É comum ouvirmos pessoas dizerem que alguns indivíduos são dotados para a aprendizagem de línguas e que outros não o são. Naturalmente que sempre existem diferenças entre uma pessoa e outra, e também entre uma comunidade e outra. Geralmente, os que são dotados são os "ingleses" ou os "nórdicos". Esse diagnóstico do senso popular, que afirma que algumas pessoas são "dotadas para as línguas", é uma expressão usada sempre no plural. O que acontece é que de fato, os povos que são "dotados para as línguas" são aqueles cuja situação geográfica, política ou mesmo social é favorável, porque neste caso essas características favoreceram quase que o uso de um bilingüismo. Parece bastante fácil concluir que, de fato, a aprendizagem de uma nova língua é facilitada quanto maior for o número de idiomas praticado na comunidade onde o indivíduo está inserido.
Revuz (2002) diz que a aprendizagem de uma segunda língua ou de uma língua estrangeira, só é possível porque já se teve acesso à linguagem através de outra língua, naturalmente a língua materna. A língua materna não é necessariamente a língua da mãe, e sim a primeira língua com a qual o indivíduo tem familiaridade. A primeira língua é onipresente na vida do sujeito e se tem até o sentimento de jamais tê-la aprendido. Já o encontro com uma segunda língua aparece como uma experiência totalmente nova. E a novidade, segundo a autora citada, está relacionada com a modalidade desse novo encontro e não com o encontro linguageiro. A língua estrangeira, objeto de uma aprendizagem raciocinada, faz vir à consciência alguma coisa do laço muito específico que mantemos com nossa língua materna. Daí, que esse confronto da primeira língua com a segunda não é anódino para o sujeito que aprende.
Um dado que consideramos muito importante, que nos é fornecido pelas pesquisas de Revuz, é que a multiplicação de métodos de ensino de línguas estrangeiras não acarretou a mesma quantidade de aprendizagens bem sucedidas. E parece também, que na utilização dos métodos, nenhum deles até hoje desvendou e pouco contribuiu na compreensão daquilo que se põe em movimento para determinado sujeito, quando enfrenta uma segunda língua, neste caso específico a
língua inglesa. Ao que parece, os estudiosos do assunto têm em mente que a questão é sempre metodológica. Quando, ao que tudo indica, as causas das dificuldades enfrentadas pela pessoa adulta podem não estar somente nos métodos de ensino, mas fazem parte de sua própria subjetividade.
A língua é um objeto complexo, de conhecimento intelectual, objeto de uma prática cotidiana e um objeto onde circula a afetividade, isto é, a vida emocional do sujeito. Enquanto prática ela solicita do sujeito o seu modo de relacionar-se com os outros e com o mundo; enquanto uma prática do corpo no aspeto fisiológico ela põe em funcionamento todo o aparelho fonador. A aprendizagem de línguas mobiliza dimensões da pessoa que nem sempre convivem harmoniosamente. O sujeito deve por a serviço do seu eu um movimento que requer flexibilidade psíquica e um trabalho corporal sobre os sons, os ritmos, as curvas entoacionais e ao mesmo tempo um trabalho de análise e de memorização das estruturas dessa nova língua, neste caso a língua inglesa, sem deixar de fora o aspecto afetivo que tem suas raízes nas matrizes significantes da língua materna, isto é, na mais tenra infância.
Os insucessos na aprendizagem de línguas estrangeiras podem estar relacionados com: 1) incapacidade do sujeito adulto em lidar com as três dimensões postas em operação que são: afirmação do eu, trabalho do corpo e a dimensão cognitiva; 2) para falar uma língua estrangeira solicitam-se as bases da nossa estruturação psíquica e ao mesmo tempo o instrumento e a matéria dessa estruturação que é a língua materna. E a língua materna está apoiada sobre a relação afetiva dos sujeitos falantes.
Toda a tentativa de aprender uma outra língua vem perturbar, questionar, modificar aquilo que está inscrito em nós com as palavras dessa primeira língua. Muito antes de ser objeto de conhecimento, a língua é o material fundador de nosso psiquismo e de nossa vida relacional. (REVUZ, 2002: 217 in SIGNORINI, 2002).
