“Porra, Bruno Azevêdo, a inteligência e tempo são teus, mas não é um desperdício pra ‘ana- lisar’ isso aí?” (Garcia Junior, em comentário na rede social Facebook, 2012)
O comentário acima, postado na rede social Facebook por um amigo meu, sobre esta dis- sertação, sintetiza um tipo de questionamento que me habituei a responder desde que escolhi as choperias como campo empírico desta pesquisa. Parecia, para diversas pessoas do meu convívio, que o universo das choperias de seresta de São Luís era incompatível com a ideia que faziam de mim como um intelectual, escritor e pesquisador.
Contudo, esta pergunta, aparentemente baseada no que conheciam de mim, demonstra o que estas pessoas presumem sobre as choperias. Durante anos, ouvi e li de pessoas de várias posições sociais, que estes espaços seriam violentos, cheios de ladrões e pessoas de baixa estirpe, que a música era de baixa qualidade, um muzak, brega, que havia prostituição, sujeira. Esta posi- ção é muito semelhante à encontrada acerca dos clubes de reggae em geral nos anos 1980 (som de negros, vadios), ao Bumba Meu Boi, até a metade do século XX (som de negros, vadios) e aos clubes de reggae da periferia, hoje em dia97 (novamente, som de negros, vadios).
A palavra brega é a mais evocada em relação às choperias, significando uma música reco- nhecida como brega e um ambiente igualmente brega.
Ao longo da pesquisa, nas lutas por classificação que envolvem a música do Maranhão e a identidade local, constatei que as choperias de seresta e brega são estigmatizadas, ou seja, pos- suem, segundo o sociólogo americano Erving Goffman, sinais “evidentes” que comunicam algo de extraordinário ou não sobre seu status moral.
Goffman enfoca o estigma em pessoas das mais diversas localizações sociais: prostitutas, poetas, deficientes, militares. Na minha análise, faço uso de algumas de suas ideias para um espa- ço físico e simbólico e um gênero musical. A representação feita sobre as choperias de brega e seresta de São Luís é de descrédito. O estigma é uma característica ou marca a partir da qual seu portador é julgado pelos demais setores da sociedade, tendo este portador consciência de portar tal marca ou não.
O estigma ou a má fama são relacionais, e operam dentro de articulações sociais específicas de tempo, grupo e local, de maneira que portar determinada característica pode reverter-se, de símbolo de descrédito, para alguma evidência de status social favorável. A operação em relação ao estigmatizado ocorre com base em “um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo”
97 Freire (2010) e Silva (2007) mostram como a posição social do reggae mudou em São Luís. Oliveira (2003) faz o mesmo com o bumba meu boi.
(GOFFMAN, 1978, p. 13), em direção ao grupo social identificado como portador deste estigma, não pelo conhecimento deste grupo social.
Compreendo que os locais e símbolos falam através de seus agentes e existem por e com eles. Neste ponto, a má fama direcionada a um local ou tipo de música ou prática é a tentativa de um grupo de definir/resumir todo o escopo social de outro grupo e, por conseguinte, traçar defi- nições favoráveis sobre si mesmo, com associação à ideia de normalidade.
Fazer parte de um aspecto do objeto mal afamado pressupõe a contaminação por outro aspecto, como a cumplicidade presumida por estar junto a um criminoso, como um beco destina- do à prostituição “emprestava seu colorido a qualquer pessoa que resolvesse entrar ali...” (ROLPH, Women of the streets, in Goffman, 1978, p. 94).
Goffman mostra como a má fama/estigma se torna parte da identidade das pessoas e luga- res, que fomentam várias estratégias de ocultamento e/ou administração do estigma pelo estig- matizado e pelas pessoas ao seu redor. “As identidades social e pessoal são parte, antes de mais nada, dos interesses e definições de outras pessoas em relação ao indivíduo cuja identidade está em questão” (GOFFMAN, 1978, p. 116).
Neste item, pretendo evidenciar como o que identifico enquanto estigma em relação às choperias está presente em diversos discursos a respeito delas, e a maneira como vários repre- sentantes das choperias administram seus sinais de estigma, e falam a partir de seu lugar de des-
crédito.
