• No results found

1. Introduction

1.5 Reservoir rocks

[...] você quer vir? Quer ter uma mãe? Quer ter uma casa? Quer comida? Quer ir trabalhar? Quer vir estudar? Então eu posso oferecer isso pra ela, ela não pode me oferecer nada, ela é uma pobre coitada [...]F[2][D] (JANETE, 2010).

[...] O que eu queria é que tudo na minha vida pudesse dar certo, eu pudesse ainda ter essa família, essa família que me adotou. O que sonho pro meu futuro é ter minha casa, meu carro, meu marido meus filhos, penso fazer uma faculdade, me formar. É o que eu sempre quis e ainda quero. [...] mas coisa da vida assim sabe me impediram de que eu pudesse fazer isso, quando eu brigava com ela eu não estudava, fiquei alguns anos, sem estudar. [...]F[2][D] (CLAÚDIA, 2010).

A análise destes fragmentos expressivos no discurso refere-se à devolução de Cláudia, ocorrida no início de 2010, cuja Guarda Provisória data de 1993. Ressaltamos que durante esse período o processo de adoção não foi concluído. Nessa família foram identificadas três outras devoluções, que não serão analisadas aqui, por não terem sido impetradas na Vara da Infância. Essas devoluções dizem respeito a dois filhos adotivos de Janete, um de 21 e o outro de 22 anos os quais se encontram morando em um Abrigo para Deficientes na Ceilândia Norte. O terceiro, com 17 anos, também reside na Ceilândia, porém em outro local, e suas despesas são, ainda hoje, custeadas pela mãe adotiva.

Janete, mãe adotiva, tem 71 anos, é separada há 15 anos, é mãe biológica de dois filhos do sexo masculino, hoje com 40 e 42 anos respectivamente, e mãe adotiva legalmente de 17 outras crianças. Residem em sua companhia dois de seus filhos adotivos de 17 anos, sendo um deles irmão biológico de Claudia. Os outros dois moram em um Abrigo para pessoas com necessidades especiais, outro filho de 17 anos, mora em residência custeada por Janete, e os outros onze são independentes.

Cláudia tem 18 anos, é a mais velha de seis irmãos biológicos, sendo: duas irmãs, 14 e três anos e três irmãos: 08, 13 e 17 anos, sendo que o último mora com Janete. Atualmente a adolescente reside com os pais biológicos e trabalha como atendente em uma rede de fast

food.

Janete foi contatada duas vezes ao telefone para agendamento de entrevista. Para realização da pesquisa, realizamos uma visita em sua residência. Nessa, ela mostrou-se bastante solícita ao nos receber, respondeu com presteza a todas as questões referentes à adoção.

77 Em outro momento foram realizados contatos telefônicos com Cláudia e agendamento para entrevista em seu local de trabalho. No início esta se mostrou inibida, mas à medida que conversávamos interagiu de modo mais espontâneo, ela não quis desenhar. Cabe salientar que se optou por nomear os discursos como fragmentos, por tratar-se da análise de alguns trechos das entrevistas e não do todo. Como foi opção da adolescente não desenhar, a obtenção de informações foi guiada pelas perguntas que estavam no instrumental dos desenhos, as quais foram adaptadas, conforme a necessidade de obtenção de informação.

A adoção de Cláudia pareceu ser amparada por um desejo altruísta da mãe adotiva, não singular, misturado a outras 17 adoções que efetivou [...] as coisas eram mais fáceis.

Minhas amigas faziam as fichas e aí pegávamos pra adotar. Na época tinha muitos bebês no antigo CRT, hoje Abrire, eu acho que consegui umas 50 crianças para minhas amigas adotarem, fazíamos primeiro colocação familiar e depois pedíamos adoção [...]. Em

dezembro de 1993, Janete mencionou ter acolhido para passar o natal em sua companhia seis crianças, incluindo Cláudia e seu irmão, hoje com 17 anos, o qual ainda encontra-se em sua companhia. [...] Então, nesse dia eu tirei seis pra passar o natal comigo. Era muito

conhecida, tinha recebido vários títulos, foi fácil pra mim. E aí peguei os seis e não devolvi mais [...]. Em vários momentos da conversa, Janete pareceu expressar um sentimento de

salvar o “outro” da “condenação” ao abandono, permeado talvez pelo desejo inconsciente de superação dos seus limites e talvez, por reação a um abandono afetivo sofrido por seus pais, mas não foi nossa intenção nessa dissertação trabalhar esses desejos inconscientes.

