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In document sn_2007_01.pdf (90.12Mb) (sider 56-62)

A existência de diversas colônias pressupunha uma hierarquia tácita entre seus moradores. Morar na colônia A ou na colônia B significava trabalhar nesta ou naquela função. Significava também – durante décadas – a possibilidade dos filhos estudarem ou não. Como vimos em capítulo anterior, nos anos de 1950 e 1960, morar nas colônias da São José, Central, Colonheita, São Pedro e São Paulo ou em outras seções distantes da sede da empresa era garantia de apenas realizar estudos equivalentes hoje ao quarto ano do ensino fundamental. Se a massa de filhos de trabalhadores dessas localidades era destinada ao que chamamos de “corte familiar de cana-de-açúcar”, o mesmo não acontecia com os filhos dos moradores da São Luís, por exemplo, estes sim, estudantes transportados para a conclusão do ensino médio em outras cidades. Há uma universalização da possibilidade de estudos apenas nos anos de 1970, muito embora o caráter diferencial da moradia tenha continuado praticamente intocável.

Embora a moradia em determinada colônia significasse uma diferenciação de status entre os próprios trabalhadores e os proprietários, isso não impedia uma certa mobilidade. Cabe relembrar que a gradação de importância existente entre as colônias remanescentes nos anos 1970 e 1980 era a seguinte: 1 - São José, Central e São Paulo (ou na terminologia da empresa, “2ª Sessão” da empresa) eram as colônias menos importantes, notabilizando-se pelo fornecimento exclusivo de trabalhadores permanentes para a área agrícola, do trabalho braçal à operação de máquinas; 2 - São Benedito, Pedreira e Santo Antônio, próximas da usina, basicamente equivaliam-se, sendo, com um pouco mais de importância para esta última, caracterizadas pelo fornecimento de mão-de-obra para a indústria e atividades correlatas, como transporte, segurança patrimonial etc.; e 3 - São Luís, local de residência de trabalhadores “do escritório”, e “chefes”.

Além da qualidade existente entre as moradias, as diferenças entre elas suscitavam diversas construções no universo dos trabalhadores. Um deles, perguntado sobre essa suposta diferença, assim se posicionou:

Eu vou dividir em três níveis, pela época. São Luiz estava lá em cima. Vamos fazer uma analogia, tinha uma classe rica, classe média e classe pobre. A classe rica era chamado o São Luiz. A classe média o Santo Antonio. E os pobres o Benedito e Pedreira. (Eduardo)

É esse mesmo entrevistado que ressaltará a diferença dessas colônias, próximas ao parque industrial da Usina São Martinho, em relação aquelas mais distantes, conhecidas como “São José”.

[...] quem estava na São José e vinha para São Martinho, podia se dizer que estava sendo promovido. Estava subindo. Quem morava na São José, era o pessoal estritamente da área agrícola. Que mexia ali com herbicida, trator, máquinas agrícolas. Então existiam estas várias subdivisões, dentro da empresa. Só que era uma coisa sadia que não chegava ao ponto de [gerar conflitos],mas entre adolescentes a gente se cutucava. (Eduardo).

Em primeiro lugar, aproveitando a última fala de nosso entrevistado, é interessante observar como os jovens encaravam essa diferença. Vejamos o depoimento de um entrevistado, que morou nas colônias desde a infância, ingressou na empresa aos 14 anos, sobre a diferença existente entre as moradias.

Existia. A gente enxergava isto muito assim... muito afloradamente, que todos nós considerávamos a colônia São Luiz, como colônia chefe. A gente falava quem mora na São Luiz é só chefe. E quem morava nas outras colônias era um

pessoal, vamos falar assim... não sei se o termo é pesado. Do baixo escalão. Então, portanto, que existia sim... era até bom não comentar isto, mas existia uma certa discriminação, assim principalmente na adolescência, aqueles que moravam no São Luiz, e os outros que moravam em outras colônias. Portanto, a gente fazia jogo de colônia contra colônia, e quando jogamos contra o São Luiz, queríamos matar os caras por causa desta suposta discriminação. (Eduardo).

O jogo de futebol entre as colônias, realizado principalmente entre os filhos dos moradores, certamente foi um evento que atravessou gerações. O ímpeto de “matar os caras” da São Luís, que discriminavam os filhos dos demais moradores, não era literal, muito embora a violência durante e depois dos jogos fosse muito comum. Conta-se que olhos roxos e narizes quebrados aconteciam quase sempre. Conta-se também que em alguns momentos chegou-se a organizar “guerras” entre os adolescentes, que estabeleciam os açudes centrais como fronteira entre Pedreira e Santo Antônio (que costumavam sempre a se aliar) e São Luís.

A relação discriminador x discriminado também se verificava na relação entre os moradores das colônias próximas da São Martinho com relação aos moradores da 2ª Seção, no caso, Colônias São José, Central etc. Ainda que os filhos dos moradores da Pedreira, Santo Antônio se sentissem diminuídos em relação aos moradores da São Luís, consideravam-se muito acima dos moradores daquelas colônias. No universo desses jovens, a visão de que os “moleques da São José iam trabalhar na roça” era muito presente, sendo certamente o grande “divisor de águas” entre as colônias.

A discriminação, a impetuosidade, que poderia ser considerada típica de jovens, na verdade era uma manifestação que reproduzia, de fato, uma discriminação estabelecida entre os próprios moradores.

Uma das razões possíveis é contemplada no depoimento a seguir, que versa sobre a relação entre os moradores das diversas colônias próximas ao parque industrial da empresa.