Logo que comecei a pesquisa, recebi uma ligação da Secretaria de Estado do Turismo do Es- tado do Maranhão, para um trabalho de interpretação. Naquele final de semana, dois dos presi- dentes do BID98 visitariam São Luís, e foram escolhidas sete pastas do executivo estadual para
apresentar projetos ao banco, em uma reunião com secretários e o vice-governador em exercício, João Alberto. Presto serviços como intérprete de língua inglesa e guia de turismo para diversos clientes, e me chamaram para traduzir os três projetos da pasta de turismo que pleiteiam o em- préstimo do banco. A reunião aconteceu no Palácio dos Leões (palácio do governo estadual).
Um dos projetos da Secretaria de Turismo dizia o seguinte:
PROPOSTA: Estudo de Viabilidade Técnica de Urbanização Turística do Aterro do Bacanga.
SITUAÇÃO ATUAL: Sub-utilização da área do Aterro do Bacanga, espaço de risco de abordagens marginais;
SITUAÇÃO FUTURA: Dinamização do espaço do Aterro do Bacanga dotando o espaço de infra-estrutura urbana e turística voltada ao lazer, à cultura e ao es- porte, favorecendo a revitalização da Área do Centro Histórico, por meio da
98
agregação de valores turísticos e incremento de rede de serviços de bares, res- taurantes e espaços para apresentações culturais. (SETUR-MA, apresentação em Power Point, 2010)
A região do Aterro do Bacanga é contígua ao Centro Histórico tombado da cidade, seu mai- or atrativo turístico. Lá ocorrem em fevereiro os desfiles de escolas de samba, mas durante o ano a área é ocupada por algumas das maiores choperias da região central: Kabão, Marujo e Beira mar. As fotos da apresentação mostravam esta região.
A região é qualificada como sub-utilizada, arriscada e violenta. A proposta também pressu- põe que a área não está voltada ao lazer e à cultura.
É perceptível, no projeto, o direcionamento de uma política pública que não engloba o mercado das choperias como parte daquilo que se pode chamar de “valores turísticos”, estando as choperias, por conseguinte, fora do escopo do que o bureau de exibição externa de São Luís (a secretaria de turismo, responsável pela propaganda do estado) entende como parte da cultura legítima do local. A normalidade é definida como aquela encontrada no Centro Histórico, com casario colonial supostamente restaurado e restaurantes voltados para a elite.
Brega é um termo estigmatizante. Quando aplicado aos cantores é sinônimo de má musica, feita por semi-analfabetos, em série, e para consumo rápido, geralmente sobre amores perdidos e adultérios99. Segundo o cantor Walfredo Jair, quando o termo brega é usado para se referir a alguma casa noturna, é sinônimo de “onde as putas moram” (Walfredo Jair, 2008) e as casas não somente tocam brega, mas o são, as pessoas dizem que vão “ao brega”. O Kabão é reconhecido como um bar de brega/seresta e com este rótulo vem a pressuposição da violência, da balburdia, da prostituição e da música chinfrim que mencionei anteriormente, e que aparece no discurso da secretaria de turismo. Kabão interpela:
Eu acho que não é nem o brega. É os ambiente. Existem as pessoas que eles re- crimina muito os ambientes. O Kabão. O cara diz ‘tu vai no Kabão?’ Aí o cara diz ‘eu vou no Kabão’. Tem muitas pessoas que ele torce o beiço, ou torce a cara e diz ‘tu vai no Kabão’, não sabendo que o Kabão, a choperia do Kabão é um lugar muito tranquilo, muito seguro, mais que determinados lugares que eu não vou citar o nome aqui (Kabão, 2008).
O PM Tenente Veracruz, comandante da Quarta Companhia do 9º Batalhão, comando que cobre a área central do comércio de São Luís, diz que existe “uma faixa de, se eu não tiver enga- nado, de uns 12 estabelecimentos que fazem festa (...) porque se você analisar, quase todas elas estão classificadas nessa situação” [de choperias] (Veracruz, tenente da PM, 2010).
