Nunes a partir de 1957
Na legislação71 de 1957, os Exame de Estado passam a ter de estar concluídos durante o mês de maio. Recordemos que a partir deste ano passam a existir estágios no Porto, mantendo-se os de Coimbra e os de Lisboa. É também a partir desta altura que se enquadra o nosso estudo, isto é, a partir da reabertura dos estágios no Liceu Normal de Pedro Nunes, em 1956.
O Exame de Estado era constituído por uma parte escrita com um tema, o meu foi a evolução do conceito do número. Eram assim temas muito largos e depois tínhamos a parte oral que era... Nós dávamos uma aula onde tirávamos à sorte. Nós estávamos a estagiar nas turmas com o metodólogo. Estagiávamos no sexto e sétimo anos e saía-nos à sorte. A mim saiu-me o sexto ano. Saiu-me o princípio da indução matemática, ainda me lembro, e à minha colega saiu-lhe a evolução dos números complexos, a evolução do corpo ℂ. De maneira que nós tirávamos à sorte o tema com vinte e quatro horas antes da lição e no dia da lição oral estava o júri todo e lá fazíamos... Dávamos a nossa aula. Depois era a crítica e nós já estávamos habituados. Durante estágio sempre que nós dávamos aulas, após a aula havia crítica. (M. I. Santos, entrevista pessoal na sua residência em Lisboa, 14 de novembro de 2014)
O Júri deste Exame de Estado, presidido pelo professor catedrático da universidade do Porto Doutor Manuel Gonçalves Pereira de Barros, foi ainda constituído pelos professores metodólogos dos três liceus normais: António Augusto Lopes, do Porto, Manuel Augusto da Silva, de Coimbra, e Jaime Furtado Leote, de Lisboa
71
77
e pelo professor José Monteiro Rodrigues do liceu D. João III. A estagiária relata ainda sobre a reação dos alunos à sua aula para o Exame de Estado e o facto de já se conhecerem:
lembro-me perfeitamente da minha aula. Acabei de dar a aula e os miúdos eram muito nossos amigos, estávamos ali a trabalhar com eles há dois anos: — correu muito bem [risos], os professores podem não ser da nossa opinião — sorteavam as turmas que nós tínhamos ao longo do ano. Quer dizer, não eram turmas estranhas. Isso, aliás, era uma vantagem. Se nós caíssemos numa turma de para- quedas, eu acho que era muito pior. Nós já conhecíamos os alunos, porque durante dois anos tínhamos estado a trabalhar com eles. Isto era feito antes do ano acabar, em junho. Era o que calhava na altura o ponto em que ia a matéria. Nós tínhamos de fazer o estágio obrigatoriamente no complementar, que agora é o secundário, e no [que é hoje o] unificado, quer dizer, na altura era o sétimo, oitavo e nono. (M. I. Santos, entrevista pessoal na sua residência em Lisboa, 14 de novembro de 2014)
A tabela 4.4 resume os temas das lições aos alunos que foram dadas no âmbito dos Exames de Estados, os respetivos candidatos que as realizaram e anos de escolaridade. Estes temas eram comunicados aos candidatos com vinte e quatro horas de antecedência e a lição tinha a duração de um tempo letivo. Para encurtar a identificação dos candidatos na tabela, usamos os apelidos para os homens e os nomes próprios para as mulheres. A ordem apresentada coincide com a estabelecida nas respetivas atas.
Tabela 4.4. Temas das lições aos alunos dos Exames de Estados de 1958 a 1970.
Ano Assunto da “Lição a alunos” Candidato
1958 Terceiro caso de igualdade de triângulos, 3.º ano turma B. Paralelismo e perpendicularidade, 3.º ano turma A.
Ângulo de duas retas, 7.º ano turma C.
Ventura Iolanda Cândida 1959 Relações entre os lados e os apótemas de alguns polígonos regulares e o raio
da circunferência circunscrita, 4.º ano. Divisibilidade, 6.º ano. Perímetro da circunferência, 6.º ano.
Congruências de inteiros, 6.º ano.
Divisibilidade: conclusão do estudo das congruências, 6.º ano turma A. Estudo da hipérbole, 7.º ano turma D.
Bárbara Preguiça Marques Marção M. Manuela M. Leonor
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Duarte é apelido.
1960 Área da superfície lateral de tronco de cone de revolução, área da superfície esférica, 5.º ano turma A.
Primeira lição sobre gráficos, 1.º ano. Estudo da parábola, 7.º ano.
Leonor
M. Dulce M. Luísa 1961 Continuação do que está indicado no Livro de Ponto da respetiva turma.
[perpendiculares e oblíquas], 3.º ano turma A. Divisibilidade - definição e propriedades, 6.º ano turma A.
