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Integrering og samvirke

In document Forsvarets fellesoperative doktrine 2000 (sider 154-162)

12.5 Operasjoner

12.5.3 Integrering og samvirke

Sou natural de Moçambique. Residi em Cabo Verde, na cidade da Praia (Santiago), pela primeira vez, de 1977 a 1983 e, pela segunda vez, de 1988 a 1989. Além disso, na qualidade de bolseiro, convivi na Universidade do Minho, em Braga, com estudantes cabo-verdianos, de 1984 a 1988. Vivo na Região Autónoma da Madeira desde 1989. Na Ribeira Brava, tenho boas relações com as raras famílias cabo-verdianas que ali residem. Nestes últimos dois anos, estabeleci contactos, através das novas tecnologias de comunicação, com fazedores de opinião e intelectuais influentes em Cabo Verde. Falo e entendo a Língua cabo-verdiana, mas não domino a sua escrita.

Na minha infância, em Moçambique, nos anos sessenta do século passado, em pleno período colonial, tive um primeiro contacto com o Crioulo, porque o meu pai, operário ferroviário, jogador de futebol e amante do convívio com diferentes culturas, lidava bem com a meia dúzia de famílias cabo-verdianas imigradas na pequena vila de João Belo,

distrito de Gaza, onde cresci. Esses cabo-verdianos eram agricultores46 provenientes da ilha de Santiago e, graças a eles, familiarizei-me com a sonoridade particular do cabo- verdiano, bem como alguns dos seus termos, a exemplo de: “morna”, “coladeira”, “cachupa”, “bô” (‘tu’), “nha” (‘Sra.’), “bai” (do verbo, ‘ir’), etc. Dado serem imigrantes de baixo estrato social, considerava, naturalmente, esse modo de falar e de comunicar como uma curiosidade linguística, cuja função era a de reforçar a cumplicidade do momento e o respeito mútuo, mas sem interesse de maior.

Na minha juventude, sempre em Moçambique, nos anos setenta, já em plena era das independências, os cabo-verdianos que conheci estavam muito próximos da cultura portuguesa. Os discursos e as ideologias levados pelo colonizador (literatura, arte, fé, clubes de futebol…) mantinham-se muito presentes através dos ensinamentos escolares, dos discursos oficiais, da longa mestiçagem e da aculturação secular. Daí cultivarem uma identidade cultural marcada pelo imaginário e por referências portuguesas, fixando a sua origem no discurso historiográfico português, as descobertas, os grandes navegadores, a pátria de poetas, etc. Todavia, não abdicavam da sua outra identidade, moldada tanto por uma memória ancestral, intuída e sentida, mais do que pensada ou estudada, como pelo entorno em que cresceram: por um lado, a geografia, a corografia, a paisagem e o mar; por outro, o lugar e a língua dos afetos, o Crioulo, o imaginário mestiço e o amor à terra.

Muitos desses cabo-verdianos pertenciam à chamada geração de 50 e, de algum modo, influenciaram-me, porque eram os visionários ou autoridades morais que prenunciaram as independências e o direito à autodeterminação do Negro e do Mestiço. Lembro-me ainda de, nessa altura, ter-me ligado afetivamente a uma jovem, natural da cidade da Praia. Ela falava comigo em Português, mas, com a mãe, irmã e irmãos, expressava-se na sua língua materna, a variante de Santiago.

46 Essa região de Moçambique, atravessada por um grande rio, o Limpopo, era, na altura, propícia a

variadas atividades agrícolas.

Quando, no verão de 1977, desembarquei no Aeroporto Internacional da ilha do Sal, confrontei-me com uma variante dialetal do Crioulo distinta da que até aí dominava razoavelmente. Senti então a necessidade de saber mais sobre todas as variedades existentes no Arquipélago. Instalei-me, nesse dia, na cidade da Praia. Inicialmente, não entendia quase nada, mas, por questões de sobrevivência, passado pouco tempo, conseguia comunicar na língua nativa, pese embora o aportuguesamento do meu falar comparado com o dos autótones. Fui-me tornando bilingue, porque, vivendo e trabalhando com pessoas cuja primeira língua era o Cabo-verdiano, passei a expressar- me, oralmente, nessa língua, nas mercearias, no mercado, junto dos empregados auxiliares e rapazes da rua.