Percebe-se que a afirmação acima vem de encontro com a teoria da inscrição de representações no psiquismo, pois que aprendemos a falar associando uma
imagem sonora de uma palavra com um sentido da inervação de uma palavra. Esse
processo é denominado de período de vibração neuronal e ocorre quando sentimos ou percebemos alguma coisa da realidade através dos órgãos dos sentidos. Com relação à vida relacional que ocorre através da linguagem, segundo Freud a imagem
inscrita enquanto representação psíquica, a partir da imagem da voz, e não da voz enquanto matéria. Esse processo é denominado de sublimação.21
Quando Revuz (2002 in SIGNORINI, 2002), levanta a hipótese de que o estudo de uma língua estrangeira pode ser perturbador de todo esse aparato psíquico, sobretudo na dimensão econômica, isto é, do prazer-desprazer que já tem toda a matriz fundamentada, é de se supor que realmente essas novas imagens
acústicas da palavra e esses novos sentidos de inervação de uma palavra não
encontrem o sentido para realizar a inervação, isto é, a própria inscrição do representante psíquico. Outra suposição é a ausência das primeiras representações na língua inglesa, ou seja, dos primeiros significantes, que venham possibilitar as associações com o que está sendo ensinado. No psiquismo do aprendiz adulto, no caso da inglesa língua, não haveria as representações ou os significantes pertinentes a nova língua que está sendo aprendida. A criança, facilmente pode fazer as impressões psíquicas dos representantes ou significantes, por estar em pleno desenvolvimento na linguagem.
A longa história que cada sujeito traz quando aprendeu a língua materna virá naturalmente obstaculizar a aprendizagem de uma segunda língua. E dá para dizer que as palavras a aprender na língua estrangeira não estão carregadas da afetividade e como tal têm dificuldade em afetar. Não encontram os pontos de articulação e de associação contidos nas representações ou significantes - estes pontos são inscritos na mais tenra infância e estão carregados de significação -, mesmo que ela ainda não possa verbalizar nenhuma palavra. Essas palavras, nas quais a criança está imersa no início de sua vida são da fala do outro. Cada um que se ocupa da criança fala dela, coloca em palavras o que percebe dela, de seu “jeito de ser”, com quem ela se parece, o que ela deseja, daquilo que ela sente, predicação sobre o que ela é, o que se espera dela bem como as nomeações das sensações que ela sente diante de coisas ou pessoas, dos afetos que se lhe
21
A sublimação é uma das transformações da pulsão. A via da sublimação é a via de obter satisfação indireta, isto é, pelas vias socialmente aceitas. Todas as atividades humanas ligadas ao desenvolvimento da civilização têm na sublimação da pulsão suas origens. Não haveria progresso nas civilizações sem que a pulsão não tomasse esse destino. A capacidade de sublimação é inerente aos humanos, até por isso eles podem falar. A palavra é uma forma de satisfação da pulsão pela via da sublimação. O tema é tratado no texto Os instintos e suas vicissitudes, in A história do Movimento Psicanalítico. Artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos, Freud (1915), Tradução Themira de Oliveira Brito, Paulo H. Britto e Cristiano M.Oiticica. Vol. XIV, ESB. Rio de Janeiro, Imago.
dedicam, dos objetos que a cercam. Tudo isso, as sensações, os afetos da própria criança são falados pelo outro, porém em nome da própria criança. É dessa forma que a criança faz sua estréia na linguagem, na língua e na fala.
A descoberta das palavras, das significações lingüísticas é indissociável da experiência de relação com o outro e das significações que se inscrevem nela. As palavras, isto é, sua própria voz são fontes de prazer ou desprazer e têm o poder de interferir nas outras sensações (visão, tato, paladar), reforçando ou anulando os sentimentos de prazer ou desprazer que são ligados a elas.