Dividir as atenções era complicado, as idades eram próximas e Janete admitiu sua limitação entre ter que dividir-se entre seu trabalho e o tempo de estar com os filhos. [...]eu

vou ser bem sincera, eu pegava mais no colo o irmão dela e o outro pequeno, porque eles tinham um mês e meio e o outro de dois meses de vida. Eu que ensinei a andar, falar. [...] Eu trabalhava o dia inteiro e tinha quatro empregadas [...] fui mulher de ganhar muito dinheiro, criei vinte filhos sozinha [...]. Joana afirma que todos os filhos adotivos foram criados

igualmente [...] Andava bonitinha, sempre estudou em escolas boas, Kombi buscava e trazia

[...] então eles sempre tiveram do bom e do melhor, ela foi criada como normalmente todos eles. Eu acho que com muito amor, muito carinho, não fiz muito a vontade dela [...]. Todavia,

em outro momento durante a entrevista com Cláudia esta verbalizou que havia distinção quanto a sua vivência com a mãe adotiva [...] as coisas que acontecia dentro da casa de

78 Evidenciamos nesse discurso o conceito da “filha idealizada”, o qual aprofundaremos

com mais clareza na zona de sentido do capítulo cinco, que Janete buscou encontrar em Cláudia[...] eu quero que ela venha, quero enfeitar, pintar o cabelo dela, comprar jóias,

comprar sapato, comprar roupas, e ela não quer nada disso, um dia vem, dorme comigo na minha cama, no outro dia quando vou procurar, desculpa eu falar (Janete chora), mas a filha da puta, sumiu e se eu falar qualquer coisa [...]. Janete vê na filha uma profunda ingratidão. [...] Aí eles me chamaram e eu falei que bati nela mesmo, porque ela tinha me mordido, tem a marca até hoje aqui no meu braço. Aí eu pensei, estou muito velha pra apanhar de filhos.

Nesses 15 anos de convivência, Janete não efetivou o processo de adoção de Cláudia, mencionou ter como documento legal a guarda definitiva. [...] Não tinha registrado os dois,

nem Cláudia nem seu irmão, porque o pai me extorquia muito dinheiro [...] foi me sugerido pelo juizado que eu não fizesse a adoção plena, até que eles crescessem e manifestassem se queriam ficar comigo, mas eu já tinha pedido a guarda definitiva.

Essa situação de indefinição no processo legal de Cláudia pode ter sido o fator que

desencadeou sentimentos de insegurança na adolescente. Percebemos na fala de Cláudia que sua insegurança motivou sua rebeldia: [...] quando eu brigava com ela eu não estudava, fiquei

alguns anos, sem estudar [...]. Porém esse sentimento parece não ter anulado seus planos

futuros [...]. O tempo que eu estava com ela, sempre na minha cabeça ficava esses

pensamentos, terminar meus estudos, fazer uma faculdade.

Por um lado, a mãe adotiva pareceu não dar importância na efetivação do processo legal, o qual se estendeu durante toda a convivência de ambas. O conflito e a insegurança do vínculo nessa convivência se expressa na agressão física da mãe adotiva a filha. Por outro lado, a adolescente demonstrou ter dificuldade em verbalizar seu sofrimento quanto sua insegurança na família adotiva. A forma encontrada para representar suas incertezas foi através da rebeldia que se intensificou na adolescência.

Os conflitos entre mãe e filha tiveram mais peso na adolescência de Cláudia. Para Janete, o que realmente culminou na devolução da filha foi o uso de drogas. [...] quando eu

sei que usou droga eu fico doida, aí eu pego um cabo de vassouras, aí eu bato, eu bato mesmo [...] quem usa drogas é muito difícil, ela usa crack, e a gente que nunca teve isso na vida da gente, não entende [...]. Ao mesmo tempo contradiz seu argumento ao revelar que

seus filhos biológicos foram usuários de drogas [...] meus dois filhos biológicos usaram muita

79

pega por ali no aeroporto [...], Meus dois verdadeiros39 de vez em quando ainda fumam, um tem 40 anos o outro 42.

Ao perguntarmos a Cláudia sobre o uso de drogas durante a convivência com a mãe adotiva, ela nega e ainda afirma ter se envolvido com drogas após ter sido encaminhada para o serviço de acolhimento, onde se sentiu ameaçada e desprotegida. [...] Desde o primeiro dia

que fui encaminhada para o Abrigo Reencontro - Abrire, foi ruim, fiquei meio constrangida com tudo o que estava acontecendo, fiquei assustada no dia que cheguei lá [...] eu fui pra o abrigo eu fiquei revoltada da vida, fiquei tão revoltada que mexi com umas coisas, drogas, que foi difícil eu ter saído, foi muito difícil [...]. Tais falas sugeriram a nós a hipótese de que a

droga pode não ter sido o principal motivo que culminou na devolução. Traremos no decorrer desse fragmento outros indicativos que podem ter interferido nessa devolução.

