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SPD – 1966-1982

A vida é esforço. Dos enunciados metafóricos dos pacientes estruturamos as seguintes metáforas com um sentido de esforço: “(...) De três anos para cá deixei de ter prazer para carregar uma cruz.” A cruz como símbolo religioso está representada pelo sofrimento cristão. Ocorre uma inversão do prazer em dor. O esforço se sobrepõe ao prazer, de modo que a vida se reveste em algo não contemplado. O mover-se se faz pelo sacrifício, pelo sofrimento. E, deste modo, a vida se sustenta em um esforço para manter-se soerguida, visto que o peso que carrega tende a fazer com que o corpo (Körper) decaia.

“(...) A sensação que tenho é de estar carregando cadáveres.” O sentir é de peso, algo que se excede, que não é próprio. O sentir diz respeito às sensações vivenciadas marcadas no corpo próprio (Leib). O carregar diz de um corpo próprio (Leib) que sustenta cadáver, um peso morto, que vai além da possibilidade natural para manter-se soerguido como força de sustentação para o mover-se na existência.

“(...) Sinto como se estivesse nadando contra a maré.” O como é um comparativo no qual se expressa o sentir da paciente. O nadar é contra a maré que diz de uma força contrária que exige mais do corpo (Körper) em um exercício para não afundar, não afogar.

“(...) Não quero ficar arrastando corrente.” O não querer de um ato contínuo de arrastar, levar, puxar, mover à força a corrente que aprisiona condenados. Impõe o não querer de uma determinação volitiva em não permanecer prisioneira e, portanto, ter a liberdade para mover-se sem ter que arrastar correntes.

“(...) Tenho a sensação de estar carregando um peso terrível.” A sensação que afeta o modo de sentir o corpo próprio (Leib) é expresso pelo terrível, que infundem terror e produzem resultados funestos. O peso está além da capacidade de sustentação que gera o desconforto, inquietude, agonia. O peso dificulta o mover-se, que tende a decair devido à força contrária em manter o corpo (Körper) ereto para o mover-se. Há uma imposição de força além do que seja, suportável, sustentável e que a faz permanecer em exaustão.

“(...) A sensação que tenho é que estou num barco remando, remando, fazendo força.” O remar no exercício permanente de um cotidiano que se impõe pela força, pelo dever moral, pela obrigação, mas que não contempla pela ausência do prazer.

“(...) Como dói caminhar.” O caminhar da vida, a dor que reflete no exercício do mover-se em um pensar a mais, em um sentir vívido que reflete no corpo próprio (Leib) a intenção do eu na busca da verdade.

“(...) Quanto esforço tenho feito na vida, mas para ir para que lugar?” Ao indagar o lugar para onde ir, a paciente diz do vazio por desconhecer o caminho. O esforço pode significar que não há lugar, não há direção e que o mover-se se faz pelo ato do dever pelo ter que ir, caminhar, viver. Ou ainda, que intenciona encontrar a direção e o sentido para mover- se pela necessidade de tornar-se consciente para que em reflexão se sobreponha o seu querer. A dúvida se interpõe no caminho da vida, na qual temos que fazer escolha.

“(...) A diferença entre nós é que eu quero me encontrar! E me encho de coragem e sofro e, corro e levo na cara, mas busco uma saída, matando um leão por dia para abrir essa jaula e deixar a fantasia para viver a realidade, que pode não ser tão bonita, mas é que eu quero ser: real.” A diferença do querer si mesmo em relação ao querer do outro. Caminhos se bifurcam. O desejo de encontrar, de dar sentido ao seu existir, em um querer que dê direção e sentido para que seja si mesmo. Na existência é necessária disposição para o querer. A paciente corre, leva na cara, mata um leão por dia, abre a jaula, liberta o que está aprisionado, libera a fantasia para viver o sentido de realidade, de querer ser real, de buscar a sua verdade.

Nestas metáforas há uma exigência pulsional para o mover-se. Estes enunciados denotam um caminhar com esforço, intentam dizer de um corpo (Körper) cansado, bloqueado no devir, com impedimento para o mover-se. Há desafios: carregar uma cruz, carregar cadáveres, carregar um peso terrível, que denotam caminhar com sobrecarga de peso, arrastar correntes, nadar contra a maré que estão coerentes em uma horizontalidade, em um devir de tensão, de caminho penoso, de grande exigência corporal, de difícil sustentação, de um esforço angustiado, de um corpo em exaustão, tendendo o mover-se em desordem para baixo. Os pacientes expressam suas dores, sofrimentos contidos em uma tensão emocional afetiva que os desnorteiam, que os fazem sentir a perda de sentido na existência, na direção, no caminhar, no viver. O paciente se encontra identificado e contido no sentir afetado e que, ao dizer, expressa a experiência vivida em um tempo real perceptível em que o mover-se se dá em forma de sofrimento na conceituação a vida é esforço.

Podemos perceber, nestes enunciados metafóricos, que há uma intenção do desejo com significação de desiderio. O desejo como desiderio faz com que compreendamos que a

intenção do paciente se refere a algo que se perdeu ou algo que esteja requerendo por ter perdido. O desejo, com a significação do latim de desiderio, Dēsīdĕrŏ, ās, āvī, ātŭm, ārĕ, é o

desejar no sentido de ter necessidade de; achar falta, ter que desejar, perder; pedir em juízo, requerer, que faz referência mais ao passado e futuro49. Desejo este que se substancializa em um desejar de algo que se perdeu ou de algo que esteja requerendo por ter perdido, que faz fixar no passado.

A paciente N. enuncia: “(...) Eu ainda sofro muito por ter deixado a minha terra”, há um rememorar em N. que a remete ao passado. N. vive as reminiscências que a fazem sofrer em um desejo (desiderio) de voltar para o lugar de onde veio. Podemos compreender, portanto, que nesta busca em um olhar permanente para o passado, houve algo externo, um acontecimento, que se interpôs retirando o objeto de desejo, fixando N. ao passado em uma busca pelo objeto perdido. Entre o passado e o futuro, move-se o querer o que faz o corpo próprio (Leib) padecer em sofrimento.

Impedimentos se interpõem no caminho da existência e esses impedimentos são geradores da angústia como abertura para o mover-se em uma direção e sentido. Ainda que com o querer condicionado ao poder de algo que se imponha como impedimento, há a glorificação da contínua luta no jogo da vida. No enunciado metafórico de L. como vimos acima: “(...) Eu tinha tudo para naufragar, cair do barco e morrer. Eu me salvei porque eu me diferenciei.” Há exaltação em L. pelo esforço em manter o corpo próprio (Leib) soerguido. O corpo (Körper) padece em um esforço absoluto, de força e resistência de manter-se soerguido, o que gera também o sofrimento, levando a um esgotamento do corpo (Körper), anunciado pela “ferida na carne” por meio dos sintomas.

Ao partilhar da experiência vivida em uma memória perceptiva da vida com esforço, o paciente diz do seu empenho em manter-se soerguido, ainda que mediante as intempéries da vida, identificamos que há pulsão, há vontade, há desejo. Na singularidade expressiva dos enunciados metafóricos se dá a correlação que fundamenta a estrutura de um conceito: a vida é esforço na metáfora de raiz: a metáfora do caminho.

49 SARAIVA, F. R. dos Santos. Dicionário Latino-Português. 12. ed. Belo Horizonte - Rio de Janeiro: Livraria