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Caso “INII”: Entrevista a elementos com ligações institucionais (dirigente)

José de Melo Torres Campos foi, entre 1960 e 1973, quadro técnico do INII e Director-Geral no Ministério da Indústria (a que juntava a Presidência do INII).

Local: Numa residência do entrevistado. Duração: 1:21H.

Momento: 08-11-2007, pelas 12H.

Victor Almeida - Antes de mais queria agradecer-lhe ter-me recebido. Podemos, se me permite, co- meçar por falar daquilo que era Portugal por altura do final da década de 50. Em que estado estava a sua modernização e como é que esta se compagina com adesão à EFTA, em 59? Como estava o país nesta altura?

Torres Campos - O país nesta altura, realmente, atravessava e começava um período de crescimento económico ainda que muito dominado por um conflito, que dependia muito da ideologia, entre os que defendiam uma atitude claramente desenvolvimentista e virada um bocado para a Europa, que passava naturalmente pela indústria, e o grupo, que imagine-se um pouco simbolicamente, mais con- servador, mais ligado ao espírito rural do salazarismo que pendia para o campo, para a agricultura. Essa dicotomia, que se arrasta aliás praticamente durante os anos 30 e 40, ainda se mantém bastante viva nesse período. Portanto a arrancada da indústria sucedeu nesse período, a partir da 2ª metade dos anos 50. Foi quase uma arrancada à autrence daquilo que era o establishment político vigente. Ainda houve umas tentativas de fazer com que esse crescimento industrial fosse feito em simbiose com o que então se chamava o Ultramar — a ideia do grande espaço económico português —, ou seja, a ligação de Portugal às colónias, mas isso evidentemente estava condenado ao fracasso como se verificou por vários motivos: em 1º lugar porque uma presença económica forte portuguesa em Angola e Moçambique (para falar das principais) não existia (existia muito tenuamente a fazer coisas locais) e, depois havia a clássica exploração de matérias-primas. Era claramente insuficiente, não tinha uma expressão que permitisse a troca. Não havia lá uma população suficientemente volumosa, nomeadamente de colonos, para depois comprar coisas à Metrópole. É um problema que é passado um bocadinho por cima nas histórias políticas desse período, mas que existiu e que se designava pelo problemas das transferências. O que se passava era que as colónias não tinham dinheiro para pagar aquilo que compravam cá. Essa dicotomia sofre uma clivagem importante a favor da indústria com a adesão à EFTA que eu diria que o Dr. Salazar, o Presidente do Conselho, teve que aceitar porque de outra maneira ele já não conseguia suster uma boa parte dos seus apoiantes. É assim que se dá o grande desenvolvimento industrial dos anos 60 — em termos percentuais nunca mais tivemos um período com crescimentos tão elevados (desde 62/63 até 73 tivemos um crescimento médio de 6,5%) — e provavelmente nunca viremos a ter qualquer de parecido. Só que esse crescimento tinha pés de barro.

VA - Nomeadamente o condicionamento industrial.

TC - O condicionamento industrial era uma limitação. Se não tivesse havido condicionamento in- dustrial o desenvolvimento teria sido maior. Provavelmente. Mas o condicionamento industrial não se pode desligar do contexto político em que se vivia. e isso dava pano para mangas e julgo que sai um bocadinho fora do âmbito da sua investigação. É um tema que me é pessoalmente muito caro. Agora as indústria desenvolveram-se, digamos, com base numa mão-de-obra muito barata e sem preparação técnica. Nesse sentido é que a acção do INII é muitíssimo importante e muito representa- tiva. Nesse aspecto não há dúvida nenhuma que o INII foi o organismo onde se caldearam coisas de completa novidade, nomeadamente, o ensino da gestão. Até essa altura não havia ensino da gestão em Portugal. Uma coisa que é hoje correntíssima e que há até demais porque a qualidade, às vezes, não é grande coisa. Mas nessa altura não havia, não havia de todo. Para além do que era o clássico da gestão também havia inevitavelmente o tratamento dos problemas do pessoal, das relações humanas como se chamava nesse tempo e isso era uma matéria que no ambiente político da altura metia um bocadinho de medo.

