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Eksplisitt normering – gjennomgripande endring eller systemendring

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4) Eksplisitt normering – gjennomgripande endring eller systemendring

Caso “Longra/Daciano Costa”: Entrevista a operário da Metalúrgica da Longra. Abílio Moreira: Cronometrista.

Local: Felgueiras, num café. Duração: 41’14’’.

Momento: 28-10-08, pelas 15:30H.

Sr. Abílio Moreira – O meu pai era caseiro do Sr. Martins e foi por isso que lá andei (na Longra). Fiz a 4ª classe na fábrica. Havia dois professores de Felgueiras que iam lá dar aulas. Fiz a admissão na Longra. Depois tirei o curso geral de mecânica com os alicerces que fui apanhando na Longra.

Victor Almeida – Tirou em Guimarães?

AM – Sim. Não estava satisfeito e fui fazer algumas disciplinas do 7º ano onde era mais barra. Mas

tinha mais que fazer. Não havia os divertimentos que há hoje.

VA – Está a falar de que época?

AM – Estou a falar de 96. Nessa altura entrei para a Longra e tudo o que me mandassem fazer eu

fazia. Havia secções melhores que outras. Os estofos eram uma boa secção. Os cunhos e cortantes era também uma boa secção onde fui parar. Trabalhei primeiro no tubo e foi preciso fazer umas ope- rações em rotativas que era por um rodízios. Aquilo levava uma esferas (rolamentos) e era preciso estar ali 5 ou 10 minutos a rolar à mão.

VA – Faziam mesmo o rodízio?

AM – Nós fazíamos os rodízios. Na altura não havia disponíveis no mercado e a Longra fazia-os.

A secção de cunhos e cortantes fazia as ferramentas e aquilo levava uma série de peças. Não eram fáceis de fazer. Levava as esferas, um carrinho com duas ganchas onde depois entrava um eixo e a roda de borracha e aquilo para o rodízio andar era preciso dar muitas voltas para as esferas ganharem cama e rodarem com facilidade. Punha-se numa máquina de furar chapa com um peça que permitia entrar nas ganchas e rodar sozinho.

VA – Foi o seu tirocínio?

AM – Isso para ir para a secção de cunhos e cortantes que era a secção mais importante da altura na

Longra. Onde se ganhava mais e era mais limpo. e na altura não havia controle. Todas as peças que saiam dos móveis eram feitos com cunhos e cortantes dessa secção.

VA – Trabalhou com o Sr. Domingos Teixeira?

AM – Sim. e com o Sr. Ernesto. Depois passei a chefe dos balancés e, de seguida, fui tirar o curso de

cronometrista, de tempos e métodos, em Lisboa.

VA – Na COPRAI?

AM – Não. Era um senhor que dava lá e que depois veio aqui para a Longra continuar os cursos. VA – Quem foi aos da COPRAI?

AM – Foram os mais velhos. O Sr. Domingos Teixeira, o Sr. António Costa. Estiveram lá umas se-

manitas.

VA – O que me trás a Felgueiras é falar com algumas pessoas que lidaram de perto com a actividade do designer Daciano da Costa. Isto porque a entrada do Daciano da Costa foi determinante para a alteração dos modos de produção de mobiliário da Metalúrgica da Longra.

AM – Conheci o Sr. Daciano da Costa porque fui na altura para junto do Sr. Fernando Pinto da ofici-

na-piloto. Eu era ajudante e ali se via — a Longra teve sempre bons profissionais — que toda a gente olhava para o Sr. Daciano da Costa como uma espécie de santo. De um extra-terrestre. Ele vinha ali e com duas pinceladas ele dizia o que queria.

VA – Mas esse processo começa antes do Daciano. Quem está na origem da modernização da pro- dução de mobiliário. O Sr. Fernando Seixas?

AM – Sim, claro. É quem introduz essa necessidade e o Sr. Daciano corresponde a uma evolução.

[Tenho aqui alguns desenho que não sei se tem interesse.] Eu era um bocado curioso. Tenho aqui alguns elementos de desenhos, a linha Dfi…

VA – Estes desenho são da sala de desenho…

AM – Que nós recebíamos — eles faziam cópias e enviavam — e executávamos. VA – Ainda se continuava a chamar MIT. Vemos aqui o famoso pé de galinha.

