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4. Theoretical Framework

4.1 The Concept of Diaspora

4.1.2 Social Movements

Após várias tentativas, consegui marcar uma entrevista com Ênio, presidente da CORDAPÉS. Era começo de tarde quando cheguei ao endereço combinado; uma casa de fachada simples, com paredes revestidas de cartazes de propaganda de um candidato a vereador. É comum no Conjunto Palmeiras encontrar manifestações da população local em relação a suas preferências eleitorais no período que antecede o dia da votação.

Fui recebida pelo presidente da CORDAPÉS o qual, demonstrando cordialidade, começou a falar-me sobre o bairro, antes mesmo que eu ligasse o gravador. Apesar da minha curiosidade em relação aos cartazes postados na frente da casa e à sua relação com o candidato, não ousei tratar do assunto, até porque não era essa minha intenção ali. Já com o gravador ligado, iniciamos uma agradável conversa, interrompida, eventualmente, pelo barulho que vinha da rua.

Fiquei sabendo que a Companhia de Ritmos de Danças Populares (CORDAPÉS) foi criada como grupo de dança no dia 13 de maio de 2006 e registrada como associação no ano de 2007. Inicialmente o grupo de dança chamava-se thedance. Segundo Ênio, presidente da associação, a razão da mudança no nome thedance para CORDAPÉS foi “[...] devido o primeiro ser um nome americanizado”. Segundo ele, o atual nome da associação CORDAPÉS significa: instrumentos musicais e parte do corpo que conduz a dança, que são os pés.

Atualmente, a principal atividade da CORDAPÉS é a dança. Além dessa atividade, a associação se insere nas lutas sociais do bairro, como, por exemplo, a melhoria da qualidade dos serviços básicos (transporte público, serviços básicos) e a participação em alternativas de combate à fome. Ênio lembra:

A gente veio se alertar para o social por causa de um dos meninos que meu irmão ajudou, que é o Rafael,que era catador de latinha. Ele catava daqui [Conjunto Palmeiras] até no centro da cidade e vendia naquela região do centro. Até que um certo dia ele vinha na avenida Val Paraíso e vinha duas meninas passando, aí ele pulou pra dentro do carrinho, e ficou escondido até as meninas passarem. Aí quando as meninas passaram, ele veio correndo aqui em casa, pedindo ao meu irmão um trabalho, ele não queria mais trabalhar naquilo. Então, como ele não tinha estudo, ele passou a me ajudar no artesanato, e depois ele ficou melhor do que eu, porque eu também faço artesanato. Então, ele começou a viajar e dar cursos. Então, ele começou a dar cursos lá no Banco Palmas, foi inclusive no início da Companhia Bate Palmas, que até hoje tem lá. Então ele dava aula pra os meninos.

[...] E aí a gente começou a se alertar que muitas vezes é falta de oportunidade. Até então não existia a associação, só o grupo de dança. Teve um dia que conseguimos uma bandeja de ovos, aí a gente decidiu doar para aqueles do grupo que tinha mais necessidade. Aí no outro dia a gente começou a ter relatos. Um, o pai pegou os ovos e comeu quase tudo, o outro vendeu a bandeja de ovos por um real pra mãe dele. Aí a gente resolveu criar associação com outros objetivos. Aí com o decorrer do tempo, a gente conseguiu cestas básicas,outras pessoas e entidades daqui nos ajudaram, dando comida; foi o caso do ABC. Às vezes, a gente ia, almoçava lá, eram sete meninos, até porque não tinha comida em casa e seis vinha almoçar aqui em casa. Então, a gente viu que naquele tempo o importante era alimentação, muitas pessoas passaram mal de fome durante os ensaios.

(Depoimento de Ênio Martins Marques, Presidente da CORDAPES. Entrevista realizada no dia 14 de setembro de 2012)

Ênio ainda me revelou que, no início de 2012, havia 187 jovens participando ativamente da CORDAPÉS; contudo, em consequência da dificuldade financeira enfrentada pela associação, a quantidade de participantes reduziu-se, restando apenas 67 pessoas. Sobre esta questão diz Ênio:

A gente no começou alugava um espaço na rua Codó, aqui atrás, só que a gente pagava R$500,00 (quinhentos) reais de aluguel e ainda pagava a água e a luz.Aí não deu, ficou muito caro, aí a gente alugou o quintal aqui da casa da minha mãe. Aí o lugar só suporta essa quantidade de pessoas, só 20 pessoas por dia, então de segunda a sexta tem aula toda noite.

(Depoimento do Ênio Martins Marques, Presidente da CORDAPÉS. Entrevista realizada no dia 14 de setembro de 2012)

Outro aspecto decorrente do problema financeiro foi a mudança da sede da associação. Anteriormente, ela funcionava em uma casa alugada, em virtude da insuficiência de recursos, para pagar as contas do aluguel e também das tarifas públicas, como água e energia elétrica. Por esta razão, ressaltou Ênio, “[...] a sede foi transferida para casa da minha mãe”. A residência dos pais de Ênio está situada na rua Cabo Verde, no Conjunto Palmeiras.