Detentor de um Curso Comercial (correspondente ao atual 9.º ano de escolaridade) obtido na terra natal, comecei a trabalhar, como técnico de contabilidade no setor administrativo da antiga EMPA (Empresa Pública de Abastecimento)47 e, pouco tempo depois, aproveitei para prosseguir os estudos secundários no Liceu da cidade da Praia. Nesses anos, naquele território atlântico tornado há pouco independente, o ensino era ministrado na Língua portuguesa, pois era essa a língua oficial e o Crioulo gozava do estatuto de língua nacional. Embora houvesse uma comunidade que se expressava em Português, o facto é que a maioria da população vivia e comunicava em Crioulo.

Contrariamente ao Português, uma língua com um lastro de cerca de oito séculos de documentos, obras literárias, gramáticas e dicionários, escritas ou impressas, o Crioulo nasceu nesse arquipélago atlântico há pouco mais de cinco séculos, desenvolveu-se à margem do prestígio social, numa cultura oral, de forma desordenada, ao sabor das contingências de lugares e épocas. As obras publicadas em Cabo-verdiano são relativamente recentes (a partir do séc. XIX48) e surgiram de forma espontânea, sem um 47 Notícia atualizada sobre essa empresa pode ser lida, por exemplo, em:

http://www.rtc.cv/index.php?paginas=21&id_cod=8000, [Consult. a 2-10-2014].

48 Recorde-se o ensaio pioneiro “Os Dialectos Românicos ou Neolatinos da África, Ásia e América”,

publicado em 1881, pelo filólogo português, Adolfo Coelho. Leia-se, também: http://alupec.kauberdi.org/decreto-lei-8-2009.html . [idem].

enquadramento institucional integrado. Porque, embora haja claras diferenças linguísticas entre as ilhas, existe uma compreensão mútua entre os falantes do Arquipélago, visto que, no fundamental, os falares não divergem muito uns dos outros. Este aspeto permite considerar que Cabo Verde tem uma língua nacional, através da qual todos se comunicam, desde a mais tenra idade até à morte.

Convivi com cabo-verdianos da cidade da Praia-Santiago, do Fogo e de São Vicente. O que notei foi que todos se expressavam bem em Crioulo. Uma minoria falava e escrevia o Português de lei; outros percebiam bem o Português, mas cometiam erros ortográficos e de sintaxe; alguns grupos sociais, quase todos naturais do mundo rural, mal falavam a Língua portuguesa.

Na verdade, constatei que o Crioulo, como li mais tarde num artigo de João Lopes Filho (1996: 79), é o instrumento de comunicação oral dos cabo-verdianos de todos os estratos sociais. Mas esse Crioulo tem vários matizes, consoante a história de cada ilha habitada do Arquipélago. Cada ilha de Cabo Verde desenvolveu, efetivamente, uma crioulidade que lhe é peculiar. Por exemplo, a ilha do Fogo – em Crioulo, Djarfogo – foi originalmente povoada, em finais do séc. XV, por descendentes europeus (de Portugal, Espanha e Itália) provenientes da ilha de Santiago e por africanos e escravos trazidos da costa da Guiné. Nesse novo contexto, o então pidgin/crioulo de Santiago terá dado lugar a um crioulo mais africanizado.

Uma vez conquistada a Independência, em 1975, o Crioulo passou a representar a libertação do jugo colonial português, bem como a assunção e consolidação do novo país. Defendia-se muito o Crioulo, a expressão dessa nova Nação Crioula, desvalorizava-se o Português, a língua do colonizador. Consta que, nessa altura, como recordou Manuel Veiga49, em todos os programas do Governo eram inscritas ações de

49 O tema “Cabo Verde: Nação Crioula Caldeada num Bilinguismo em Construção ” foi desenvolvido

pelo Prof. Doutor Manuel Veiga numa aula destinada a professores e estudantes americanos do Lowell High School, na Universidade de Cabo Verde, Campus de Palmarejo, em 2012. Por cortesia, o resumo dessa aula foi-nos enviado pelo próprio autor.

afirmação e valorização do Crioulo. Dado o contexto histórico e político, não me surpreende e não contradiz o que fui percecionando, ainda que nem sempre de forma informada ou atenta. Tanto mais que a língua materna, a primeira língua em que qualquer criança cabo-verdiana se iniciava na interação verbal e na representação linguística do mundo era e é o Crioulo. Até à idade de aprendizagem das primeiras letras, lembro-me de que a maior parte das crianças do Arquipélago que pude observar não se expressava em Português.

