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Rewriting Into a Fractional Flow Formulation

2.3 A Vertical Equilibrium Model for Aquifer Flow

2.3.2 Rewriting Into a Fractional Flow Formulation

Há pouca luz no salão tomado por mesas cheias de senhoras em seus melhores trajes. Nos cantos, jovens garbosos de branco impecável esperam pela próxima pretendente e os donos da casa saúdam os frequentadores pelo nome, mesa por mesa. Um someliér apresenta os vinhos recém chegados, que podem ser apreciados com o jantar servido pela casa.

No palco, uma dupla de teclado e voz se prepara para executar “A volta do Boêmio”, can- ção famosa do cânone do bolero brasileiro, imortalizada na voz de Nelson Gonçalves.

Esta é a descrição sucinta de uma noite no Restaurante Porto do Calhau, que fica na Aveni- da Litorânea, área nobre de São Luís. O que se ouve e o que se vê se assemelha bastante ao que se vê e ouve em casas como o Kabão e a Choperia Marcelo. Contudo, ao entrevistar público, artis- tas e empresários sobre estas casas, e durante o trabalho de campo, notei que há diferenças en- tre as festas no Calhau e as festas na Forquilha.

Esta diferença está no espaço, e na proposta dos diferentes locais de realização, além dos públicos que dizem atingir. Estamos no mundo da seresta de elite.

Mas o que difere estes dois ambientes e como funcionam as serestas elitizadas em São Lu- ís?

Atualmente, a cidade possui três locais que oferecem seresta para o público tido como de “elite”, o já mencionado Restaurante Porto do Calhau, a Serenata Caixa Alta (na Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal - Apcef/MA, um clube social no bairro do Calhau); e a Seresta do MAC (na sede do time de futebol Maranhão Atlético Clube, no bairro da Cohama, também um clube social). Os dois últimos funcionam somente nas sextas-feiras. O primeiro também abre aos sábados. Todos com seresta de teclado no palco.95

De antemão, convém notar que nenhum dos três responde pelo nome de choperia, todos cobram ingresso (R$ 10,00 no Porto, e R$ 20,00 nas demais), e estão em bairros de elite, fora de zonas comerciais ou de grande movimento.

Segundo a sócia-proprietária, Idinete Machado, o Porto do Calhau atende um pessoal com nível social excelente. Por exemplo, o Dr. Gonzaga (...) ele é médico, dono da Centro Cor [o restaurante é] muito frequentado pelos prefeitos dos interiores. E as pessoas sentem um prazer gigantesco, privilegiado, quando o dono da casa fala com eles. O fato deu entrar no salão e estar bem arrumada, pra eles, é ma- ravilhoso. É lindo! (Idinete Machado, 2011)

95 Outras serestas de elite, já extintas, foram mencionadas pelos entrevistados ao longo da pesquisa. A saber: Tia Ma- ria, Tom Marrom, Bar das Ostras, Casino Maranhense, além de vários hotéis, que abrigavam serestas eventualmente, e ainda o fazem.

A presença da proprietária no estabelecimento, o tratamento pessoalizado e reverente às posições sociais ocupadas por seus clientes, são símbolos da seleção a partir da qual o ambiente opera. Reservar a garrafa de uísque ou a mesa para um cliente que ocupe posição de destaque (e nas entrevistas estes são médicos, advogados, altos funcionários públicos, políticos e empresá- rios), demonstra o cuidado na manutenção e afirmação do status destes clientes.

Eu tenho agulha, tenho linha, tenho absorvente, tenho Anador, todo tipo de coisa. Porque mulher cai botão, calça descostura, sutiã solta a alça e a gente tem que tá com tudo à postos, pra elas solucionarem o problema, pra poder não ir embora, pra gente não perder o cliente. (...) um público assim, que tem história, que é tradicional aqui de São Luís, que foi um antigo gerente duma lo- já, que foi o dono de uma loja muito bonita, muito boa, antiga, gente que tem dinheiro, e que sai de casa realmente só pra se divertir, mas ele é exigente, ele não quer tá com todo mundo, ele quer chegar ele quer ser recebido na porta, ele quer sentar com a cadeira ainda puxada, ele quer ser servido pelo garçom. É aquele que ainda toma um prosseco, que toma um vinho chileno. (Idinete ma- chado, 2011)

No Porto do Calhau, os músicos (três vocalistas, um saxofonista, um tecladista) são pagos por cachê, sem vínculo empregatício com a casa. O repertório, contudo, guarda grande semelhan- ça com o das choperias, com espaço para o bolero, o forró e o arrocha. A casa serve jantar (é a única seresta na cidade com este serviço) e não é permitida a entrada de ambulantes, salvo as vendedoras de flores (muito apreciadas no local como presente às damas) e chocolates. O restau- rante gera 14 empregos diretos.

