10.9 Planlegging og gjennomføring av fellesoperasjoner for
10.9.2 Metodevalg
No plano da História, as relações entre a Madeira e Cabo Verde não são tão estreitas como seria de supor. É certo ter havido momentos de contacto mais intensos e outros esporádicos, como recorda Simão de Barros (s/d: 40): “foram os originários da Madeira que forneceram o maior número de indivíduos, no processo de formação do povo cabo-verdiano. Houve, entre estes, nobres, mas também deportados por crimes políticos e de delito comum.”
Mas, passados cinco séculos desde o processo de povoamento desses arquipélagos, essas comunidades insulares não tiveram muitas oportunidades para estabelecer uma efetiva relação de proximidade ou de convívio. Ainda assim, tem-se observado, ultimamente, uma tendência crescente para encurtar as distâncias entre a República de Cabo Verde e a Região Autónoma da Madeira. Por isso, vale a pena ensaiar uma abordagem ao tema em discussão.
É certo que, no processo do povoamento de Cabo Verde, madeirenses houve que desempenharam um papel significativo. Essa operação, que juntou europeus portugueses e mais tarde africanos, provenientes da costa da Guiné, teve início na ilha de Santiago e foi concluída com a ocupação das ilhas de Santa Luzia e do Sal. Esses europeus portugueses eram oriundos, sobretudo, do Algarve e da Madeira e, posteriormente, do noroeste do Portugal e das outras ilhas atlânticas, aos quais se juntaram estrangeiros, como sintetiza Veiga (2000: 18):
Deux ans après la “découverte”, c’est-à-dire en 1462, le peuplement de l’île de Santiago commence, suivi de celui de Fogo, entre 1480 e 1493, avec des Portugais (du nord, du sud du Portugal et de l´île Madeira), des Genevois, des Castillans et des esclaves noirs.
28 Nos Anexos incluo um complemento mais pormenorizado do ponto de vista histórico - “Anexo III:
Friso cronológico da História de Cabo Verde”.
E foi a partir da Madeira e dos Açores que o cultivo de cana-de-açúcar se estendeu até ao norte de África, Cabo Verde e São Tomé, graças ao tráfico de escravos. O relacionamento da Madeira com as ilhas de Cabo Verde foi facilitado pelos benefícios fiscais atribuídos pela Coroa desde 1507. A contrapartida baseava-se no fornecimento de cereal da Madeira e depois dos Açores.
A Madeira usufruiu, em 1562 e em 1567, de facilidades no comércio de escravos de Cabo Verde e de rios da Guiné. Esta foi uma forma de suprir os problemas surgidos com a crise açucareira. A oferta de Cabo Verde alargava-se também ao sal, carne e couros (Vieira, 2001: 197).
Mestres e tripulantes das embarcações que demandavam a região equatorial, não escondiam a sua preferência, pelo que assiduamente faziam escala no Funchal para se abastecerem de vinho, o que favoreceu a sua afirmação no mercado colonial a partir do séc. XVII. Em Cabo Verde, o vinho madeirense era preferido aos demais, por ser o único que resistia ao calor tórrido (Vieira, 2001: 181).
Como refere António Alexandre Bispo, a historiografia cabo-verdiana menciona a tentativa de povoamento da ilha de São Vicente por famílias provenientes da Madeira e dos Açores, ordenado em 1781. Essa intenção terá ocorrido à época de D. Maria I (1734-1816), num tempo em que a influência da Igreja se fez novamente sentir em Portugal e no Império português. Vários motivos, de natureza política, religiosa e cultural, terão levado a desenhar esse plano: não deixar espaço para que piratas, corsários ou potências estrangeiras (ingleses, franceses ou holandeses) pudessem estabelecer numa das ilhas mais despovoada do arquipélago bases de apoio a ataques e saques; restaurar ou reforçar o catolicismo nessa ilha, visto os usos e costumes da população, maioritariamente de origem africana, traduzirem comportamentos e expressões tidas pela Coroa portuguesa como exteriorizantes e heterodoxos. Tratar-se- ia, pois, de corrigir “abusos” e impor uma maior disciplina moral. Todavia, essa tentativa fracassou sem deixar rastos significativos, seguindo-se uma outra iniciativa,
melhor preparada, de povoá-la com camponeses do próprio Arquipélago. Se a ideia tivesse ido para a frente, talvez se tivesse criado uma rede de relações humanas e comerciais entre regiões insulares portuguesas, ou seja, um mercado interno insular atlântico (Bispo, 2013).
Aos olhos dos portugueses, em geral, e dos madeirenses, em particular, Cabo Verde passou a representar, desde finais do séc. XVIII até ao período do Estado Novo, o “degredo”, um lugar distante e isolado persistentemente assolado pela seca e pela fome, a ponto de, em 1830, por exemplo, cerca de 42% da população do arquipélago de Cabo Verde ter sido dizimada por esses dois fatores. Sabe-se que, entre 1808 a 1882, desembarcaram no Arquipélago cabo-verdiano 2570 “degredados” – um grupo diversificado de sentenciados, no qual se contavam 83 mulheres, constituído por desertores, perseguidos políticos, religiosos e outros (Faria, 2012: 67). Nesse grupo de “degredados” deve ser possível incluir o então apreciado poeta madeirense, Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos (1768-1824), admirador confesso dos filósofos do séc. XVIII, defensor da Constituição29 e, como tal, objeto de uma devassa, em 1823. Sob os motivos de pertencer à Maçonaria e de ter dirigido injúrias à família real, foi condenado a oito anos de degredo em Cabo Verde. Faleceu em 1824, como desterrado político, aos 56 anos, na cidade da Praia, onde se encontrava. Seu filho, Sérvulo de Paula Medina e Vasconcelos, nascido no Funchal em 1820, veio a ser empregado civil para as ilhas de Cabo Verde, com o governador D. José Miguel de Noronha, em 1845. Sérvulo Medina e Vasconcelos terá sido, por 1851, redator do Boletim Oficial, onde publicou o romance Um Filho Chorado. Faleceu ali por 1854, na ilha Brava, aos 34 anos. Os autores do Elucidário Madeirense sublinham que estes “ilustres” funchalenses terão deixado descendência em Cabo Verde, nomeadamente a família Medina e Vasconcelos, que existe naquele arquipélago.