Como vemos, muito tempo antes de falar, a criança é falada pelo seu ambiente e todas as palavras que são ditas ao seu redor têm a designação de um conceito e a atribuição do valor que é dado a esse conceito. Esse sistema de valores vai impregnar o sistema lingüístico materno da própria criança.
Para a criança, aprender a falar é estabelecer um compromisso, é encontrar alguma coisa para dizer de seu próprio desejo. É desenvolver o sentimento de si, que é fundamental para a estruturação do sujeito, para a construção de uma identidade. Tudo nela veio a partir do desejo do Outro. Aprender a falar é procurar esse compromisso, e esse caminho só pode ser trilhado no curso de toda a vida do sujeito, e teve seu início com a aquisição da fala na infância.
Quando se pretende aprender uma língua estrangeira, neste caso, a língua inglesa, abre-se um novo espaço potencial para a expressão do sujeito. Dois momentos parecem privilegiados para observar como a língua estrangeira vem incidir na relação inconsciente que mantemos com a nossa língua “fundadora”. Esses momentos nos apresentam uma diferença: a diferença entre os universos fonéticos e a diferença entre as maneiras de construir as significações.
Iniciar o estudo de uma língua estrangeira é colocar-se em uma situação de total ignorância, é retornar ao estágio de infans, do bebê que ainda não fala. É retornar ao estágio de impotência no se fazer entender. Isso é reforçado, quando o método utilizado é o que privilegia o trabalho oral que focaliza sons e ritmos.
Esse método de apropriação pela boca dos novos sons parece que não é “natural”, se levarmos em conta os risos que provoca em quem nos ouve e os bloqueios que suscita no aprendiz. Alguns se negam a fazer isso porque não conseguem nem mesmo repetir as seqüências mais simples. Parece que o sofrimento do aprendiz diminui quando ocorre a passagem para a escrita. Na escrita,
o acesso a enunciados completos e dotados de sentido ameniza a dificuldade fonética na verbalização. É que na verbalização parece haver uma incapacidade de jogar de modo diferente com a acentuação, com os sons, os ritmos e as entoações, que é o trabalho do corpo. A escrita parece vir proteger contra alguma coisa que parece regressiva e transgressiva. Parece que o próprio aprendiz receia ver-se como a criança que já foi, ou até mesmo, pode ser que ele esteja se vendo assim, sobretudo no momento de ficar repetindo fonemas para aprender os sons. Pode haver aí um sentimento de impotência que pode parecer com o desamparo. Agora já
não sei dizer o que quero? Estou a mercê dos outros? Perdi minha identidade, minha autonomia?
Mas não é assim com todas as pessoas. Algumas têm muita facilidade de pronunciar os sons da língua estrangeira e se apropriam das letras de “músicas” a ponto de chegarem a construir frases, mesmo que não tenham nenhum sentido. Outras não passarão do canto da “música” ao sentido e outros a adesão à “música”. Será o começo da incorporação dessa nova língua em todas as dimensões, quer sejam: afirmação do eu, trabalho do corpo e dimensão cognitiva. Há pessoas adultas, que conseguem harmonizar essas três dimensões com certa facilidade, conforme veremos.
É importante na aprendizagem de línguas estrangeiras, a autonomia maior ou menor das aprendizagens corporais em relação ao controle intelectual, a capacidade de distanciar-se em relação à ancoragem na língua materna, que é carregada de significações. Essa distância é fonte de prazer para uns, e fonte de ansiedade para outros, e marca, da mesma maneira, o encontro pelo qual a língua estrangeira produz significações. É quase como poder dizer que aprender uma nova língua é “trocar” de mãe. Trocar a mãe boa e carinhosa da primeira infância por outra que é fria e distante que como tal causa desprazer. Pode-se fazer uma analogia, com o jovem que vai se casar: ele só poderá fazer isso de forma afetiva e significativa, quando puder se “distanciar” da mãe, pois que as primeiras falas da criança são as falas da mãe, e isso provoca uma ligação com a mãe que perdura por toda a vida do sujeito. Para aqueles que tiveram a oportunidade propiciada pela própria mãe de facilitar à criança a entrada no universo simbólico, através da demonstração de que a mãe também está inserida nesse universo enquanto um sujeito desejante e faltante, isto é, que ela não se satisfaz com o seu bebê, enquanto sendo ele, o
desejo dela encaminhará a criança para a percepção de que ele não é tudo o que a mãe deseja, portanto a ela não cabe senão adentrar ao simbólico e conformar-se com os ditames culturais. Buscando sua autonomia na palavra, essa criança está se separando de sua mãe. Esta separação é que vai abrir o caminho próprio de cada um, sua autonomia identitária, e passará a construir sua própria história, isto é, seu lugar na cultura, melhor dizendo, na linguagem. Podemos dizer, que aprender uma segunda língua, neste caso a língua inglesa, é um exercício de separação da mãe, e isso ao que tudo indica, ou a contar pelas dificuldades que algumas pessoas adultas têm, nem é sempre possível para todos os indivíduos.
