5. Understanding a Multilingual Country: Legislation, Policy, and Perceptions of the
5.1 Language, Culture, Religion, and Power Relations in Eritrea
Em consequência da difusão do conjunto de iniciativas solidárias criadas no Conjunto Palmeiras, surgiram diversas solicitações de palestras, seminários e debates, com a
finalidade de conhecer e apreender o sentido das iniciativas. Com o passar dos anos, aconteceu algo que considero uma nova etapa em se tratando dessas iniciativas solidárias. A partir de um momento, cessou o interesse apenas no conhecimento sobre essas iniciativas, mas surgiu o desejo de implementá-las. Esta vontade partia de instituições governamentais brasileiras e de outros países, como é o caso do governo venezuelano de Hugo Chávez, tendo sido celebrado convênio com o Instituto Palmas com a finalidade de criar bancos na Venezuela tendo como referência o Banco Palmas. Para isto, foi realizado um intercâmbio para efetivar tal propósito.
Contudo, havia nisso tudo questões de âmbito constitucional, posto que a associação de moradores, coordenadora das iniciativas solidárias, não possuía poder institucional de realizar convênios para a implementação dessas iniciativas com governos e demais instituições. Outra questão mencionada relacionava-se com a captação de recursos.
Com a divulgação das iniciativas, no plano nacional e mesmo mundial, estas passaram a ser alvo de estudiosos, como também de curiosos que chegavam ao bairro em caravanas. Esta conjuntura impôs à direção da ASMOCONP a necessidade de contratação de moradores do bairro para trabalhar como telefonistas, recepcionistas, digitadores, dentre outros. Estas contratações oneraram o modesto recurso financeiro da associação dos moradores. Desta maneira, a direção da ASMOCONP pensou em novas estratégias que, ao mesmo tempo, resolvessem o problema da captação de recursos, ampliassem a criação de novas iniciativas, assim como efetivassem a atuação das já existentes.
Diante disto, foi criado em 2003 o Instituto Palmas de Desenvolvimento e Socioeconomia Solidária, cuja finalidade era coordenar e acompanhar as iniciativas solidárias e a viabilização jurídica da assinatura de convênios com instituições governamentais e não governamentais, no sentido de criar e acompanhar a instalação das iniciativas solidárias, em especial o banco e a moeda social. A partir da criação do instituto, todas as iniciativas solidárias existentes no Conjunto Palmeiras passaram a ser geridas pelo Instituto Palmas, e não mais pela ASMOCONP.
Segundo Sandra Magalhães, coordenadora de projetos do referido instituto, inicialmente o nome do Instituto Palmas era Instituto Banco Palmas de Desenvolvimento e Socioeconomia Solidária. A referência ao banco, presente no nome do instituto, tinha o intuito de potencializar a ideia da solidariedade intrínseca ao próprio banco, desde sua criação, revela a coordenadora.
Contudo, quando o Instituto assinou o primeiro convênio, em 2005, com o Banco do Brasil (BB), para a criação de um correspondente bancário124que atuaria paralelamente ao Banco Palmas, o Banco do Brasil, segundo Sandra, exigiu a exclusão do termo banco do nome do instituto. A interpretação do setor jurídico do Banco do Brasil considerou inconstitucional utilizar a nomenclatura de banco a qualquer instituição que esteja fora do perfil definido pelo Banco Central do Brasil. Da mesma forma, esta compreensão do Banco do Brasil se repetiu quando da assinatura de convênio com o Banco do Nordeste do Brasil (BNB).
Diante disto, a direção do Instituto Palmas modificou o estatuto da entidade, que passou a ser chamado Instituto Palmas de Desenvolvimento e Socioeconomia Solidária, criado como uma figura jurídica apta a assinar convênios. A partir de então, houve uma expansão significativa na assinatura de convênios com outras instituições, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Caixa Econômica Federal (CEF) e a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES).
Nesse sentido, no ano de 2006, o Instituto Palmas celebrou a assinatura do primeiro convênio com a SENAES, com a ideia central de o convênio criar e/ou fortalecer os bancos comunitários125. Esses bancos foram criados por prefeituras em parceria com Instituto Palmas, que, depois de criados, passavam a funcionar sob a assessoria do referido Instituto. Observo que a SENAES incorpora a proposta dos bancos comunitários como política de governo. Dessa maneira, as iniciativas, além de se tornarem política de governo, promoviam o reconhecimento institucional da imagem do bairro como um lugar especial, protagonista dessas experiências caracterizadas como solidárias.
