3. Analytical methods
3.2 Sample preparation
[...] E ela é uma menina inteligentíssima, inteligentíssima, mas ela tinha tanta vontade de me fazer sofrer, que era uma coisa impressionante [..][F1][D](JOANA, 2010).
[...] eu não gosto de falar de minha mãe, quando eu fazia alguma coisa errada ela me colocava pra ficar escrevendo a mesma frase, muitas vezes [...], meu irmão não é o problema, o problema é minha mãe [...] [F1][D](ISABEL, 2010).
Este fragmento refere-se à adoção legal de Isabel35 por Joana, em 2005, com duração processual de dez meses, sendo a devolução da criança proferida no início de 2010. Ressalta- se que antes da concretização dessa adoção, Isabel morou com outras três famílias, as quais não foram possíveis localizá-las, que a devolveram à mãe biológica. Vale ressaltar que nenhuma das três detinha guarda ou tutela da criança. Por esse motivo, será analisada nesse fragmento apenas a devolução referente ao processo legal entre Joana e Isabel.
Salienta-se que essa adoção teve caráter intuitus personae36. Urge mencionar que na época que foi efetivada a adoção, ainda não era pré-requisito a participação dos pretendentes em programas de preparação, todavia esta exigência está prevista na Lei 12.010/09.
Joana tem 29 anos, é solteira, mora com sua mãe e seu filho biológico de um ano e três meses. Isabel é filha de migrantes que vieram do Belém do Pará para Brasília, na expectativa de uma vida melhor. É a segunda filha de um grupo de dois irmãos, uma menina e um menino.
Foram realizados dois contatos telefônicos e uma visita à residência de Joana, que se mostrou solícita para ser voluntária na pesquisa [...] eu me interessei em responder a
entrevista porque, na época que a gente está adotando, a gente não vê nada sobre alguma pesquisa relacionada à adoção, depois eu procurei no Google, agora, e vi algumas coisas, mas seria muito importante ter mais, por isso eu resolvi colaborar, porque adoção todo dia está tendo mais uma. E o que eu percebi é que meu caso não é isolado, não é isolado [...].
Em nenhum momento, ela manifestou constrangimento ou relutância em expressar o que aconteceu durante o processo.
35Todos os nomes utilizados nos quatro fragmentos foram substituídos por pseudônimos, visando preservar o anonimato das famílias entrevistas.
65 Quanto a entrevista com Isabel, “filha” de Joana, salienta-se que nos dois primeiros contatos pessoais, realizados no Serviço de Acolhimento, a criança se mostrou arredia e não autorizou a gravação. Em alguns momentos se dispersou com os movimentos externos ao ambiente reservado para coleta dos dados. Já na terceira visita a criança se aproximou mais, mostrou-se concentrada nas perguntas e verbalizou de forma clara sobre a convivência que teve com a família adotiva. Consideram-se comuns e frequentes todas essas reações, uma vez que não houve tempo hábil para que Isabel pudesse desenvolver confiança suficiente e se sentir confortável durante a pesquisa. Todavia é importante observar que todas essas variáveis puderam ser contornadas com o emprego do recurso da expressividade, pelo qual a criança demonstrou vivências significativas, através desse instrumento, conforme será descrito mais adiante. Contudo, antes disso, falar-se-á sobre os motivos que levaram Joana a adotar Isabel.
Quando adotou Isabel, Joana era solteira, não tinha filho biológico, era recém formada, estava desempregada e morava com a mãe. Apadrinhava Isabel antes do seu nascimento, devido à carência financeira e estrutural da família [...]. Ela sempre foi minha afilhada, eu a
conhecia antes dela nascer, a busquei no hospital. Como a história da família dela era muito
complicada, eram pessoas muito carentes, sempre a ajudei a distância [...].
