Part 2: Branchements and translation as problematisation problematisation
7. Branchements as dialectic
7.11 Spinoza, Hegel, and dialectics
“Enquanto vocês tomarem o dado – os famosos data dos sociólogos positivistas – tal como ele se dá, dar-se- vos-á sem problemas. Tudo anda por si, naturalmente. As portas abrem-se e as bocas também. Que grupo recusaria o registro sacralizador do historiógrafo? (...) enquanto vocês permanecerem na ordem das aparências socialmente construída, todas as aparências estarão a vosso favor, convosco, - até mesmo a aparência da cientificidade. Pelo contrário, desde que vocês comecem
50A AGD privilegia o método de “classificação ascendente hierárquica” euclidiana. Para mais detalhes sobre esse conceito, ver Le Roux, B. (2014). Analyse géométrique des données multidimensionelles. Paris: Dunod. cap. 10. Assim como Benzécri, J-P (1992). Correspondence Analysis Handbook. Dekker, New York.
a trabalhar num verdadeiro objeto construído, tudo se torna difícil: o progresso “teórico” gera um acréscimo de dificuldades “metodológicas”. Os “metodólogos” não terão dificuldade em encontrar o pequeno erro nas operações que é preciso fazer para aprender, assim- assim, o objeto construído.” (BOURDIEU, 2011c. Cap II p. 41).
Frédéric Lebaron (2009, LEBARON; LE ROUX, 2015), descreveu sobre o processo de escolha de metodologia de quantificação que P. Bourdieu utilizou em suas pesquisas, mostrou por que ele utilizou a Análise de Correspondência (AC) e a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) em seus trabalhos e demostrou que o programa de quantificação dos dados de suas pesquisas foram a consequência lógica de uma experiência crítica e reflexão que teve por meio das práticas e métodos quantitativos que dominavam as Ciências Sociais em sua época (e ainda hoje). A AC e a ACM são métodos que mais se aproximam e permitem melhor apreensão prática da pesquisa empírica da maneira com que Bourdieu construiu sua teoria e visão de mundo social. Frédéric Lebaron (2015, p. 43) cita Bourdieu (Prefácio à edição alemã de “Métier de sociologue”):
“Eu utilizo muito a análise de correspondência, porque eu penso que é um procedimento relacional cuja filosofia exprime pleno acordo com minha constituição de realidade social. É um procedimento que “pensa” relacionalmente e é o que eu tento fazer com o conceito de campo.” (tradução livre).
Bourdieu já tinha publicado trabalhos em conjunto com estatísticos quando, entre o final de década de 1960 e começo dos anos 1970, elaborou o conceito de campo. Nesse mesmo período, se difundia e tornava-se hegemônico nas Ciências Sociais o uso da ferramenta estatística da “análise de regressão”. Já em 1966, Bourdieu se juntou a A. Darbel para criticar esse método estatístico empregado em pesquisas em Ciências Sociais.51 A crítica de Bourdieu a esse tipo de abordagem estatística tinha como referência a abordagem estruturalista da Antropologia e Linguística francesas, correntes de pensamento muito influentes na França dos anos 1960, principalmente com autores como Lévi-Strauss e Saussure, até então referências para Bourdieu. Como mencionado no capítulo I, a essa influência lévi-straussiana, mais tarde se somou ao trabalho de Bourdieu a influência do filósofo Ernst Cassirer, que desenvolveu a noção de oposição entre uma visão “substancial” e uma visão “relacional” de mundo. Essa noção se tornou decisiva para o desenvolvimento dos trabalhos futuros de Bourdieu e, consequentemente, para afinar sua crítica ao método hegemônico anglo-saxão de uso da
estatística em Ciências Sociais. Em “A Distinção”, publicado em 1979, Bourdieu explicita que “a relação particular entre uma variável dependente (por exemplo, uma “opinião política”) e uma variável então denominada independente (como sexo, idade ou religião) esconderia um complexo sistema de relações que poderiam revelar as correlações de forças determinantes que explicassem o fenômeno investigado” (Lebaron, 2009, p. 103, tradução livre).
Tomando-se esse tipo de crítica à análise de dados hegemônica, somando-se ao referencial teórico que o autor estava desenvolvendo com base no refinamento de seus conceitos de campo e habitus, Bourdieu consolidava a noção de que os efeitos das interações sociais deveriam ser explicados, tendo em consideração uma complexa estrutura de inter- relações causais. Essas não caberiam em um modelo estatístico em que se parte do princípio da existência de variáveis independentes com “efeito puro”. Por isso, sem abdicar da importância de objetivação empírica de pesquisas teóricas pelo uso da estatística, Bourdieu se colocava sob a necessidade do desenvolvimento de um instrumento matemático permanente que servisse de instrumento de formalização do caráter relacional da realidade social.
“Particularmente significativo é o fato de que a estatística – ciência do erro e do conhecimento próximo que, em procedimentos tão usuais quanto o cálculo do erro ou dos limites de confiança, coloca em ação uma filosofia da vigilância crítica – possa ser correntemente utilizada como álibi científico da submissão cega ao instrumento.” (BOURDIEU et al., 2015, p. 21).