AM – Exactamente. A Longra foi uma escola, uma universidade para esta gente toda. Depois da Lon-

gra foi criada aquela de Lousada, a Sotubos, e uma série de empresas com funcionários que sairam da Longra e criaram a sua própria empresa.

VA – Esta era a estante que tombava?

AM – Não. É um ficheiro. É claro que havia funcionários, como o Sr. Matos que tratava directamente

com o Sr. Daciano Costa.

VA – Além da característica que apontou no início o que lhe parecia a si que era a importância do trabalho do Daciano da Costa na Longra? e nomeadamente, na introdução dos novos métodos eles serviam para quê?

AM – Julgo que se não fosse ele a Longra teria estagnado. Quando eles se apercebiam [e eu também

me apercebia porque estava mais ou menos por dentro] de que o modelo estava a ficar cansado… Depois vem aquela euforia dos tectos falsos, que hoje é banal falar disso, ele projecta toda essa arte. Nós vamos para a Madeira, para os Açores,… Em termos de auditórios, ele foi quem desenhou para a Gulbenkian, Eu estive lá a montar. Como a minha secção tinha pouco trabalho pedi para ir para Lisboa.

VA – Estava entusiasmado com a ida a Lisboa. A capital chamava.

AM – Sim até para ver a grandeza da Longra. A capital chamava!? Bem não era só a capital mas

aquilo que nós imaginávamos quando vinham cá o Daciano Costa, o Seixas, e perceber como é que aquilo funcionava. Repare, aparece alguém com aquelas ideias todas e eu imaginava que aquilo era um sonho. Era fora de série. A Longra dava alojamento e alimentação e nós íamos para Lisboa com tudo pago e mais um extra. e ver aquilo tudo, quando se entra no gabinete do Sr. Daciano Costa e se vê aquela pujança toda, claro que nós ficávamos noutro mundo.

ANEXOS 14

VA – A Longra estava organizada de forma muito diferente das outras empresas.

AM – Qualquer funcionário que entrasse para a Longra era como emigrar. Uma vida totalmente dife-

rente. Na Longra havia cinema, éramos melhor remunerados, éramos vistos de outra forma. Até para arranjar namoradas era diferente. Tinha uma perspectiva de futuro. Isto era uma região agrícola e só havia isto. Quando fomos para a Lisboa, estive lá 3 anos a montar a Gulbenkian, foi muito tempo, e só vinhamos de mês a mês. Eu e outro rapaz que foi comigo (o Manuel) às vezes só vinhamos de 3 em 3 meses. Os casados vinham de mês a mês com viagem paga pela empresa.

VA – Como aparecem na Longra os tempos e métodos?

AM – A Longra começou logo por ter um transportador aéreo que cá nem sequer se pensava nisso.

Começou por ter cabines automáticas, e depois vieram os tempos e métodos, ou seja, a organização da firma. Com o transportador aéreo já não havia necessidade de transportar às costas ou em carri- nhos de rodas.

VA – Quem introduz essas alterações?

AM – Aqui é o Sr. Júlio Martins. Naturalmente que ele viajava bastante e vi aquilo em algum sítio. VA – O sistema é feito aqui na Longra?

AM – Não é comprado e montado por uma empresa especializada nisso. Aquilo tem que ser bem

montado e regulado para que haja tempos precisos para fazer determinadas tarefas. A pistola tem tantos segundos para pintar determinada área…

VA – Como é que o resto do pessoal adere a essas alterações? AM – Não adere bem. Aliás há uma certa resistência.

VA – O que faz a empresa para resolver esses problemas?

AM – Faz reuniões onde explica que há necessidade de trabalhar mais e melhor. Reuniões a explicar

as mudanças e, nós os controladores, começamos a estar mais junto do pessoal explicando que aquilo não os prejudicaria, antes pelo contrário. Enquanto que em outros tempos todos trabalhavam para todos, ali cada um trabalhava para si. Antes dos tempos e métodos aparecerem havia uns que traba- lhavam muito e outros que trabalhavam pouco. A partir dos tempos cada um tem um tempo, sabe a função que lhe cabe e, é nessa perspectiva que aquilo começa a evoluir. e começa-se por fazer mais pavilhões porque os que existiam não chegava.

VA – Em termos empresariais este sistema era pioneiro na altura em Portugal?

AM – A Longra foi prioneira. Nas fábricas de calçado, onde eu depois entrei, não havia nada disso.