VA - Inclusivamente a sua área inicial era a produtividade. Num dos textos que publica na revista do IST o engenheiro fala desse factor humano a ter em conta na produtividade industrial.

TC - Fazia parte do léxico das matérias que se aprendia e que depois se ensinava.

VA - Um dos grande problemas era a baixa produtividade do sector industrial.

TC - Exactamente. Os técnicos que foram, enfim, inicialmente para o INII, fomos todos frequentar cursos em várias escolas europeias, eu fui para Londres, outros para Paris, outros para Genéve, ou- tros para Amesterdão, cada um para seu sítio, e fizemos normalmente mestrados de um ano e depois viemos de lá e organizámos então um conjunto grande de cursos de gestão, muitas vezes convidando pessoas que tinham sido nossos professores lá e a partir de certa altura fazer nós próprios os cursos. Dediquei-me bastante ao têxtil algodoeiro do Norte e fiz dezenas de cursos de gestão para empresá- rios têxteis.

VA - O INII serviu para suprir as carências de quadros técnicos?

TC - No fundo é iniciador do movimento que disse que é preciso, para além do dono e do operário, é preciso haver gente que saiba de várias coisas técnicas e de várias coisas típicas daquilo que é a gestão, neste caso, de gestão industrial.

VA - Qual era a referência a nível de gestão na altura? Era a França, a Bélgica,…?

TC - Sobretudo a França. Mas não era a única.

VA - Mas isso não era paradoxal já que as nossa relações industriais e comerciais se faziam sobre- tudo com Inglaterra e com os países da EFTA?

TC - Como lhe disse houve dois que foram para Paris e outros dois que estiveram em Londres a fazer cursos. Houve, realmente, uma preocupação de diversificação por escolas de gestão conhecidas nessa altura. Algumas das quais ainda existem hoje, outras já não.

VA - Mas havia grande qualidade de pessoas no sector da economia. Havia em Portugal, na altura, grandes professores de economia.

TC - Mas era macro-economia. e aí tínhamos, para citar um por todos, o Francisco Pereira de Moura que era uma referência para os assuntos macro. A macro-economia são os grandes movimentos de

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evolução da economia enquanto a micro-economia é o que se passa ao nível das empresas. O que se passava ao nível da empresa nas universidades, nas escolas que davam isso, nomeadamente no que nós chamávamos o “Quelhas” que é hoje a Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), que era praticamente a única escola que havia, o curso de finanças era o que fazia a distinção e se aproximava um bocadinho dos problemas empresariais, era sobretudo um curso onde as cadeiras principais que a distinguiam de um curso de economia eram as finanças públicas e um bocadinho ao de leve os pro- blemas empresariais. Não é como hoje onde o curso de gestão do ISEG é como deve ser.

VA - Daí vem o INII…

TC - O INII é uma instituição que arranca com isso. Vale a pena mencionar uma empresa que teve um movimento, se bem que virado para ela como seria natural, um bocadinho paralelo a esse e que foi a CUF. Que é um papel que ainda não foi suficientemente reconhecido. A CUF também foi uma boa escola de quadros e foi, durante muito tempo, a primeira empresa que teve a preocupação de também mandar pessoas para fora para fazerem cursos. Estou a falar da CUF Barreiro.

VA - O país tinha poucas empresas com essa dimensão? Proliferavam as micro-empresas.

TC - Como ainda hoje. Mesmo nas empresas grandes a única que teve com consistência, com um plano de iniciar um processo de valorização dos seus quadros em matérias de gestão foi, sem dúvidas nenhumas, a CUF. Não sou uma pessoa muito apreciadora do espírito empreendedor dos portugue- ses, que nós não temos, e é uma das grandes falhas, andámos para aqui a fazer privatizações a contar que os nossos empresários são como os ingleses e os franceses e, isto não anda… Mas isto é , tam- bém, outra conversa. Agora não há dúvida nenhuma que a CUF teve essa vantagem nesse período e teve uma visão que outras empresas grandes não tiveram. e algumas beneficiaram disso. Para lhe dar um exemplo, estou convencido que a LISNAVE não teria aparecido se não houvesse um espírito diferente do que havia nas outras. A LISNAVE é uma coisa que aparece com um significado repre- sentativo de uma coisa que aparece virada para fora.

