RESULTS AND DISCUSSION
6.4 Socio-economic factors
6.4.4 Parent’s occupation
AUGUSTO VELOSO
Qüintiliano (Marcus Fabius Quintilianus) não foi apenas no- tável escritor latino, mas também professor, durante vinte anos, per viginti annos erudiendis juvenibus impenderam, e já estava jubilado, post impetratam studiis meis quietem, quando, solici- tado por amigos escreveu a célebre obra De Institutione Oratoria, que foi sempre considerada como tratado de educação de seu tempo e como um curso completo de literatura latina.
Da leitura de sua obra, tem-se a impressão de que pretendeu reformar o sistema educacional de sua época: com o longo tirocí- nio de vinte anos de magistério, ninguém melhor do que ele pode- ria faze-lo.
Seus primeiros preceitos de educação referem-se à escolha das amas (governantes), das quais deveria ser exigido, antes de tudo, que não tivessem uma linguagem viciosa, ante omnia, ne sit vitiosus sermo nutricibus, sendo também de capital importância que tivessem bons costumes, et moram quidun in his haud dubie prior ratio est.
Deviam falar com correção, recte etiam loquantur, pois é a elas que a criança ouvirá primeiramente, são suas expressões que procurará imitar, has primas puer audiet. A natureza determi- nou que sejam muito fortes as impressões que recebemos nos pri- meiros anos de existência e quanto piores forem elas, mais arrai- gadas ficarão, natura tenacissimi samus eorum quae rudibus annis percepimus et haee ipsa magis pertinaciter haerent, quae deteriora sunt. A criança não deveria acostumar-se, portanto, a uma linguagem viciosa, que teria de ser desaprendida — noa. as- suescat ergo, ne dum infans quidem est, sermoni qui dediscendus si. (Quintiliano, De Institutione Oratoria, cap. I I ) .
Chysippo, filósofo estoico, citado por Quintiliano, queria que, se possível, fossem escolhidas governantes inteligentes, e, dentre estas, as melhores, quas si fieri posset sapientes Chrysippus opta- vit, optimas eligi voluit, porque era por elas que devia ser forma-
do o caráter dos meninos, com os melhores princípios, ab illis quoque informandam institutis mentem infantium judicat.
No que concerne à idade escolar, varões eminentes, como o poeta grego Hesiodo e Eratóstenes, filósofo famoso da Alexan- dria, eram de parecer que os menores de sete anos não deveriam começar a estudar, quidam litteris instituendos, qui minores sep- tem annis essert, non putaverunt, pois somente esta idade podia permitir a compreensão dos ensinamentos e suportar a fadiga, quod illa primum aetas et intellectum disciplinarum capere et la- borem pati posset.
O processo para o ensino do alfabeto, naquele tempo, era dar às crianças os nomes e a ordem das letras, antes de suas formas, mas isso não agradava a Quintiliano, embora usado em muitas es- colas: neque enim mihi illud saltem placet, quod fieri in, plurimis
video, ut litterarum nomina et conlextum prius quani formas, paruli discanle (Ibidem) . Julgava que tal processo prejudicava o conhecimento das letras, porque as crianças não dirigem logo sua atenção para os caracteres, isto é, pensam menos no que vêem que naquilo que tem na memória, que é mais rápida, e não gra- vam a forma, obstat hoc agnitioni non inlendentibus mox ani- mum ad ipsos du antecedentem memoriam, sequuntur (Ibidem).
Aconselhava Quintiliano que nenhuma restrição devia haver no ensino das sílabas, syllabis nullum compendium est, todas elas deviam ser aprendidas logo, e não convinha ser adiado o estudo das que eram muito difíceis, como se fazia quase sempre, perdis- cendae omnes, nec, ut fit plerumque, difficillima quaeque diffe- renda. O adiamento da aprendizagem de todas as sílabas trazia o grave inconveniente de ficarem os meninos embaraçados ao es- crever palavras em que tais sílabas aparecessem.
O insigne educador romano considerava um grande mal apressar os alunos na recitação da leitura, in lectione quoque non
properare ad continuam dam eam vel accrlerandam, pois seriam incríveis os obstáculos que, para a leitura, resultariam da pressa. incredibile est, quuntun moiae lectioni festinatione adjuciatur. A azáfama traria com oconseqüència a hesitação e a interrupção hine; enim accidil dubitatio, intermiissio.