Sendo que:
99 Ver Araujo, 1995.
As ocorrências corriqueiras, é briga, é homem brigando por mulher, é mulher brigando por homem, e aquele bate boca que acaba gerando um desentendi- mento e vão às vias de fato, mas ocorrência de grande vulto, assim como homi- cídio ou tentativa de homicídio, não (...) Aqui na área do centro graças a Deus, esses locais são tranquilos. (Veracruz, 2010)
E prossegue:
Tem pessoas que já classificam o Kabão, o Marujo, a choperia Beira Mar como locais que não deveriam ir, mas se você analisar, nas grandes casas que existem em São Luís, como aquelas que têm ali no lado do Turu, todo mundo vai, bastou você ter seu dinheiro pra pagar e se comportar, eu não sei porquê esse precon- ceito, né? Se o cara vão ouvir música, vai tomar a cerveja dele, vai se divertir e fazer amizade, eu acho que não tem porque ter essa discriminação. (Veracruz, 2010)
Veracruz aponta que a área do Reviver (turística) é mais complicada que a do Portinho (“sub-utilizada”, “perigosa”), com incidência de drogas e de prostituição, relacionadas aos meni- nos de rua e ao turismo estrangeiro. A área turística do Centro Histórico, tem sua própria guarni- ção policial, a CPtur, que também cuida das áreas da avenida Litorânea e Lagoa da Jansen (duas outras regiões turísticas longe do centro). Mesmo com a proximidade geográfica, as choperias do Bacanga não fazem parte “da área de restauração”, de acordo com o Capitão Raifran (2010), co- mandante, em exercício, da guarnição. As choperias não entram no recorte que define os espaços onde o turista pode frequentar e, por consequência, não se enquadram na jurisdição da CPtur. Se ocorre um incidente na choperia Barcanal, que fica do lado oposto da Avenida Beira-Mar, a me- nos de 10 metros do Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho (pois é, esta vírgula está mesmo no meio do nome dele) e menos de 100m da própria guarita da CPtour, ela é atendida pelo 9º Bata- lhão.
Considerando que as obras da Avenida Litorânea são de 1992 e da Lagoa da Jansen, de 2000, o recorte da CPtour não é o da área de preservação histórica, mas a da ideia de que as cho- perias seriam improváveis pontos de visitação turística, o que é refutado pelo depoimento de vários guias de turismo que recebem solicitação e levam grupos, principalmente, ao Kabão100.
Contudo, as agências locais mantém uma relação de distanciamento com as choperias, trabalhan- do com a noção de cultura do estado como representada pelas festas financiadas pelo estado como as folclóricas (arraiais e demais festas com Bumba Meu Boi) e, recentemente, também o
reggae de elite das praias do Calhau e Ponta D’areia. Nenhum folheto turístico de São Luís, ou guia turístico local, que eu tenha consultado, menciona alguma choperia ou seresta como atrativo da cidade.
100 O guia de turismo Sérgio Augusto diz que costuma levar ônibus de turistas para o Kabão. Geralmente grupos de terceira idade, sempre brasileiros.
A questão de divulgação desses locais ela ainda não existe. Mas sempre há uma forma de comunicar ao cliente desses pontos específicos, né. Por exemplo, se colocar pra família obviamente não dá pra indicar, mas se for um rapaz solteiro, jovem principalmente, ele é indicado. Porque a gente sabe que é um local agra- dável especificamente para solteiro. (...) A localização do Kabão é próxima do centro, então o centro tem um movimento maior de marginais, entendeu. En- tão assim, a gente sabe que se o cara tiver no Kabão. Sei lá ele beber e tal, ficar embriagado, qualquer coisa que for... qualquer confusãozinha que ele tiver vai gerar uma briga muito grande ali. Porque as pessoas realmente que tão ali não podem tá pra brincadeira. Se ele tivesse na Lagoa, também teria briga, só que seria diferente. (Adriano Brito, supervisor comercial de agência de receptivo, 2011)
O depoimento de Brito reforça o estereótipo a partir do qual os setores da sociedade que definem os locais da cidade a ser visitados veem as choperias. O Centro é definido como um local com alta incidência de marginais e o Kabão como um local onde o frequentador “não está pra brincadeira”, no sentido de que quem vai ao Kabão possui uma pré-disposição para a violência. Mesmo a violência é vista como diferenciada daquela que pode ocorrer em regiões de elite.