Após a entrevista, Ênio fez questão de me mostrar os três ambientes da sua residência destinados ao grupo. Pude observar que, no primeiro, estavam organizadas as fantasias usadas nas apresentações do grupo de dança; no segundo, uma espécie de terraço destinado aos ensaios; e, no terceiro, logo na entrada da casa, funciona o escritório, local reservado para as entrevistas e conversas. Neste espaço, também ficam expostos troféus e medalhas ganhos em premiações quando das apresentações do grupo de dança. Também havia fotografias, além de um computador, uma estante, cadeiras e mesas. Segundo informações de Ênio, todos estes móveis foram doados por moradores do bairro.

Sobre as apresentações públicas do grupo, há três modalidades: vitrines, beneficentes e profissionais. As apresentações vitrines ocorrem em escolas, praças e creches e não são remuneradas, o grupo recebe somente o lanche e o transporte, que são pagos por

quem os convidou. Já as apresentações beneficentes acontecem em abrigos e, como o próprio nome sugere, não há qualquer tipo de remuneração. Já as apresentações profissionais são realizadas em grandes hotéis da cidade de Fortaleza e região metropolitana. Pelas apresentações profissionais, recebem um cachê de R$ 400,00 reais líquidos, isto é, após cobrir as despesas com o deslocamento e a alimentação do grupo. Em relação às apresentações públicas, o grupo de dança é dividido em profissionais, intermediários e novatos. Geralmente, os profissionais fazem as apresentações remuneradas e as realizadas no próprio bairro.

Além dos recursos angariados nas apresentações de dança, a associação recebe doações de alimentos dos comerciantes locais. Estes donativos são destinados para o lanche durante os cursos e ensaios na sede da associação, como também são entregues às famílias dos participantes do grupo de dança, que em geral são pessoas extremamente pobres121. Ainda sobre a situação de pobreza das famílias, Ênio diz: “[...] a gente conseguiu a cesta básica, aí a gente foi deixar. Aí a mãe do menino que faz parte da associação tinha ido pedir à vizinha o arroz emprestado, aí, quando a gente chegou com a cesta, ele se derramou em lágrimas”.

Outro dado importante na entrevista diz respeito ao perfil dos participantes do CORDAPÉS: em geral tiveram envolvimento com drogas ilícitas122, têm baixa escolaridade, trabalham em biscates e são oriundos de famílias em situação de vulnerabilidade econômica e social, conforme informou Ênio durante a entrevista.

Outro aspecto mencionado por Ênio diz respeito à relação da associação com o bairro no tocante ao campo de mobilizações pelas questões sociais.

Trabalhamos com outras associações do bairro quando tem alguma coisa em comum, por exemplo, no FECOL. Por exemplo, a gente fez com ASMOCONP, Banco Palma, a gente se juntou e fez o pré-Carnaval. Também a gente se juntou e fez mil jovens e dez ideias. A questão da luta do ônibus (paradas de ônibus e o expresso que saiu do nosso bairro e foi pro bairro vizinho, Sítio São João). Todas essas lutas são importantes para os moradores. Uma simples mudança de parada traz problema pra comunidade. Temos parcerias com todas, não temos problemas com nenhuma. Hoje a grande ferramenta que nós temos, a FECOL, para se juntar e reivindicar pelo bairro. Acho que só duas não participam do FECOL hoje se reúne de quinzenalmente. Fizemos a rampa para os cadeirantes. Então, o Palmeiras é de muita luta. Os moradores, o que tem hoje tudo é conquista, por exemplo, nossa pracinha [São Francisco] foi construída pelos moradores, a questão do canal [de drenagem].

(Depoimento do Ênio Martins Marques, Presidente da CORDAPÉS. Entrevista realizada no dia 14 de setembro de 2012).

121 Segundo informações, as famílias têm poder aquisitivo baixo. A maioria dos pais não tem rendimentos fixos. Além da precariedade econômica destas famílias, a maioria dos pais está envolvida com drogas ilícitas ou se envolveu com pequenos delitos.

122 Duas semanas após a realização da entrevista com Ênio, fui informada de que um dos participantes, chamado Daniel, havia sido assassinado à “queima roupa” por um traficante morador do Conjunto Palmeiras. Contudo, o presidente da CORDAPÉS assegurou que o jovem morto não tinha mais envolvimento com drogas.

Ao mencionar as ações reivindicatórias ocorridas no processo de construção do bairro, Ênio menciona nomes de moradores do Conjunto Palmeiras considerados por ele como referência para as jovens lideranças:

Todas essas histórias que a gente vê muito hoje, por eu ser um jovem eu me espelho muito neles [lideranças], nos mais antigos, e tento aprender com eles pra dar continuidade. Eu sei que têm uns que estão muito cansados porque já vêm dessa luta, né?. Porque tudo aqui foi com muito sacrifício: á água, o esgoto, tudo. É seu Augusto, Joaquim, seu Emanuel Evangelista, têm deles que já está com a idade avançada. E a gente vê que tão um pouco cansado, tão na luta porque não abrem mão, acho que eles vão até o último dia de suas vidas. Essas pessoas estão na luta porque não abrem mão da luta e vão até o final de suas vidas. Então a gente vê que os jovens do CORDAPÉS pode ser um novo líder aqui no Palmeiras, porque aqui tudo foi com muito sacrifício.

(Depoimento do Ênio Martins Marques, Presidente da CORDAPÉS. Entrevista realizada no dia 14 de setembro de 2012)

O depoimento acima confirma as asserções realizadas no princípio deste capítulo, de que as lideranças jovens se espelham nas antigas. Elas mostram também que o vocabulário das lutas se reproduz no discurso das jovens lideranças.