5. Analysis results
5.1 Sample overview
A família é, então, contexto natural de crescimento e cura, sendo um grupo natural que desenvolve padrões de interação ao longo do tempo. Tais padrões constituem a estrutura familiar que governa o funcionamento dos membros da família, delineando sua gama de comportamentos e facilitando sua interação (MINUCHIN; FISHMAN, 2003).
Uma família é um tipo especial de sistema, com estrutura, padrões e propriedades que organizam a estabilidade e a mudança, sendo também uma pequena sociedade humana, cujos membros têm contato direto, laços emocionais e uma história compartilhada (MINUCHIN et al.,1999).
Segundo Minuchin (1982), a estrutura familiar é o conjunto invisível de necessidades funcionais que organiza o modo como os membros da família interagem entre si e com o contexto. Nesse sentido, quando a estrutura familiar é transformada, as posições dos membros nesse grupo se alteram, transformando o funcionamento do sistema familiar. A natureza da estrutura da família é respaldada por fronteiras que conservam os membros familiares próximos ou afastados.
As fronteiras são importantes em relação aos subsistemas e ao sistema familiar como um todo. Elas são invisíveis, mas sabe-se que existem devido à maneira como as coisas caminham na família. A permeabilidade das fronteiras expressa as realidades do acesso e da privacidade, sendo que sua firmeza varia segundo o estilo particular de cada família (MINUCHIN et al., 1999).
Para Minuchin (1982), as fronteiras são as regras que delimitam quem participa de cada sistema e como participa, sendo sua função proteger a diferenciação do sistema. O autor
distingue três tipos de fronteiras: nítida, difusa e rígida, levando-se em consideração que as famílias podem passar de uma fronteira para outra. A fronteira nítida permite trocas sadias entre seus membros e possibilita que estes cumpram suas funções o que contribui para o funcionamento saudável da família.
Além das fronteiras, importantes na constituição da estrutura e funcionamento de uma família, as regras e os mitos familiares também são fundamentais nos padrões de interação desenvolvidos pela família e que definem a forma de funcionamento da mesma.
As regras familiares dizem respeito ao conjunto de normas e leis explícitas ou implícitas existentes nas famílias e a governam de alguma forma. Para Gabel e Soares (2006), algumas famílias tentam impor a seus membros suas regras sem permitir que formulem as suas próprias crenças. Nesse contexto, as autoras fazem referência também ao conceito de Lealdade Familiar, onde o membro leal busca alinhar seu comportamento aos comportamentos do grupo ao qual pertence. A lealdade familiar se baseia nos parentescos biológicos e hereditários, em que cada membro se sente sujeito às suas expectativas, quer as cumpra ou não. A partir do momento em que é internalizada, a lealdade passa a ser não só uma característica do grupo, sendo também individual e indo além da identificação com o grupo. As exigências do grupo familiar passam a determinar pautas de comportamento ao sujeito de acordo com estas expectativas.
A lealdade familiar, definida por Boszormenyi-Nagy e Spark (1983, apud PENSO et al., 2008), é uma trama motivacional dialética, de raízes multi-pessoais, que implica a existência de expectativas estruturadas de grupo, em que todos os membros adquirem um compromisso, com forte componente de obrigação ética (p.15). As lealdades invisíveis referem-se à existência de expectativas estruturadas diante das quais todas as pessoas na família assumem compromisso (KROM, 2000 apud PENSO et al., 2008).
Para Minuchin, Lee e Simon (2008), os membros se adaptam às regras familiares que fixam papéis e funções, favorecendo o funcionamento, a antecipação de respostas, a segurança, a lealdade e a harmonia.
Segundo Féres-Carneiro (1992), os papéis estão relacionados com o desempenho no cumprimento das funções familiares essenciais, sendo importantes para a saúde emocional de uma família. O papel diz respeito às funções que cada membro da família desempenha de acordo com a posição ocupada nos subsistemas conjugal, paternal, fraterno e filial, como papel de marido, mulher, pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã. Os papéis podem ser definidos, adequados e flexíveis, na medida em que os subsistemas possuem limites claros dentro do sistema familiar mais amplo, podendo, assim, facilitar o crescimento de seus membros e favorecendo a saúde emocional da família.
A respeito dos mitos familiares, Gabel e Soares (2006) referem que se trata de modelos norteadores de conduta para os membros de uma família, não conscientes, transmitidos entre as gerações, podendo ser repassados através de rituais, compromissos de lealdade, padrões de comunicação, entre outros, e podem ser vistos como uma maneira de reviver no cotidiano os mitos culturais. Os mitos mantêm a coesão do grupo familiar através da delimitação de suas regras, papéis e funções a serem desempenhados por seus membros, valores e crenças compartilhados e compromissos de lealdade a serem cumpridos.
Os mitos são importantes na transmissão de padrões relacionais, tendo sido introduzido na terapia familiar por Ferreira (1963, apud PENSO et al., 2008) que afirma que sua função é proteger o sistema, mantendo o nível de organização da família pelo estabelecimento de padrões que se autoperpetuam. O mito é um sistema de crenças constituído de convicções compartilhadas, serve como mecanismo homeostático, fortalece e mantém os papéis sociais de cada membro, o que impede que o sistema se deteriorize ou se destrua (BUCHER-MALUSCHKE, 1985 apud PENSO et al., 2008).
Segundo as autoras, o que permite a transmissão do mito são a memória familiar e os rituais que garantem a reprodução simbólica da família ao longo das gerações. As famílias selecionam aquilo que consideram importante de ser compartilhado entre os membros e o transmitem ao longo do ciclo de vida familiar e das gerações, contribuindo para manter a identidade familiar. Os mitos e ritos familiares fornecem um sentido de pertencimento para a família, mas precisam ser flexíveis para se transformarem ao longo do tempo.
Outro conceito importante relacionado com o funcionamento da família diz respeito à comunicação, imprescindível para o desenvolvimento do indivíduo dentro da família. Para Feres-Carneiro (1992) ao mesmo tempo em que a comunicação transmite uma informação, ela define a natureza das relações entre os comunicantes. Existem quatro distúrbios da comunicação que dificultam o desenvolvimento emocional dos membros da família: a) incongruência, quando os níveis de relato e de ordem se contrariam; b) confusão, presença de estilo obscuro, frases incompletas e linguagem pouco explícita, dificultando o entendimento; c) ausência de direcionalidade adequada, quando a mensagem não é dirigida à pessoa a quem se quer realmente transmitir; d) ausência de carga emocional adequada na comunicação, as mensagens são transmitidas com pouca emoção ou com carga emocional muito intensa, impedindo o seu adequado entendimento pelo receptor.
Segundo Ribeiro (1996), a comunicação familiar está relacionada não só com a transmissão de conhecimento, mas também de opinião, crenças e atitudes, sendo uma forma de influenciar o comportamento de seus membros. Segundo a autora, temas sobre sexualidade e aids constituem um desafio para a comunicação do sistema familiar, pois trazem à tona questões sobre assuntos que sempre representam dificuldades.
A aids é uma doença que gera profundas transformações na família. Por isso, entender a estrutura familiar, regras e valores norteadores, papéis, fronteiras, comunicação, mitos e lealdades, facilita a compreensão do impacto da aids na família, bem como a forma como a
mesma enfrenta as dificuldades, que tipo de transformação sofreu e como se reorganizou a partir da doença.