M. Odete
M. Engrácia 1962 Perpendiculares e oblíquas, 3.º ano turma A.
Equações cartesianas da circunferência, 7.º ano turma A. Perpendicular a meio de um segmento de recta, continuando assim, de
seguida, a lição anterior.
M. Fernanda M. Helena
Gomes
1963 Números primos – primeira lição, 6.º ano turma B. Regra de três composta, 2.º ano turma A.
Área do círculo, 4.º ano turma A.
Redinha M. Manuela
Dias 1964 Redução de ângulos ao primeiro quadrante, 6.º ano turma B.
Estudo analítico da parábola, 7.º ano turma B.
M. de Lourdes M. dos Reis 1965 Leitura e construção de gráficos, 1.º ano.
Continuação do estudo dos complexos, 6.º ano.
Continuação do estudo dos quadriláteros; paralelogramo”, 3.º ano turma A. (Omissão quanto à lição da candidata Carmina Viegas, que teve a nota final de
13 valores. Será por ter faltado a esta prova? Há um caso anterior de não realização desta prova, embora apareça a classificação final)
Gião Gracinda
Valente
1966 Regra de três simples e inversa, 2.º ano. Transformações afins, 7.º ano. Introdução do corpo complexo, 6.º ano. Continuação do assunto da lição anterior, 6.º ano.
M. de Jesus Marinete M. da Graça
Serrote 1967 Criação do corpo complexo. Estudo das operações definidas nesse corpo.
Problema da existência do corpo complexo. 6.º ano turma C. Princípio de indução matemática. Breves considerações sobre indução experimental e indução matemática. Demonstração pelo método de indução
completa. 7.º ano turma C.
M. Alzira
M. Inês
1968 Área do polígono regular. Área do círculo. 4.º ano turma A. M. Alzira 1969 Criação do corpo complexo e operações num corpo, 6.º ano turma C.
Continuação das matérias da lição anterior, 6.º ano turma C. Áreas das figuras, áreas das superfícies laterais do cone de revolução e do
tronco do cone de revolução, 5.º ano turma A.
Ângulos de lados paralelos, e ângulos e lados perpendiculares, 3.º ano turma A.
Produto de fatores lineares; binómio de Newton, do 6.º ano turma C.
Varregoso Cortesão M. Odete
Ana Duarte72
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Fonte: Livro de Atas dos Exame de Estado, Escola Secundária de Pedro Nunes.
As turmas escolhidas para realizar os Exame de Estado percorrem os vários anos de escolaridades, embora incidam essencialmente nos 3.º, 6.º e 7.º anos liceais. E em mais de metade das vezes (catorze em vinte e seis casos identificados) são turmas “A” dos melhores alunos.
Relativamente aos temas, como os programas para os 3.º, 4.º 5.º e 7.º anos liceais antes da experiência pedagógica iniciada em 1963/1964 terminavam com os capítulos de Geometria, é este o tema que naturalmente mais aparece nas lições a alunos. Antes da experiência pedagógica, o programa do 6.º ano terminava com o capítulo de Aritmética Racional, pelo que este tema aparece de forma natural nas lições a alunos do 6.º ano até 1963, inclusive, dando depois lugar a temas da Matemática Moderna. A partir de 1965, inclusive, começam a aparecer para os 6.º e 7.º anos liceais temas de Matemática Moderna para a lição a alunos. Em 1967, há uma lição a alunos do 7.º ano liceal sobre indução matemática, que constava do programa de Aritmética Racional do 6.º ano antes da experiência. Atendendo ao tema da lição a alunos de 1970, podemos concluir que no ano letivo de 1969/1970 foi lecionado Cálculo Integral ao nível do 7.º ano liceal.
A tabela 4.5 apresenta as questões (denominadas por “pontos”) da prova escrita pedagógica73 com a duração de duas horas até 1962, inclusive, e de duas horas e meia a partir de 1963, inclusive. A partir de 1969, inclusive, a duração da prova é de três horas.
Tabela 4.5. Questões da prova escrita do Exame de Estado de 1958 a 1970.
Ano Questões da prova escrita pedagógica
1958 Usando os métodos de ensinar que achar mais convenientes, suponha a forma como ensinaria a seguinte rubrica do programa do 5.º ano “Radicais;
cálculo de radicais. Potências de expoente fraccionário. Operações”. 1959 Usando os métodos de ensinar que achar mais convenientes, suponha a
orientação que seguiria para ensinar o seguinte ponto do programa do 6.º ano “Limite de uma função de uma variável real”.