Quando um indivíduo aprende uma língua estrangeira existe para o aprendiz todo um processo de nominação de objetos. Ele olha a imagem do objeto e então o professor nomeia o referido objeto. Ocorre que quando a criança passa a nomear os objetos que a rodeiam na língua materna, ela recebe o olhar aprovador ou desaprovador de um adulto. Quando o porta-voz da criança nomeia, por exemplo, as partes do corpo e as “partes pudentas”, por neologismos, perífrases ou por seu nome canônico, a voz que nomeia, geralmente uma pessoa da família, deixa sentir ao ouvinte o prazer, o desprazer ou a indiferença por essas partes do corpo. A criança recebe então, junto com sua demanda de saber, uma mensagem sobre a inquietude que o nomeado e sua função “causam” na pessoa da família, que quase sempre é a mãe da criança. A isso se acrescenta que toda nomeação de objetos ou partes do corpo na língua materna está sempre carregada de afetividade e pelo desejo do “porta-voz”.Se a criança ainda não fala, está, portanto sendo “falada” pelo outro, este desejo será o seu desejo, pois que as palavras da mãe são as palavras da criança. Quando a criança já passou desta fase, ou seja, quando ela já é falante, isso que traz embutido na linguagem da mãe aos nomear objetos com uma carga de afetividade que causa prazer ou desprazer, ou ainda indiferença, pode ser internalizado sob a forma de identificação22. Isso significa que a criança passará a ter o mesmo comportamento, os mesmos sentimentos que a mãe, relacionados com
o que está sendo nomeado.
22
O processo de identificação ocorre no final do complexo de Édipo, quando o que se relaciona com valores de lei é internalizado pela criança. De forma mais simplista seria assumir o que é das funções daquele com o qual nos tornarmos semelhantes. No caso da menina, por exemplo, ela escolheria o pai como objeto de amor, isto é, como o modelo para seu relacionamento de amor e faria o processo de identificação com a mãe, isto é, tornar-se-ia uma mulher cujas funções ela tomou emprestadas da mãe. Esse processo é fundamental na constituição da subjetividade da criança. Texto A Dissolução
Quando um indivíduo aprende uma língua estrangeira ele se sente confrontado com um recorte do real em unidades de significação desprovidas de sua carga afetiva. Pode-se supor que por isso haja maior dificuldade de construir o processo de representações que vão permitir as associações futuras e que irão permitir o processo de falar. “O eu da língua estrangeira não é jamais completamente o da língua materna”. (REVUZ, 2002:225 in SIGNORINI, 2002).