A titular na Delegacia de Costumes e Diversões Públicas, Ana Teresa Dualibe, diz que: Na realidade nós só temos problema com essas choperias ali do aterro em tem- pos festivos, por exemplo, o encontro do Bois ali, no, todo ano no final do ano... no São João101, tem aquele encontro ali, sempre o Kabão é, dá um problema porque sempre tem umas festas de reggae ali, né acho que é o Kabão. Então a gente tenta coibir essas festas pra não atrapalhar o festejo junino, né, que tem, o festejo de São Pedro, mas na realidade aqueles locais ali não dão problema, pelo menos o que chegue a nosso conhecimento. (Ana Teresa Dualibe, Delega- da da polícia Civil, 2010)
O bar em questão é a choperia Marujo, que fica defronte à capela de São Pedro e o pedido para não permissão da festa de reggae partiu “do pessoal da igreja, da organização do evento, da capela de São Pedro, por achar que atrapalha o festejo, mas eu acredito que não atrapalha por- que o boi ele é muito alto aquela zoada, acho que não dá pra atrapalhar não” (Dualibe, 2010).
A Delegacia de Costumes age no disciplinamento das festas da cidade, no sentido da regu- larização documental, fiscalização de equipamentos de segurança e outros aparatos, além da obediência à Lei do Silêncio, que em 2008 mudou o horário limite das festas de 04:00 para as 02:00 da manhã. Para a polícia, tecnicamente falando, é importante que o estabelecimento tenha toda a documentação (bombeiros, alvará etc.) e siga as normas de segurança estabelecidas pelas instituições reguladoras, ela inclusa. Além disso, há as denúncias que qualquer cidadão pode fazer
101 Ao final do período de festas juninas, no Maranhão, existe a tradição do encontro dos grupos de Bumba meu Boi dos sotaques de costa de mão, zabumba, baixada e matraca na capela de São Pedro, como agradecimento pela tempo- rada, no dia 28 de junho, véspera do dia daquele que é considerado o protetor dos pescadores e brincantes. O encontro ocorre na praça defronte á capela, e interdita o trafego em toda a região do Portinho, com cerca de 100 mil participan- tes.
sobre a perturbação da ordem pública por parte de estabelecimento, festa em local irregular ou som de origem ambulante (como carros).
Sobre as choperias, a delegacia registra reclamações de duas delas na região da Forquilha: Gaúcho e a choperia Marcelo.
No fundo moram pessoas, tem casa, residências. Eu já fui lá, já graduei o sonzi- nho dele, mas o povo acha que ainda tá perturbando e é difícil a gente resolver um problema desse assim porque, ele já até tentou comprar aquelas casas, tan- to o Gaúcho quanto a choperia Marcelo, mas perturba, ali perturba. (Dualibe, 2010)
A choperia Marcelo é uma das casas mais vigiadas durante o ano, por ser alvo fácil, acesso fácil, é uma das casas mais vigiadas pela polícia, meio ambiente, vi- gilância sanitária, juizado de menor. (Jânio Maciel, 2008)
Em 2010, a Delegacia de Costumes junto à Secretaria de Estado de Segurança Pública lan- çou o “Projeto Festa Legal”, um projeto
Muito amplo que visa coibir o crime de poluição sonora, como também os de- mais crimes que geralmente ocorrem nos estabelecimentos de diversões públi- cas tais como: a prostituição infantil, exploração sexual de crianças e adolescen- tes, tráfico de drogas, porte ilegal de armas, a venda de bebida alcoólica a me- nores de 18 anos, a portadores de deficiência mental, a pessoas embriagadas, homicídios e outros, através de ações preventivas e repressivas qualificadas. (Folder Projeto Festa Legal, 2010)
O projeto consiste em quatro fases: diagnóstico, ciclo de palestras, blitz preventiva e blitz repressiva. “Vou fazer a aplicação desse projeto agora, eu vou abranger Raposa, São José de Ri- bamar, Maiobão, Cidade Operária, Paço do Lumiar, aí vou pegar Santo Antônio, Vila Palmeira, Vera Cruz, Santa Cruz. São palestras para os donos desses bares.” (2010). Essa relação me leva a crer que estas áreas já foram diagnosticadas como as mais problemáticas. Áreas ditas nobres co- mo Renascença e Calhau já estão fora do projeto, assim como regiões de grande movimento no- turno como o Centro Histórico, as praias da Avenida Litorânea e a Lagoa da Jansen. A seleção é feita pela triagem das queixas da população, mais a lista geral de bares fornecida pelas delegacias de cada bairro. A delegacia enviará convites a todos os bares para as discussões públicas.
