Part 2: Branchements and translation as problematisation problematisation
7. Branchements as dialectic
7.7 Narrative identity and the permanence of time
Como vimos, os anos entre 1995 e 2010 são importantes quando pontuamos as mudanças nas regras de seleção dos novos agentes do campo dos diplomatas. Esse período de 16 anos concentrou uma série de alterações desse que é um dos principais jogos internos do campo dos diplomatas. Entendemos que as alterações das regras de entrada de novos agentes do campo significam a tentativa de grupos de diplomatas de influenciar a variação do perfil dos novos agentes ingressantes no campo, os que irão participar das futuras disputas internas.
Essas alterações são demarcadas temporalmente com a alternância no governo federal, entre os governos FHC e Lula. O jogo do campo político tem influência sobre os jogos do campo dos diplomatas, como já visto. Essa influência é dada diretamente pela definição de quem ocupará os cargos do topo da hierarquia. Partindo do princípio de que os diplomatas não são um grupo homogêneo, que são agentes pertencentes a um campo de disputas, a interferência do campo político torna-se instrumento importante das disputas internas. Grupos de diplomatas conflitantes ganham ou perdem força a depender do jogo do campo político.
44 Esses impactos na base da hierarquia do campo são parcialmente analisados por Gobo (2016), em que a autora estuda a “Revista Juca”, publicação dos agentes do campo ingressantes nas “turmas dos 100”. Outra análise é de Lima (2015), que cita a carta de representantes das “turmas dos 100” pela qual reivindicam a adequação nos critérios e números de vagas de ascensão na carreira, para que se adaptem a essas grandes turmas. Outros exemplos, como presença inédita de diplomatas nos recém-criados sindicatos da categoria, em think tanks ligados a movimentos sociais e partidos políticos, até mesmo, em “realities shows” de televisão, são elementos ricos para futuras pesquisas sobre o perfil das novas gerações de agentes do campo.
Mostramos que essa influência do campo político sob o campo dos diplomatas ocorre mesmo quando se analisa as mudanças no processo seletivo de novos diplomatas. Vimos que esse é um dos jogos do campo em que os agentes têm grande controle interno. Assim, mesmo um dos símbolos materializados da autonomia do campo dos diplomatas, o jogo jogado no IRBr, está imerso na influência da lógica de funcionamento do campo político. Nossas análises mostram que, a depender do grupo de diplomatas que assumiu o topo da hierarquia no campo, conduzidos principalmente em função das definições dos grupos que assumiram o topo da hierarquia no campo político, o jogo da definição das regras de seleção de novos diplomatas foi levado para lados às vezes congruentes, mas muitas vezes opostos. Mesmo um campo que apresenta um grau alto de autonomia, como o campo dos diplomatas, não está isolado de influências do jogo de outros campos (e ao mesmo tempo os influencia), principalmente no que se refere ao campo político. Portanto, esta análise do campo dos diplomatas precisa ser associada com análises sobre o campo político entre os governos FHC e Lula. Podemos encontrar um volume realmente grande de trabalhos que se prestam a fazer análises sobre esses períodos do campo político brasileiro. Procuramos, porém, referências nos trabalhos que apresentam propostas de diálogo com a perspectiva teórica que utilizamos aqui.
Em função disso, nos vimos na necessidade de começar a análise desse período de dezesseis anos citados anteriormente, entre os governos FHC e Lula, destacando o ano de 2002 e as eleições presidenciais no país. Esse contexto torna-se pertinente quando se aponta que as épocas de eleições são períodos passíveis de provocar redefinições nas disputas internas do campo político, logo, nos campos que têm relações diretas a este. São períodos caracterizados pelo movimento intenso de agentes e grupos de agentes, conflitantes e cooperantes, que têm nas eleições muitas vezes a possibilidade de aumento de oportunidades para que lutem por melhores posições na hierarquia do campo ou se mantenham no topo desta. A conjuntura de possível reformulação do campo político em momentos de eleições faz com que as estratificações historicamente construídas nos campos de intensas relações com o campo político, como o campo dos diplomatas, também sejam passíveis de alterações.