Bem, o que é certo é que entretanto aconteceu a Guerra de África. A Guerra de África alterou muito uma data de coisas, nomeadamente, (não gosto muito de personalizar) algum elan que havia no INII, a partir de certa altura, nós queríamos fazer mais coisas e já não havia hipóteses, apesar daquilo sair barato.

VA - Não havia recursos.

TC - Mais do que não haver recursos já não havia receptividade às iniciativas. Estava francamente a diminuir. A partir de 64/65 é muito nítido isso. A seguir a Angola vem a Guiné e, depois, Moçambi- que. A preocupação dominante, como é do conhecimento geral, passou a ser a Guerra.

VA - Mesmo que cá não se fizesse sentir isso junto da opinião pública?

TC - O que é certo é que em relação a nós, no INII, que tinha sido um sucesso porque é difícil recor- darmo-nos de um organismo público (aquilo era uma repartição do Estado) que tenha tido uma tão grande receptividade e aceitação por parte, digamos, do empresariado. Muita gente viu que aquilo era uma coisa diferente e que lhes era útil e que é uma coisa muito interessante de sublinhar. Nessa altura há pessoas que começam a sair, eu fui um deles (fui trabalhar para a actividade privada) e aquilo entrou num período um bocadinho morno.

esses assuntos…

TC - A maioria não queria o aggiornamento. Estavam muito bem instalados como estavam. Era-lhes muito cómodo. Só pensavam neles próprios.

VA - O INII integrava pessoas que tinha uma visão modernizadora do país. Lendo algumas coisas do

Eng. Magalhães Ramalho, que chegou a ser sub-secretário de Estado da Indústria, notava-se uma posição pró-europeísta.

TC - O Magalhães Ramalho, que na execução era um bocadinho lunático, teve uma visão muitíssimo clara e, a meu ver, foi dos primeiros portugueses que viu a importância da formação. Ainda hoje, pas- sados 50 anos ainda ouvimos dizer que é necessária a formação. O Magalhães Ramalho era o homem que pregava “enquanto a gente não aprender não saímos da cepa torta”. Isto que hoje em dia parece uma coisa corriqueira, dito em 1959/60/61, era qualquer coisa de revolucionário…

VA - Antes…

TC - Até antes.

VA - Para nós isso é motivo de comparação. O INII, como sabemos, era uma entidade quase autó- noma, tinha um estatuto jurídico especial…

TC - Não estava inserido, digamos,… A grande diferença do INII em relação ao resto da função pú- blica, estou a referir-me ao Ministério da Economia, é que actuava por iniciativa própria. Ao passo que as outras Direcções-Gerais actuavam reagindo aos requerimentos que entravam. A gente não tinha guichés para as pessoas entregarem requerimentos. Tínhamos que ser nós a tomar as iniciativas e esperar que dessem resultados como deram.

VA - Inclusivamente tinham que criar parcerias com outros organismos. Tinham que receber dinhei- ro para se financiarem. Qual foi a receptividade dos industriais à actividade do INII?

TC - Muito grande. A receptividade dos industriais ultrapassou as nossas expectativas.

VA - Que indicadores é que utiliza para dizer isso?

TC - É difícil dar-lhe indicadores quantitativos.

VA - e qual é a sua percepção qualitativa?

TC - Nós nunca fizemos, num tempo em que não havia o hábito dessas coisas (cursos, colóquios, hoje em dia é o pão-nosso-de-cada-dia). Nós fizemos imensos cursos cujas adesões superaram aquilo que delas esperávamos. Eu fiz, e os meus colegas outro tanto, dezenas de cursos. Eu, na minha área fiz (com a colaboração da Associação Industrial Portuense, na altura chamava-se assim) cursos limita- dos para 20 pessoas (à volta disso) e estavam sempre cheios.

VA - Quem eram essas pessoas?

TC - Eram industriais.

VA - Os cursos também eram vocacionados para alguns técnicos.

