ele, quando vier a saber “o que é” que, de fato está trocando.
2º) “E volta correndo...” = apressado: a conjunção “e” articula, conjuga e ordena” este primeiro diálogo, ocorrido em um tempo posterior àquele que terá com a esposa, num tempo posterior: logo, ela se faz revestida desse sentido de dois conjunto de ações encadeadas na linha do tempo: o da negociação ao qual se segue:
2.1) o da descoberta do “bem” que acabara de negociar com o velho estranho – acabara de “prometer ao velho o nosso primeiro filho, que nascerá daqui há alguns meses!” Mas o homem não sabia da gravidez..; contudo, o diabo sim;
2.2) o velho a quem não identifica, tem a sua identidade revelada pela esposa do lavrador: “..só pode ser o diabo” = criatura mentirosa que mente e ludibria os homens;
2.3) a reação da esposa é de horror e afirma para o marido que ele só pode ser “um louco” = pessoa destituída de grau de sanidade mental: negocia um bem “inalienável” que lhe era desconhecido e sobre o qual ele não tem o poder da posse: a vida que ela gerava: o filho de ambos em troca de um bem alienável, porque material: a casa;
2.4) “...o homem pôs as mãos na cabeça (atitude de quem se vê perdido, toma consciência da situação dramática, mas não sabe como resolvê-la), mas não havia mais nada a fazer: o pacto estava selado” = não tomará nenhuma atitude, o valor do pacto, da palavra dada se sobrepõe para ele ao valor da “nova vida” que gerou pela relação do casamento; logo, o pacto com o diabo se sobrepõe àquele firmado com a esposa e a responsabilidade pela preservação da própria família: o valor da palavra se sobrepõe ao da vida.
Por conseguinte, o leitor se depara com o conflito da história: sabe pelas qualificações atribuídas ao marido e pela reação dele que ele não romperá com o pacto; logo ela perderá o seu primeiro filho, mas residirá em uma “casa”. Para ele a situação está posta; nada há de conflitante: era um homem comum. Nesse caso, não haverá conflito e, sem ele, não haverá história, pois o conflito implica a possibilidade de um segundo caminho a ser seguido; mas, para tanto será preciso,
construir uma outra/nova possibilidade. Informação a que o leitor terá acesso, no próximo parágrafo, qual seja:
3º) A mulher, porém, que não estava disposta a aceitá-lo (= o pacto feito pelo marido) ficou pensando num jeito de frustrar o plano do diabo (+ que ludibriara, enganara seu marido;
3.1) a mulher....ficou pensando... = assume posição reflexiva para encontrar solução para o problema, criado pelo marido = a leitura se reveste de expectativa, pois o leitor quer saber o que ela fará. Logo, a solução para o problema é atribuído à esposa grávida, cujo objetivo era o de preservar a vida da criança que gerava: protegê-la do diabo;
4º) “E, naquela noite, sem conseguir dormir....”
4.1) a preposição “sem”, nesse contexto se reveste do sentido de situação de subtração, de ausência, de desacompanhamento = o enunciador narrador tira o marido da cena, não faz a ele mais qualquer referência, o que reitera que caberá à mulher-mãe resolver o problema;
4.2) a conjunção “E” ao articular e ordenar a significação do parágrafo anterior a esse, na progressão do tema, informa aponta para o leitor que o sentimento de horror é agora intensificado, pois a mulher se sente apavorada, ao ouvir o “barulho infernal” que, da construção, lhe chegava aos ouvidos;
4.3) O demônio não construía a casa, sozinho: seus auxiliares (outros demônios dos Lares) o ajudavam, de modo que a casa era erguida com rapidez espantosa. Era um trabalho conjunto; mas, quando o pacto foi feito, o marido não fez qualquer exigência, a não ser aceitar que a casa ficaria pronta antes do primeiro cantar do galo que anuncia o “amanhecer”; logo, a casa seria construída nas trevas da noite, sem qualquer luminosidade. É nesse contexto de total solidão e da intensificação dos sentimentos de que o tempo está se esgotando, que o enunciador-narrador construirá, por meio dos próximos parágrafos, a próxima cena da história: o clímax, ou seja, o ponto crítico, o ápice da história.
