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Caso “INII”: Entrevista a elementos de ligação institucional (dirigentes / planeadores / formadores / designers / artistas)

ALDA ROSA (planeou, produziu e organizou diversas acções do Núcleo de Design Industrial do INII) Local: Na residência da entrevistada.

Duração: 2:19H.

Momento: 21-11-2007, pelas 15:00H.

Victor Almeida – Estou a fazer um doutoramento em design de comunicação e pretendo estudar o percurso de institucionalização do design de comunicação em Portugal, sobretudo do design grá- fico, e também do design industrial porque é aquele que orienta, ou que prevalece. O meu estudo situa-se entre 1959 e 1974. Gostava de saber se tem consciência de que participou neste processo de institucionalização a partir da sua actividade no INII?

Alda Rosa – Tenho até por várias razões. Quando pedi a Bolsa à Gulbenkian para estudar design em Londres, a Gulbenkian obrigou-me a assinar um papel a dizer que voltava para cá para pôr todo o meu conhecimento ao serviço do INII. e eu a partir desse momento, conscienciosamente, me pro- pus — todo o trabalho que estava a fazer em Londres embora estivesse a fazer design gráfico como uma licenciatura — o que me interessou mais foi ver em Londres, a nível institucional, tudo o que pudesse ser publicado cá. No fundo eu ia a tudo o que se fazia no Design Centre e ia mais do que visitante, era para ver aquilo que podia ser útil ter conhecimentos para aplicar cá. Ou seja, consultar a biblioteca deles, como estava constituída, como estavam constituídos os ficheiros de design, os ficheiros de produtos, os ficheiros de fornecedores, os ficheiros de materiais e isso foi-me muito útil. Normalmente mandava para cá para o INII, para a M. H. Matos, umas cartas (fazia isso não porque fosse obrigatório mas porque fazia os relatórios para a Gulbenkian e ao mesmo tempo mandava para lá alguma coisa) e mandava sobretudo esse tipo de coisas. Coisas que descobria lá importantes na in- fra-estrutura daquele tipo. Não que eu pensasse que o Design Centre fosse a coisa melhor para o país, tinha outras ideias, a M. H. Matos estava interessada em que aquilo se transformasse num centro de design, um bocado mais o exemplo belga do que o inglês, mas qualquer dos modos eu ia fornecendo amiudadamente os dados que fossem importantes para a estruturação de uma infra-estrutura daquele tipo.

VA - Também havia um Design Centre na Finlândia.

AR - Sim mas esse era um bocado mais remoto para nós. Não tínhamos tanta informação sobre ele. Mas qualquer modo, repare uma coisa, a partir de certa altura o INII tornou-se associado do ICSID. Embora o ICSID fossem associações de design havia a possibilidade de associação a uma estrutura daquele tipo por parte de um organismo estatal. Havia alguns que até eram particulares. Nesse aspec- to estávamos ao corrente do que se passava em toda a parte do mundo.

nização já estava em marcha, como se costuma dizer, sobretudo a partir da adesão à EFTA que se dá em Dezembro de 59. Quando a Alda se dá conta de que essa necessidade de modernizar pairava no ar?

AR - Nessa altura estava licenciada em Pintura das Belas-Artes e decidi ir para Londres em 60/61. Mesmo assim quando estava na EBAL nos últimos anos (já não me lembro quando me licenciei, isto está um pouco confuso na minha cabeça, mas é uma questão de fazer contas como o outro) lembro- me que havia muitos colegas nossos que iam fazer viagens por aí fora e vinham com muitas ideias. Sobretudo os arquitectos vinham com muitas ideias sobre design porque iam à Finlândia, iam à Sué- cia (se calhar por outra razões que não tinham a ver com estas questões do design) mas acabávamos por ser confrontados com isso.

VA - Um dos primeiros é o Frederico George a ir aos Estados Unidos, por volta de 52/53 e aí ter contacto com a Bauhaus de Chicago.