Joana relatou que Isabel foi “dada” a uma família aos três meses, passando por outros três lares diferentes, até completar seis anos de idade, e mencionou que isso se deveu ao “difícil comportamento apresentado pela criança” [...] como ela era uma criança muito
difícil, as pessoas sempre a devolviam [...]. Depois da última devolução, Joana decidiu-se
pela adoção de Isabel. Essa atitude nos sugeriu uma atitude da mãe altruísta e amedrontada no que tange a culpabilização deferida pela mãe biológica de Isabel. [...] Quando ela voltou pra
casa da mãe, esta me pediu para que eu ficasse com ela, eu não queria, mas a situação da família era muito complicada, difícil [...], a mãe ficou me questionando, eu fiquei com medo de me sentir responsabilizada se acontecesse alguma coisa com ela e acabei pegando a Isabel, exigi que fosse adoção legal. Para Joana o fato de a família ser “muito carente” e
“complicada”, representava uma ameaça a Isabel e necessitava de sua “ajuda”. Joana se
sentiu obrigada a assumir a criança por conhecer a família e saber da sua situação de desestrutura.
Ressalta-se que pensar os conflitos familiares tendo como causa a ausência financeira, não é uma idéia que perpassou só a visão de Joana, mas também permeia o imaginário coletivo. Entende-se que a pobreza material também pode gerar conflitos, e até desestruturar as famílias, todavia não é esse o único motivo que as desorganizam. A ausência de políticas
66 públicas para atendimento das demandas específicas dessas famílias nas áreas de saúde, educação e assistência social, contribui para o desencadeamento de tantos outros problemas estruturais.
Essa moral social comove e impulsiona muitas famílias a buscarem na adoção uma forma de ajudar o próximo, principalmente quando se trata de crianças “abandonadas” pelas famílias e pelo Estado. O mito do amor materno impede essas famílias de examinar com objetividade e clareza uma realidade social crônica, carente de uma ação pontual do Estado para atendimento dessa demanda.
Contribui com esse pensamento a tese de mestrado de Ghirardi (2008), quando propõe que essa ajuda assume um caráter altruísta, o que gera nessas pessoas certa obrigação de salvar o próximo do seu destino injusto.
O intuito de “ajudar” as crianças amolda-se à origem delas, vistas ambas como desvalidas. O motivo alegado é baseado em seus sentimentos “altruístas”, que a impulsionam a “fazer o bem”. O sentimento de altruísmo é sustentado pela fantasia onipotente de poder salvar crianças de um destino marcado por uma origem degradada37(GHIRARDI 2008, P. 47).
Isabel abordou sua origem como uma lembrança dolorida, sua fala foi carregada de melancolia e tristeza. Ela não soube precisar a idade dos irmãos e mencionou, durante a conversa, que não se lembrava da fisionomia deles. [...] meu pai estuprou minha irmã, ele
bebia muito, ele está foragido da polícia. Minha mãe tentou dar minha irmã para outra mulher, e para outra, mas as pessoas não quiseram. Minha mãe nunca tentou dar meu irmão pra ninguém. Não sei se eles estão com alguém hoje. Não sei quantos anos eles têm.[...].
Isabel retratou com sua fala uma família violenta, a qual Joana nomeou como
“complicada”. Todavia em ambas as falas percebemos a urgência de uma intervenção que
deveria ter sido viabilizada na época em que a criança ainda se encontrava morando com a família biológica, porém em nenhum momento Joana menciona ter acionado o Conselho Tutelar ou qualquer outro órgão de garantia dos direitos da criança. O caminho encontrado para solucionar o sofrimento de Isabel foi sua retirada da família biológica, a partir de sua adoção.
Por outro lado, em outro momento da entrevista, Joana se reportou a essa mesma família como agressora, mas possível de ser acessada e assumir novamente as responsabilidades com Isabel, a qualquer momento. [...] Porque é o seguinte, o pai dela é
37 Grifos da autora GHIRARDI (2008), que refere-se a Eva Giberti (1992b), a qual utiliza-o frequentemente para referir-se à origem da criança vista pelos pais adotivos como “desqualificada”, desvalorizada.
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drogado mesmo. Rouba, é alcoólatra, é tudo mais alguma coisa. A mãe dela decidiu dar os
filhos todos pra ficar com essa bênção maravilhosa de homem. E deu as crianças e fugiu daqui porque estava sendo procurado pela polícia. A última vez que os vi foi o dia que assinamos o papel no juiz. E olha que ela tem meu telefone, tem meu endereço [...] . Esse discurso remeteu-nos a hipótese de que Joana, mesmo considerando a família “complicada”, “violenta” e “usuária de drogas”, também levantou a possibilidade de que esta pudesse
assumir novamente as responsabilidades de pais, o que por um lado a aliviaria do peso da devolução.