Nesse contexto, Grün (2013) faz uma análise de como as eleições de 2002 levou a ascensão do “baixo clero” do campo político e, consequentemente, representou uma redefinição da ordem simbólica no campo do poder no Brasil. Os efeitos dessa nova composição do campo político, trazida a partir de 2003, representaram uma efetiva distribuição de capital cultural na sociedade brasileira contemporânea. Um exemplo disso, destacado pelo autor, são as medidas econômicas que foram tomadas pelo baixo clero
(principalmente medidas de redistribuição de renda) que foram amplamente criticadas por órgãos de comunicação e de boa parte dos grupos dirigentes do país – agentes e grupos de agentes que sempre foram reconhecidos por exercerem o poder distintivo aos que ocupam a posição de centro no campo do poder historicamente, o “alto clero”. Contudo, a partir de 2008, essas medidas econômicas se mostraram medidas políticas contraintuitivas de enfrentamento da crise econômica mundial e que tiveram sucesso nas urnas desde então. Esses resultados das eleições denotaram indiretamente a aceitação social do ponto de vista contraintuitivo que o baixo clero apresentou, a despeito das críticas do alto clero que perdera (ao menos naquele momento) sua capacidade de imposição de visão e divisão de mundo até então hegemônica (GRÜN, 2013).
Nesse caso, o baixo clero deixou de se comportar como se esperava, de maneira intuitiva, ou seja, não agiu em busca do reconhecimento do alto clero do campo político e do campo do poder. Dessa forma, não obteve como resultado a reiteração e a naturalização da hierarquia cultural e política desses campos, sofrendo, assim, seguidas ações de retaliação e tentativas do alto claro de “voltar as coisas aos seus devidos lugares”. O comportamento do baixo clero naquele momento foi o de reverter a hierarquia dos campos político e do poder a seu favor. Essa atitude dos agentes que compõem o baixo clero, associada à análise que Grün (2013) faz dos diferentes capitais sociais, econômicos e simbólicos que esses detêm em comparação aos do alto clero, retoma o conceito de “grammariens” (BOURDIEU, 2012. p. 548), o qual se refere ao papel dos intelectuais dominados na construção dos Estados nacionais. Para isso, Bourdieu remete à ideia de “proletaroides” (WEBER, 1995, vol. 2, p. 269).
O comportamento do baixo clero do campo político proporcionou (e foi proporcionado por) processos de mudanças no campo do poder. Apesar de muito difundida a ideia de “insulamento do Itamaraty”, já debatida aqui, entendemos que esse movimento do campo político, marcado pelas eleições de 2002, representou um movimento correlato ao campo dos diplomatas. Ações contraintuitivas dos diplomatas que passaram a ocupar o topo da hierarquia do campo durante o governo Lula geraram reações do grupo de diplomatas que representavam o topo da hierarquia do campo no governo FHC, como já visto nas disputas midiáticas entre esses dois grupos. Exemplificamos essas ações contraintuitivas do “baixo clero dos diplomatas” com as análises sobre as mudanças das regras do processo de seleção de novos agentes do campo, porém entendemos que este é apenas um dos jogos do campo pelo qual é possível de se identificar essas ações contraintuitivas.
Essa situação do campo dos diplomatas tem paralelo com o campo dos economistas, analisado por Grün (2013): medidas contraintuitivas implementadas pelo governo Lula de enfrentamento da crise econômica mundial e, mais importante, sua defesa na arena política, também geraram reação do “alto clero” do campo político, ligados ao governo FHC. Tanto no campo dos economistas quanto no campo dos diplomatas a dinâmica da ação contraintuitiva feita por agentes que não representavam os antigos grupos hegemônicos de seus respectivos campos, seguida de reações do lado oposto, revelam a ascensão na hierarquia desses novos grupos em diversos campos. Ascensões essas proporcionadas pelo (ao mesmo tempo que proporcionadoras do) movimento de alternância entre os governos FHC e Lula.
6. CAPÍTULO V
ANÁLISE DE CORRESPONDÊNCIA MÚLTIPLA (ACM) EM UM DOS JOGOS DO