AR - Mas isso é outra história. Mas isso é uma história anterior. Se pensarmos que no tempo do An- tónio Ferro já havia ali uma preocupações que teriam a ver com o design. Eu estava a pensar nisto mais ligado ao meu percurso pessoal. Eu realmente tive algum conhecimento destas coisas através dos colegas que iam fazer estas viagens (e que traziam coisas muito engraçadas) e a seguir era, também, através de uma lojinha da Rosenthal que havia no Chiado (não sei se se chamava mesmo Rosenthal mas tinha os produtos deles). Aquilo era um fascínio, era arte aplicada mesmo. Naquela altura nem pensava em design nessas circunstâncias porque havia outras coisas que tinham mais a ver com o design. Estava agora a lembrar-me que o José Augusto França — que estava casado com uma das filhas do Leonel — tinha por incumbência (não sei se de casamento) fazer a montra mais abaixo (quem sobe, a primeira) da Casa Leonel. Arranjava peças de design interessantes e punha ali assim. Era assim um nicho aquilo que nós íamos lá ver. Por outro lado havia a história da SECLA que fazia exposições e onde nós íamos ver o que havia de novo. Havia outra coisa, também, um pouco mais pacata e mais simples que era (não me lembro que espécie de loja é que era, ou aliás, lembro-me que era na Rua Ivens) uma loja pequenina com vidros de cor muito simples. De repente apareciam umas coisas depuradas em que a forma era mais importante que a decoração. Era uma coisa que para nós era nova.

Há também uma coisa importante que foi, na mesma altura começar a aparecer coisas novas como, por exemplo, a Loja Rampa desenhada por Conceição Silva e José Santa Rita. e a loja tinha coisas importantes para além do próprio conceito de loja.

VA - Qual era o panorama cultural do país nessa altura?

AR - Olhe por muito estranho que pareça a sensação que tínhamos em Belas-Artes (nós tínhamos muito tempo, um tempo que hoje ninguém considera ter)… fazíamos todos parte de vários cineclubes e arrastávamos as contínuas e isso e às tantas estava toda a gente metida no cineclube, sobretudo no inverno porque estava mais quente lá dentro do cineclube do que cá fora. É engraçado porque falá- vamos nas aulas e arrastávamos os colegas. através do cinema cobríamos muito uma zona cultural importante naquela altura. Depois havia a discussão dos filmes e havia três bons cineclubes das mais variadas origens. Havia o Cineclube Imagem do José Alberto de Sousa, o Cineclube Católico com o João Benard da Costa e, etc. Em relação ao cinema a gente cobria mais ou menos porque até vi coisas que eram proibidas e que vi, não tenho qualquer espécie de dúvida. As pessoas às vezes não acredi-

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tam. Eu vi o “Roma Cidade Aberta” e vi uma série de coisas que nem sei como apareciam. Tínhamos então a sensação de que cobríamos culturalmente tudo o que se passava. Passavam-se coisas na Casa da Imprensa, havia qualquer coisa e nós íamos à Casa da Imprensa. Havia coisas na Sociedade de Geografia, nós íamos à Sociedade de Geografia. E, apesar de tudo, havia coisas que se passavam cá que eram desconhecidas do vulgar das pessoas.

VA - Daí vem a sua amizade com algumas pessoas, como o Artur Casais…

AR - Foi meu colega. Mas o relacionamento cultural vem daí e era forte. Em relação à música sempre tive, desde criança, um contacto com a música porque vivia em Viana do Castelo (o meu pai foi o grande impulsionador do Círculo Musical de Viana do Castelo) e eu até conhecia os fulanos que cá vinham tocar, as orquestras e isso. Isto é um bocado o meu percurso pessoal. Não sei se isso interessa muito mas é para dizer que uma pessoa como eu teve este tipo de cultura. Foi-me facilitado isso. e em casa sempre houve muitos livros e muitas revista e havia uma coisa engraçada, que hoje achamos ridícula, mas naquela altura foi importante e que era a revista do Reader’s Digest. Naquela altura quem traduzia os textos era o José Rodrigues Miguéis que era um exilado e passava muitas coisas que penso que a censura nem percebia. Era uma coisa engraçada porque nos dava coisas do mundo exterior, às vezes até só do aspecto social, as coisas que iam acontecendo no mundo (não posso dizer que fosse uma cultura muito específica) mas em todo o caso nós víamos o que estava a passar no mundo através disso.