1960 Usando os métodos de ensinar que achar mais convenientes, suponha a orientação que seguiria para ensinar o seguinte ponto do programa do 6.º ano “Derivada de uma função num ponto. Função derivada. Aplicações ao
estudo da variação das funções nos casos mais simples”. 1961 Ensino do seguinte ponto do 7.º ano: “estudo elementar dos lugares
geométricos definidos por equações numéricas da forma
73
Aparece o termo “pedagógica” pela primeira vez na Ata n.º 1 do ano de 1967.
80
𝑏#𝑥#– 𝑎#𝑦#= 𝑎#– 𝑏#; 𝑦#= 2𝑝𝑥”.
1962 Organize um plano de lição ao 7.º ano sobre a seguinte rubrica do programa: “inequações, noções gerais e princípios de equivalência. Inequações do 2.º gau a uma incógnita, inequações fraccionárias que se resolvam por meio de
inequações do 1.º e 2.º grau com uma incógnita”74.
1963 Faça um plano de lição para uma turma do 4.º ano sobre a seguinte rubrica do programa – “Triângulos semelhantes e casos de semelhança dos triângulos”. (É permitido ao candidato sugerir a orientação que entender, mesmo que não seja a do livro único, e a prova passa a ter a duração de 2:30
horas.)
1964 Faça um plano de lição para uma turma do 7.º ano sobre a seguinte rubrica do programa – “Análise combinatória, elementos distintos e sem repetição”. 1965 Faça um plano da primeira lição para uma turma do 4.º ano sobre a seguinte
rubrica do programa – “sucessões numéricas”.
1966 Faça uma exposição do método ou métodos de ensaio que adotaria na primeira lição sobre “função logarítmica de base a” (a número natural), para
uma turma do 3.º ciclo.
1967 Faça o plano de uma primeira lição sobre símbolos de indeterminação das formas: 0/0, ∞/∞ e 0x∞. (Foi deliberada uma tolerância de meia hora para a
realização desta prova.)
1968 Apresente um plano de lição dirigido a uma turma da alínea f do 3.º ciclo com o sumário seguinte: os conceitos de derivada de uma função num ponto
e de função derivada. (Foi deliberada uma tolerância de meia hora para a realização desta prova.)
1969 Faça o seguinte plano de lição para uma turma do 4.º ano sobre a seguinte rubrica do programa: “Noção de lugar geométrico dos pontos equidistantes
de um ponto dado, de dois pontos dados, de uma recta dada e de duas rectas dadas. Aplicações a problemas de construção”. (Ficou deliberado que
fosse concedia a tolerância de meia hora para a realização da prova.) 1970 Justificando-o convenientemente, apresente um plano para uma primeira
lição sobre números primos, a uma turma do 6.º ano.
Fonte: Livro de atas dos Exame de Estado, Escola Secundária de Pedro Nunes.
Ao contrário do observado relativamente aos temas para a lição a alunos, nestas provas escritas o tema que aparece maioritariamente é o de Álgebra, do 4.º ao 7.º ano liceais, com maior incidência na Álgebra dos anos que compunham o 3.º ciclo. Este tema aparecia no início dos respetivos programas.
Relativamente ao “Interrogatório sobre didáctica geral” e de “Interrogatório sobre didáctica especial”, as respetivas atas só indicam quem foram os candidatos, quem foi o elemento do Júri que interrogou e em que data. Até 1965, inclusive, ambas as provas de didática eram feitas em sequência e no mesmo dia por cada candidato. Em 1966, todos
74
De acordo com a respetiva ata, não compareceu nesta prova o candidato António Esteves Gomes, do que foi dado conhecimento ao Reitor do Liceu Normal de Pedro Nunes.
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os candidatos fazem a prova de didática geral no mesmo dia e depois cada um faz a prova de didática específica em dias diferentes. A exceção é a candidata Marília que fez ambas as provas no mesmo dia e depois de todas as provas dos outros candidatos. Possivelmente por ter apresentado alguma justificação para a não realização da primeira prova na data inicialmente marcada. Relativamente a 1967, por exemplo, as provas começaram às nove horas da manhã do dia 27 de maio e prestaram prova de didática geral as duas candidatas, sendo arguente de ambas o vogal Manuel Augusto da Silva. As mesmas candidatas também prestaram a prova de didática especial, sendo arguente de Maria Alzira Santos o vogal António Augusto Lopes e da Maria Inês Santos o vogal José Monteiro Rodrigues.
