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Part 2: Branchements and translation as problematisation problematisation

6. Epistemology of branchements

6.2 Soleyman Kanté and the N`ko movement

Uma das falas de Abdenur sobre a situação acima relatada reforça a importância de uma análise mais profunda sobre o assunto. Sobre a repercussão de sua entrevista, que aparentemente disparou toda essa sequência de embates midiáticos e públicos, Abdenur disse que: “[e]sperava que houvesse algum eco, mas não essa polêmica (...). Mas o lado positivo disso tudo é que tornei público o debate sobre política externa” (FORTES, 2007). Tornar público o debate, nesse caso, significou tornar público também a possibilidade de compreensão das lógicas internas de disputas do campo dos diplomatas brasileiros. O episódio abriu espaço para que, por exemplo, agentes do campo acadêmico também pudessem se apropriar de assuntos internos do campo dos diplomatas.

Quando se propõem a análise sobre um campo e que se torna necessário apropriar- se dos valores que o campo compartilha entre seus agentes, à medida em que o pesquisador vai conhecendo a lógica do “jogo jogado” no campo, forma-se uma linha tênue entre o pesquisador e seu objeto de pesquisa. Muitas vezes a relação que se cria com o objeto de pesquisa proporciona ao pesquisador sua inserção no “jogo do campo”, situação que interfere decisivamente na análise que se produzirá sobre o objeto analisado. No caso desta análise sobre os diplomatas, nós não tivemos o objetivo de nos inserir nas disputas do campo, mas de compreendê-las para analisá-las. Diferentemente do que fazem os agentes do campo político

como, por exemplo, os senadores neste caso descrito acima, nós tivemos a precaução metodológica necessária para que a análise da atuação dos diplomatas não se tornasse um meio que nos inserisse na lógica da disputa simbólica que rege o campo.

Assim, as atuações dos diplomatas na imprensa suscitou o uso das ferramentas metodológicas da teoria bourdiesiana para construir o exercício epistemológico que esta pesquisa pretendeu desenvolver. Em outras palavras, pretendemos transformar o embate entre os diplomatas sobre “o inédito caráter ideológico que o Itamaraty adquiriu no governo Lula” em um problema sociológico, sem com isso ratificar o problema social do campo dos diplomatas por meio de um trabalho de tradução desse problema para o “sociologuês”. Por isso, nesta pesquisa não nos cabe responder perguntas como: “houve, de fato, quebra de um paradigma histórico do Itamaraty na alternância do governo FHC para o governo Lula?”. Como o objetivo da pesquisa não é nos inserirmos no “jogo jogado” do campo, ou seja, não é traduzir os problemas dos agentes do campo dos diplomatas em problemas de pesquisa, responder à essa pergunta não é uma de nossas preocupações de análise. A preocupação neste trabalho não é investigar o conteúdo do embate midiático descrito em si, mas de entender que ele representa interpretações de uma realidade que está em plena disputa de semântica e que a lógica dessa disputa permeia e influencia as ações e comportamentos dos agentes do campo. A preocupação deste trabalho é compreender e mapear essas lógicas de disputa do campo.

Todavia algumas questões orientam a análise do objeto de pesquisa, a saber: como se deve fazer para não transformar problemas do campo em problemas sociológicos?; como escapar de noções preconcebidas dos objetos de pesquisa? Bourdieu observa que isso se faz em função da preocupação do pesquisado de retomar a história social dos problemas (BOURDIEU, 2001c, p. 36). Conhecer essa história não está associado a uma preocupação de “antiquário, mas a compreender porque se compreende e como se compreende. Para se não ser o objeto dos problemas que se toma como objeto, é preciso fazer a história social da emergência desses problemas” (Op. cit., p. 37, grifo do autor). Este é um trabalho de não naturalização dos problemas sociais, “aceite como evidente por um positivismo vulgar (que é a primeira tendência de qualquer investigador)” (Op. cit.), é entender que esses problemas foram “socialmente produzidos, num trabalho coletivo de construção da realidade social” (BOURDIEU, 2001c, p. 37, grifo do autor).

Neste sentido, denominamos o embate midiático entre diplomatas em questão de “escândalo”. Nas palavras de Grün (2011):

Os escândalos podem ser utilmente tratados como uma forma de ação, de controle e também, por vezes, como um mecanismo de mudança social. Através dos escândalos, a sociedade abandona, reitera, altera ou cria normas de convívio e de legitimação. Os escândalos fazem transparecer mudanças sociais mais ou menos profundas, que foram gestadas na longue durée, sem que a percepção social as tivesse acompanhado e, quando eles explodem, nos damos conta súbita e dramaticamente das transformações em questão (p. 151-52).

Com essa definição, pode-se considerar que os escândalos são pistas empíricas privilegiadas dos embates e disputas internas dos campos, sobretudo os que primam pela rara exposição pública de suas divergências internas, como o campo dos diplomatas. Cabe, então, ao pesquisador reconhecer nos escândalos dados empíricos importantes que possam possibilitar aberturas para análises do campo que pretende analisar. Os escândalos podem revelar lógicas escondidas de funcionamento dos campos, por exemplo, tendências de valorização ou desvalorização dos capitais utilizados pelos agentes em disputas internas.