VA - No Almanaque também acontecia isso.

AR - O Almanaque vem muito mais tarde.

VA - Inicia a publicação no final de 59.

AR - Sim, mas estou a referir-me a coisas da minha infância. Naquela altura foi muito importante porque começou a editar-se em português. Até porque as pessoas que lá estavam eram de confian- ça. Naquela altura as pessoas tinham uma ideia da América diferente daquela que posteriormente começaram a desenvolver. a maior parte das pessoas de esquerda achavam que a América era, de facto, um sítio onde as pessoas podiam trabalhar em liberdade. É uma coisa que hoje não temos essa percepção.

VA - Ou tem dúvidas.

AR - Tem dúvidas de facto. É um país tão grande que há imensa coisa e uma delas é esta.

VA - Ainda nesses anos fala-se muito da importância das tertúlias. Na Leitaria Garrett, na Brasileira do Chiado,…

AR - No Vá Vá. Eu nunca fui uma pessoa de muitos grupos e até as pessoas em Belas-Artes me cen- suravam um bocado porque eu não lhes era completamente fiel. Tinha um grupo cá fora ligado ao ci- nema e à malta de Direito, onde estava o Manuel Lucena (que na altura era meu namorado) e conheci o Paulo Rocha através dele, o Nuno Bastos (que já morreu), o João Vieira de Castro, o Francisco Sarsfield Cabral, toda essa gente eram as pessoas com quem eu me dava a outro nível. Mas era um bocado separadas. Normalmente com esta malta íamos ao cinema e com a malta de Belas-Artes ia ao cinema, às exposições, e trabalhávamos, e estudávamos, e líamos, e não-se-o-quê. Eram dois grupos a que estava muito ligada. Tanto a um como a outro. O que achava complicado, e acontece em muitas tertúlias, é que elas consomem muito tempo e produzem muito pouco. e eu tive essa percepção e tive

vontade de fazer outras coisas.

VA - e daí a vontade de ir para Londres?

AR - Não, não foi. Quando fui para Londres foi porque o Artur Casais ia para lá fazer férias…

VA - Num dos seus depoimentos mostrava-se desencantada com isto.

AR - Eu acho que o desencantamento terá a ver com outras coisas. Provavelmente, até com o facto de ser mulher. Hoje pode doer às pessoas falar destas coisas mas era, realmente, muito duro. Era uma coisa que não cabia na cabeça de ninguém. Uma pessoas com alguma cabeça achava aquilo um ab- surdo. Eu já não tinha idade para aquilo. Bom, aquilo que aconteceu é que estava com vontade para ir para fora (gostava de viajar). Já tinha viajado, fui a congresso da PAXHUMANA dos católicos progressistas, onde estava a Secretária-Geral daquilo na altura e que era a Maria de Lurdes Pintas- silgo, uma cabeça extraordinária, e repare, que nestas ocasiões na Universidade, havia grupos hege- mónicos e havia grupos com mais prestígio que outros. Lembro-me que a seguir ao MUD Juvenil e outras coisas todas apareceu aquele grupo fantástico dos católicos progressistas — o Nuno Teotónio Pereira,…, eram os fulanos que tinham mais importância naquela altura. Eram pessoas que eu seguia, que eu ouvia, independentemente das minhas não convicções religiosas. Mas nunca me impuseram foram extremamente inteligentes, acho eu. Portanto, tinha feito essa viagem a França, à Suíça e à Áustria, onde foi o congresso, e isso deu-me perspectivas muito grandes, alargou-me os horizontes. É verdade. É um lugar comum dizer que isso acontece. Houve uma altura em que o Artur Casais queria ir a Londres porque tinha lá uns amigos, e eu tinha lá amigos também, o João Monjardino e a mulher, o João Cutileiro, pessoas que passavam lá grandes temporadas e eu aproveitei e fui com ele. Com grande escândalo da família eu fiquei. e fiquei durante um ano e estive a frequentar as aulas nocturnas de design de moda no St. Martin’s School. Mas um pouco diletante. Nessa altura ainda não tinha acabado o curso, isto é, feito a tese (a maior parte das pessoas não fazia).

