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A modernidade é uma visão de mundo relacionada com o estabelecimento da razão que influenciou a filosofia, a cultura e a sociedade ocidental de uma forma geral. Iniciado entre os séculos XVI e XVIII, o projeto moderno consolidou-se com avanços epistemológicos, com a reestruturação de classes e com a organização de estados nacionais.

A Idade Média deixa seu lugar na História e abriu-se o espaço para a transformação moderna, com o desenvolvimento do conhecimento marcado por bases científicas em que a filosofia apresenta um caráter empirista. Nesse contexto, os problemas de saúde passam a ser considerados numa perspectiva científica, com registros estatísticos (ALMEIDA-FILHO, 1999). Muito do que se conhece atualmente na Saúde Pública teve suas bases nesse período.

Num momento seguinte, destacam-se os movimentos culturais e econômicos denominados Iluminismo e Revolução Industrial. O Iluminismo foi um movimento cultural amplo, característico da segunda metade do século XVIII que abrageu a filosofia, as artes, as ciências, a teoria política e a doutrina jurídica, e refletiu um determinado contexto político- social. De acordo com Marcondes (2000), o propósito central das ideias ilumistas era remover os obstáculos ao desenvolvimento dos homens através da ciência, do conhecimento e da educação.

A Revolução Industrial também foi iniciada no século XVIII, na Inglaterra, com a mecanização dos sistemas de produção. Enquanto na Idade Média, o artesanato era a forma de produzir mais utilizada, na Idade Moderna tudo mudou. A burguesia industrial, ávida por

maiores lucros, menores custos e produção acelerada, buscou alternativas para aumentar a produção de mercadorias. O crescimento populacional é um importante elemento nesse cenário, pois trouxe maior demanda por produtos.

Esses dois movimentos fundaram a base para as novas ideiais e tendências revolucionárias da Saúde Pública no século XIX, com suas atmosferas intelectuais e emocionais (ROSEN, 1994). O aumento da população urbana e do número de trabalhadores em condições insalubres levou à reflexão e a uma produção intelectual que trouxe a associação entre a saúde e as condições em que vivem os indivíduos e a coletividade, ultrapassando, portanto, a consideração do aspecto biológico.

Com o grande processo de urbanização provocado pela revolução industrial, intelectuais e lideranças políticas europeias passaram a fazer as primeiras relações sistemáticas entre a situação de saúde e doença da população com as condições de alimentação, de trabalho, de habitação e as condições sanitárias, bem como a perceber qual deveria ser o papel do Estado sobre esses determinantes (ANDRADE, 2006).

Esse é o contexto do nascimento da Medicina Social. Restrepo (2001a) aponta Virchow como o principal representante da época, o qual declarou que as causas das enfermidades e das epidemias se encontravam nas condições de vida da população pobre. Sem desconsiderar a importância de Virchow, Rosen (1979, p. 80) afirma que a concepção de medicina como ciência social não se originou com ele e enfatiza que a industrialização e os consequentes problemas sociais levaram vários investigadores, como Villermé, Benoiston de Chateauneuf e Guérin, a estudar a influência de fatores como pobreza e profissão no estado de saúde.

Constatamos, portanto, que as condições de vida, e o trabalho de forma mais específica, passam a ser considerados com grande influência na saúde e na doença das pessoas, levando a criação de áreas de estudo a respeito. García (1989) apresenta as considerações de Jules Guérin, quem nomeou a Medicina Social:

Em lugar das abordagens imprecisas e descoordenadas que costumamos incluir sob a denominação de polícia médica, saúde pública, medicina forense, chegou o momento de reunir todas elas em um todo organizado e elevá-las a seu mais alto nível sob o nome de Medicina Social, nome que melhor expressa seu propósito (GARCÍA, 1989, p. 165).

Abordagens como essa estão inseridas no contexto da Europa Ocidental, principalmente Inglaterra, França e Alemanha, marcadas pelo desenvolvimento do capitalismo e pela possibilidade de desenvolvimento da saúde pública, que se evidencia com a necessidade de uma política de proteção contra os riscos sociais à saúde.

Importante resgatar que a Medicina Social pode ser apresentada de acordo com etapas na sua formação que, segundo Foucault (1982), são três: medicina de Estado, medicina urbana e a medicina da força de trabalho. Batistella (2007) faz uma sistematização das ideias de Foucault sobre essas três etapas da formação da Medicina Social:

(...) a medicina de Estado, surgida na Alemanha do século XVIII com a organização de um sistema de observação da morbidade, com a normalização do saber e práticas médicas, a subordinação dos médicos a uma administração central e a integração de vários médicos em uma organização médica estatal; a medicina urbana, com seus métodos de vigilância e hospitalização que, por sua vez, não é mais do que um aperfeiçoamento, na segunda metade do século XVIII, do esquema político-médico da quarentena. Surgida na França, a higiene urbana tinha como preocupação central a análise das regiões de amontoamento que significassem ameaça à saúde humana,

como os cemitérios e os matadouros, propondo sua ‘re-localização’ e o controle da

circulação do ar e da água. Era a medicalização das cidades; por fim, com o desenvolvimento do proletariado industrial na Inglaterra, a medicina inglesa começa a tornar-se social através da ‘lei dos pobres’. Caracterizada pela assistência e controle autoritário dos pobres, a implantação de um cordão sanitário que impunha o controle do corpo da classe trabalhadora por meio da vacinação, do registro de doenças e do controle dos lugares insalubres visava torná-la mais apta ao trabalho e menos perigosa para as classes ricas (BATISTELLA, 2007, p. 40).

Ganham destaque, na sociedade ocidental, as relações estabelecidas entre saúde e os fatores sociais, políticos e econômicos. Além da perspectiva mais ampla da Medicina Social, como movimento de reforma médica, foram construídos muitos documentos que associaram mortalidade e morbidade, por exemplo, às condições de vida das populações.

Na segunda metade do século XIX, tem-se a revolução pausteriana, com a revelação do elemento específico causador da doença como a grande descoberta em saúde. A teoria microbiana da doença, que teve como pesquisadores Louis Pasteur e Robert Koch, levou a criação de vacinas e proporcionou a erradicação ou o controle de doenças infecciosas. Isso significou um largo passo no conhecimento sobre os processos biológicos da saúde e da doença, abrindo perspectivas de muitos avanços científicos. No entanto, a ênfase no aspecto biológico fez com que a dimensão social da saúde e da doença fosse minimizada por quase um século.