A leitura deveria ser antes de tudo, segura, clara, por muito tempo vagarosa, até que, pelo exercício, sempre corrigido, a li- geireza pudesse ser obtida: certa sit erao imvrimis lectio et diu lentior, donec exercitatione contingat emendata velocitas (Quin- tiliano, ibidem) .
Os exercícios de leitura eram feitos em obras de poetas. Ho- racia Flacco, predizendo o destina de um de seus livros, escreve'1. que esperada fosse ele utilizado por um mestre escola, velho e gago, nas aldeias remotas, para ensinar as primeiras letras aos
meninos: hoc quoque te manet, ut pueros elemento docentem oc- cupet extremis in vicis balba senectus (Horacio epístola XX 1. I . ) .
Juvenal refere também que os meninos tinham, nas escolas, livros de Horacio Flacco, inteiramente decorados e o de Virgílio Marão, enegrecido pela fuligem: stabant puerí, quum totus deco- lor esset Flaccus et haeret nigro fidigo Marom. (Juvenal satira VII).
Como é muito sabido, os livros eram escritos em tiras de cou- ro preparado, transformado em pergaminho, com cilindros de metal na parte superior e na inferior, que serviam para enrolá-lo. Nos museus, são vistos livros feitos de pergaminho, de mais de dois mil anos, pois o couro é de incalculável duração.
Quanto à caligrafia, Quintiliano recomendava que quando o aluno começasse a aprender a escrever, isto é, a seguir cs traços, os debuxos, era conveniente que as letras fossem muito bem tra- çada na "taboinha" e que o "estilo" fosse guiado pelos sulcos da mesma: quum vero jam ductus sequi coeperit, non inutile erit as tabellae quum optime insculpi, ut per illos velut sulcos ducatur stilus. O aluno deveria manter-se dentro das extremidades e não pedia ultrapassar a linha: continebitur ulrinque murginibus, ne- que extra praescriptum poterit egredi. Seguindo os traços, mui- tas vezes e com rapidez, adestraria os dedos e não precisaria do auxílio da mão sobreposta do mestre, para dirigir a sua, neque egebil adjtilorio manum suam manv superimposita regentis.
(Ibidem) .
O cuidado em escrever bem e rapidamente não era cousa de pouca importância, posto que fosse comumente desprezado pelos nobres, non est aliena res, qua fere ab honestis negligi solet, cura bine ac velociter scribendi. A escrita grosseira e confusa exige o esforço para ser entendida: Stylus rudis et confusus intelleclu caret. (Ibidem) .
Os modelos para exercícios de escrita Quintiliano queria que constassem, não de frases inúteis, mas de máximas de boa moral e que instruíssem, versus qui ad imitationem scribrendi propo- nenlur, non otiosas velim sentevtia habeant, sed honestum ali- quid monentes. A lembrança de tais máximas acompanharia os escolares até a velhice, pois eram gravadas em espíritos em for- mação e seriam proveitosas aos seus caracteres: prosequitur haec memória in senectutem et impressa animo rudibusque ad mores proficiet. Achava conveniente que os estudantes apren- dessem as manifestações do pensamento dos varões ilustres e tre- chos escolhidos principalmente dos poetas, porque o conhecimen- to destes é mais agradável: eliam dieta clarorum virorum et electos ex poetis maxime (namque eorum pariris cognitio gratior
est locos ecliscerc inter lusum licet. Quintiliano, De Institutionc Oratória, 1. I, cap. I) .
Quintiliano preconizava que, dirigindo espíritos ainda biso- nhos, era necessário não sobrecarregar a fragilidade dos discípu- los. Cumpria ao mestre moderar-se e descer à inteligência do aluno: hoc opus si, quum adhuc radia iractabit ingenia, non sta tini, onerare infirmitatem discentium, sed tenvperare vires suas et ad intelleetum audievtos descendere. Seria preciso avaliar o que as inteligências dos educandos poderiam receber, porquanto as cousas que estivessem acima de sua esfera intelectual não atin- giriam a seus espíritos, pouco preparados para apreendê-las: amimi puerorum quanlum excipere posini, videndum est: nam majora intellectu, velut parum apertos ad percipiendum, animos non subibunt. (Quintiliano, ibidem, cap. I I ) .
Quando algum aluno lhe fosse entregue, um professor hábil deveria, antes de tudo, observar atentamente sua ilteligência e sua natureza, tradito sibi puero, docendi peritas ingenium ejus
imprimis natuamque perscipial. Depois de suas observações, conviria verificar de que modo seu espírito devia ser conduzido: hace quum animadvertit, prospiciat deincevs, quonam moda trar- tandus sit discentis animus.