A fala anterior da mãe, sobre os filhos “meus dois verdadeiros”, levou-nos a refletir sobre a distinção que fazia entre os filhos biológicos e filhos adotivos, e como isso influenciava na convivência com Claudia.

Schettini (2009) nos aponta que enquanto ocorre a separação entre os filhos biológicos e os filhos adotivos sempre haverá problemas na efetivação da filiação:

Se persistir em nossa consciência, ou mesmo reprimido no inconsciente o sentimento de que o filho adotado é “como se fosse filho”, ainda estaremos longe da verdadeira filiação. Não existe a condição de mais ou menos filho. A filiação só existe na sua inteireza (SCHETTINI, 2009, 28).

Corroborando com essa idéia, Hamad (2010, p.60) sugere-nos que “enquanto os pais afirmarem que “é porque é uma criança adotiva”, a adoção permanece problemática”.

Para Cláudia, a convivência com Janete sempre foi permeada pelo “fantasma” da sua aceitação, cercada de histórias pessoais mal resolvidas da mãe: [...] ela sempre foi uma boa

pessoa, uma boa mãe, mas era muito difícil dela me compreender e eu compreender ela. Era difícil porque ela tinha o jeito dela [...] o que ela passou, não sei se foi o que ela passou com os pais dela, pra ela ser daquele jeito que ela sempre foi [...]. Essa hipótese indicava a

influência que a história pessoal de Janete, permeada pelo “abandono afetivo” de seus pais biológicos, tinha na convivência com a filha.

Tal hipótese é reafirmada pela teoria de Levinzon (2004, p.48), quando argumenta que “[...] o desejo e a necessidade de acolher um “órfão” necessitado é a forma particular que

39

80 algumas pessoas encontram em reescrever sua história pessoal de muita carência e sentimento de abandono”.

Corrobora com essa hipótese a fala de Janete no que tange a rigidez projetada na criação dos seus filhos: [...] na minha época eu tinha que tirar 100 em todas as matérias,

senão o pai pegava uma cinta e me enchia de porrada, e nunca fiquei reprovada, sempre fui a primeira aluna, eu e todos os meus irmãos, e a gente era muito pobre, puxava água de poço, cozinhava em fogão de lenha, eu tinha que passar o terno branco do meu pai, e era de linho, tinha que engomar, eu bordava divinamente bem, eu costurava e estudava, a gente não

respondia pó meu pai, era sempre “sim Senhor, sim Senhora”, mãe, dá licença. Nunca abri

uma gaveta de mãe, e eu tinha psicose que se tivesse um pingo de água na pia da cozinha, enquanto eu não me enxugava não ia dormir, e tudo tinha que ter cheirinho [...].

A rigidez apareceu na fala de Cláudia como ameaça a uma convivência saudável [...]

quando a gente vai entrando em uma fase é mais complicado, porque ela tem a cabeça dela, os pensamentos dela e eu tenho os meus e ficava difícil compreender ela, de tudo que ela falava, de tudo que ela fazia, do jeito que ela era rígida [...].

Tal hipótese nos aponta para reflexão sobre o conceito de famílias rígidas discutido na teoria sistêmica, onde cada indivíduo é visto como um subsistema. A tendência dessas famílias rígidas é compartilhar muito pouco e, portanto, ter pouco em comum, ter um exagerado sentimento de independência, uma ausência de sentimentos de lealdade e de pertença, não procurar ajuda quando necessário, salientar que o que afeta um membro não está registrado por outros e ter baixo nível de ajuda e apoio mútuo. São famílias que são difíceis de alterar, em qualquer momento, e de ter uma clareza de papéis, havendo também uma má comunicação. Essas características podem ser observadas na convivência que Cláudia descreve com Janete.