No caso dos diplomatas, este escândalo descrito acima poderia representar, pois, a eclosão de uma situação de transformação do campo de longa duração, anterior ao escândalo em si. Nesse contexto, nos propomos investigar essa situação do campo dos diplomatas através da procura por objetivar questões que são tidas como morais na lógica do campo analisado como, por exemplo, a postura apolítica que deve tomar o diplomata, a capacidade e necessidade do Itamaraty de ser imune às disputas político partidárias do poder executivo, a meritocracia como valor idealizado para fazer com que o agente ascenda na hierarquia do campo. Entendemos que, para compreender a lógica de funcionamento do campo dos diplomatas, se faz necessário ir além dos problemas produzidos pelos agentes do campo. Por isso, se faz necessário avançar nas análises sobre os diplomatas pelas suas incursões na mídia jornalística, ou mesmo pelas análises acadêmicas pautadas pelos problemas dos diplomatas do Itamaraty, a fim de descrever e interpretar o momento de disputa interna no campo dos diplomatas brasileiros. Não pretendemos, contudo, realizar uma impossível pesquisa científica “neutra”. Tratamos aqui de fazer um trabalho de aplicação de metodologias de pesquisa que objetiva minimizar efeitos normativos em pesquisas acadêmicas, ou seja, efeitos que fazem com que o pesquisador se insira nas disputas do campo, pouco contribuindo para que a pesquisa demonstre um ponto de vista sobre o problema social que não seja o ponto de vista de quem produz o problema, de quem “joga o jogo” do campo.

Usamos nesta pesquisa, portanto, como estratégia epistemológica, não a comprovação ou refutação do fato escandalizado. Nossa estratégia é analisar, por exemplo, os seus efeitos sobre uma realidade que esse escândalo parece apenas descrever ou denunciar. Encaramos o fato escandalizado como um instrumento de interferência na realidade,

instrumento esse utilizado de acordo com as estratégias dos agentes ou grupos de agentes que divulgam o escândalo, assim como dos que o refutam / ridicularizam.

A partir de fevereiro de 2007, o que pudemos acompanhar no noticiário foi uma disputa de valores morais que envolviam a prática “mais correta” de ser e dizer a diplomacia brasileira, que colocava em jogo a capacidade de influenciar e legitimar valores específicos referentes à expertise de ser um “bom” diplomata e exercer a “verdadeira” diplomacia. Podemos dizer que o fato escandalizado por Abdenur, “o inédito caráter ideológico que o Itamaraty adquiriu no governo Lula”, foi um típico exemplo de escândalo “reiterador”, ou seja, um escândalo que pretendia “reiterar formas vigentes em alguns segmentos, mas que não estão sendo mais respeitadas pela generalidade do corpo social” (GRÜN, 2011, p. 153). Em outras palavras, o antigo grupo que ocupava o topo da hierarquia do campo dos diplomatas procurava reiterar a “moral do campo” que estava sendo, de acordo com seu ponto de vista, desrespeitada pelos então atuais agentes ocupantes do topo da hierarquia.

Outro fato importante a ser observado é que um escândalo só pode ser caracterizado como tal quando apresenta ou deflagra uma guerra cultural entre os envolvidos (BOLTANSKI, 2007). “Nas guerras culturais são confrontados princípios distintos de estruturação de alguma realidade social” (GRÜN, 2011 p. 154). Encontramos, portanto, indícios de guerra cultural deflagrada no escândalo protagonizado pelos diplomatas. A partir disso, levantou-se uma das primeiras hipóteses para este trabalho: o grupo representado por Abdenur caracterizou-se por ser o grupo dos agentes desafiantes do campo, e apresentava como principal arma retórica a lembrança dos princípios morais tradicionais que regiam o campo anteriormente e que estariam esquecidos por seus desafiados, o então grupo de agentes que estavam no topo da hierarquia do campo no período do governo Lula. Por sua vez, a guerra cultural se concretiza quando a outra parte reconhece e aceita os termos do desafiador e entra na disputa sugerida por ele(s). Após a comoção da “opinião pública” para os termos retóricos dos desafiadores, Amorim e seu grupo (os desafiados, identificados como os praticantes do objeto escandalizado) reagiram e rebateram as acusações, propondo explicações conspiratórias para o acontecido.

A hipótese inicial deste trabalho é fundamentada na ideia de que escândalos como os descritos até aqui revelam a ideia de crise nos sistemas de dominação e violência simbólica do campo. Se o sistema de dominação e violência simbólica é percebido pelos agentes, este está em crise. Na época dos eventos analisados aqui, os diplomatas associados à anterior gestão do ex-presidente FHC aparentemente estavam deslegitimados internamente no campo dos diplomatas e, portanto, deslocados do processo de elaboração de mecanismos de

dominação e violência simbólica do campo, processo que é exclusivo para agentes que pertencem ao topo da hierarquia do campo. A ação de ir à imprensa para tornar público críticas não apenas à política externa de maneira geral, mas, principalmente, às condutas de seus desafetos diplomatas posicionados no topo da hierarquia do campo demonstram o fato de estes agentes estarem deslocados da posição de dominantes em que no passado estavam. Isso traz à tona também as suas intenções de retomar seus postos na hierarquia interna.