Quando o arrocha toca, o salão enche muito, mas é um público que a gente não faz questão desse público ser o nosso público, pelo local que a gente fica, que é o Calhau, tem muito cuidado pra gente não ficar igual ao Kabão, à Choperia Marcello, ser diferenciado, ter um público diferenciado. (Idinete Machado, 2011)

Bruno: O que que tem no Kabão e o que que tem na Marcello que a Sra não quer?

Idinete: O público, por exemplo. Gente muito brega, que quer ir de bermuda, que quer ir de japonesa, quer ficar de camisa aberta, esse tipo de público. Mu- lher que quer usar short muito curto, que quer sentar no colo de homem. Essas coisas no porto do Calhau a gente não deixa acontecer. Então a gente evita esse público (...) porque o ambiente fica poluído e a gente vai perder o cliente que realmente interessa à gente, um consumo maior e de um nível melhor, que gos- ta do brega, que gosta do bolero. (Idinete Machado, 2011)

A seresta do MAC é o desdobramento de outra seresta de elite em São Luís, a seresta do Ipem, que funcionou por 16 anos no clube do Instituto de previdência do Estado do Maranhão, Calhau, por iniciativa do cantor Walber, ex-vocalista do Nonato e seu conjunto e da banda Os

Fantoches e Vôo Livre. A seresta do Ipem ocorria às sextas-feiras, e só era permitida a entrada no clube mediante a apresentação do contracheque que comprovasse o status de funcionário públi- co do estado. A música era a seresta com teclado e o evento durou 16 anos consecutivos ( de 1884 a 2000, com paradas para carnaval e São João), quando Walber passou a integrar a banda de baile Mákina do Tempo.

No ano 2000, a secretaria de cultura do estado do Maranhão contratou a banda Mákina do Tempo para tocar no carnaval, na sede do Maranhão Atlético Clube. Após o carnaval, Walber reiniciou a seresta, desta vez no MAC, onde ainda ocorre, todas às sextas-feiras, há 10 anos, com um público de “95% da elite”. (Walber, 2011)

A seresta cobra R$ 20,00 na porta e a cerveja custa R$ 5,00. Há vagas de estacionamento dentro do clube e seguranças controlam a entrada. Os carros que vi estacionados são de alto pa- drão, estilo Corola e pick-ups. Nas noites em que fui à festa, era o único homem desacompanha- do, e de longe o mais novo no salão. Há serviço de garçom e boa parte do público, ao adentrar a área das mesas, é saudada pelo nome e título por Walber. Aqui não há um proprietário, mas o cantor ciceroneia e conversa com o público em algumas mesas. Os músicos são contratados dele e são comuns as canjas de artistas da seresta tradicional como Walfredo Jair. Há pouca participa- ção do arrocha no repertório.

Walber: Eu tenho meu estilo de seresta, eles [as choperias Marcelo e Kabão] tem o deles.

Bruno: Qual a diferença?

Walber: A diferença é que eu toco pra elite (...) eu tento agradar a todos. Então eu boto um repertório diferente. Eu canto muito Roberto Carlos, Júlio Iglessias, então eu boto muito essas coisa assim, Emílio Santiago. Eu considero o meu re- pertório um tanto diferente deles. (Walber, 2011)

No salão da seresta do MAC, a dança é intensa, mas ocorre de maneira mais comedida e pudica em comparação aquelas das grandes choperias. Não há serviço de dançarinos profissionais e os figurinos das senhoras são, na minha avaliação, sofisticados, com peças no estilo “festa”, com vestidos longos, muitos adereços e maquiagem. A maioria dos que conversei são frequentadores de seresta há pelo menos uma década e escolhem esse tipo de espaço por características como a segurança, ambiente mais selecionado, bom espaço para dançar.