VA - Como é que via a partir de Londres este país?

AR - Engraçado. A partir de Londres, a sensação que eu tenho de Londres é que Londres é um cená- rio. Não acontecia nada que a gente não quisesse. Nada nos era imposto e isso era uma coisa estranha. e eu penso que a maior parte dos meus colegas que foi para Londres nessa altura, ou que esteve lá mais tarde, sentia que Londres era um espaço de liberdade. Ainda hoje acho que é o sítio melhor para nos encontrarmos com nós próprios.

VA - Era uma liberdade que se podia tentar conquistar cá?

AR - Aquilo era uma experiência. Eu não fui para lá à procura de não sei o quê. A ideia que tinha era que eu não tinha grandes capacidades de sobrevivência cá. Sobrevivência humana. Não sabia fazer nada. Não sabia estrelar um ovo, não sabia ferver água. e achava que devia ter isso. Queria experi- mentar um bocado para saber como eu própria era. e acertei em cheio porque Londres é um cenário onde nada acontece que a gente não queira. e quando há pessoas que dizem que vão mandar o filho para Paris, eu digo, manda-o para Londres! Se ele está com problemas de identidade, manda-o para Londres. Em Paris vai ver que é uma coisa como esta um pouco mais puxada.

VA - Quando chega cá o que vê?

AR - Eu quando estive em Londres, um dos trabalhos que arranjei foi na Casa do Brasil na Grã-Bre- tanha, era recepcionista. Encontrei gente engraçada desde o filho do Portinari e soube muitas coisas

ANEXOS 9

do Brasil. Tive um grande amigo lá, do Partido Comunista brasileiro que andava sempre a tentar que eu fosse Cuba com ele. Ia a Cuba primeiro antes de ir para o Brasil porque tinha os fulanos da resistência. Naquela altura os brasileiros mais influentes estavam no estrangeiro, estavam exilados. Conheci vários. Conheci o Joaquim Pedro de Andrade, que era o realizador que fez o “Ima, Ima” e que também estava na Casa do Brasil. Portanto tive um convívio com uma gente que tinha outro tipo de resistência. Também tinham outro tipo de ditadura. Era diferente. Eu achava que esta ditadura era mais esquisita porque eles, apesar de tudo, tinham o teatro, o Arena, que eram coisas que eles faziam que cá não se saía. Havia uma coisa qualquer e punham um pé à porta e não deixavam que as pessoas entrassem. A coisa era diferente. Era mais surda e menos caracterizada como opressão. Ora durante o tempo que estive em Londres aconteceu a invasão de Goa, A tomada do barco “Santa Maria”, acon- teceu a prisão de um colega nosso (não me lembro agora do nome),…

VA - Está a referir-se ao período de 60/61? Nessa altura começa a Guerra em Angola.

AR - Sim.

VA - Mas o regime endureceu a partir do assassinato de Humberto Delgado.

AR - Tinha que ser.

VA - Estando em Londres ouvia essas notícias que cá chegavam de uma forma muito diferente.

AR - Cá não tinham impacto. É engraçado porque muitas destas coisas eram vividas no dia-a-dia. Veja-se as coisas que se passavam no Brasil, eu tinha essas notícias vindas de pessoas dos mais va- riados quadrantes. Eu passava a maior parte do dia na Casa do Brasil e havia fulanos como o Rui de Matos Pereira, um arquitecto de S. Paulo, que era do Partido Comunista. Era também um grande latifundiário com todos os conflitos que essas coisas trazem atrás. Tive, também, o panorama do que se passava nas outras partes do mundo. Esta história de, de repente, o nosso eixo geográfico variar dá-nos uma capacidade enorme de análise mesmo que não seja muito cerebral, mesmo que seja ao nível do sentir, isso é muito engraçado e que nos abre os horizontes. No fundo o manual desta frase é muito importante. Os horizontes começam a ser mais vastos e, às vezes, até a ser outros. É uma coisa interior. Nessa altura começou também a luta académica (em 63) e eu naquela altura ainda era namorada do Manuel Lucena que era o homem que na altura fazia os comunicados. Só soube isso mais tarde mas os comunicados saiam todos impecavelmente feitos. Houve um dia em que ele me telefonou, para aí em Março ou Maio, em que me disse “por que não vem, estão a passar-se coisas interessantes em Portugal?”. Fiz as malas e resolvi vir para cá. Achei graça porque vim com um fulano e tivemos um acidente na Bélgica e depois fui parar a Bruges, a casa de uns velhotes que diziam “desde que a menina apareceu aqui só se fala de Portugal”. Falava-se de Portugal, de todas estas coisas, era os estudantes,… de modo que eles nunca tinham ouvido falar de Portugal e comigo a coisa alterou-se toda. Há tempos conheci no Líbano um arquitecto libanês muito interessante e de repente o Líbano passou a ter uma face que não tinha para mim. Essas coisas são assim e é bom que nos apercebamos que essa parte humana do nosso conhecimento é valiosa. Portanto, vim-me embora porque ia haver revolução (risos).

