De uns anos letivos para outros a forma das atas do período em estudo não se repete, impossibilitando retirar o mesmo tipo de informação ao longo dos anos para cada ano. De acordo com o Livro de actas do Júri dos Exames de Admissão ao 1.º ano de Estágio do 8.º Grupo do magistério liceal, que se encontra no arquivo histórico da atual Escola Secundária de Pedro Nunes de Lisboa, houve seis atas que descrevem e acompanham o processo do Exame de Admissão ao estágio do 8.º grupo onde se insere a disciplina de Matemática para o ano letivo de 1956/1957. A primeira ata tem a data 26 de novembro de 1956 e o Júri comum e único para os dois liceus normais reuniu na atual Escola Secundária José Falcão de Coimbra. A última ata tem a data de 21 de dezembro de 1956, e não refere o local. Os estagiários só chegaram ao liceu para iniciarem o 1.º ano do estágio já no mês de janeiro. O Júri, nomeado por portaria de 15 de novembro do Diário do Governo, II Série, n.º 273, de 20 de novembro de 1956, foi constituído pelo presidente, doutor Manuel Marques Esparteiro, e pelos quatro vogais: Dr. José Augusto Cardoso, Dr. Jaime Furtado Leote, Dr. Túlio Lopes Tomás e Dr. Manuel Augusto da Silva. Na
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segunda das seis reuniões, José Augusto Cardoso, por motivo de doença, foi substituído por António Augusto Lopes, por portaria de 3 de dezembro do mesmo ano.
Neste ano letivo, foram quinze os candidatos ao estágio no Liceu Normal D. João III de Coimbra e vinte e cinco os candidatos ao estágio no Liceu Normal de Pedro Nunes em Lisboa, relativamente ao 8.º grupo. No total dos grupos de docência do ensino liceal, houve 180 candidatos, dos quais foram admitidos 31 mulheres e 8 homens, como refere o Decreto-Lei n.º 41273, de 17 de setembro de 195779.
Na primeira reunião foram definidos “os pontos” para as exposições escritas e provas práticas (escritas) que constam da figura 4.3 e as respetivas datas de realização das provas, em quatro dias úteis consecutivos:
- exposição de aritmética ou álgebra: 30 de novembro, pelas 14 horas; - exposição de geometria ou trigonometria: 3 de dezembro, pelas 10 horas; - prova prática de aritmética e álgebra: 4 de dezembro, pelas 10horas;
- prova prática de geometria e trigonometria: 5 de dezembro, pelas 10 horas. Esta reunião realizou-se em dois dias consecutivos a pedido de Jaime Furtado Leote “para se fazer um estudo cuidadoso dos pontos” (p. 1). Esta ata, bem como as restantes, está escrita pelo metodólogo Jaime Furtado Leote.
Neste ano, uma das exposições escritas foi de álgebra e a outra foi de geometria (era uma de história das matemáticas e outra de física ou química no âmbito dos programas liceais para testar a língua portuguesa). À época, designava-se por temas de álgebra o que hoje se designa por temas de análise matemática.
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Esta lei, publicada no Diário do Governo n.º 210/1957, Série I, de 17 de setembro de 1957, decreta a abertura dos estágios num terceiro liceu normal em Portugal e condições especiais facilitadoras para o acesso ao estágio dos homens, com vista ao “aumento de professores do sexo masculino, sem que se afecte grandemente a sua preparação pedagógica” (p. 888), quando em 1947 se tinha restringido o acesso aos estágios.
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Figura 4.3. Exposições e provas práticas do Exames de Admissão ao estágio do 8.º grupo, ano de 1956 (Exames de admissão ao estágio nos liceus normais, 1959, pp. 35-36).