O comerciante Luis Carlos Cantanhede Fernandes, frequentador de serestas há 20 anos, diz que a seresta pouco mudou de lá pra cá, e que frequenta somente a Caixa Alta e o MAC, porque “Você tem um ambiente mais, eu diria, mais seleto, mais agradável, mais ventilado. Melhor” (Fer- nandes, 2011).

Os frequentadores destas serestas de elite costumam variar as sextas-feiras entre as três casas, não frequentando outros ambientes de seresta como as grandes choperias, o que me leva a concluir que o contrário também é verdadeiro. O público entrevistado também mencionou ter sido frequentador de clubes sociais como o Lítero e o Jaguarema.

A Serenata Caixa Alta também funciona nas sextas-feiras, na sede social do clube dos funci- onários da Caixa Econômica Federal. A entrada custa R$ 5,00 para sócios do clube, e R$ 10,00 para não-sócios e a cerveja é R$ 4,00. O perfil do público é mais o dos dançarinos de idade mista, muitos em busca de praticar aquilo que aprendem nas escolas de dança de salão. A seresta come- çou em 1988, na esteira da nova popularização do boleiro na capital, por iniciativa da presidência da associação, que convidou o músico Paulo Trabulsi pra “fazer alguma coisa diferente” (Paulo Trabulsi, músico, 2012), Trabulsi não tinha formação em serestas e adaptou um regional de choro para as noites da casa, que atendia pelo nome de Chão de Estrelas. Era um “conjunto com violão cavaquinho, flauta, sax, bateria, pandeiro, cantando um cara, acho que Jota Nogueira” (Ricarte Almeida santos, 2012). No repertório, uma relação mais direta com o samba e com o choro, ha- vendo abertura para o bolero, “mais de Agnaldo [Timóteo] pra cima” (idem, 2012). Esta “primeira fase” durou 4 anos, quando entrou no hiato que duraria uma década. Em 2002, Trabulsi foi cha- mado para reativar a seresta, e o fez com a mesma formação até 2009, com a diferença de que o nome Chão de Estrelas batizava a banda, com a festa se chamando Seretana Caixa Alta.

Logo após, uma nova gestão substituiu o grupo por seresta somente com teclado. Segundo Santos, “o argumento da nova diretoria para a mudança é que um grupo assim para manter se- manalmente ficava muito caro. Eram 6, 7 até 8 integrantes, com teclado duas pessoas resolviam a parada” (Ricarte Almeida Santos, 2012), no que a Presidente da casa retruca:

As pessoas foram pedindo que fosse diversificada. O que que a gente como di- rigente a gente sempre procurou observar. Se o público tá gostando, a gente tá sempre acompanhado o que o público tá querendo ouvir, tá querendo dançar, e a gente tá usando. (Gisele Menezes, Presidente da Apcef/MA, 2012)

Trabulsi diz que a mudança se deu porque a diretoria percebeu que havia um nicho de mer- cado para a seresta com teclado (Paulo Trabulsi, 2012).

Hoje, a Serenata Caixa Alta é animada pelo cantor e tecladista Freitas Maranhão e seu gru- po, que antes comandava as noites do Porto do Calhau e foi membro do Grupo Digital por quase uma década. O repertório é também focado no bolero e os trajes do público se assemelham aos que vi na seresta do MAC. O clube possui amplo estacionamento e não tem fácil acesso por trans- porte público.

A Serenata Caixa alta é reconhecida, por público e músicos, como a mais “tradicional” da cidade. Segundo o jornal O Imparcial, a Caixa alta é uma festa “para quem tem saudade do som envolvente das serestas e passos coreografados” (O Imparcial, 22/10/2010). A serenata (e note que o nome seresta é excluído do nome da festa, sendo reconvertido ao nome da festa que lhe deu origem, a serenata, mais intimista, passional) era anunciada regularmente na rádio Universi- dade FM, no programa Chorinhos & Chorões, que vai ao ar aos domingos96. A peça de divulgação do programa diz “Serenata Caixa Alta, onde dançar a dois nunca sai de moda!” (Universidade FM, 2011). Aqui há também a inserção do tango e de outras danças de salão, voltados para o glamour da festa.

