3. SAMPLE SELECTION AND RESEARCH HYPOTHESES
4.2 RESEARCH STRATEGY
4.2.3 Software
Durante as três últimas décadas (1980-2009), o homem vem observando mudanças sensíveis nas escalas microclimáticas e topoclimáticas. O clima urbano representa um quadro de modificações no espaço circunscrito à cidade. As alterações nas sucessões dos estados atmosféricos, como secas intensas e chuvas calamitosas sempre ocorreram e continuarão ocorrendo, em determinados momentos até maiores do que a atual. As secas intensas e as chuvas calamitosas fazem parte dos “desvios” em relação à média e esses desvios, fazem parte do quadro “habitual” do clima. Na concepção de Monteiro (1991, p. 12-13),
[...] a idéia do negativo e do desfavorável ou maléfico dos eventos naturais extremos ou acidentais merece [...] outra reflexão. [...] Um impacto pluvial calamitoso desabado sobre uma cidade poderá, apesar dos negativos, ter contribuído para despoluir uma atmosfera local gravemente afetada [...] Isto, evidentemente depende da intensidade do impacto, geralmente tanto mais “negativo” quanto mais forte.
Apesar de esses fatos terem caráter ocasional e imprevisível, isso requer uma análise mais detalhada para compreender as mudanças na dinâmica climática. Para isso faz-se imperativo obter uma série de informações sobre os elementos pertencentes ao Sistema Clima Urbano (SCU) e os vários conceitos de clima, uma vez que esses conceitos são aperfeiçoados de acordo com as transformações no espaço-tempo, de forma que retrate melhor a realidade estudada.
Hann (1882) apud Monteiro, (1975, p.6), define clima como “o conjunto dos fenômenos meteorológicos que caracterizam a condição média da atmosfera sobre cada lugar
da Terra”. Monteiro observa nesta definição insuficiências, primeiramente por corresponder a uma média, destituída de realidade para caracterizar os elementos do clima e em segundo lugar por apresentar caráter estático, artificial, não mencionando o desenvolvimento dos fenômenos no tempo.
Sorre elabora outro conceito, de caráter mais dinâmico e mais próximo da realidade, superando o conceito de Hann, considerado estático e abstrato. Propõe que “o clima é a série de estados atmosféricos acima de um lugar em sua sucessão habitual” (SORRE, 1934 apud TARIFA, 2001, p.12), diferentemente do tempo visto como cada um desses estados. Com essa definição sugere um novo modelo aos estudos climáticos ao substituir a média pelo ritmo. A definição de clima proposta por Sorre é aceita por Monteiro (1971, apud TARIFA, 2001, p.12) que “entende a análise rítmica como um processo interativo entre a circulação atmosférica e os elementos do clima, tratados em sua seqüência temporal”.
O conceito de clima, de acordo com Sorre (apud MONTEIRO, 1975) deve enfatizar também, dentre outros fatores, o tempo (duração) e a freqüência em que ocorrem os fenômenos, pois se têm o ritmo como um dos elementos indispensáveis para a compreensão do clima. Ainda consiste na interação entre os elementos climáticos não desvinculados da ação humana.
Ao estabelecer uma análise sobre o clima, Ayoade (2002, p.2) conclui que este “abrange um maior número de dados do que as condições médias do tempo numa determinada área [...], o clima apresenta uma generalização enquanto o tempo lida com eventos específicos”, pois os fenômenos atmosféricos variam frequentemente. Dessa forma, o tempo também varia diferentemente do clima que requer uma análise mais detalhada sobre o comportamento dos elementos climáticos e da atuação das massas de ar durante um período mais prolongado, destacando diversas características de um lugar como a quantidade de chuva, meses mais quentes, mais frios e a periodicidade em que estes eventos se repetem.
Conti (1996) aponta que não há necessidade de períodos longos de observações de registros climáticos para alcançar um resultado, isso dependerá do objetivo e da ordem de grandeza que será utilizada, às vezes apenas uma avaliação diurna é o suficiente para analisar e obter resultados satisfatórios para explicar determinado fenômeno.
Nas observações sobre o fator tempo (duração) Sorre (apud MONTEIRO, 1975, p.11) afirma que “a significação de uma característica climática depende, realmente, do período do ano em que ocorre; da constância de sua atuação; da violência de sua intervenção”.
Todavia, não é apenas a noção de duração que caracteriza o clima, outras noções básicas como a variabilidade e ritmo, termos vizinhos, porém claramente distintos, são considerados por Sorre (op. cit. p.12, grifo do autor) da seguinte forma:
[...] a primeira – incluindo sutilezas de graus diferentes, desde as variações horárias, pelas diárias, mensais, até as anuais e aquelas de um ano para outro – enfatiza as rupturas na continuidade das situações. Quanto ao ritmo, ele exprime “não mais a distância quantitativa dos valores sucessivos, mas o retorno mais ou menos regular dos mesmos estados”.
Nesse aspecto, o ritmo (sucessão habitual dos tipos de tempo) e sua dinâmica, tornam-se essenciais para a compreensão dos tipos de tempo, pois existem momentos em que prevalecem a situação atmosférica atuante na ocasião em que foram coletados os dados e não apenas a estruturação e localização dos bairros. Em outros instantes, a interação entre esses fatores é que irão determinar as condições térmicas do lugar.
