CHAPTER FIVE
5.3 Source of data collection
A investigação realizada pretendia dar resposta à seguinte questão geral: por que é que os manuais escolares de 9º ano e do 10º ano (disponíveis no mercado português no ano letivo de 2009/2010) recorrem à informação histórica para abordar o Átomo, de determinado modo? Esta questão geral concretizou-se através de três questões específicas, sendo que as duas primeiras foram respondidas com base na análise de manuais escolares e a terceira à custa de entrevistas realizadas a alguns autores de manuais.
As duas primeiras questões de investigação eram eram as seguintes:
- Que relação existe entre a abordagem histórica do Átomo que é feita pelos manuais escolares de 9º ano e 10º ano?
- Qual a qualidade científica do conteúdo histórico incluído nos diversos manuais aquando da abordagem do Átomo?
Os resultados obtidos a partir da análise da abordagem do átomo em oito manuais de 9º ano e em oito manuais de 10º ano permitiram concluir que todos os manuais escolares analisados, quer do 9º ano quer do 10º ano, abordam a história do Átomo. Nessas abordagens, verificaram-se aspetos comuns, mas também se verificaram algumas diferenças, quer no que respeita ao conteúdo histórico quer no que concerne à forma de o apresentar.
A principal diferença entre as abordagens históricas do Átomo que são feitas pelos manuais escolares de 9º ano e 10º ano prende-se com o próprio conteúdo histórico incluído nos manuais. Assim, nos manuais de 9º ano, desenvolvem-se mais os modelos atómicos respeitantes aos
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séculos XVIII e XIX, designadamente os modelos de Thomson e de Rutherford, e menos outros modelos mais recentes do Átomo, tais como o modelo de Bohr e o modelo quântico. Por seu lado, nos manuais de 10º ano, desenvolvem-se os modelos mais recentes do Átomo, incluindo o modelo quântico. Verifica-se, ainda, que a evolução dos modelos atómicos é apresentada, na maior parte dos manuais de 9º ano, como sendo uma evolução linear e unidirecional, na medida em que os períodos históricos surgem relacionados de uma forma sequencial, num sentido único e bem definido, e, nos manuais de 10º ano, tende a ser apresentada como uma evolução real, na medida em que os períodos históricos surgem relacionados entre si, com a apresentação dos avanços e recuos, incluindo as controvérsias que estiveram associadas a algumas etapas desse desenvolvimento.
Por outro lado, não se verificaram incorreções científicas aquando da abordagem do Átomo. No entanto, as semelhanças encontradas nos manuais escolares analisados de ambos os anos de escolaridade, no que respeita à forma apresentam o conteúdo histórico respetivo, parecem refletir uma pouca concordância com os princípios gerais preconizados para o ensino das ciências e com as orientações emanadas dos programas das disciplinas. De facto, quer nuns quer noutros se defende uma diferente abordagem da História das Ciências, que seja capaz de permitir obter uma visão mais humanista das ciências, aprender quer a fazer ciências quer sobre a natureza das ciências, ou seja que foque uma evolução real do conhecimento cientifico, evolução essa devida a pessoas humanas, cidadãos normais apesar da profissão que têm, que desenvolvem a sua atividade num dado momento do progresso científico e que estão inseridos em contextos tecnológcicos, históricos, políticos, religiosos, sociais que os afetam enquanto pessoas e enquanto profissionais. Ora esta visão dificilmente será veiculada pelos manuais analisados, uma vez que a história do Átomo que apresentam, por um lado, surge centrada em dados biográficos e em episódios da vida pessoal dos cientistas, como sendo resultado do trabalho de cientistas individuais, realizado num contexto, no geral, somente científico e tecnológico, não se valorizando as influências sociais, políticas ou religiosas. Por outro lado, o material utilizado nos manuais analisados para apresentar a informação histórica consta, essencialmente, de fotografias de cientistas e de esquemas elaborados por autores de manuais escolares, não tendo os respetivos autores optado pela inclusão de documentos ou de textos originais ou por fontes secundárias, as atividades de aprendizagem, são, maioritariamente, do tipo ‘análises de dados históricos’, e a bibliografia relacionada com a história do Átomo é quase inexistente.