A Apcef/MA oferece aulas de dança de salão às terças e quintas, no período da noite. Quando a visitei, havia cerca de 12 casais aprendendo os passos do bolero. A maioria dos que entrevistei afirmou que praticaria na serenata. A presidente da associação diz que

A gente vê muito assim a classe média, classe alta, você vê pessoas assim, co- nhecidas da sociedade, assim, é um nível bom, muito bom mesmo. E acho que por isso que eles vem aqui, porque você não vê aquela...não sei nem dizer... a palavra que eu poderia usar... você não tem um clima assim desagradável, né? Você vem com seu marido, você vem com a sua esposa, você se sente à vonta- de, você vem em rodas de amigos, ficam bem à vontade. (Gisele Menezes, 2012)

Estes três espaços, como percebi no trabalho de campo e com as entrevistas e demais pe- ças, primam pela distinção entre as práticas que encerram e aquelas das grandes e pequenas choperias. Os representantes destas casas tomam para si o público diferenciado, e alegam operar a partir das demandas deste público; o público diz escolher as casas porque ali encontra pessoas igualmente distintas e pode com elas ter experiências relacionadas a um passado mitificado como bom, puro e opulento. Nos depoimentos destes agentes, a palavra brega não é mencionada em referência às casas, e mesmo o termo seresta é usado sem nenhuma associação ao brega. A se- resta aqui está mais para o baile de dança de salão do que para a festa de encontro.

Nestas falas, contudo, é frequente que o termo brega seja usado para definir os demais es- paços de seresta, constantemente evocados para comparação entre o espaço legítimo do bolero, e os demais espaços, em diversas formas.

As pessoas vão prali [pras choperias Marcelo e Kabão] não é pra dançar. A dan- ça é uma desculpa pra se envolver com alguém, encontrar quem ele queira, en- tendeu? Dali terminar a noite e sair pra algum lugar. Esse é o objetivo do ho- mem que vai pra lá, entendeu? Aqui [no Porto do Calhau] não, é diferente. É tão diferente hoje, Bruno, aqui, sabe por quê? Eu tenho mulheres casadas, en- tendeu, que vem pra cá, contratam o táxi dance pra dançar com ela a noite to- dinha. Pagam pra eles, entendeu e ele fica à disposição dela, ou então de duas, três pessoas que vem com ela, entendeu? Aí ela dança a noite todinha com o

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cara, paga e vai embora, entendeu. Na boa. O marido sabe de tudo. (Odilon mendes, sócio-proprietário do Restaurante Porto do Calhau, 2011)

Para a cantora Talitha de Sá, da serenata Caixa Alta, a diferença

não é nem do público. É a diferença das pessoas que tocam em cada lugar. As- sim, às vezes eu começo a cantar, mas eu não procuro me aperfeiçoar na pro- fissão. Isso que falta pros cantores, na maioria das seresta e tal. Eles começam a cantar por cantar, não procura, assim, se aperfeiçoar na voz. Procurar alguma coisa pra ter um QI a mais na minha profissão. Pro cantor que toca, é muito mais privilégio que um cantor que só que canta. (Talitha de Sá, 2011)

Nota-se que o jogo da representação não está somente no nível empresarial, e que os se- resteiros em si disputam locais de mercado e diferenciação dentro do grupo. No caso, fica subdito que, para ocupar o palco da seresta de elite, é necessário maior estudo e apuro que aquele ne- cessário para tocar nas choperias como Marcello e Kabão. O terreno da disputa é menos o do talento que o do esforço que leva ao aprimoramento.

Contudo, os músicos das serestas de elite passaram pelas grandes choperias e ainda tocam, eventualmente, nelas. Freita Maranhão, da seresta do MAC, tocava no Grupo Digital, Meiriane Guedes (cantora do Porto do Calhau) cantava em serestas quando ainda morava no interior do Maranhão e continuou cantando, mesmo quando era membro da banda de baile O Peso; e Wal- ber era cantor de grupos como Nonato e seu Conjunto, mas tocou algumas vezes na Marcelo. Tecladistas são músicos com alta rotatividade de grupos nas serestas de São Luís e o mesmo ins- trumentista pode tocar no Kabão no começo da noite e fechar o expediente no Porto do Calhau.

Segundo o cantor Wilsinho Gogó de Ouro, associado à seresta mais tradicional, há cantores mais e menos adequados a determinados espaços. Assim, o cantor Tom Cleber, cujo trabalho é categorizado por Wilsinho como “brega society” (Wilsinho, 2011), uma forma de música brega consumida por um público mais amplo. Wilsinho cita que nos shows de Cleber “só vai família”, o que o difere daqueles que atraem jovens em busca de contato rápido e lúbrico com o sexo opos- to.