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Na segunda ata da reunião deste Júri, realizada a 11 de dezembro de 1956, também em Coimbra, explicitam-se os enunciados das seis provas (ver figura 4.3) e esclarece-se que as provas se realizaram simultaneamente em Coimbra e Lisboa e que a figura relativa ao enunciado da prova prática de geometria foi desenhada no quadro. Todas as provas tiveram a duração legal e foram assistidas em Coimbra pelo presidente do Júri e pelo vogal Manuel Augusto da Silva. À prova de dia 5 de dezembro de 1956 assistiu também o vogal António Augusto Lopes. Em Lisboa, as provas tiveram a assistência dos vogais Túlio Lopes Tomás e Jaime Furtado Leote. Nesta ata número dois foram analisadas as exposições e as provas práticas dos candidatos, propostas as respetivas classificações e definidos os candidatos que passavam à fase seguinte, ou seja, que eram admitidos às provas orais. A divulgação das referidas classificações só ocorre na sexta e última ata deste processo.
No Liceu Normal D. João III iniciaram e concluíram estas provas doze dos quinze candidatos: Alfredo G. Alves, António da Silva Fernandes, António L. Botelho Chichorro Marção, António L. do Carmo Moral, Celestina da Conceição Azevedo, Maria Beatriz S. Granador, Maria das Dores Alves dos Santos, Maria Gomes Rodrigues Maia, Alda Maria de A. Meneses Torres, António Francisco Pires, Hamilcar da Silva Lobo e Maria Eduarda C. R. L. Crispim de Sousa. Destes apenas os últimos quatro foram admitidos às provas orais. No original, a ordem dos nomes é a alfabética dentro de cada género, aparecendo em primeiro lugar os homens e depois as mulheres.
Dos quinze candidatos iniciais ao estágio no Liceu Normal D. João III foram admitidos três candidatos: Maria Eduarda Crispim de Sousa, Hamilcar Lobo, Alda Maria Menezes Torres com as classificações de 13, 12 e 10 valores, respetivamente.
Dos vinte e cinco candidatos ao Liceu Normal de Pedro Nunes, sete não iniciaram as provas, três desistiram durante a realização das mesmas, oito não obtiveram classificação suficiente para serem admitidos às provas orais, um foi eliminado nas provas orais e seis foram seriados, como elucida a tabela 4.7. Na tabela, o elemento “x” assinala a existência da respetiva ocorrência.
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Tabela 4.7. Candidatos às provas do Exame de Admissão ao estágio do 8.º grupo no Liceu Normal de Pedro Nunes e classificação final, ano de 1956/1957.
Iniciaram as exposições e as provas práticas Desistiram no decorrer das provas Não admitidos às provas orais Eliminado na prova oral Seriação e nota final Admitidos ao estágio
António Saraiva Duarte Arícia? M. Ferreira Rodrigues Bárbara Palma Branco de Faria Francisco Humberto B. de Sousa Botto
Idalina Rodrigues Brito Iolanda Maria Vasconcelos Lima
Manuel Sousa Ventura Maria Cândida Reis Maria do Carmo Anselmo Cruz Maria de Fátima Fontes De Sousa Maria de Lourdes A. F. Severo de Oliveira
Maria de Lourdes Borges da Costa [Ruiz] Maria Luísa Viegas
Maria Manuela Silva Pinto Maria Natália Fonseca Maria Tomásia F. Ramires Brás
Maria Augusta Dias Sérgio Macias Marques
x x x x x x x x x x x x 3.ª – 13 val. 4.ª – 12 val. 2.ª – 13 val. 6.º – 10 val. 1.ª – 14 val. 5.ª – 11 val. x x x
Apenas sete candidatos realizaram com aproveitamento as exposições de álgebra e de geometria, a prova prática de álgebra e aritmética, a prova prática de geometria e trigonometria, e foram admitidos às provas orais, como ilustra a tabela 4.8.
Tabela 4.8. Classificações nas exposições e provas práticas do Exame de Admissão ao estágio no Liceu Normal de Pedro Nunes, ano de 1956/1957.