124 Segundo documentos encontrados no acervo do Instituto Palmas, um correspondente bancário permite ao Banco Comunitário realizar pagamentos e recebimentos próprios dos bancos comerciais (públicos e privados). É de grande utilidade para a comunidade local e colabora para a circulação do dinheiro na própria comunidade. Embora de grande importância, cada comunidade deve decidir (a partir da necessidade do local e da disposição e capacidade de gestão da própria equipe do Banco Comunitário) se deseja ou não operar como correspondente bancário. Deve-se ter claro que o correspondente aumenta muito o volume de recursos no Banco Comunitário e em igual proporção a complexidade na gestão do banco e os riscos de sinistros.
125 Segundo consta no sítio do Banco Palmas: Bancos Comunitários são serviços financeiros solidários, em rede, de natureza associativa e comunitária, voltados para a geração de trabalho e renda na perspectiva de reorganização das economias locais, tendo por base os princípios da economia solidária. Seu objetivo é promover o desenvolvimento de territórios de baixa renda, através do fomento à criação de redes locais de produção e consumo. Baseia-se no apoio às iniciativas da economia popular e solidária em seus diversos âmbitos, como pequenos empreendimentos produtivos, prestação de serviços, de apoio à comercialização e o vasto campo das pequenas economias populares. Ver:<www.bancopalmas.com.br>. Pesquisa realizada no dia 4 de setembro de 2012.
No ano de 2010, o então Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, por meio da SENAES, realizou uma chamada pública com o intuito de fortalecer a iniciativa dos bancos comunitários, ampliando-a para políticas de finanças solidárias126.
Neste mesmo período, o Instituto Palmas celebrou um convênio com o governo do estado do Ceará, na gestão Cid Ferreira Gomes, com o intuito de criar e acompanhar dez bancos comunitários em municípios cearenses; parceria que se repetiria no ano de 2008 com a inauguração de mais dez bancos. Também ocorreu a assinatura de outros convênios, como o assinado recentemente pelo Instituto Palmas e o BNDES, tendo como alvo as mulheres moradoras do bairro que são beneficiadas com o Programa Bolsa Família (PBF) do governo federal.
Sobre a incorporação dos bancos comunitários como política do governo federal, a coordenadora do Instituto Palmas ressalta que “[...] hoje é uma bandeira da SENAES, mas tudo começou aqui [Conjunto Palmeiras]”. O reconhecimento institucional destas iniciativas proporcionou, assegura Sandra, visibilidade ao bairro e possibilitou a expansão da experiência dos bancos comunitários. Acrescento a esta afirmação da coordenadora que tal visibilidade proporcionou legitimidade ao Conjunto Palmeiras como bairro de práticas de solidariedade.
Logo após a assinatura do convênio com a SENAES, o Instituto criou em 2006 a Rede Brasileira de Bancos Comunitários (RBBC), tendo, segundo depoimento de Sandra, o Banco Palmas como sua maior expressão. A finalidade da RBBC é expandir e acompanhar as iniciativas solidárias, mais especificamente os bancos comunitários e a moeda social. Com a criação da rede, foi elaborado um termo de referência e nele há informações sobre a constituição dos bancos comunitários. Neste sentido, a criação de um banco comunitário deve seguir um protocolo previsto no termo de referência, inclusive adotando uma espécie de logomarca dos bancos comunitários.
Conforme informações obtidas, compõem atualmente a RBBC: a ONG Ateliê de Ideias, a Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Solidários (ITEC), vinculada à Universidade Federal da Bahia (UFBA), além do Instituto Palmas.
126As Finanças Solidárias e constituem em formas de democratização do sistema financeiro ao procurar adequar produtos financiais às necessidades básicas da população e ao fortalecimento do trabalho social acumulado em cada território, priorizando os excluídos do sistema bancário tradicional, constituindo-se num elo de integração e sustentação de uma relação mais duradoura entre economia e sociedade, construída sob a égide da ética e da solidariedade, criando condições para o desenvolvimento humano que necessariamente terá de ser integrado e sustentável (COELHO, 2003, p. 153).
Figura 6 – Mapa da Rede de Bancos Comunitários do Brasil - RBBC
Fonte: Instituto Palmas de Desenvolvimento e Socioeconomia Solidária (2011).