As características negativas do pai biológico de Isabel não foram negadas na fala da mãe adotiva. Isso nos pareceu uma visível comparação entre a criança e seu genitor. Joana retratou o comportamento que Isabel assumiu em sua convivência como uma herança impregnada pela sua origem.
Para ela, a mentira, os roubos e as ameaças de Isabel foram os principais fatores que culminam em sua devolução. [...] Ela sempre me roubou, roubava aqui em casa e vendia na
escola [...] e esses objetos que ela rouba - jóias, e não consegue vender, ela diz que eu bato nela e ela está cansada desse martírio. [...] Ela começou ameaçar de se machucar e falar, agora eu quero ver quem vai duvidar, que você me machuca, então essas coisas começaram a piorar [...] então ela ameaçou de matar o irmão, disse que a melhor maneira de matar alguém é com veneno, porque não saía nem sangue [...] quando ela falou isso eu me arrepiei por inteiro, eu voltei pra casa paralisada. E falei, meu Deus, agora eu tenho que fazer alguma coisa, eu vou de novo à Vara de Infância. [...] E eu fui assim, muito certa do que eu precisava lá [...] e aí sugeri que eles abrigassem Isabel.
Por outro lado, observamos a partir da fala da mãe, algumas tentativas de aproximação com a filha, antes da concretização da devolução. Todavia, o estabelecimento do vínculo de filiação pareceu não ter se concretizado. Ela mostra a dificuldade que tem de reconhecer Isabel como membro familiar [...] E eu falava, Isabel, todo dia é dia de mudar, você tem
chance de mudar, mas mudar não é fácil, mudar é difícil, é uma luta contra a gente mesmo, mas você pode mudar, mas se você quiser minha ajuda eu te ajudo, eu só não posso fazer por você. [...] Muitas vezes eu tentava, chamava-a para minha cama, pra gente conversar, mas ela nunca se aproximou.[...]
Mais uma vez, Ghirardi (2008) traz uma importante contribuição com seu trabalho, ao falar do respeito, da importância e da dificuldade que os pais adotivos têm de assimilar a
68 origem da criança à sua nova realidade vivida com a família adotiva. E ainda nos sinaliza uma luz para entendermos tanto a criança como a família que passou pelo processo de filiação:
A experiência psíquica dos pais adotivos porta um importante paradoxo relacionado aos modos como assimilam a questão das origens da criança: necessária de ser reconhecida, porque faz parte da história da criança e, ao mesmo tempo, um obstáculo a ser ultrapassado e simbolizado. Para que ocorra o reconhecimento da criança como alteridade inserida no âmbito do que é familiar, talvez tenhamos que pensar que, em certa medida, é necessário também poder ‘esquecer’. (GHIRARDI, 2008, p.49).
Há indícios no discurso de Joana da convicção de que a filiação de origem não pode ser substituída pela filiação adotiva, sem que haja algum tipo de prejuízo ou desqualificação. E ela demonstra que, por mais que faça pela criança, não conseguirá dela o mesmo afeto que acredita que ela teria pela mãe biológica.
A relação afetiva entre Joana e Isabel nos pareceu não ter sido consolidada. De um lado, a mãe relatou que a criança não desenvolveu vínculos, nem se adaptou durante esses cinco anos de convivência [...] ela nunca se adaptou, eu sempre pensei que era uma fase, que
as coisas iam melhorar, que ela ia se engajar, só que ela nunca criou vínculo nenhum com a gente. Ela não gosta de abraço, ela não gosta de beijo, ela não gosta de nada, ela não quer estar perto de ninguém [...]. Por outro lado, em momento diferente da entrevista da mãe,
Isabel argumentou que a mãe era muito rígida com ela [...] eu não gosto de falar de minha
mãe. Quando eu fazia alguma coisa de errado, ela me colocava para escrevendo várias vezes que eu estava errada [...] todavia a criança representou essa mãe como figura importante nos
desenhos. O discurso da mãe nos incitou a pensar sobre seu desejo pela criança imaginária “ideal” e não real.
