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Part 1: The epistemological obstacle of culture

5. Epistemology as approach, structure, and theory

5.3 French epistemology as style of reasoning

A noção de illusio aponta outra característica importante da teoria bourdiesiana, a ideia de “economia de bens simbólicos”. Esse princípio teórico refere-se às análises de produção cultural que o autor desenvolvera ao longo do início de sua carreira, ou seja, com análises sobre a “lógica específica da produção do valor dos bens simbólicos” (BOURDIEU, 2003b, p. 36, grifo nosso). Ao estabelecer o estudo dessa lógica, o autor buscava a superação do que ele denominava de “representação ingenuamente idealista que têm dela seus atores e a redução brutalmente materialista que todo economicismo (marxista ou neoclássico) opera” (BOURDIEU, 2003b, p. 36). Dessa forma, o autor procurou atravessar mais uma fronteira historicamente construída no campo da produção de conhecimento sobre o mundo social. Ou seja, mais uma das oposições “epistemologicamente fictícias, mas socialmente reais” entre as abordagens idealistas/culturalistas e materialistas/economicistas das Ciências Sociais.

Uma das definições que Bourdieu faz de economia de bens simbólicos se dá por meio da crítica à visão economicista do mundo social que, segundo ele, é uma visão que nasceu e se tornou hegemônica historicamente junto com a construção social de hegemonia da lógica burguesa de visão e divisão do mundo social:

As condutas de honra das sociedades aristocráticas ou pré-capitalistas tem como princípio uma economia de bens simbólicos fundada no recalque coletivo do interesse e, de maneira mais geral, da verdade sobre a produção e a circulação, que tende a produzir habitus “desinteressados’, habitus antieconômicos, dispostos a recalcar os interesses, no sentido estrito do termo (isto é, a busca de lucros econômicos), particularmente nas relações domésticas (BOURDIEU, 2011a, p. 151).

Atribuir a lógica econômica, do campo econômico, a todas as outras lógicas de todos os outros campos é aplicar a lógica hegemônica burguesa de visão e divisão do mundo social. Nesse sentido, o marxismo de viés economicista e a teoria da escolha racional se assemelham diante das explicações economicistas do mundo social, separados pela visão objetivista do primeiro frente a visão subjetivista do segundo. Para fugir dessas generalizações, Bourdieu propõe a utilização da “teoria geral da economia dos campos”:

“[pois ela] permite descrever e definir a forma específica de que se revestem, em cada campo, os mecanismos e os conceitos mais gerais (capital, investimento, ganho), evitando assim toda as espécies de reducionismo, a começar pelo economicismo, que nada mais conhece além do interesse material e a busca pela maximização do lucro monetário (BOURDIEU, 2011c, p. 69).

Essa noção remete a outro importante pressuposto da teoria bourdiesiana, a perspectiva multidimensional de análise do mundo social. Esse pressuposto de análise é simbolizado pela referência de Bourdieu aos usos que os agentes fazem, nas disputas dos campos, das diferentes espécies de capitais que possuem: capital econômico, capital social, capital cultural, capital simbólico, etc. Por essa análise dos capitais dos agentes e a dos campos, Bourdieu apresenta uma alternativa tanto às perspectivas teóricas que atribuem ao comportamento social um viés puramente econômico, como mencionado anteriormente (que, na década de 1960 se tornava amplamente difundida pelos teóricos da “rational choice”, como o economista estadunidense Gary Becker), quanto da visão puramente idealista do mundo cultural nas relações sociais (principalmente ligada à antropologia cultural, à linguística e à antropologia estruturalista, as quais o próprio Bourdieu estava vinculado desde os anos 1950). Foi, então, com a noção de “economia de bens simbólicos” e a de “economia geral das práticas” que o autor visou integrar as visões economicistas e culturalistas do mundo social em uma mesma teoria geral. Nesse contexto, o conceito de “capital” de Bourdieu representa uma transformação progressiva de sua teoria estrutural e sistêmica para uma teoria relacional, geométrica e espacial da sociedade. Com isso, cresceu sua preocupação na objetivação de seus estudos empíricos pelo uso de quantificação matemática, tema que será abordado nos próximos capítulos deste trabalho.