Candidatos Exposição de álgebra Exposição de geometria Prática de álgebra e aritmética Prática de geometria e trigonometria 30 nov. 1956 3 dez. 1956 4 dez. 1956 5 dez. 1956
Bárbara Palma Branco de Faria 11 17 11 12
Francisco H. B. de Sousa Botto 11 10 12 13
Idalina Rodrigues Brito 12 10 13 10
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Manuel Joaquim Sousa Ventura 10 10 11 12
Maria Cândida Reis 11 11 12 16
Maria de Lourdes Costa [Ruiz] 10 11 12 14
Média: 11 valores 11 valores 12 valores 13 valores
Segundo as atas, a duração de cada tipo de prova esteve de acordo com o Art.º 202.º do Decreto n.º 36508, de 17 de setembro de 1947, que define o Estatuto do Ensino Liceal:
- Cada exposição tinha a duração de hora e meia. - Cada prova prática tinha a duração de duas horas. - Cada prova oral tinha a duração de meia hora.
As provas orais realizaram-se nos dias 13, 14 e 15 de dezembro de 1956, pelas 10 horas no Liceu Normal D. João III e nos dias 17 (provas orais de álgebra e aritmética), 18 (provas orais de geometria e trigonometria) e 19 (provas orais de física e química) pelas 9 horas e pelas 15 horas no Liceu Normal de Pedro Nunes. Foram lavradas atas nos dias seguintes à realização das provas orais no Liceu Normal de Pedro Nunes, ou seja, nos dias 18, 19 e 20 de dezembro de 1956. No dia 21 de dezembro de 1956, pelas 10 horas, procedeu-se à divulgação das notas de todas as provas realizadas pelos candidatos ao estágio do Liceu Normal de Pedro Nunes, como ilustram as tabelas 4.8 e 4.9, bem como à seriação e às classificações finais de todos os candidatos aos dois liceus, já expostas na tabela 4.7.
Tabela 4.9. Classificações nas provas orais do Exame de Admissão ao estágio no Liceu Normal de Pedro Nunes, ano de 1956/1957.
Candidatos Álgebra Aritmética Geometria
Trigono- metria
Físico- química
17 dez. 1956 18 dez. 1956 19 dez. 1956
Bárbara Palma B. de Faria 14 10 15 11 13
Francisco H. B. de Sousa Botto 9 9 8 8 12
Idalina Rodrigues Brito 10 13 13 12 12
Iolanda M. Vasconcelos Lima 11 14 14 14 12
Manuel Joaquim Sousa Ventura
10 10 10 10 10
Maria Cândida Reis 13 16 15 15 15
Maria de Lourdes Costa [Ruiz] 10 11 10 12 12
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O único candidato eliminado nesta fase foi um homem e Sousa Ventura teve os valores mínimos possíveis de aprovação.
Dos seis seriados, as mulheres ocuparam os cinco primeiros lugares da classificação, mas só duas delas foram admitidas ao estágio. Das que não entraram, Bárbara Faria foi admitida no Liceu Normal de Pedro Nunes no ano letivo seguinte e Maria de Lourdes Ruiz seis anos depois, como mostramos mais à frente. Sobre Idalina Brito só sabemos que não fez o estágio no Liceu Normal de Pedro Nunes até 1971. Embora em último lugar e com classificação inferior às mulheres, Sousa Ventura foi admitido ao estágio neste ano letivo.
Dos que não conseguiram ser admitidos às provas orais, Maria Luísa Viegas voltou a concorrer no ano letivo seguinte, não conseguindo de novo ser admitida às provas orais e, no ano letivo seguinte, foi por fim admitida ao estágio no Liceu Normal de Pedro Nunes. Maria Manuela Silva Pinto foi admitida no mesmo Liceu no ano letivo seguinte e Sérgio Macias Marques foi admitido também no mesmo Liceu dois anos depois, mas por outra via, sem se submeter às provas do Exame de Admissão, como já vimos. Sérgio Macias Marques foi mais tarde vice-reitor do Liceu Normal de Pedro Nunes.