Nem tempos havia em lado nenhum. Tempos e métodos passaram da Metalúrgica da Longra para todas as empresas, quer de calçado quer de outras indústrias existentes. Com a alteração na produção tiveram que se construir novos pavilhões.

VA – Houve quebras na qualidade?

AM – Antes pelo contrário. Havia um controle muito maior emtermos de qualidade porque havia

muita gente a ver se ia bem ou se ia mal. A própria pessoa que está a fazer o trabalho sabia que estava a ser controlada e procura aperfeiçoar-se. Até para levar mais tempo caso quisesse que a coisa pas- sasse mais ligeira, ele próprio ter tempo para isso. Tínhamos pessoas que não podiam ser controladas, como o sr. Luís Pinheiro, que era uma pessoa extremamente nervosa e que trabalhava demasiado

rápido. Não havia ninguém que o acompanhasse.

VA – Havia um que era invisual?

AM – Esse também. Trabalhava sempre acima da actividade 100. Apesar de não ter visão trabalhava

muito concentrado e tinha uma perspicácia e uma percepção de que era preciso fazer mais para ser mais rentável. A partir daí a Longra começou a avançar mais em termos de quantidade e emtermos de qualidade como é evidente.

VA – Como se adaptavam à entrada de novas linhas na cadeia?

AM – Em primeiro lugar o produto nunca ia directamnete para as secções. Era tudo feito com a

supervisão do Sr. Daciano Costa,. Não saía nada sem ser fechado pela oficina-piloto. Depois da oficina-piloto, o Fernando Pinto e o José “Lavrador” vinham às secções simplificar e acompanhar o lançamento do produto.

VA – Tem alguma ideia de quanto tempo é que levavam nesse processo?

AM – Nunca estavam menos de uma semana a acompanhar a saída entre a primeira e a segunda peça.

Era tirado um tempo estimativo na oficina-piloto e depois é que era cronometrado na real produção.

VA – Começam a aplicar esse método em que linha?

AM – Começámos com a Dfi. Nós tínhamos tudo cronometrado, desde a saída do tubo do armazém

até à cadeira final pronta a seguir.

VA – Esses tempos mantinham-se os mesmos em toda a produção da linha?

AM – Nós íamos fazendo ajustes. Os métodos não eram rígidos. Primeiro método o móvel saiu e

introduzia-se novos métodos. O gabinete de organização e métodos estudava, juntamente com a ofi- cina-piloto, a melhor forma, desde que o trabalho final não saisse prejudicado, de o simplificar. Por exemplo, uma cadeira que era soldado a eléctrica e, por qualquer motivo, a máquina de pontos de ar dava para fazer aquela operação e ficar seguro e, assim, alterava-se o método.

VA – Essa metodologia obrigava a afinações entre vocês, entre os operários?

AM – É evidente. Nós fazíamos várias cronometragens, não fazíamos só uma. A mesma operação era

cronometrada várias vezes. Por exemplo, limar uma solda num determinado local, nem só um operá- rio é que fazia a limagem da solda, eram 4 ou 5. Também iam 2 ou 3 cronometristas medir os tempos. Num dava 90 e noutro 110 e depois ia-se aferir. A cronometragem era também feita por elementos.

VA – Vocês tinham o mesmo horário de trabalho?

AM – Era o mesmo. Só os escritórios e os desenhadores é que faziam menos horas. Era o sindicato

deles que lhes dava essa possibilidade.

VA – Entre vocês havia uma hierarquia muito definida.

AM – A Longra tinha uma certa disciplina. Por respeito e, por vezes, por medo porque ninguém que-

ria vir cá para fora. Ali as pessoas respeitavam-se umas às outras. Mesmo entre pessoas com a mesma qualificação. Se alguém chamasse nomes ou outra coisa assim era imediatamente suspenso. Ali não havia a mínima hipótese. Havia disciplina, hierarquia…

VA – De uma empresa grande.

AM – Não só grande como com estatuto. Os gestores [na altura não se chamavam assim, eram os

ANEXOS 14

passavam de hora a hora, ou de duas em duas horas, quando menos esperavam, quer o Sr. Júlio Mar- tins, quer o Sr. Jaime (que era o encarregado geral) e mais tarde os outros, todos eles passavam pela produção. Qualquer coisa que estivesse mal eles chamavam à atenção.

VA – Eram estimulados a fazer formação, ou só alguns?