O ensino era ministrado não só nas casas paternas, por es- cravos, libertos e homens livres, como também nas escolas. Dis- cutia-se qual o sistema mais vantajoso: quaestio esl utilius si do- mi atque intra privatos paretes studentem continere aut frequen- tiae scholarum. Este último sistema agradava a escritores emi- nentes, eminentissimis auctorubus placuisse, mas havia também os partidários da educação doméstica, que argumentavam com a necessidade da defesa dos bons costumes das crianças, moribus margis çonsultant.
Quintiliano considerava procedente esta alegação, mas con- cluía que também na casa da família os costumes poderiam ser corrompidos, nam et eorrumpurdur domi quoque, havendo mui- tos exemples disso, adsunt multa ejus rei exempla, pois o mestre doméstico poderia também ser um indivíduo depravado, nam et esse potest turpis domesticus ille praeceptor.
Competia aos pais uma vigilância integral, e que não vives- sem em uma negligência cega e adormecida, non caeca ae sopita parentum socordia est; era preciso escolher um preceptor hones- tíssimo, praeceptorem eligere sanetissimum, e adotar uma disci- plina muito severa: disciplina, quae maxime severa fuerit.
Além disso, o pai poderia colocar ao lado do filho, como pro- fessor, um amigo, homem austero, ou um escravo fiel, amicum gravem virum, aut fidelem libertum, lateri filii sui adjungere.
O insigne educador pensava que os próprios pais prejudica- vam os costumes dos filhos, liberorum nostrorum mores non ipsi pederemus, porque as crianças desde muito cedo viviam em um roxo excessivo, in purpuris repit. Os meninos não andavam, cres- ciam nas liteiras, in lectis crcscunt, e diziam cousas licenciosas, que despertavam o riso, gaudemus, si quid licentiits dixerint.
Refutando aos que se diziam contrários às escolas, entre ou tros argumentos, Quintiliano alegava que o espirito deve ser sem- pre excitado e estimulado, excitando, mens et atollenda semper est.
No isolamento, ele só poderia relaxar-se, in secretis langues- cit. Ademais, a emulação era de muita importância no ensino, oxcitabitur laude aemulatio.
O escolar acha indecoroso ser vencido pelo colega e satisfaz- se em superar os mais velhos, turpe ducet cedere pari pulchrum. superasse majores. Além disso, tendo o menino de viver mais tarde, em sociedade, seria preciso, desde a infância, acostumá-lo a não temer os homens, nem estiolar-se em uma vida solitária e retraída: assuescat jam a tenero non reformidare homines neque illa solitaria et velut umbratili vita palliecere. (Quintliano, De Institutione Oratória, 1. I, cap. II) .
Quintiliano condenava os castigos corporais. De modo al- gum queria que os meninos recebessem pancadas, antes de tudo porque as julgava aviltantes e próprias para escravos: caedi vero discentes, minime velim, primum quia deforme atque servile est (Quintiliano, De Institutione Oratória) . Era de parecer que o estudante desbriado não se corrige com a punição, tornando-se in- sensível as pancadas, como os peiores escravos, objurgatione non corrigatur, is etiam ad plagas ut pessima quaeque mancipia du- rabitur. (Quintiliano, ibidem). A ninguém devia ser permitida uma violência contra uma idade fraca e exposta a afrontas: in aetatem informam et injuriue abnoxiam, nemini debere nimiun li-
cere.
Lembrava o grande professor latino que as crianças mais novas aprendem mais facilmente as noções mais elementares,
quod minora etiam facilius minores percipiunt (Ibidem) . Recomendava a conveniência de estimular os alunos com prêmios de acordo com a idade, praemiis etiam, quae capit illa aetas evoeetur.