Cláudia mencionou em sua fala se sentir como “bode expiatório” 40, a qual a todo o

momento era responsabilizada por todos os problemas que aconteciam na casa. A falta de confiança na adolescente também era um indicativo de um não pertencimento àquela família, pois pertencimento envolve aceitação. Ela tem clareza de que voltar a morar com Janete não é a solução para resolver os problemas; [...] Ela complicava muito as coisas. Ela sempre botava

coisa além do que acontecia, ela botava na cabeça que era daquele jeito, dizia: Porque você fez isso, porque você fez aquilo, sendo que eu não tinha feito. Ai ela ficava na cabeça dela

40

81

que eu tinha feito, que tinha sido eu, a culpada sempre era eu. [...] se eu tivesse que mudar alguma coisa, voltar atrás seria difícil, porque meus pensamentos já são outros, os dela também, e as coisas mudam, muitas vezes ela já pediu pra mim voltar, pra ficar com ela que ela ia tentar me compreender, mas nunca deu certo [...].

Durante a entrevista, na maior parte do tempo, Cláudia se mostrou decidida de não querer retornar à convivência com a mãe: [...] aí eu tomei uma decisão que também não ia

mais morar com ela. Todas as vezes ela ia lá me visitar, e me chamava pra passar os finais de semana, e tipo eu ficava naquela de não ir mesmo, porque eu sabia como ia ser meu relacionamento com ela na casa, e ela ia começar com as criticações dela, e não ia dar certo.

Em outros momentos, demonstrou ambivalência em sua decisão, que para nós refletiu um desejo em resgatar essa família, demonstrou ter sentimentos de saudade e afeto pelo que viveu: [...] o que eu queria é que tudo na minha vida pudesse dar certo, eu pudesse ainda ter

essa família, essa família que me adotou [...] às vezes bate aquela saudade (chora), mas a saudade é por conta da convivência que vivi com ela e com meus irmãos.

Ao perguntarmos sobre quem seriam as pessoas mais importantes que gostaria que estivessem presentes nas suas conquistas pessoais, Cláudia reportou-se aos seus irmãos biológicos como sendo pessoas significativas em sua vida: [...] só meu irmão e meus outros

cinco irmãos que moram com meu pai [...]. Reforçou a importância dada ao vínculo

desenvolvido com o irmão biológico que continua morando com Janete: [...] ele é meu irmão

de sangue. Não posso perder meu vínculo com ele [...]. Fica explicito em sua fala que o que

lhe impedia em continuar os contatos com esse irmão era a elaboração da dor da rejeição que ainda estava muito presente: [...] esse trabalho meu complicou tudo pra ir lá, mas ele não me

impede não, é questão de tempo pra mim, eu estava dando um tempo, mas eu vou tentar ir lá, eu vou lá visitar eles.

Todavia, quando se viu longe dessa família, Cláudia propôs uma mudança real e significativa em sua vida: [...] O que sonho pro meu futuro é ter minha casa, meu carro, meu

marido, meus filhos, penso fazer uma faculdade, me formar. É o que eu sempre quis e ainda quero. Seu desejo pareceu somar-se à necessidade de mostrar que era capaz de superar as

dificuldades que passou: [...] vou seguindo minha vida [...] mas a gente tem que está aí, firme

e forte, agradecendo a Deus.

Em outro momento, durante a entrevista com a mãe, esta se mostrou comovida, quando mencionou sobre a vontade em acolher novamente a filha. A mãe falou muito do

82 perdão, remetendo-nos à hipótese de que este ato assumiria o poder de subverter o outro, qual seja, a devolução [...] eu estou disposta, porque eu sou muito católica, eu sou muito de pedir

perdão, Deus fala mais alto, todo dia na hora que eu estou louvando a Deus (Janete chora), aí Deus diz perdoa [...].

O sentimento de perdão traduzia seu desejo de ser reconhecida como uma pessoa que foi importante para “salvar” Cláudia do abandono e da rejeição sofrida anteriormente, [...]

você quer vir? Quer ter uma mãe? Quer ter uma casa? Quer comida? Quer ir trabalhar? Quer vir estudar? Então eu posso oferecer isso pra ela, ela não pode me oferecer nada, ela é uma pobre coitada [...] eu não preciso dela pra nada.

Esse distanciamento que Janete trouxe com sua afirmação em ter tudo e não precisar da filha para nada evidencia um sentimento de dor manifestada pela distância afetiva durante e após a convivência com Cláudia. A falta de vinculação e afeto nessa relação foi expressa em alguns momentos pela agressão física e verbal da mãe adotiva à filha. Para Schettini (2009, p.95) essa dor “é acolhimento que, muitas vezes, se transforma em recolhimento, quando não, em algo mais angustiante: encolhimento”.

Veremos na análise dos dois fragmentos a seguir um novo direcionamento da vinculação afetiva entre os pais e seus respectivos filhos adotivos, onde as famílias conseguiram superar os desafios e emblemas que o contexto lhes impôs.

83