Nesse contexto, Bourdieu juntou-se aos grupos de matemáticos que eram referência para pesquisas na área das Ciências Humanas. Buscava com eles um instrumento de análise estatística capaz de apreender as dimensões relacionais da realidade social, assim como demandava sua teoria baseada em conceitos como campo e habitus. Nesse mesmo período, final dos anos 1960, estava surgindo e ganhando força na França a equipe de pesquisa de Jean-Paul Benzécri, estatístico que desenvolvera a “Análise Geométrica de Dados” (GDA). Já na segunda metade dos anos 1960, Bourdieu tomava conhecimento dessa corrente de pesquisa que pretendia renovar o campo de conhecimento da estatística com o uso de sólida base matemática e filosófica. Nesse período, Bourdieu elegeu essa ferramenta estatística como a mais próxima de sua abordagem teórica de análise relacional dos fenômenos sociais. Ele a utilizou em suas pesquisas durante 30 anos, entre as décadas de 1970 e 1990, desde as análises a partir de dados coletados em surveys sobre gostos de classe até em análise de dados prosopográficos sobre editoras francesas. Bourdieu dizia que se a análise estatística fosse empregada para ajudar na formulação da explicação sociológica, ela deveria
ser feita de maneira multidimensional, ou seja, deveria permitir a operacionalização das diferentes dimensões fundamentais do espaço social (as diferentes espécies de capitais) para, assim, fornecer um modelo geométrico de dados (um resumo de todo um conjunto de regularidades estatísticas) que permitisse ao pesquisador fazer a construção, a análise e a interpretação do espaço social estudado (DESROSIÈRES, 2008; LEBARON, 2009). O objetivo maior dessa metodologia é estudar o espaço social global e os subespaços que o compõem: os campos e o campo do poder. A metodologia multinacional de análise estatística que condiz com esse objetivo de pesquisa é a Análise Geométrica de Dados (AGD), que, por sua vez, pode ser feita por meio da Análise de Correspondência (AC), Análise de Correspondência Múltipla (ACM) ou Análise de Componentes Principais (ACP), como já visto. O método de AGD é, portanto, muito próximo do uso clássico da análise fatorial.52
A coleta de dados para a utilização da AGD pode ser feita a partir de questionário de perguntas aos agentes, coleta de dados documental e/ou a partir de prosopografia. A prosopografia (coleta de dados biográficos dos agentes do campo estudado) foi diretamente inspirada em práticas crescentes de trabalhos de história social. Depois da etapa de coleta de dados, faz-se necessário definir as variáveis ativas e suplementares para caracterizar o espaço social analisado. As variáveis ativas são aquelas que servirão para construir o espaço, ou seja, vão definir as distâncias entre os indivíduos estatísticos e determinar os eixos da nuvem; as variáveis suplementares são as que caracterizam os eixos.
Bourdieu, em parceria com outros pesquisadores, utilizou essa ferramenta estatística em vários trabalhos, como “L’anatomie du goût” (1976), “Le Patronat” (1978), “La Distinction” (1979), “Homo Academicus” (1984), “La noblesse d’Etat” (1989), “Les structures sociales de l’économie” (1990) e “Une revolution conservatrice dans l’édition” (1999).53 A análise de correspondência passou a ser uma importante aliada de Bourdieu no entendimento tanto das posições dos agentes no campo como da lógica de organização desse campo em determinado recorte temporal.
A AGD tem sido utilizada também por pesquisadores que trabalharam com Bourdieu e/ou os que seguem seu método de trabalho, como Luc Boltanski, Remi Lenoir, Patrick Champagne, Monique de Saint-Martin, entre outros, entre as décadas de 1980 e 1990.
52“A análise fatorial tem como objetivo principal explicar a correlação ou covariância entre um conjunto de variáveis, em termos de um número limitado de variáveis não observáveis. Essas variáveis não observáveis ou fatores são calculados pela combinação linear das variáveis originais” (Ver: <http://arquivo.ufv.br/saeg/saeg43.htm>. Acesso em: 28 maio 2017.
53 Para uma análise específica sobre o uso do método de AGD nos trabalhos de P. Bourdieu citados, ver F. Lebaron (2009).
Uma nova geração de pesquisadores também se destaca atualmente no uso de AGD, como Gisèle Sapiro, Frédéric Lebaron, Julien Duval, entre outros.
Desse modo, a AGD apresenta-se como uma ferramenta metodológica que permite ao pesquisador descobrir e mostrar a estrutura do campo pesquisado; demonstrar homologias estruturais entre campos diferentes; determinar a autonomia relativa do campo ou espaço social; estudar os subespaços inseridos em um espaço social geral; relacionar agentes e suas propriedades por meio do estudo das nuvens de indivíduos estatísticos e as nuvens de variáveis desses indivíduos; e para analisar as possíveis dinâmicas presentes nos campos e suas classificações.