Confrontar-se um outro eu ao aprender uma língua estrangeira é uma experiência que pode não ser possível para todos os indivíduos. Alguns parecem se sentir tão ameaçados com isso que não conseguem aprender. Quando aprendem apenas memorizam conceitos, mas não se permite nenhuma autonomia da compreensão ou da expressão. Outros evitam toda distância em relação ao eu da língua materna e rejeitam toda a aproximação com a língua estrangeira. A aproximação com um novo eu, o eu que fala outro idioma - pois que é pela fala no adentramento à linguagem que o eu se constitui - se torna impossível para alguns, e se torna possível para outros. Aprender uma língua estrangeira é sempre, um pouco, tornar-se um outro. No entanto, essa dupla experiência de ruptura ou de perda da identidade é mais forte quando acontece a emigração ou estada no estrangeiro, mas está também presente em todas as situações de aprendizagem, até mesmo as mais esparsas, aí incluídas as escolares. Esse tipo de experiência não está ligada a esta ou aquela característica psicológica do aprendiz. Esse fenômeno está relacionado somente com o falar outro idioma, pois como vimos anteriormente, a língua que se aprende primeiro, isto é, a língua materna, vem carregada da carga afetiva do outro que cuida da criança, bem como de todo o ambiente familiar e da comunidade onde a criança está imersa. Tudo o que a criança aprende a falar preexiste a ela. O que não preexiste é a afetividade, que são os sentimentos daquele(s) que cuida(m) da criança e que vai (vão) conferir o sentido, isto é, a singularidade ao sujeito. Essa singularidade se apresenta na sua fala que podemos chamar seu discurso individual singular. Sua marca própria.
Na segunda língua ou língua inglesa, o aprendiz, para falar, terá que fazer suas próprias frases e estará compelido a um trabalho de expressão, a um questionamento permanente sobre a adequação daquilo que diz e o que pretende, de fato, dizer. À medida que o sujeito vai dominando a língua inglesa, mais ele desenvolverá o sentimento de pertencer àquela comunidade e conseqüentemente,
mais ele se deslocará de sua comunidade de origem, mas tudo leva a crer que ele deverá estar inserido no contexto da nova língua. Se isso não é feito, pode ser que o novo idioma que pretende adquirir fique somente na dimensão do significado, ao que se pode supor que ele apenas verbalize, mas não fale efetivamente.
O idioma inglês sempre teve muito sucesso e é dito que é o veículo inevitável da comunicação universal. O que leva esse idioma a ter tanto sucesso? Seria o aprender o inglês ascender à diferença britânica ou americana? Ou é alcançar os meios de partilhar com muitas outras pessoas os lugares comuns científicos, econômicos e ideológicos, que dão a idéia e o sentimento de pertencer à hegemonia de um sistema econômico que domina grande parte do mundo?
As redes de lojas de departamentos, de hotéis e de lanchonetes têm seu sucesso ancorado no fato de que permitem ao cliente circular e pedir o que deseja com facilidade de adaptação. Pois que, pode-se encontrar no mesmo quarto o mesmo cardápio escrito em inglês em qualquer país, havendo, portanto, uma proteção contra a diferença. Mas, mesmo assim, a diferença persiste, pois que esse inglês dos hotéis e lojas de departamentos é um inglês empobrecido e simplificado e só tem finalidade comercial.
(...) Mais que em problemas técnicos, a aprendizagem de línguas estrangeiras esbarra na dificuldade que há para cada um de nós, não somente de aceitar a diferença, mas de explorá-la, de fazê-la sua, admitindo a possibilidade de despertar os jogos complexos de sua própria diferença interna, da não coincidência de si consigo, de si com os outros, de aquilo que se diz com aquilo que se desejaria dizer. Para consentir o esforço necessário a um bom conhecimento de uma língua estrangeira, não seria preciso que perseguíssemos primeiro a quimera de uma língua, isto é, de um mundo no qual pudéssemos coincidir com o próprio desejo?... (REVUZ, in SIGNORINI 2002:230).
Se levarmos em conta que ao nos apropriamos de uma língua estamos adentrando aquilo que nos faz ser, aquilo que nos faz eu, que o desejo circula pela linguagem, falar em outra língua com o sentimento de pertencimento a outra cultura exigiria que modificássemos o nosso ser, isto é, o nosso próprio eu. Então, falar diversos idiomas é como assumir diversas identidades, é tornar-se um outro, e ainda
outro e mais outro. Em hipótese, poder-se-ia atribuir a essa quase impossibilidade a
dificuldade de algumas pessoas em aprender o inglês. Aquelas pessoas que aprendem mais facilmente aparentam revelar uma identidade mais flexível, e menos