Quando ingressei no ensino de Cabo Verde, muitos dos meus colegas eram adultos. Recordavam muitas vezes os tempos da escola que experienciaram: a maioria contava que se sentia violentada por e com uma língua que não conseguiam dominar e que lhes rebaixava a autoestima. A muitos deles, toldava-se-lhes a capacidade de raciocínio, a segurança psicológica e a espontaneidade comunicativa.

Os testemunhos que ouvia concordavam para que se me afigurasse o cenário seguinte: na escola aprendia-se a desprezar a maneira de ser, de estar e de comunicar tipicamente cabo-verdiana. O poder dominante até 1975 rebaixava a língua e cultura maternas, porque, segundo a então potência colonial, a Língua crioula não tinha valor algum. Nas festas, era proibido dançar o Funaná – aquela música tocada ao som de uma espécie de concertina –, porque os movimentos corporais exibidos não se coadunavam com os princípios morais e bons costumes. Os falantes do Crioulo, pela sua suposta má influência, comprometiam o processo da aprendizagem da Língua e Cultura portuguesas, a única Língua então tida como digna desse nome, que atribuía ao seu cultor prestígio e a possibilidade de ascensão social. Essa visão coincidia com a minha experiência moçambicana.

Mais: não era apenas uma competência que atribuía valor ao sujeito falante (como acontecia, outrora, com a ladinização de escravos que fazia crescer o seu valor comercial), um meio de mobilidade social (como sucedia com a formação de quadros para a função eclesiástica ou administrativa); era também um instrumento de repressão e

de dominação sobre os demais que a não usavam (incapacitando, portanto, todo o crioulo monolingue de poder reclamar de um abuso de poder ou de fazer valer o seu ponto de vista junto das autoridades).

Embora a Lp seja constitutiva da identidade cabo-verdiana, por razões históricas, culturais e sociais, na prática, era raramente usada na intimidade das famílias que conheci, privilegiando-se o Crioulo, a língua materna destes insulares. Além disso, todas as atividades e contactos da vida quotidiana, ora no mercado, ora nas lojas comerciais, ora nas praças de táxi, ora no alfaiate, ora no restaurante, eram naturalmente realizadas em Crioulo, por ser o meio de comunicação que a quase totalidade dos cabo- verdianos domina melhor. Na rua, as conversas fluíam em Crioulo, quando se comentava, por exemplo, a política, o trabalho, o futebol ou problemas pessoais. No Mercado da cidade da Praia ou junto das praias, onde as mulheres retalhavam o atum acabado de pescar, regateava-se em Crioulo. Nos recintos desportivos, nos convívios sociais de música, canto ou dança, nos transportes públicos, quase todos os habitantes interagem, expressando-se na sua língua materna. Obviamente, o Crioulo era utilizado nos comícios políticos, em período de campanha eleitoral.

Certas profissões ou atividades exigiam a língua de prestígio: os religiosos, os professores, os médicos, os jornalistas e a polícia exerciam o seu ofício em Português; nos correios, nas repartições públicas, no banco ou na sede do Governo falava-se Português. Na comunicação social, os noticiários e os relatos de futebol eram feitos em Português. Nessa minha primeira estada, ainda não havia Televisão em Cabo Verde; esta só virá para o ar em finais de 1984.

Nesse tempo, observei que, no local de trabalho, em ambiente urbano, entre subalternos, colegas e superiores, o Crioulo era a língua da aproximação ou da cumplicidade; o Português era a língua do distanciamento, utilizada numa abordagem formal, nas mundanidades e nas relações hierárquicas no trabalho. Por exemplo, numa repartição da Administração Pública, o superior hierárquico dava indicações ou fazia chamadas de

atenção, em voz alta, aos seus subordinados quase que exclusivamente em Língua portuguesa, o que se julgava ser uma forma de mostrar competência e de exercer autoridade sobre os subordinados.

Nas ocasiões solenes, indivíduos que tinham atingido um elevado grau de escolaridade faziam uso da palavra em Português: na presença de autoridades, por ocasião de tomadas de posse, nos casamentos e nos funerais, nas missas e nos batizados. Contaram- me que até as cartas de amor eram redigidas em Português, porque o Crioulo não acertava com a expressão escrita e, por conseguinte, não emprestava ao texto o tom de comprometimento e da boa-fé contratual que o assunto exigia.