Julgava preferível que o educando começasse o estudo pela língua grega, porque o latim, estando no uso geral, podia ser aprendido insensivelmente: a Graeco sermove puerum incipere malo, quia Latinum, qui pluribus in usu est, vel nobis nolen tibus perhibet. Não queria, entretanto, que isso fosse praticado rigo- rosamente, isto é, que o escolar só aprendesse e falasse grego,
como geralmente se fazia, porque a pronúncia do estudante fica- va viciada pelos estrangeirismos, non tamem hoc adeo supersti- tiose velim fieri ut diu loquaiur Graece, aut discat, sicute pleris- que moris est: hinc acciduut et oris plurima vitia in poregrinum sonum corrupti. Em seu parecer, o latim não devia Vir muito tempo depois do grego, o estudo das duas línguas devia ser quase simultâneo, de sorte que uma não prejudicasse a outra, non longe Latina subsequi debet, ut neutro alieri officiat,
O descanso era considerado por Quinliliano de imensa im- portância para todos, porquanto nada há que possa resistir a um trabalho continuo danda est tamem omnibus aliqua remissio, quia nulla res est, quae per ferre possit continuum laborem. Os estudantes, restaurados e retemperados pelo descanso, trazem mais vigor e a inteliência mais penetrante para aprender: itaque et virium plus afferunt ad discendum renovati ac recentes aerio- rem animuin. Não lhe desagradava a brincadeira, que constituía um sinal de vivacidade, nec me offenderit lesiis in pueris: est hoc signum alacritatis, e quando via um aluno tristonho e sempre abatido, sabia que não podia esperar dele um espírito adequado para o estudo, neque illum tristem semper que demissum sperare possum erectae eirca studia mentis fore.
Aconselhava que devia haver um meio termo para os des- cansos porque, se eles fossem negados, isso traria como conse- qüência aversão ao estudo e se fossem excessivos, produziriam hábitos de ociosidade, modus tamem si remissionibus, ne aut
odium studioru mfaciant negatae, aut otii consuetudinem nimiae Era costume serem os escolares dirigidos por pedagogos, paedagogi, e estes também deviam ser homens instruídos, de pac- dagogis hoc amplius ut sint eiudili plane. (Quintiliano, ibidem) .
Cs rapazes eram le ados muito cedo para Roma, onde inicia- vam o estudo, como aconteceu a Ovidio e a seu irmão, que tiveram como mestres os varões mais notáveis pelo seu saber:
Protinus excolimur teneri curaque parentis. Imus ad insignes urbis ab arte vires.
Ovidio, Tristium, 1. IV, elegia X.
Também Horacio Flaco, apesar de ser filho de um liberto, libertino patre natum, foi levado para Roma ainda menino, a fim de que lhe fosse ministrado o ensino das disciplinas que qualquer cavaleiro ou senador mandava ensinar a seus filhos:
Sed puerum est ausus Roman portare docendum Artes, quas doceat quivis eques atque senator
L. I., sátira VI, v. 76-78.
Não obstante a humildade de seu nascimento, ego pauperum sanguis parentum, se alguém observasse no meio da multidão a indumentária do jovem Horário e os servos que o acompanha- vam, acreditaria que aquele aparato lhe era proporcionado pela herança de antepassados:
. .. Vestem servosque sequentes
In magno ut populo si quis vidisset, avita Ex re preaberi sumptus mihi crederet illos.
Ibidem, v. 78-80.
Seu pai, guardião severíssimo, acompanhava-o à casa de todos os mestres, para conservá-lo puro de todo vicio:
Ipse mihi custos incorruptissimus omnes
Circum doctores aderat. Quid multa? pudicum Qui primus virtutis honos servavit ab omni non solum facto, verum aprobrio quoque turpi.
Ibidem, v. 81-84.
Ao contrário do que acontecia na Grécia, onde a educação era dirigida somente pelo Estado, havia em Roma completa li-
berdade; a organização do ensino não era ali considerada como função do poder público.
Suetônio escreveu que os mestres eram bem remunerados, mas Juvenal afirma o contrário e considerava os professores de retórica uns desgraçados, pois, de pé ou sentados, dissertando sobre os mesmos assuntos faziam preleções fastidiosas e re- petidas, que cs matavam aos poucos:
Nam quaecunque sedens modo legerat. haec eadem stans, Proferet, atque eadem cantabit versibus iisdem; Occidit míseros crambe repetita magistros.
Juvenal, Sátira VII, "Litteratorum Egestas".
Sua remuneração era insignificante e apenas impedia que morresse de fome, consistindo em um miserável vale para rece- ber um pouco de trigo. Juvenal ironizava que era uma remune- ração magnífica, quippe haec merces lautissima!
Summula ne pereat, qua vilis tessera venit Frnmenti quippe haec merces lautissima!
Juvenal, idídem.
O trabalho do gramático era pago mais miseravelmente, pois sua remuneração era menor que a do retórico:
Quantum grammaticus mernit labor? . . . mintus est autem quam rhetaris aeras.