TC - Eram para técnicos engenheiros (já havia alguns) mas eram, sobretudo, para os donos das em- presa ou para os seus filhos. Como sabe estamos a falar de uma zona em que a estrutura empresarial tem muitas características da estrutura familiar de maneira que, às tantas, o pai quer que o filho ou a filha ou o genro também continuem lá. Alguns até iam com outros cursos e pretendiam tomar contac- to com a realidade da gestão. Havia até alguns que nos pediam um diagnóstico da empresa. “Venha

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cá à minha empresa e diga quais os pontos fortes e os pontos fracos”.

VA - Destaca alguma dessas empresas?

TC - Lembro-me da Manuel Gonçalves, da Riopel, da Coelima, não sei, já lá vão quarenta e muitos anos.

VA - Dentro da indústria quais eram os sectores que se destacavam?

TC - Até agora só lhe falei do algodão. Foi o sector com que lidei mais directamente. Outros colegas meus lidaram com outros sectores. Por exemplo, lidámos muito com o sector da metalomecânica.

VA - Um sector privilegiado pelo regime.

TC - Exactamente. Havia aí empresas com estruturas técnicas mais elaboradas. Ao passo que no algodão, e citei-o porque é um bom exemplo, há o dono, os contra-mestres — que aprendiam por si como era a tradição — e depois há os operários. Outro exemplo era a indústria das conservas, que agora é quase nada mas na altura ocupava milhares e milhares de pessoas a trabalhar à mão, onde a falta de qualificação das pessoas era muito acentuada. Quando passamos para a metalomecânica, passamos para coisas diferentes.

VA - Nesses sectores além da falta de qualificação dos operários quais eram as outras grandes defi- ciências? Da gestão naturalmente?

TC - Eram de gestão. Teria que citar várias causas mas se tivesse que escolher algumas eu escolheria algumas principais: a 1ª era desde logo uma demasiada subordinação a quem comprava (isso ainda hoje se verifica). Eles exportavam, mas não eram eles que exportavam era os importadores estrangei- ros que vinham cá comprar. O que faz uma diferença enorme. Ainda hoje se verifica isso. Não são as nossas empresas que vão lá fora mas sim o contrário.

VA - Fica-se prisioneiro dessa encomenda…

TC - Sim e a maior parte da mais-valia fica no outro lado. e isso é muito importante. Em 2º lugar havia alguma relutância na inovação tecnológica, havia essa coisa de não deitar fora uma máquina enquanto a outra ainda está a trabalhar e a produzir. Não era uma decisão fácil para as pessoas, de maneira nenhuma, mas teria sido muito melhor se todos o tivessem feito.

VA - Havia incentivos para isso?

TC - É preciso dizer que não havia nada. Mas isso voltamos ao ponto inicial, digamos, a dicotomia indústria versus lavoura mantinha-se. Não havia grandes incentivos para o crescimento da indústria. É preciso dizer isso. É claro que os incentivos que existiam é também de que o nível de imposição fiscal era baixo. Mas era baixo para toda a gente. e a mão-de-obra era ao preço da chuva. Isso por si mesmo eram incentivos, só que não eram directamente originados da acção governativa.

VA - Não eram estratégicos.

TC - Exactamente. Esta debilidade comercial, falta de apetite para o investimento e deficiência de gestão são os 3 pontos fracos, eu diria quase, da totalidade das nossas empresas industriais. Com algumas excepções, naturalmente. No sector das máquinas, da metalomecânica a situação era um pouco diferente porque eram normalmente empresas que tinham ligações técnicas com empresas estrangeiras. Havia uma repartição, uma transmissão de conhecimentos técnicos. e depois eram em- presas melhor abastecidas ao nível de técnicos, normalmente engenheiros e até noutras especialida-

des. Havia, também, uma dominância de empresas maiores. Tínhamos casos de sucesso empresarial que entretanto se perderam como era o caso da Sorefame. O caso da construção naval é um pouco diferente porque foi muito afectado pela crise petrolífera de 73.

VA - Não o ouvi falar do design nem das estratégias de marketing e de comercialização dos produtos. Estas eram áreas, a par da gestão, onde as empresas tinham grandes dificuldade. No final dos anos 50 havia alguma aproximação a estas dimensões?