Nos anos da minha primeira estada em Cabo Verde, a maioria das pessoas que conheci era, sintomaticamente, analfabeta: essas pessoas não sabiam ler nem escrever. Aqueles que tinham sido alfabetizados, tinham-no sido em Português, porque – está bom de ver – o livro se inscrevia no universo da Língua portuguesa. O Crioulo, a língua de leite, não era formalmente ensinada, não lograva de uma escrita sistematizada, organizada e institucionalizada. Acrescente-se que há várias formas dialetais do Crioulo e nem todas concordavam – e ainda não concordam – na abordagem da fixação ortográfica que todo o sistema de escrita requer.

Na verdade, várias ilhas tinham desenvolvido um sistema ortográfico da Língua cabo- verdiana distinto das demais. Entre elas as diferenças não eram poucas. Cada qual escrevia o Crioulo à sua maneira. Levantava-se, assim, a questão ortográfica que ainda hoje não é pacífica: uns defendiam o respeito pelo passado cultural (herdada da tradição ortográfica portuguesa – de base etimológica), outros subscreviam à adoção de inovações importadas, como, por exemplo, a consoante “k” que línguas africanas das ex-colónias do Reino Unido perfilharam (– de base fonético-fonológica), aqueloutros preferiam a criação de um alfabeto autónomo (– a “alupec”, um modelo unificado dos dois modelos anteriores).

Para fazer face a essa situação, lembro-me de que o Ministério da Educação e Cultura de Cabo Verde promoveu em 1979, na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, um colóquio sobre a Língua cabo-verdiana, com o objetivo, entre outros aspetos, de analisar o problema da fixação escrita do Crioulo e englobar, num padrão uniforme, a diversidade dos falares do Arquipélago. Desse colóquio saiu a recomendação de se utilizar, para a escrita do Crioulo, o alfabeto fonético-fonológico.

Só depois de eu ter saído de Cabo Verde, em 1983, já nos meados dos anos oitenta do século XX, é que se começou a ensinar – ainda que de forma rudimentar – a escrita do Crioulo. Nesse tempo, era a ortografia de base fonética-fonológica que era usada (soube mais tarde que esse modelo durou cerca de dez anos, de 1979 a 1989). Multiplicam-se, então, de acordo com essa convenção ortográfica, obras em Língua cabo-verdiana, de pensamento e de literatura, registos vários da tradição oral e ferramentas linguísticas para formação de Professores e ensino da língua materna. Mas a escolha desse modelo não colhia a unanimidade: esse modelo, apesar de ser de base latina, tinha o inconveniente de se afastar do modelo de base etimológica e de ser pouco sistemático. Esse “novo mundo” assentava, deste modo, em vários paradoxos, à procura de um equilíbrio. A língua oficial continuava a ser o Português, por ser utilizada na escolarização e nos contactos administrativos, oficiais e internacionais. A língua nacional, a do berço, não era ensinada; era aprendida em natural imersão linguística, sempre em contexto informal ou na intimidade, sendo, portanto, um inegável elemento identitário. Todavia, somente a aprendizagem da língua segunda, a oficial, é que permitia a inserção do indivíduo no sistema sociopolítico dominante, constituindo mesmo um fator de ascensão social.

Neste sentido, Cabo Verde abrigava – e continua a abrigar – uma comunidade funcionalmente “bilingue”, sem que todos dominem em absoluto o Crioulo e o Português. As duas línguas em contacto apresentam-se como complementares, não havendo entre elas uma relação igualitária. O Ccv é a língua do discurso familiar e

social, a língua da intimidade, das formas artísticas e de socialização. Ao passo que o Português é a língua da aprendizagem escolar, da escrita e fala formal, a língua da legislação, dos tribunais, da defesa e a língua das relações internacionais.

Em síntese, a maioria dos adultos com quem convivi tinha crescido numa sociedade em que o Crioulo era a língua de casa, a língua doméstica, a expressão da cultura espontânea e popular, enquanto a Lp era a língua da “Alta Cultura”, da Erudição e da Administração, e as duas línguas conviviam, assumindo um pragmatismo do dia-a-dia, cada uma para o seu momento próprio. Foi sobretudo a partir da descolonização que o Crioulo se tornou motivo de estudo, ganhando foros de cidadania na própria terra.

