Os processos de normalização dos crioulos em três sociedades e culturas insulares, escolhidas aleatoriamente - as de Martha’s Vineayard, TimorLeste e Havai - conduziram-me a realidades insulares com maior proximidade geográfica, política e linguística da Lcv, que são o Papiamento de Aruba, Curaçao e Bonaire (ABC) e o Forro de S. Tomé e Príncipe:
A palavra Papiamento, segundo Pereira (2007b: 62), tem a mesma raiz de papia (do português papear, significando palrar, papaguear) que encontramos na designação do crioulo de Malaca, o Papia Kristang e nos crioulos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, onde o verbo papia40 é usado para significar falar, conversar, pese embora os o frequente fenómeno sociolinguístico de descrioulização, por parte dos jovens, a que me referirei na página seguinte no que concerne a Cabo Verde. Voltando às ilhas “ABC”, como se sabe, o Papiamento, falado nas ilhas de Aruba e Bonaire e Curaçau, nas Antilhas é de origem mista, portuguesa e espanhola, com termos de origem holandesa, inglesa, francesa ameríndia e africana, apresentando, no entanto, grandes semelhanças com o Crioulo de Cabo Verde, tanto ao nível lexical como ao nível gramatical.
40 PAPIA LINGUA STRANJERU E DIFISIL (falar língua estrangeira é difícil)
2 kriansa kabuverdianu di ses 2 pa 3 anu di idadi, kontra ku kunpanheru. Es era amiginhas. Un txomaba Amélia i kel otu, Márcia. Márcia era mas spertinha. Márcia bira pa se koleginha, el fla-l ku tudu bazofaria: - Amélia, dja N sabe fla un palavra na purtuges! - Ki palavra?! Nxina-m! - reaji Amélia, ardigada. - Bu ka ta konsigi fla-l pabia e difisil. - kudi Márcia ku orgulhu di se kabesa. - Fla-m, Márcia! Nxina-m-el di favor! N ta prende tanbe. - Sta dretu. E palavra "mama". El signifika "nha mai" na purtuges. - Mas, kel la e fasil - e sima na nos lingua! Nos tanbe, nu ta fla "mama". - trosa Amélia. - Ka e fasil nada! - insisti Márcia, kontrariada. - E fasil sin sinhora! Odja-m ta fla-l: mama! - Na! Bu sa ta fla-l na kabuverdianu. Fitxa odju, bu faze di konta ma bu sa ta papia na purtuges, i dipos bu fla "mama". - dizafia Márcia. Amélia fitxa odju, spreme, nfanhi, spreme, nfanhi, spreme, nfanhi i dipos dispara: - Poxa! Dja N dizisti. N ka sa ta konsigi finji ma N sa ta papia purtuges!
Fonte: Redes sociais de um dos meus informantes, em 2013, reproduzida aqui como ilustração das semelhanças entre o Papiamento e o Ccv.
Dulce Pereira, na sua obra, já mencionada anteriormente, “Crioulos De Base Portuguesa”, mas, agora, na página 40, ensina-nos, a propóstio de algumas ideias (mal) feitas sobre os crioulos, na parte respeitante às consequências sociolinguísticas resultantes do facto de os crioulos de base portguesa terem sido durante muito tempo objeto de uma avaliação negativa por parte do senso comum e das autoridades portuguesas principalmente no início do século XX, o seguinte “(…) atualmente, um dos verbos mais antigos e mais frequentes do crioulo Santiaguense – papia (falar, conversar) – está a ser sistematicamente substituído, no discurso dos mais novos, pela forma fala, naturalmente sob a a influência da língua portuguesa e do seu verbo falar”. Por outro lado, diz-nos a wikipédia41, o Sãotomense ou Forro (também conhecido como santomé) é uma língua nacional de S. Tomé e Príncipe, falada na primeira das duas ilhas, excepto na ponta. Sendo uma língua crioula de base portuguesa, o crioulo de São Tomé difere grandemente dos crioulos da Guiné-Bissau, Senegal, Gâmbia e Cabo Verde pois tem por base, principalmente, as línguas Kwa, faladas na Costa do Marfim, Gana, Togo, Benim e Nigéria. “O Sãotomense é a língua usada nos contactos sociais em praticamente toda a ilha de S. Tomé, inicialmente falada pelos escravos libertos ou forros e a maioria dos falantes de são-tomense fala também português42”.
O Instituto Camões43 complementa a informação anterior, acrescentando que o Santomense deve-se ter estabilizado no fim do século XVII, quando diminuiu o fluxo de escravos uma vez que nos primeiros cem anos os escravos eram trazidos principalmente do Benim onde se falavam as línguas Kwa e mais tarde recebeu influências do Kikongo falado pelos escravos vindos do Rio Congo e que, embora com menos expressão, subsiste, ainda, em S.Tomé, um outro crioulo (Angolar), falado pelas primeiras gerações de angolares sofreu provavelmente uma relexificação à medida que a comunidade acolhia novos escravos fujões falantes de línguas de origem banto, como o Kimbundo, o
41 http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o-tomense. [Consult. a 2013-11-02]. 42 http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o-tomense. [idem].
43 http://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/geografia/crioulosdebaseport.html [idem].
Edo e o Kikongo. O Santomense, de acordo com as fontes acima citadas, tem um léxico maioritariamente de origem portuguesa embora com influência das línguas Kwa e Banto e léxico do Angolar integra um maior número de fontes africanas, sobretudo do Kimbundo.
A Revista de Crioulos de Base Lexical Portuguesa e Espanhola 1:1 (2009), 1-27 ISSN 1646-7000, publica um resumo de um projeto de investigação interessante sobre esta temática, da autoria de Tjerk Hagemeijer, do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, intitulado As Línguas de S. Tomé e Príncipe44, do qual retirei o seguinte excerto,
com o qual termino este tópico:
Ao contrário do Crioulo de Cabo Verde, as línguas do continente africano tendem a desaparecer rapidamente das ilhas, porque muitas vezes não houve transmissão de geração em geração. Os contratados cabo-verdianos tiveram melhores condições para preservar a sua língua materna, porque esta era relativamente homogénea, se tivermos em conta, por exemplo, a diversidade de línguas de Angola ou Moçambique. Além disso, os contratados cabo-verdianos vinham mais frequentemente em família, e houve muito mais casos de repatriamento de serviçais angolanos e moçambicanos.