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A terceira questão específica desta investigação era:
- Como explicam os autores de manuais escolares as características didáticas e científicas da abordagem histórica do Átomo incluída nos respetivos manuais?
Os resultados obtidos através de entrevistas realizadas a quatro autores de quatro manuais escolares (dois de 9º ano e dois de 10º ano) permitiram concluir que existem algumas diferenças entre as opiniõesdesses autoresno que respeita à importância que cada um atribui à inclusão de conteúdo histórico no ensino das ciências. Assim, apesar de todos os autores entrevistados a considerarem importante, alguns autores consideram-na absolutamente essencial. No entanto, apesar das diferenças encontradas, verificou-se que todos os autores entrevistados consideram que a utilização da História das Ciências no ensino das ciências assume um papel fundamental, na medida em que permite mostrar toda a evolução das ciências e como o conhecimento científico se constrói nos contextos das diferentes épocas. Apesar disso, os autores nem sempre incluem o conteúdo histórico nos manuais escolares da forma que mais gostariam e que estaria de acordo com as respetivas convicções sobre como o incluir. As razões para isso relacionam-se, fundamentalmente, com o espaço disponível no manual escolar para os assuntos históricos, espaço esse limitado por opções editoriais. A este propósito, alguns autores referiram também que os programas das disciplinas, devido à sua grande extensão, não deixam muito tempo para os assuntos históricos, o que condiciona, indiretamente, as decisões sobre a inclusão de conteúdo histórico nos manuais escolares. Os autores salientaram que, no entanto, em outros componentes dos respetivos projetos (manual digital, caderno de atividades, livro do professor) é possível encontrarem-se recursos didáticos mais diversificados e/ou sugestões metodológicas para a utilização da História das Ciências nas aulas, o que poderá, de alguma forma, colmatar as falhas ao nível do manual escolar propriamente dito. A intervenção do professor também foi considerada importante, pelos entrevistados, para colmatar as lacunas do manual, na medida em que ele poderá igualmente complementar alguns aspetos que não estejam suficientemente desenvolvidos no manual. Segundo os autores, a falta de interesse que existe nos alunos para com os conteúdos históricos poderá ser suplantada com uma correta abordagem da História das Ciências por parte do professor.
Relacionando os resultados obtidos através da análise de manuais e das entrevistas realizadas a autores para responder à questão geral de investigação (Por que é que os manuais escolares de 9º ano e do 10º ano (disponíveis no mercado português no ano letivo de
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2009/2010) recorrem à informação histórica para abordar o Átomo, de determinado modo?), conclui-se que, apesar de os autoresentrevistados terem ideias adequadas acerca do papel que a História das Ciências pode desempenhar no ensino destas, a falta de espaço nos manuais, é um dos principais fatores que, segundo eles, condiciona o conteúdo histórico acerca do Átomo que é incluído nos respetivos manuais escolares. Esta falta de espaço justifica, segundo eles, o pouco desenvolvimento do mesmo e/ou a omissão de aspetos que, na opinião de especialistas na área, seriam importantes para que os manuais pudessem fomentar nos alunos o desenvolvimento de uma imagem adequada das ciências e uma perceção mais real de como o conhecimento científico evolui. Devido a essa condicionante, os autores consideram que o conteúdo histórico constante no manual pode constituir-se como uma pista, um ponto de partida para ser explorado de diferentes formas em contexto de ensino, sendo aí fundamental o papel do professor, que pode recorrer a recursos didáticos auxiliares de cada projeto de manual escolar. Os autores de manuais passam, assim, para os professores, em grande parte, a responsabilidade de decidir que conteúdo histórico vão abordar, a que materiais vão recorrer e como vão fazer essa adordagem, caso pretendam cumprir as orientações curriculares e programáticas em vigor.