Foi em Cabo Verde que passei a saber que, além do Cabo-verdiano, havia ou houve mais línguas crioulas de base portuguesa ou mista ao longo dos séculos e em diferentes contextos geográficos, tais como o da Guiné-Bissau, de Malaca, do Sri Lanka, de Damião e Diu (na Índia), e que, até meados do século XX, os crioulos eram considerados dialetos das línguas europeias. Tais conhecimentos, porém, assentavam em juízos de valor negativos. Atualmente, essas línguas são estudadas sem preconceitos e valorizadas. Tratando-se de patrimónios intangíveis que valem por si só, isto não significa que não constituem um verdadeiro desafio social, económico e cultural às sociedades em que se formaram e se impuseram.

Foi igualmente naquele país que passei a me interessar pelos crioulos, já referenciados anteriormente neste trabalho, de uma outra sociedade e cultura insular bem presente na nos cabo-verdianos, obrigados a partir para o temido “Sul” (emigração forçada, deportação, escravatura, exploração agrícola, roças de cacau), falo do crioulo de S. Tomé e Príncipe50 e da grande comunidade de cabo-verdianos residente em São Tomé e

50 Leia-se, a propósito, o, quanto a mim, artigo excelente, “Crioulização em Cabo Verde e São Tomé e

Príncipe: divergências históricas e identitárias”, de Gerhard Seibert, pesquisador do Centro de Estudos Internacionais (CEI) do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), publicado na revista Afro-Ásia no.49, Salvador, Jan./June 2014, disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0002- 05912014000100002&script=sci_arttext - [Consult. a 2-10-2014].– cuja conclusão é a seguinte: No século XV, a expansão portuguesa criou as primeiras sociedades crioulas do mundo atlântico em Cabo

Príncipe sempre relembrada e internacionalizada, através da música, da qual destaco a que se segue pelo seu simbolismo:

Sodade - Cesária Évora: Quem mostra' bo//Ess caminho longe?//Quem mostra' bo//Ess caminho longe? Ess caminho//Pa São Tomé. Sodade sodade//Sodade//Dess nha terra Sao Nicolau. Si bô 'screvê' me//'M ta 'screvê be//Si bô 'squecê me//'M ta 'squecê be//Até dia//Qui bô voltà.51

Hoje em dia, o Crioulo é a língua dominante em Cabo Verde e só se fala Português com os superiores hierárquicos ou com cidadãos portugueses ou dos restantes países de língua oficial portuguesa que não entendam o Crioulo. Nas instituições escolares (básico e secundário) e universitárias, em quase todas as profissões, fala-se naturalmente Crioulo. Mas sempre que seja necessário expressar-se em Português, o cidadão escolarizado de Cabo Verde fá-lo sem dificuldade. Na sua grande maioria, os cabo- verdianos são, efetivamente, bilingues. Prova disso é que, quando se pergunta a um português que passou férias em Cabo Verde se teve dificuldades em dialogar com cabo-

Verde e São Tomé e Príncipe, dois arquipélagos desabitados naquela altura. A diferente posição geográfica e, interligada a esse fator, a diferença do clima e dos solos condicionaram a emergência de economias divergentes nos dois arquipélagos. Diferenças de salubridade e a distância da Europa e das rotas atlânticas resultaram numa maior imigração europeia em Cabo Verde do que em São Tomé e Príncipe. Por sua vez, esses fatores levaram, em Cabo Verde, a uma redução da população escrava e a um maior grau da miscigenação da população. Depois da abolição da escravatura, em 1876, a sociedade crioula em Cabo Verde consolidou-se, enquanto, em São Tomé e Príncipe, uma segunda colonização e a consequente reemergência da economia de plantação impediram uma tal consolidação da sociedade. Em vez disso, o arquipélago tornou-se uma sociedade plural, constituída por três grupos principais: os colonos brancos, os forros e os contratados. A ausência de recursos naturais e a consolidação da sociedade cabo-verdiana facilitou a introdução do ensino que, junto com a emigração iniciada no século XIX, tornou-se um dos pilares da afirmação da sociedade crioula. No século XX, o factor "racial", a conotação de crioulo com mestiço ou mulato, levou, em Cabo Verde, à afirmação de uma identidade crioula e, em São Tomé e Príncipe, à afirmação de uma identidade africana. Nas duas sociedades crioulas, a perspetiva "emic" coincide com a perspetiva "etic", representada por António Correia e Mário Soares. Santomesidade é africanidade, cabo-verdianidade é crioulidade, também em termos "raciais".

51 Tradução: “Quem te indicou//Esse caminho longínquo?//Esse caminho//Para São Tomé//Saudade//Da

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