TC - Não. Com significado palpável não havia. Na minha opinião nem durante o início dos anos 60. A nossa debilidade comercial estava razoavelmente equacionada. Faziam-se e fizemos cursos e tentativas de levar as pessoas, os empresários, a tomar uma atitude diferente, de agressividade comer- cial, mas não posso dizer que tenhamos obtido resultados significativos nessa área. É só quando há mudança do Presidente do Conselho para o Marcelo Caetano que de facto há aí uma mudança quali- tativa. Independentemente do aspecto político, mais importante e mais significativo que era a Guerra de África o que fez, na opinião de muita gente, perder a hipótese Marcelo, ou porque não se quis ou não se pôde ou outra coisa qualquer, o status quo da Guerra em África, o que é certo que houve uma data de gente (na qual eu me incluo) que admitiu ao princípio que ele seria capaz de dar a volta. Não foi. e não foi por causa da Guerra de África. Aliás quando isso foi nítido no final de 71 e início de 72 que ele não estava na disposição de dar a volta. e não dando a volta nós viemos embora (do INII). Eu levei algum tempo a vir embora…

VA - O próprio Rogério Martins também veio…

TC - O Rogério Martins é uma figura central nessa mudança. O que é certo é que na economia a mu- dança foi muito grande. Aí é que se pode dizer que aquela dicotomia indústria versus lavoura passou a segundo plano. Rogério Martins é um espírito novo que entra no Governo, tem uma importância muito grande. É o homem que promove uma alteração profunda na atitude do Departamento de In- dústria.

VA - Era Secretário de Estado da Indústria…

TC - Na altura o Secretário de Estado não era comparável com o que é hoje. hoje os secretários de Es- tado são uma espécie de assessores dos Ministros. O secretário de Estado era efectivamente o Chefe do Departamento. Ele renovou os directores-gerais (eu tive nisso um papel significativo) e fui para a Direcção-Geral dos Serviços Industriais (que era de longe a mais importante naquela casa) e indiquei o Eng. Moura Vicente para director-geral dos combustíveis e fiquei a acumular com a direcção do INII. Só ganhava de um lado, nesse tempo! (risos) Só tinha um ordenado. Eu era o Director-Geral da Indústria que era de facto, em termos da indústria transformadora, que era a direcção-geral que comandava o condicionamento industrial (que hoje em dia as pessoas nem sabem o que é)…

VA - Pelo telefone o Rogério Martins disse-me que essa era a sua grande preocupação e objectivo: acabar com o condicionamento industrial.

TC - e acabou-se. Era relativamente simples.

VA - Inclusivamente falei com ele sobre o INII e disse-me que o INII não era para ele uma preocu- pação. “Aquilo orientava-se sozinho”, disse-me ele, “eu tinha um problema em mãos, acabar com o proteccionismo”.

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diz que o INII não era uma coisa com importância na Direcção-Geral da Indústria. A DGI era objec- tivamente mais importante. e então naquela altura para a alteração profunda que ele queria fazer era , realmente, um elemento chave. Nisso ele tem razão. Para a mudança que queria fazer na política industrial o que se passava na DGI era não só mais importante do que o que se passava no INII como no resto do Departamento da Indústria todo. Ainda que dizendo o que era se diz em duas palavras. O que era o condicionamento industrial? O condicionamento industrial consistia no seguinte: a pessoa para fazer uma ampliação ou a substituição de alguns equipamentos considerados centrais (havia listas) tinha que pedir uma autorização administrativa. Não era uma autorização ambiental, apesar disso também existir. A autorização administrativa que antecedia era tão importante que uma vez obtida o resto era tudo garantido. A Lei do Condicionamento permitia dizer não. E, este é um ponto muito importante, podia dizer não sem dar explicações. Era uma autorização, por definição legal, discricionária. Ou seja, à discrição de quem mandava. Quem mandava era o Secretário de Estado e quem propunha era o Director-Geral. Nunca propus nada ao Rogério Martins que ele não estivesse de acordo. Combinávamos previamente.

VA - Isso não criava clivagens dentro do Ministério?

TC - Vamos lá ver. Há uma coisa que tenho que reconhecer. Melhor ou pior, até porque eram poucos, o nível dos funcionários nesse tempo nos Ministérios técnicos (não estamos a tratar do Ministério