Nota-se, nas ações e depoimentos dos donos de bares e das autoridades, que existe uma imagem pública formada sobre as choperias e que esta não parece ser das melhores. Tanto Kabão quanto o Tenente Veracruz, têm dificuldades em identificar seus detratores, mas falam a partir da má imagem dos estabelecimentos e de locais que os contaminam. Programas como o Festa Legal e o projeto ao BID mostram uma preocupação maior com a área das choperias (mesmo sem no- meá-las); mostram como as choperias e bares de reggae da periferia são alvo de maior preocupa- ção, contrariando o depoimento da Delegada de Costumes, Ana Teresa Dualibe, quando diz que locais como o Kabão são “muito grandes e bem organizadinhos”.
O que me leva de volta a Goffman, quando diz, em relação à avaliação de pessoas, que Ao se considerar a fama, pode ser útil e conveniente considerar a má reputação ou infâmia que surgem quando há um círculo de pessoas que tem um mau con- ceito do indivíduo sem conhecê-lo pessoalmente. A função óbvia da má reputa- ção é a de controle social. (1978, p. 80)
Por mais que os agentes públicos declarem que as choperias podem ser organizadas, seus projetos de disciplinamento as tem como alvo. O impedimento de uma festa em choperia, para não atrapalhar o festejo de São Pedro, compõe uma forte imagem do Maranhão tradicional e sancionado sobre o Maranhão ainda não reconhecido enquanto tal.
O que é visto na fala de Kabão, novamente:
Então existem lugares muito perigosos aqui em São Luís, totalmente que o pes- soal não comenta, na área do Turu, na área do Olho D’água. E as pessoas, por- que é bairro de quem... bairro nobre. E o Kabão cara vem aqui e pergunta onde é o Kabão. É lá no aterro, lá na 28102, lá onde era a 28. É lá no terminal. Então as pessoas acham e descriminam. Só que a pessoa que vem aqui pela primeira vez, ela vem a segunda, vem a terceira porque ele vai achar um ambiente não é aquilo que ele imaginava. (Kabão, 2008)
E no depoimento de pessoas que tiveram em uma choperia pela primeira vez:
Eu tinha uma impressão muito ruim da Choperia Marcelo, mas a partir do mo- mento que eu entrei na Choperia Marcelo eu vi que ela realmente não era o que eu imaginava. Porque eu ouvia falar de muita briga aqui fora, muita baixa- ria, mas hoje eu vejo que aqui dentro é diferente, muita segurança, o atendi- mento super 10 e, assim, pra mim, foi ao contrário do que eu imaginava. (San- dra, autônoma, 2011)
Meus amigos me convidaram pra ir prum programa diferente. Eu disse ‘que programa diferente é esse?’, ‘não, depois tu vai saber’. Quando eu vi eles tavam entrando num lugar meio estranho, entendeu. ‘que lugar é esse aqui?’, ‘esse aqui é o Kabão’, mas eu já tinha ouvido falar coisas estranhas do Kabão, que as pessoas que vão lá são pessoas violentas, chega no Kabão é risca-faca, que as pessoas andam armadas. Aí eu tive tanto medo que eu falei ‘não vou entrar nesse lugar, não vou entrar nesse local! Não, eu tenho medo de morrer, tenho medo desse pessoal, são muito violento, bebem muito, bate, tem briga, tem re- vólver, tem faca’. Aí ele falou assim, ‘mas vamos’. Aí quando eu cheguei na por- ta eu entrei com tanto medo, com tanto medo, e eles atrás ‘cuidado, Olívia’, os cara me revistaram, as mulheres me revistaram, os cara revistando eles. quan- do eu cheguei no ambiente, eu fiquei meia tensa, mas depois eu comecei a olhar família dançando, olhei casais dançando bem assim, aconchegante, com um clima todo romântico. Eu não olhei nada de briga, não olhei nada de faca, não olhei nada de povo brigando, e hoje eu tenho outra visão do Kabão. Hoje eu iria, se me convidassem meus filhos e o meu marido eu iria pro Kabão sem medo, entendeu, porque eu fui lá e vi que não tinha nada disso. (Olívia Franse, jornalista, 2011)
A maioria do público frequentador destas casas não classifica a música que toca no lugar como brega, e não questiona a sua qualidade103. O que para os não frequentadores é somente “brega”, para o público interno é o forró, a lambada, o bolero, o arrocha, a MPB e o brega. O sím-