Quer nas épocas dos Exames de Admissão, quer nas dos Exames de Estado, os estagiários podiam ser chamados a substituir nas suas aulas, quer os professores- metodólogos, quer os outros professores do ensino liceal que faziam parte dos respetivos Júris, por estarem ocupados naqueles serviços. O testemunho seguinte de uma ex- estagiária relata uma desta situações relativamente ao professor de Matemática do Liceu de Oeiras, Silva Paulo:
O Dr. Silva Paulo tinha as suas turmas em Oeiras, mas fazia parte do Júri em Coimbra, de forma que a turma ia ficar sem [aulas] oito dias, uma semana. Naquele tempo nós dávamos seis horas por semana, seis aulas, portanto, e era uma turma muito boa e era de raparigas. Não sei se está a ver, mas naquele tempo eram raparigas para um lado e rapazes para o outro. (M. A. Santos, entrevista pessoal na sua residência em Lisboa, 8 junho de 2015)
Findos os Exame de Estado, a classificação profissional dos candidatos aprovados, a partir de 194775, era dada pela “soma da valorização proveniente da habilitação legal76 com a valorização proveniente do tempo de serviço77 que tenham prestado, em qualquer categoria, depois de terem adquirido a mesma habilitação” (Art.º 99.º). E os documentos necessários para provimento do lugar de professor liceal efetivo eram três: a declaração
75
Decreto n.º 36508, de 17 de setembro de 1947.
76
A habilitação legal era o Exame de Estado para os candidatos provenientes das escolas normais superiores ou dos liceus que funcionavam como normais (Art.º 100.º do Decreto n.º 36508, de 17 de setembro de 1947).
77
O tempo de serviço contava 0,5 valores por cada um dos dez primeiros anos de serviço depois dos professores terem a habilitação legal (Art.º 103.º do Decreto n.º 36508, de 17 de setembro de 1947).
82
de repúdio do comunismo de 1936, o documento comprovativo das habilitações e a “documentação necessária para o cálculo da classificação profissional” (Art.º 95.º).
Na tabela 4.6 apresentamos um resumo da evolução das condições do Exame de Estado entre 1930 e 1969. O período a sombreado representa o do nosso estudo. Na tabela, o elemento “√” assinala a existência da prova.
Tabela 4.6. Comparação das condições do Exame de Estado entre 1930 e 1969.
1930-1934 1935-1946 1947-1956 1957-1969 Provas de cultura /duração Escritas Orais Lição √ √ √ - - - - - - - - - Provas Pedagóg. /duração Ensaio Crítico Escritas Orais Lições Int. Did. G. Int. Did. E. - √ √ - - - √ 2 partes/2h 30 min 50 min - - - 2h - 50 min 30 min 30 min - 2h até 196278 - 50 min 30 min 30 min
Meses de realização Julho Maio e Junho Maio e Junho Maio
Divulgação dos temas das
provas, exceto da lição 2 dias antes 2 dias antes - -
Questões no momento da prova
Tirado à sorte
Tirado à sorte Tirado à sorte Tirado à sorte
Itens da Classificação do Exame de Estado (média ponderada em valores) 2.º ano do estágio; Provas de cultura; Provas pedagógicas Licenciatura; Exame de Admissão; Cadeiras Secção Ciências Pedagógicas; 2.º ano do estágio; Provas pedagógicas 1.º e 2.º anos do estágio; Provas pedagógicas; Currículo 1.º e 2.º anos do estágio; Provas pedagógicas; Currículo
Terminamos esta secção com dois testemunhos sobras as provas que compunham o Exame de Estado, o primeiro relativamente ao ano de 1963 e o segundo referente a 1964.
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Fazíamos a prova escrita em maio (...). E a prova escrita era um calhamaço de coisas, era muita coisa. Era uma prova, digamos teórica, que no meu ano calhou a evolução do conceito de número. Enfim, em todos os patamares… não foi obra fácil… principalmente quando se quer passar para os irracionais… aí é que foi a coisa mais dura que eu tive, foi exatamente essa parte. Escrevi uma série de páginas… era um assunto que eu tinha preparado bem. Era um assunto central. E depois uma prova prática. E o Leote distribuiu-me uma série de aulas de aritmética racional. (...) depois na prova prática saiu-me exatamente uma lição sobre aritmética racional. (Redinha, entrevista pessoal por telefone, 19 de novembro de 2010)
Maria de Lourdes Ruiz, referindo-se à prova de lição do Exame de Estado, diz-nos em entrevista que “era uma prova assombrosa (...) que consistia, portanto, numa aula dada (...), com a presença de professores universitários, de professores com categoria, depois a discussão da aula (...) era o ponto final” (22 de setembro de 2010).