Ele [Júlio Nascimento] canta desafinado, não tem criatividade. A música dele é bacana pra quem gosta de música de corno. Ó, o Reginaldo Rossi, ele canta pra corno, mas ele canta bem, porra. É diferenciado, entendeu (...) não sei se tu en- tende. Pra brincar é ótimo. Musicalmente ela é horrível, mas pra brincar é óti- mo. (Talitha de Sá, 2011)

Pierre Bourdieu analisa o modo como os grupos são construídos e como elementos não propriamente econômicos são manejados neste processo de criação e afirmação/reconhecimento dos mais diversos grupos sociais. O elemento de identificação de um grupo social está naquilo que este grupo sanciona como seu, e entende como legítimo para seu consumo, pela denominação daquilo que não o é. A forma como estes elementos se relacionam entre si (pela oposição direta

de bom e ruim) e com outros (o cinema com a literatura, por exemplo) é, por fim, aquilo que defi- ne os grupos. Um grupo social não é um monólito facilmente rotulável, mas a definição e identifi- cação faz parte de um jogo de relações de validação.

a classe social não é definida por uma propriedade (...), nem por uma soma de propriedades, tampouco por uma cadeia de propriedades, todas elas ordenadas a partir de uma propriedade fundamental – a posição nas relações de produção – em uma relação de causa e efeito, de condicionante e condicionado, mas pe- las estruturas das relações entre todas as propriedades pertinentes que confere seu valor próprio a cada uma delas e aos efeitos que ele exerce sobre as práti- cas. (Bourdieu, 2008, p. 61)

No caso do universo social pesquisado, as diferenciações que os agentes fazem entre as se- restas das choperias e aquelas dos três exemplos citados neste tópico, é aquela do uso legítimo de um bem cultural, e da afirmação de local social com base, também, nestes usos. O bolero, es- pinha dorsal de todas as festas de seresta, aparece nas narrativas como uma canção antiga, para a dança, mas a apropriação que se faz dele no Kabão é diferente da que se faz no Porto do Calhau, assim como o próprio Kabão é visto por agentes frequentadores e que tocam em casas como o Marujo e o Solar das Flores, como uma casa onde o bolero é ainda mais presente do que nestas serestas. “O Kabão é mais música antiga, mais aquela coisa mais pro lado do bolero. Aqui a gente toca, mas a gente toca mais coisa mais nova, arrocha.” (Robinho, tecladista da Banda Total, da choperia O Marujo, 2011).

A variação no uso do bolero ajuda a definir o público das casas de seresta em São Luís, so- mando o gosto por esta música ao capital cultural do público, numa operação que equipara o gosto e conhecimento do bolero (e da verdadeira forma de dançá-lo e apreciá-lo) ao nível social de quem o executa, escuta, e sai para ouvi-lo nas casas da cidade. Também o gosto ou desgosto por gêneros associados (o tango como algo próximo ao bom bolero, o arrocha como sua degene- ração), indicam o grupo ao qual pertencem os frequentadores. Se nas serestas que ocorrem nas choperias há a dupla preocupação de se ter o repertório atualizado com os novos hits, ao mesmo tempo em que é reservado o espaço para cantores mais velhos e canções consagradas para parte do público “original” das choperias, a seresta de elite se mantém com a resistência às novas ten- dências, buscando uma aproximação maior com as festas “originais”, com o que é denominado como os bons tempos e com a qualidade “impossível” de ser novamente alcançada em novas composições, como demonstrou o depoimento de Walfredo Jair algumas páginas acima. A seresta se torna, assim, também um terreno de disputa por locais sociais através das diversas tomadas de posição no universo das festas com teclado de programação, ou como diria novamente Pierre Bourdieu.

As lutas pela apropriação dos bens econômicos ou culturais são, inseparavel- mente, lotas simbólicas pela apropriação desses sinais distintivos como são os

bens ou as práticas classificados e classificadores ou pela conservação ou sub- versão dos princípios de classificação dessas propriedades distintivas. Por con- seguinte, o espaço dos estilos de vida, ou seja, o universo das propriedades pe- las quais se diferenciam, com ou sem intenção de distinção, os ocupantes das diferentes posições no espaço social não passa em si mesmo de um balanço, em