29 Disponível em http://arquivohistoricomadeira.blogspot.pt/2009/10/francisco-de-paula-medina-e-
vasconcelos.html. [Consult. a 2015-10-31].
Dada a sua localização, a sua orografia e o seu aspeto climático, o arquipélago de Cabo Verde é, ciclicamente, assolado pela seca que, por sua vez, provoca epidemias e/ou crises frumentárias. Em 1863, a carência alimentar era de tal ordem que foi necessário enviar mantimentos de Lisboa, bem como das ilhas de S. Tomé e da Madeira.
Segundo Vítor Sardinha (2008: 111), os cordofones de mão mais utilizados na música popular e tradicional da Madeira, sobretudo no decorrer de processos de emigração de madeirenses, viajaram e deram-se a conhecer um pouco por todo o Atlântico português. Desse contacto com outros povos, novas práticas musicais nasceram: “assim aconteceu com o “braguinha” em Cabo Verde, onde o instrumento guarda enquanto afinação de cordas soltas a mesma da Madeira (do agudo para o grave: ré, si, sol, ré)”.
Após uma acalmia de décadas, é nas páginas do diário da viagem que Raul Brandão fez no verão de 1924 àqueles territórios insulares que designou como As Ilhas Desconhecidas (1926: 86) – ou seja, aos Açores e à Madeira –, que voltamos a encontrar um dado sobre a interrelação entre Madeira e Cabo Verde. Neste particular, o escritor português regista a passagem pela Madeira de cabo-verdianas que retrata do seguinte modo:
Sentado à porta do Golden Gate, ouço o apito do vapor, e já sei o que se vai passar: muda a armação como um cenário de mágica. Surgem homens com grandes chapéus de palha para vender bordados, colares falsos de coral, cestos de fruta; iluminam de repente as lojas, e segue o desfile de tipos – pretas de Cabo Verde com foulards vermelhos na cabeça, mulheres planturosas, alemães maciços, portugueses esverdeados e febris que regressam das colónias, velhas inglesas horríveis que vêm não sei donde e partem não sei para onde, desaparecendo para sempre no mistério insondável do mar; (…).
Em 1931, na sequência da revolta da Madeira, Cabo Verde volta a receber uma leva de revoltosos, que vão, numa primeira fase, para o Tarrafal de São Nicolau (1931-36) e, depois, para o Tarrafal de Santiago (1936-54), conhecido campo de concentração para antifascistas. Não é por acaso que, no final do romance Eternidade (1933), de Ferreira
de Castro, um grupo de homens, em que pontifica o protagonista, Juvenal, é deportado para Cabo Verde. Em outubro de 1936, chegaram ao Tarrafal mais uns camponeses madeirenses, presos na chamada “revolta do leite”.
Nem só da ida interessada ou forçada de madeirenses para Cabo Verbe é feita a História. Consta que a partir dos anos sessenta clubes de futebol da Madeira passaram a contratar regularmente jogadores cabo-verdianos. Alguns deles, mais talentosos, prosseguirão a sua carreira no continente europeu, após passagem pelos melhores clubes da Madeira.
Estabilizadas as situações político-administrativas desses arquipélagos depois do 25 de abril de 1974, foi possível estreitar, sobretudo a partir dos anos 90 do século passado, relações quer económicas, quer culturais. Empresários dos dois arquipélagos interagem regularmente, movidos por interesses comuns, e, no âmbito do diálogo intercultural, instituíram-se laços entre agentes culturais, criadores e a comunidade científica, como atestam certos nomes de colaboradores na revista Islenha, editada pela Direção Regional dos Assuntos Culturais da Região Autónoma da Madeira, e de participantes nas várias edições do “Colóquio Internacional do Funchal”, organizado pelo Departamento da Cultura da Câmara Municipal do Funchal.
De resto, note-se que Cabo Verde assumiu, em dezembro de 2010, a Presidência e o secretariado da Cimeira dos Arquipélagos da Macaronésia por um biénio. Esta primeira Cimeira, decorrida na cidade do Mindelo, em Cabo Verde, visou essencialmente criar um espaço de concertação política e de cooperação para o desenvolvimento entre as ilhas de Canárias, Açores, Madeira e Cabo Verde.
Por último, faço notar, a título de ilustração das relações entre a Madeira e Cabo Verde, a recente colaboração regular no Diário de Notícias da Madeira30, do escritor e filósofo, Filinto Elísio Correia e Silva, conselheiro do atual Primeiro-ministro de Cabo Verde.
30“ V. Anexo IV.
Sintetizei, neste ponto, os principais marcos na História comum de Cabo Verde e da Madeira. De seguida, passo a explicar a pertinência da abordagem que me propus fazer.