AM – Toda a gente que quisesse podia subir na hierarquia se estudasse. Quanto mais estudos tivessem

mais possibilidades tinham de singrar lá dentro.

VA – As alterações na produção, através dos tempor e métodos, foi proposta pelo INII e pelos enge- nheiros que por aqui passaram.

AM – Exactamente. Pelo eng. Ferreira de Almeida. VA – Como se relacionaram com eles?

AM – Em primeiro lugar todos os que foram seleccionados tinham o desejo de ir. Era uma promoção.

Andavam mais limpos. Quem teve esse privilégio sentiu-se bem.

VA – Quantos eram?

AM – Começámos por ser  e depois passámos a 5 distribuídos por várias secções, desde a mar-

cenaria, os estofos, a pintura,… Quem estava à frente disto era o Sr. Ferreira de Almeida que depois passa ao Sr. António Costa. Nós trazíamos os elementos da fábrica e era o António Costa que com- pilava todos esses elementos. Fazíamos reuniões para chegarmos a um valor real, e esse valor era lançado por ele para uma gama de operações, e que era um documento onde vinha indicado que um determinado objecto tinha para cada operação um tempo específico.

VA – Na altura isso deve ter sido impressionante?

AM – Devo dizer que isso mudou a minha vida. Eu não era dos mais avançados na área. Havia pes-

soas com mais queda do que eu. e encaravam aquilo de outra forma. Eu encarei aquilo de maneira a valorizar-me porque, como estava longe da Longra (em Fafe), queria dar o salto para outro lado. Fui o primeiro cronometrista a sair da Longra para o calçado. Falei com o Sr. Júlio Martins e disse-lhe o que se passava e ele responde dizendo que se não estivesse satisfeito no lugar para onde ia que podia regressar. Fui para Guimarães ganhar o dobro.

VA – Como é que o Daciano da Costa lida com o método? Havia as cadeiras de auditório que se calhar não precisavam de estar inseridas no método?

AM – Precisavam. Todas elas entravam na linha e eram cronometradas. Os Sr. Daciano da Costa e o

Sr. Carlos Costa entravam bem porque a Longra tinha mesmo uma equipa. Quando vinha a hierar- quia toda, a cúpulo, todos se juntavam para discutir. e isto tinha uma cadeia. Vinha de baixo e toda a gente assedia às directrizes que vinham de cima. Discutia-se e a melhor solução era aquela que era adoptada.

VA – Então o que terá corrido mal?

AM – A única coisa que correu mal foi o 25 de Abril. Houve logo uma divisão entre a Longra e Lis-

boa. Acontece que os nossos grande consumidores eram a Banca e os Seguros. e os Hotéis. Com o 25 de Abril tudo quase desapareceu. O 25 de Abril arruinou a indústria de mobiliário porque eram os grande grupos que consumiam. A nossa facturação de produtos de primeira necessidade era para esses grandes grupos. Desde as secretárias em jacarandá até… tudo isso desapareceu. Repare, no 25

de Abril eu também lá andei,… Não estou a falar mal por falar mas é que a Longra foi muito afectada por esses acontecimentos.

VA – Para acabarmos a nossa conversa, e em jeito conclusão, como vê o trabalho e as acções do Daciano da Costa na Longra ao longo de todos estes anos?

AM – Não sei se seria outro, mas se não fosse ele eventualmente não avançaríamos. Naturalmente

iríamos copiar a outro lado, sei lá. Com ele a Longra fabricava produtos próprios, da casa. e depois vieram outros que começaram a copiar-nos: a Adico, a Sotubo, a Famo, a Seldex, a Cortal, a Handy, etc., todas elas vinham copiar, quer os cestos de papéis [os cestos de papéis ovais que sairam assim e toda a gente começou a copiar]. A Longra foi uma universidade para toda a gente; o Daciano da Cos- ta teve uma importância fulcral porque a partir de determinada altura não foi necessário ir a França ou a outro sítio qualquer para copiar; e sobretudo, o grande salto para os grandes grupos foi com o Daciano da Costa quando ele começa a trazer as novas linhas. Começámos a ver sair aqueles móveis, que já não eram a cadeira de dentista, mas sim os escritórios das salas dos grandes grupos.

VA – Quando foi para outras empresas tentou reproduzir o modelo da Longra? AM – Claro que transportei da Longra para outras firmas. Não vale a pena mentir! VA – Obrigado.

ANEXOS 147

Anexo 6.8