Os escândalos servem como estratégia para que agentes e grupos de agentes passem a existir socialmente e/ou mudarem sua posição na hierarquia do campo em que atuam (GRÜN, 2011). Para o campo dos diplomatas, o ato de emitir opinião crítica na imprensa (sobretudo referente à conduta de outros diplomatas) pode ser entendido como quebra de regras gerais de convívio entre agentes do campo. Para ilustrar esta constatação, cabe aqui o breve relato de um evento ocorrido em 2001, momento em que os dominantes do campo dos diplomatas eram os dominados em 2007, no período do escândalo analisado aqui. Em 2001, o então presidente do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais – IPRI –, órgão ligado ao MRE, o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães Neto, publicou um artigo no site do IPRI, intitulado “A ALCA e o fim do MERCOSUL”, no qual criticava a possível formação da Área de Livre Comércio da Américas (ALCA), que ainda estava sendo negociada.6 Podemos interpretar que a publicação foi encarada como uma afronta pela então chefia do MRE do governo FHC, haja vista seus resultados: remoção de Samuel Pinheiro Guimarães Neto do IPRI, e publicação da Circular Postal 87/96 (documento interno ao Itamaraty), na qual transmitia “novos procedimentos para que os funcionários do Serviço Exterior Brasileiro solicitem autorização para manifestações públicas sobre matéria relacionada à formulação e à execução da política exterior do Brasil”. O documento ainda dizia que “as manifestações (artigos na imprensa, entrevistas, textos em publicações especializadas e assim por diante) devem, como regra geral, restringir-se a situações em que haja interesse institucional na difusão pública de princípios e posições da diplomacia nacional”.7 Em 2003, já no início do governo Lula, o antes renegado Samuel Pinheiro Guimarães Neto foi promovido à secretário-geral (segundo na hierarquia do MRE) e lá permaneceu até sua aposentadoria, em 2010.

6 Artigo disponível em: <http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/21583-21584-1-PB.htm>. Mesmo não sendo o site do IPRI, a página descreve como “fonte” o site <http://www.mre.gov.br/ipri/salca.html>. Contudo, o link indicado nos conduz ao site do MRE, com o recado “Página em desenvolvimento”. Os acessos fora feitos em maio de 2017.

7 O texto na integra do documento foi publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, em 17 de fevereiro de 2001. O jornal apelidou o documento de “lei da mordaça”.

A partir dessa situação, vemos que ir à imprensa e criticar a política externa em curso, na época da gestão FHC, foi uma tentativa desafiadora de um agente ligado ao grupo que estava na posição de dominado no campo dos diplomatas. A reação dos então diplomatas dominantes do campo foi clara: reafirmar (dessa vez com instrumento institucional, documento oficial) a regra moral de todo “bom diplomata” de não levar suas opiniões críticas à imprensa, para conhecimento público. No entanto, a prática antes condenada pelo grupo de agentes que estava do topo da hierarquia do campo no governo FHC, mais tarde, já no governo Lula, tornou-se estratégia de atuação usada por eles mesmos, dessa vez na posição de dominados no campo. Se a ação de ir à imprensa e criticar a política externa vigente é uma prática associada ao grupo de agentes desafiante dos dominadores do campo dos diplomatas, então estamos diante do sinal de que ocorreu uma provável alteração na hierarquia do campo com a transição do governo FHC para o governo Lula: os antes dominados no campo no período FHC passaram a ocupar o topo da hierarquia no período Lula. Estamos, portanto, diante da deflagração de uma guerra cultural travada entre agentes do campo dos diplomatas que pensam de modo distinto os mecanismos de visão e divisão do campo.

Porém, essa análise demanda aprofundamento visto que os escândalos são caracterizações de conflitos sociais que existem antes do escândalo em si (BOLTANSKI, 2007). Os escândalos são a eclosão de tendências que estavam por surgir ou já em efervescência, os quais podem extrapolar até as fronteiras do campo em questão e fazer com que agentes e grupos de agentes passem a existir socialmente e/ou mudem sua posição hierárquica no campo. Por isso, para compreendermos a complexidade desse assunto, ou seja, para colocar à prova a hipótese inicial desta pesquisa, compreender quais os conflitos que esse escândalo revela, se fez necessária uma análise referente às características do campo dos diplomatas brasileiros, construídas historicamente, lógica da composição de suas hierarquias ao longo do tempo, as características de seus agentes no contexto proposto pelo recorte temporal (período entre os governos FHC e Lula), as dinâmicas das disputas dos agentes que o compõe: a construção e desconstrução dos códigos de dominação do campo, a análise de trajetórias dos principais agentes do campo e consequente identificação de capitais utilizados nas disputas.

3. CAPÍTULO II

CARACTERIZAÇÃO DO CAMPO DOS DIPLOMATAS: HABITUS E CAPITAL