Com a ideia de economia de bens simbólicos, Bourdieu propõe a superação da dicotomia material versus espiritual, historicamente construída no campo acadêmico, a qual enquadra os bens simbólicos como pertencentes ao “polo espiritual” das ações humanas, logo, fora do alcance de análise científica. Ao mesmo tempo, como vimos anteriormente, recusa a

ideia de que as ações humanas são guiadas pelo cálculo racional, este, sim, legitimado como objeto de análise cientifica:

A teoria da ação que proponho (com a noção de habitus) implica em dizer que a maior parte das ações humanas tem por base algo diferente da intenção, isto é, disposições adquiridas que fazem com que a ação possa e deva ser interpretada como orientada em direção a tal ou qual fim, sem que se possa, entretanto, dizer que ela tenha por princípio a busca consciente desse objetivo (BOURDIEU, 2011a, p. 164).

Dessa forma, tomamos contato com mais um instrumento conceitual importante da teoria bourdiesiana: a noção de capital simbólico. Aqui Bourdieu alia um conceito chave do economicismo com outro também importante para o culturalismo, juntando dois universos de produção de conhecimento presentes no campo acadêmico, separados pelas disputas internas do campo. O capital simbólico está presente nas disputas dos agentes pela posição de dominação do campo em que se relacionam. Os instrumentos disponíveis para os agentes disputarem o campo, os capitais dos agentes, são de diversos tipos, como mencionado anteriormente: capital econômico, capital social, capital cultural, capital escolar, capital de força física, etc. O capital simbólico é a forma que qualquer um desses tipos de capital assume no momento em que é percebido pelos agentes do campo, a ponto de os agentes reconhecerem e atribuírem a isso o valor: “o capital simbólico é um capital com base cognitiva, apoiado sobre o conhecimento e o reconhecimento.” (BOURDIEU, 2011a, p. 150). Cada campo tem seu tipo específico de capital simbólico, que é determinado pelas características e lógica de funcionamento do campo, assim como pela relação entre os agentes e a maneira como está passível de ser alterado, a depender da dinâmica que o campo e seus agentes apresentam ao longo da trajetória histórica de lutas e disputas do campo. Em uma das definições de capital simbólico, Bourdieu se refere a dois outros conceitos importantes em Ciências Sociais:

É o que chamo de capital simbólico, atribuindo assim um sentido rigoroso ao que Max Weber designava pela palavra carisma, conceito puramente descritivo, que ele tomava explicitamente (...) como equivalente ao que a escola durkheimiana chamava de mana. O capital simbólico é uma propriedade qualquer - força física, riqueza, valor guerreiro - que, percebida pelos agentes sociais dotados das categorias de percepção e de avaliação que lhes permitem percebê-la, conhecê-la e reconhecê-la, torna-se simbolicamente eficiente, como uma verdadeira força mágica: uma propriedade que, por responder as ‘expectativas coletivas’, socialmente constituídas, em relação as crenças, exerce uma espécie de ação a distância, sem contato físico (BOURDIEU, 2011a, p. 170, grifos do autor) 2.

2 Outra definição de capital simbólico consagrada, frequentemente citada em trabalhos acadêmicos é: “Chamo de capital simbólico qualquer tipo de capital (econômico, cultural, escolar ou social) percebido de acordo com as categorias de percepção, os princípios de visão e de divisão, os sistemas de classificação, os esquemas

Tomando-se essa definição, é necessário que associar a noção de capital simbólico à noção de violência simbólica, como sendo aquela praticada nos campos e que não são percebidas pelos agentes como tal. Violência simbólica é produto do trabalho de socialização para que os agentes sejam dotados de esquemas de percepção e expectativas coletivas, em crenças socialmente inculcadas. Um exemplo que Bourdieu apresenta de capital simbólico e violência simbólica é o referente à identidade étnica. Diz o autor que, junto com o nome, a cor da pele é um ente percebido, que funciona como capital simbólico positivo ou negativo (BOURDIEU, 2011a, Cap. 6). A violência simbólica se define, então, por meio da valoração, socialmente construída pelos agentes, do capital simbólico em questão. É importante ainda entender que as relações de violência simbólica “só podem se instaurar com a cumplicidade daqueles que a sofrem, como as relações domesticas. O dominado colabora com sua própria exploração através de sua afeição e de sua admiração” (BOURDIEU, 2011a, p. 181).