Em outro momento, quando foi solicitado a Isabel desenhar um momento importante e a(s) pessoa(s) que gostaria que estivessem presentes, ela representou pessoas de sua convivência com a mãe adotiva, e ainda verbalizou que “gostaria de estar presente com eles e
viajar com eles”. Todavia, ainda que desejasse estar perto dessa família adotiva, a criança
69 Tal hipótese pode ser vista pela ausência de cores, a falta de chão nos pés de toda a família, suspensa no ar. A presença de alguns membros com sorriso (tio e avó), enquanto o irmão e a mãe quase não sorriem. Os braços do tio e irmão estão para cima, enquanto os da avó quase não aparecem, assim como os braços da mãe que apresentam uma desproporção significativa.
Em outro momento, durante a entrevista com sua mãe adotiva, ao reportarmos aos contatos que Isabel mantinha com sua família materna, esta verbalizou que a mesma família nunca aceitou a idéia da adoção. Reafirma, várias vezes, que Isabel nunca foi aceita como parte integrante do grupo familiar e tenta justificar que isso não lhe importava, pois a decisão foi sua ao adotar Isabel e não da sua família [...] a minha família nunca aceitou Isabel. Não
queriam que eu adotasse então eles nunca a aceitaram. E a gente quando adota, é a gente que adota, não é a família, ela não tem nada a ver com isso [...] não consideravam ela da família como a gente, assim, quando davam um presente, davam uns R$10,00, não ia ser uma coisa que dariam para os sobrinhos [...] foi uma decisão minha, eu posso decidir para minha vida, mas eu não posso impor para ninguém ainda afirma [...] ela não tem vinculo nenhum com a minha mãe [...] Percebemos nessa fala que o vínculo da aceitação nunca existiu por
70 parte da família extensa, portanto Isabel não conseguiu desenvolver com essa família extensa o vínculo externo.
Em contrapartida, Isabel, no desenho acima, incluiu essa família como significativa no seu processo de pertencimento. Todavia, por ter vivido o sentimento de não pertença na família adotiva, reforçou a identificação com as características negativas do pai biológico. Se sua identidade não era reconhecida e valorizada no contexto da família adotiva, de modo genuíno e amoroso, ela provavelmente tenha buscado, na figura do pai, o sentimento de pertença, mesmo que para isso fosse necessária sua identificação com seus comportamentos marginais. Além disso, o roubo pode ter sido uma forma compensatória de lidar com a falta de afeto e o sentimento de pertença que sentiu nesse novo contexto familiar, embora o desejasse muito.
Em consonância com essa hipótese temos o pensamento de Schettini (2009), quando propõe que a criança que é também adotada pela família extensa se desenvolve melhor, emocionalmente, sem trazer para sua vida diária motivos insignificantes que podem gerar grandes conflitos, pois “ela preenche adequadamente as lacunas deixadas pela mudança da sua parentalidade”. (SCHETTINI, 2009, p. 49).
Nesse processo de construção do vínculo, estabelecer os limites na rotina diária pareceu ser um desafio que Joana não conseguiu transpor com Isabel, talvez porque a afetividade entre mãe e filha não tenha se concretizado em sua inteireza. Quando a criança se deparou com uma figura de autoridade, ela se recusou a aderir às novas regras de convivência.
[...] ela sempre teve muito problema com figura de autoridade, ela nunca aceitou eu falar nada, ela sempre pagou o preço que fosse para fazer o que ela queria, desde muito pequena [...] sempre cuidei dela, sempre trazia pra casa, levava pro médico, para o shopping, antes eu era a dindinha, levava para o park shopping eu era a engraçada. Eu não precisava mandar fazer a tarefa de casa, não precisava mandar tomar banho, ela chegou a passar um mês sem lavar a cabeça dentro dessa casa, pra você ver o tamanho da pirraça da menina, e se você fala, finge que não é com ela.
Entendemos aqui que nem a criança, nem a mãe estavam preparadas para iniciar a convivência familiar. A mãe por não ter clareza da sua motivação pela adoção e a filha por não ter elaborado o luto dos abandonos sofridos nos outros acolhimentos familiares.