Juvenal, ibidem.
Conta Juvenal que os pais impunham condições severas aos mestres, os quais deviam conhecer profundamente as regras de gramática e o vocabulário, a história e todos os autores, como conheciam suas unhas e seus dedos. Não era só, os pais exigiam também que o professor formasse os caracteres de seus filhos, os quais deviam ser vigiados para que não se entregassem a obcenidades:
. . . vos saevas imponite leges
Ut praeceplori verborum regula constet Ut legal historias, auctores noveril, omnes, Tanquam ungues digitosque suos
Exigit ut mores teneros ceu police ducat Ne turpia ludant
Juvenal, ibidem.
Depois de tudo isso, e não obstante a insignificância da re- tribuição, os pais eram péssimos pagadores e quase sempre era preciso recorrer ao tribuno do povo para recebê-la:
Rara tamen merces, quae cognitione tribuni Nom egeat
Juvenal, ibidem.
Devia ter pulmões de aço o que ensinava a declamar, decla- mare doces, ó ferrea pectora; com efeito, ora assentado, ora de pé, lendo, expondo, repetindo, as mesmas cousas, com idênticas expressões, o fastidioso estribilho cansava horrivelmente os mes- tres, que eram dignos de compaixão.
Havia também os que morriam aos poucos, envenenados pela fumaça dos candieiros que eram tantos quantos eram os dis- cípulos :
Dummodo non pereat totidem olfecisse lucernas Quot stabant pueri. . .
Juvenal, ibidem.
Os professores romanos empregavam os abomináveis casti- gos corporais, e Horácio Flaco, o excelso lirico latino, lembrava- se, em uma de suas epístolas, de seu mestre Orbilio Pompilio, que era brutal: dava pancadas nos alunos e o obrigava, ainda me- nino, a declamar versos do Lívio Andronico, carmina Livi me- mini, quae plagosum nihi parvo Orbilium dictare. (Epístola I, 1. II, v. 70-71).
Em sua obra De Illustribus Grammaticis, Suetônio aludiu a Orbilio Pompilio, e, confirmando o que disse o poeta, referiu- se a seu caráter violento, cujas conseqüências sofriam, não só seus adversários, os anti-sofistas, mas também seus alunos: Fuit naturae acerbae, non modo in Antisophistas, sed etiam in discí- pulos. Suetônio cita um verso de. Domício Marso, poeta do século
de Augusto; neste verso, Domicio se refere àqueles que Oroilio torturou com a palmatória e o azorrague:
Si quos Orbilius ferula scuticaque caacidil.
Orbilio era natural de Benevenlo, onde seus pais foram assassinados. Foi auxiliar dos magistrados e soldado. Dei- xando o serviço militar, recomeçou os estados iniciados em sua infância e depois de ter sido professor longos anos em sua terra natal, veio para Roma, no consulado de Cicero.
Gozou de notável renome em Roma, mas viveu sempre na maior pobreza: docuit majore fama, quam emulumento, como conta Suetônio.
Orbilio escreveu um livro, "Perialogos", contendo queixas re- lativas às censuras que os professores sofriam por causa do des- cuido dos pais: eontinentem quer elas de injuriis, quas professo- res neçjligentia parentum occiperent.
Já naquele tempo era assim. . .
Passados dois mil anos, se Orbilio pudesse voltar a este mundo, verificaria que também agora, no século XX, acontece o mesmo, isto é, o completo desinteresse dos pais pelos estudos dos filhos, convecidos de que lhes compete somente custear a edu- cação dos mesmos.
Nada mudou, passados 2.000 a n o s . . . Nihil sub sole novum... Quando o escolar já sabia ler e escrever, era ocasião de passar imediatamente para os "gramáticos", primus in eo, qui legendi scribendiqiie adeptus erit facultem, gramniaticis est locus. (Quintiliano, de Institutione Oratoria, cap. IV) .
O vocábulo gramático não tinha naquele tempo a significa- ção atual: não designava somente o filólogo, mas também o que se dedicava ao estudo da literatura, das ciências, o que ensinava ou cultivava o espirito; o gramático era o homem de letras, o homem erudito, o crítico.
Os jovens romanos estudavam a gramática e a retórica. A gramática era a arte de falar corretamente e o comentário dos poetas, rede loquendi scientiam et poetarum enarrationem, como Quintiliano a definia, acrescentando que a arte de escrever está ligada à de falar, scribendi ratio conjuncta cum loquendo