No ano letivo de 1956/1957, a dificuldade em ser admitido ao estágio é bastante notória. Maria de Lourdes Ruiz tinha terminado a licenciatura em matemática na Faculdade de Ciências de Lisboa em 1948, mas, de acordo com o seu testemunho, só concorreu quando o estágio voltou para Lisboa, em 1956. Só que não entrou, como já tivemos oportunidade de verificar, porque as vagas eram pouquíssimas:
uma ou duas!... e era essencialmente só para os homens e eu não entrei (…). No primeiro concurso [1956] caiu Portugal inteiro! Porque foram (…) anos de professores licenciados que não podiam ir para professor, não havia estágio. Quando veio para Lisboa, o Pedro Nunes ficou a rebentar de inscrições. (Ruiz, entrevista pessoal na sua residência em Vila Real de Trás- os-Montes, 22 de setembro de 2010).
Maria de Lourdes Ruiz só ingressou no estágio em 1962, com 38 anos de idade. Como vimos, dos seis candidatos aprovados em 1956, foram admitidos ao estágio as duas primeiras candidatas e o sexto e último candidato da lista de seriação apresentada na tabela 4.7. De acordo com o Art.º 195.º do Decreto n.º 36508 do Estatuto do Ensino Liceal, da reforma de 17 de setembro de 1947 de Pires de Lima: “O número
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máximo de concorrentes que podem ser admitidos ao 1.º ano de estágio em cada um dos grupos é de quatro do sexo masculino e dois do sexo feminino”. Já o Decreto-Lei n.º 40800, de 15 de outubro de 1956, que concede a reabertura dos estágios no Liceu Normal de Pedro Nunes não esclarece esse número, referindo apenas no seu Art.º 3.º que “O número de concorrentes que podem ser admitidos ao 1.º ano de estágio em cada um dos [dois] liceus normais será fixado, ano a ano e por cada grupo, pelo Ministro da Educação Nacional”, remetendo toda a restante informação para o Estatuto do Ensino Liceal atrás referido.
Maria de Lourdes Ruiz acrescenta que: “No primeiro ano sei que não entrei. Mas não entrei não foi bem assim (…). Havia possibilidade de eu ir para Coimbra, mas em Lisboa não ficava. Tinham esgotado as vagas” (Ruiz, entrevista pessoal na sua residência em Vila Real de Trás-os-Montes, 22 de setembro de 2010). Não quis ir para Coimbra, porque vivia em Lisboa, estava casada, com filhos e tinha um rendimento confortável com aulas individuais:
Sei que eu tinha uns alunos assombrosos. Alunos particulares assombrosos, que me davam um prestígio de ouro. Fui procurada por um rapazinho que era filho do diretor do Conservatório de Lisboa que era de uma família de altos músicos e de pessoas com muito dinheiro e etc. E aquela família... chamava-se Sérgio Varela Silva. Ficou na história. Era um aluno... fazia já concertos em todo o mundo. Tinha 12 anos. E estudava em casa. E ia fazendo as cadeiras do 2.º ciclo e do 3.º ciclo nesta base. Então, alguém lhe indicou a minha pessoa e eu fui sempre professora desse rapazinho. Portanto, eu ganhava bem. Não precisava de ir para o liceu (…) e tinha filhos, por isso não podia deslocar-me para Coimbra. (Ruiz, entrevista pessoal na sua residência em Vila Real de Trás-os-Montes, 22 de setembro de 2010)
Esta estagiária diz também que não voltou a concorrer. De facto, quando consultamos as atas sobre a admissão a estágio aos liceus normais, a partir de 1956, o seu nome (ainda de solteira) só aparece nas seis atas referentes exatamente ao ano de 1956, tendo a última destas atas a data de 21 de dezembro de 1956. Em 1962, por iniciativa do metodólogo do grupo liceal de Matemática do Liceu Normal de Pedro Nunes, Maria de Lourdes Ruiz fez uma exposição junto do Ministério da Educação Nacional e foi, então, admitida ao estágio neste Liceu.
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