VA - Mesmo no início dos anos 60 já se estava a arquitectar isso. Havia já uma certa precocidade.

AR - Não era a precocidade era o wish thinking.

AR - Quando vim de Londres tinha 24 anos. O que tinha feito cá foram os cenários e os figurinos para a Companhia Nacional de Bailado. Tinha tentado fazer um bocado de cerâmica que naquela altura tinha que ser através da Mocidade Portuguesa. Fui lá ver e aquilo que eles faziam era bonecos e eu estava interessada noutro tipo de objectos. De modo que não avancei. Quando vim fui acabar o Curso (fazer a tese) e comecei a viver sozinha. Mas antes disso já tinha ido para o Barreiro ensinar. e foi aí que tive aquele embate engraçado e sempre animador que foi embora ter concorrido em igualdade de circunstâncias geográficas com os meus colegas, os colegas homens ficaram todos em Lisboa e eu fui para o Barreiro. Fui ao Ministério para saber se havia algum engano porque a minha nota era superior à deles e apareceu-me o director de serviços a dizer “não se importa de ir ali à minha sala” e explicou-me: “Vai custar-lhe imenso ouvir isto mas as mulheres só podem ser colocadas depois dos homens terem sido todos colocados primeiro”. De modo que a gente fica com estas. A seguir também exigiram que escrevesse um papel — que toda a gente assinou naquela altura — em que tínhamos de declarar (e ir ao Notário) que não pertencíamos ao Partido Comunista (que era verdade que não pertencíamos) e que não estava nos meus propósitos fazer nada que derrubasse o regime.

VA - Isso aconteceu durante muitos anos. O mesmo se terá passado com Alexandre O’Neill.

AR - Aquilo não tinha mais importância do que aquela que estava lá. Eu achava que isso era muito insultuoso mas durante muito tempo as pessoas também assinavam um papel quando pediam o visto para a América a dizer que não tinham intenções de matar o Presidente. Essas coisas não valem a pena serem empoladas mas que foram mais uma humilhação na minha vida foram. As mulheres do meu tempo tinham uma vida de humilhação. Ainda hoje li uma coisa da Isabel Barreno que vinha no JL e era, de facto, uma coisa muito dura.

VA - Quando é que sentiu que o seu futuro ia passar pelo design?

AR - Eu nunca tive uma vocação para nada. Ainda hoje tanto me faz estar a desenhar, como a fazer tricot, como a fazer um projecto de design. Não valorizo independentemente. É evidente que um projecto de design dá dinheiro, mas também cozinhar dá de comer e fazer tricot faz-se umas cami- solas… Tudo isso para mim tem um valor muito semelhante. Não tenho pretensões nenhumas de que haja coisas mais importantes que outras. Não em termos absolutos, também, mas em termos relativos. Provavelmente aquilo que gostaria mais de fazer seria escrever. Sempre gostei muito mas nunca me propuz. O design aparece da seguinte maneira: estava a ensinar no Barreiro (aquilo era quase impossível). Naquela altura havia um barco às 7:45H. e, se houvesse nevoeiro (não havia ra- dar) tínhamos que apanhar um cacilheiro (porque já tinha sonar) até Cacilhas e depois um táxi. Isso