Talvez por isso ter sido tal difícil para Joana ocupar a posição de autoridade. Era desconfortante porque lhe demandava mais tempo e lhe exigia uma maior aproximação
71 emocional com Isabel, o contrário do que o apadrinhamento lhe exigiu [...] me falaram que
ela tinha dificuldade com figura de autoridade, que eu tinha escolhido ser a figura de autoridade dela e que eu tinha que fazer ela obedecer [...] e uma vez a psicóloga falou isso pra mim, Joana, o ódio da Isabel não é de você, e sim a posição que você ocupa na vida dela. Podia ser eu, podia ser outra pessoa não é específico, foi o que a psicóloga dela me disse, e ai fiquei pensando. Mas eu sei que de mim ela não gosta [...].
Para Minuchin (1982) o processo de socialização é inerentemente conflitante, principalmente na fase da adolescência. À medida que a criança cresce, ela exige maior comprometimento emocional dos pais. Para esse autor os pais não podem proteger e guiar sem, ao mesmo tempo, controlar e reprimir. E os filhos não podem crescer e se tornarem individualizados sem rejeitar e atacar.
Na relação entre Joana e Isabel identificamos a falta de uma acomodação mútua, entre ambas. A adaptação à filha exigiu da mãe maior flexibilidade nas regras e uma maior disposição em dar credibilidade e autonomia à criança. Para Minuchin (1982, p. 68) “(...) se não há mudança familiar, aparecerá uma configuração disfuncional, que será repetida cada vez que ocorre um conflito”.
Outro fator estressante que prejudicou a aceitação de Isabel na família foi a pouca importância dada a sua singularidade histórica referente aos abandonos sofridos anteriormente. Essa hipótese pode ser reforçada a partir de uma leitura de uma fala da mãe
[...] ela nunca sofreu espancamento, ela nunca foi estuprada, ela nunca teve nada. O que ela teve pode ser as rejeições das famílias e da mãe, eu sei que dói, mas eu não acho que seja só isso que move Isabel, eu não acho que só isso faz ela sentir raiva de mim [...].
Por outro lado, Isabel expressou pelo desenho seu desejo em estar com a família adotiva, e o sonho de viajar com a mãe. Este projeto foi idealizado junto à mãe adotiva e interrompido com o nascimento do irmão, mas para Isabel ele ainda estava vivo, suscetível de ser realizado, mesmo ela estando ano serviço de acolhimento.
72 O nascimento do filho foi visto por Joana como um intensificador do conflito entre ela e Isabel, talvez porque a vinculação de filiação ainda não estivesse consolidada em sua inteireza. [...] Com o nascimento do irmão a coisa piorou muito porque ela é extremamente
agressiva [...]. A angústia da obrigação da adoção, da impotência, da falta de diálogo entre
mãe e filha, e do apoio da família extensa motivaram a devolução de Isabel, o que para a mãe surgiu como uma possibilidade que interrompia seu sofrimento. [...] Só eu sei o que eu vivo,
eu vivo em um inferno há cinco anos, um inferno literalmente. O pior lugar da minha vida era essa casa. A minha vida estava uma zona. [...].
Entregar a filha na VIJ-DF foi o caminho que Joana encontrou para aliviar sua angústia. [...] Então eu não tinha como trabalhar, eu não tinha como fazer nada, a minha vida
estava atada, porque eu não tinha como sair de casa, eu tinha que ficar plantada o dia inteiro dentro de casa[...].
A mãe sugeriu a culpa do fracasso da adoção à filha. [...] E ela é uma menina
inteligentíssima, inteligentíssima, mas ela tinha tanta vontade de me fazer sofrer, que era uma coisa impressionante [...] alguma coisa ela tem [...]
73 Em outro momento diferente da entrevista com a mãe, solicitamos a Isabel que fizesse o desenho do que desejava para o seu futuro. Ela expressou verbalmente e depois pela grafia, seu desejo de cuidar de crianças “espertas”38.
Mais uma vez observamos que Isabel não coloriu os desenhos, a menina que representou não tem o braço esquerdo. Apesar de as pessoas estarem próximas, o desenho não propôs um elo entre os membros, sugerindo-nos refletir sobre a dificuldade do vínculo. E, por