Assim, a sucessão dos estados atmosféricos (tipos de tempo) pode ser observada por meio da interação dos elementos climáticos associado à circulação atmosférica. Sobre esta questão, Monteiro (1971, p. 9, apud MENDONÇA, 2001, p.21) descreve que,
[...] o ritmo climático só poderá ser compreendido através da representação concomitante dos elementos fundamentais do clima em unidades de tempo cronológico pelo menos diária, compatíveis com a representação da circulação atmosférica regional, geradora dos estados atmosféricos que se sucedem e constituem o fundamento do ritmo.
Ainda sobre o ritmo, Monteiro (1971, apud SANT’ANA NETO, 2008, p. 69) expõe claramente a importância do encadeamento dos tipos de tempo, nos seguintes termos:
[...] somente o fundamento do ritmo, analisado a partir do encadeamento dos tipos de tempo, portanto, na escala diária, seria a única estratégia possível de conciliar a compreensão dos mecanismos atmosféricos com as possibilidades de entendimento do papel do clima como fenômeno geográfico e, portanto, de interferência nas atividades humanas na organização do espaço.
Estas idéias pressupõem um caráter qualitativo, mas que possibilita uma analogia com os diversos elementos do espaço geográfico. A interação entre os elementos geográficos leva o autor a propor uma outra questão:
Só a análise rítmica detalhada ao nível de 'tempo', revelando a gênese dos fenômenos climáticos pela interação dos elementos e fatores, dentro de uma realidade regional, é capaz de oferecer parâmetros válidos à consideração dos diferentes e variados problemas geográficos desta região. (MONTEIRO, 1971, apud, CUNHA & VECCHIA, 2007, 144-145).
Diante dessas considerações, cumpre enfatizar que o ritmo climático está sempre variando e assim exibe outro padrão de irregularidade, especialmente pela distribuição da chuva, variação da temperatura, acarretando problemas relacionados às secas, inundações, calor intenso, dentre outros. São eventos que refletem no “desvio dos padrões habituais”, é o que Monteiro (2003, p. 53) denomina de disritmias. No dizer deste autor “A idéia de impacto pressupõe conseqüências calamitosas, [...]. São episódios ou eventos restritos no tempo que estão presos ao modo de transmissão de energia, ou seja, ao ritmo de sucessão dos estados atmosféricos”.
Esses eventos variam de região para região, de acordo com as características urbanas e naturais de cada lugar e da influência dos mecanismos da circulação atmosférica regional. Se as cidades do mundo que sofrem com os rigores do inverno e com a ação destruidora dos tornados criam infra-estrutura eficaz para enfrentá-las, no Brasil, pelas constâncias dos aguaceiros em diversas regiões deve-se haver também maior preocupação (MONTEIRO, 2003). Basta estar atento aos impactos pluviais ocorridos nos últimos anos na fachada atlântica brasileira para se certificar desses impactos e da necessidade de um cuidado maior com a cidade. Olhando por esse prisma, é fundamental maior atenção do sítio urbano
tanto no aperfeiçoamento da infra-estrutura como na racionalização do uso do solo. Logo, [...] “controlar bem o uso do solo implica em conhecermos as relações de causalidades mais
importantes entre este e o meio ambiente resultante, principalmente em seus efeitos sobre os indivíduos usuários do espaço em que vivem” (SAMPAIO, 1981, p. 14).
Quando se pensa em organização da estrutura-urbana há de se considerar as áreas verdes, vistas como “verdadeiras válvulas reguladores do escoamento, pela possibilidade de infiltração em meio à massa de edificações e ruas pavimentadas” (Monteiro, 2003, p. 57). Todo o conjunto de elementos associados à urbanização leva a alternância de ritmos, convergências e divergências que geralmente se repetem em diferentes horários, locais (cidade ou campo), uso do solo (floresta, grama, solo exposto) etc., questões relacionadas ao dinamismo do clima. Neste sentido, Cunha e Vecchia (2007, p. 143), baseados na abordagem da climatologia dinâmica, enfatizam a necessidade de uma “análise coerente dos dados” e para que esta seja feita,
[...] depende, basicamente, das respostas locais colhidas nas variações diárias e horárias das variações dos elementos do clima (medições em superfície, por meio de estações e postos meteorológicos), nas cartas sinóticas do tempo (pressões reduzidas ao nível do mar e, se necessário, as dos principais níveis isobáricos) e nas imagens fornecidas por satélites meteorológicos.
Daí a importância de observações em campo, que complementem os dados obtidos por imagens de satélites e dados de estações meteorológicas. “A observação dos movimentos, repetições e diferenças dos estados do ar dentro da cidade evidenciam sempre uma totalidade de ritmos associados à natureza do espaço e do tempo (cronológico e meteorológico)” (TARIFA, 2001, p.28).
A compreensão do ritmo permite entender a interação entre os controles e atributos e consequentemente compreender as Unidades Climáticas como “diferentes”, com todas as suas transformações do espaço, que podem ser determinadas pelo ritmo de que a sociedade ao longo dos anos vem (re)construindo o espaço onde vive. E assim, observa-se que, [...] “o ritmo é um dos caminhos possíveis para compreender a interação dialética entre os fenômenos físicos, biológicos, humanos e sociais do (no) espaço em um determinado lugar da superfície da terra”. (op. cit. p. 29).