Essas microproposições, dentre outras possíveis de serem construídas por inferência, possibilitaram construir a seguinte macro-proposição: a casa não é, para o homem, o maior bem material que ele pode almejar.
► CLIMAX - Mas, pouco antes de o céu clarear, quando faltavam só umas poucas telhas para a conclusão da
obra, a atenta mulher do granjeiro pulou da cama e, rápida e ágil, correu até o galinheiro, onde o galo ainda não despertara. Tomando fôlego, imitou o canto do galo, com tal perfeição que todos os galos da vizinhança, junto com o seu próprio, lhe responderam com um coro sonoro de cocoricós matinais, momentos antes do romper da aurora.
Como um trato com o diabo tem de ser estritamente observado, tanto pela vítima como por ele mesmo, a obra em final de construção teve de ser parada naquele mesmo instante, por quebra de contrato “antes do primeiro canto do galo”.
E o diabo, espumando de raiva por se ver assim ludibriado e espoliado, se mandou de volta para o inferno, junto com seus acólitos, para nunca mais voltar àquele lugar.
● O enunciado por meio do qual a categoria do clímax é iniciada coloca em relevo a conjunção “mas”, que carrega consigo orientações para que o leitor contraponha as significações atribuídas ao já dito, ao que se vai dizer. Assim, a situação de pavor por ela vivenciada, possibilita ao leitor inferir que ela não elaborou um plano de ação capaz de encaminhar solução para o problema criado pelo marido; mas o próprio sentido de “adversidade” que ela carrega consigo, orienta o leitor de que tal inferência não será autorizada, na continuidade da leitura do texto, pois: a) pouco antes do dia clarear, quando faltavam só uma poucas telhas para a conclusão da
obra = estes circunstantes informam que:
a.1) ainda era noite;
a.2) a obra estava quase concluída, se só faltavam algumas telhas, significa que estava quase amanhecendo, ou seja, o tempo estava se esgotando;
a.3) a atenta mulher ; logo, embora apavorada, ela já havia planejado alguma ação contra o demônio que enganara seu marido, pulou da cama = não se levantou
e sim saltou;
a.4) e, rápida e ágil correu até o galinheiro, onde o galo ainda não despertara = qualificação a mulher por meio do modo como exerce todas estas ações, como quem sabia o que precisava fazer sem perder um segundo de tempo: estava colocando seu plano em ação e reitera para o leitor que ainda não havia amanhecido, pois o galo ainda dormia;
a.5) Tomando fôlego - = enchendo os pulmões de ar – imitou o canto do galo com tanta perfeição- = cantou como se fosse um galo – que todos os galos da
vizinhança junto com o seu próprio, lhe responderam com um coro sonoro de cocoricós matinais, antes de romper o dia; portanto, o pacto foi rompido, não pelo marido, mas sim pelo diabo = da mulher que, assim procedendo, tem a colaboração dos galos (diabos, no plural) para proteger seu lar e sua família;
5º) no parágrafo subsequente, o significado de pacto é retomado para lembrar ao leitor que:
5.1) ele não poderá ser desfeito por nenhuma das partes que devem respeitá-lo tal como foi firmado; logo, o diabo quebrou o pacto e não terminou a casa “antes do primeiro cantar do galo” = o da mulher que, subverte o papel social do diabo: de
enganador ele se transforma no enganado. E à semelhança do diabo, conta com a
colaboração dos galos = símbolo de altivez, da luz nascente = o que está por nascer: o filho que não deveria ser molestado, por ser uma alma que abre os olhos para um novo mundo (cf. Dicionário de Símbolos);
5.2) A quebra do contrato faz com que ele e fique “espumando de raiva - = sentir ódio intenso - por se ver ludibriado - = enganado - e espoliado” = privado do seu poder de enganar os simples; de usurpar, por meio da mentira, o que não lhe pertence por direito , se mandou para o inferno com seus acólitos = ajudantes,