Por que tinham três ou quatro colônias, São Luiz, São Benedito, Santo Antônio e Pedreira. Então as roupas a gente o pessoal costumava até dizer, geralmente as empregadas das famílias que moravam no São Luiz, geralmente eram filhos de quem morava ou no São Benedito ou no Santo Antônio. Existiu ali uma elite da empresa. Eu enxergava isto. Então quando iam desocupar uma casa na São Luiz, todo mundo chegava e falava, ali só vai se for chefe. Quando alguém que morava na colônia Santo Antonio e era promovido a chefe. O comentário era algo do tipo, vai entrar no São Luiz. (Eduardo).

Além dos conflitos, trocar de colônia simbolizava a concretização da promoção dentro da empresa, ou pelo menos de um status mais elevado. Tal diferenciação ocorria tanto

nas colônias próximas à Usina São Martinho quanto naquelas da São José. Mudar das colônias da São José para as colônias próximas à Usina era sinal não apenas de ascensão na empresa, mas também de mobilidade social.

Mas era tudo muito difícil. Lembro da poeira que era, tanto na colônia pedreira como na colônia Santo Antonio. Também me lembro da alegria em cada vez que mudávamos para uma outra casa em outra colônia. (Paulo).

Pensamos ser possível, na distinção das moradias, elaborar certo paralelo com a obra de Elias (2000). Como é sabido, o autor discutiu as relações conflituosas de vizinhança em uma comunidade inglesa, entre as famílias já existentes, residentes nos bairros mais antigos, com as novas famílias que aos poucos foram chegando naquela comunidade. Discutiu, portanto, as relações conflituosas entre os estabelecidos e os outsiders.

Segundo o autor, os grupos estabelecidos:

Tinham desenvolvido tradições e padrões próprios. Quem não cumpria essas normas era excluído como sendo de qualidade inferior. [...] E entraram na luta contra os intrusos, usando todas as armas características de que dispõem as comunidades bem estabelecidas e razoavelmente unidas, em suas relações com os grupos de recém-chegados que, por uma razão ou outra, não se adaptaram a suas normas e tradições e, por conseguinte – como devem ter sentido os moradores de Winston Parva –, ameaçam seu status e sua identidade comunitários. Eles cerraram fileiras contra os intrusos. Esnobaram-nos. Excluíram-nos de todos os postos de poder social, fosse na política local, nas associações beneficentes ou em qualquer organização local em que sua influência fosse predominante. Acima de tudo, desenvolveram como arma uma „ideologia‟, um sistema de atitudes e crenças que enfatizava e justificava sua própria superioridade, e que rotulava as pessoas do loteamento como sendo de categoria inferior. Construída em torno de alguns temas estereotipados, sua ideologia de status disseminou-se e foi mantida por um fluxo constante de fofocas, que se agarrava a qualquer acontecimento da “aldeia” que pudesse ajudar a engrandecer a comunidade “aldeã” e a qualquer acontecimento, entre as pessoas da outra zona, capaz de reforçar a imagem negativa do loteamento. (ELIAS, N. 2000, p. 65).

A discriminação e o estereótipo eram existentes na Usina São Martinho apenas quando o trabalhador residia em determinada colônia. Peguemos como exemplo os conflitos dos jovens no futebol. Não haveria o menor escrúpulo em um jovem jogar pelo time da colônia Santo Antônio numa semana, quebrando inclusive o nariz de outro jogador da São Luís, e na semana seguinte fizesse o inverso, uma vez que agora “passou a morar” nesta colônia.

Da mesma forma, o morador da São José, que antes era um moleque que “ia entrar para trabalhar na roça”, perderia este estigma tão logo a família soubesse que iria se mudar para a Pedreira ou Santo Antônio.

Portanto – e é aí que nos distanciamos da abordagem de Elias (2000) – se havia efetivamente a constituição de estereótipos, estes eram vinculados não aos indivíduos, mas às posições – profissionais e de moradia – que estes ocupavam.

Ainda nessa perspectiva, talvez um estigma mais duradouro tenha ocorrido durante a existência do “Chatão” 70

·, em que seus residentes, em grande parte de origem nordestina, não eram reconhecidos como iguais pelas demais famílias. Em entrevista com um morador, filho de família tradicional das colônias, em referência a um dos moradores do chatão afirmou que este “caboclo” “tinha dado sorte, já que tinha sido adotado por uma família decente, que morava na colônia São José”. A adoção ao qual o entrevistado faz referência diz respeito ao casamento com uma filha de moradores.

O discurso do mérito, propalado principalmente pelos patrões, encarregados, chefes etc. e incrustado – ou introjetado – nos trabalhadores parecia suplantar uma estigmatização mais profunda entre aqueles estabelecidos e os outros que foram chegando durante as décadas de 1960 e 1970, nossos “outsiders”. “Independente de onde viesse, sendo bão, ia pra frente; o patrão sabia reconhecer” (Lázaro).

Residir nesta ou naquela colônia poderia indicar o posto em que os filhos poderiam ingressar. Ser das colônias da São José ou das outras seções mais afastadas significava ingresso apenas em funções rurais. Ser da Santo Antônio, São Benedito ou Pedreira, ingresso na indústria. Funções burocráticas – ou administrativas – estavam apenas reservadas para os filhos dos moradores da São Luís.

Ao mesmo tempo em que os diversos trabalhadores entrevistados apontavam que morar nesta ou naquela colônia possibilitava ingressar nessa ou naquela função, são quase unânimes em afirmar que a continuidade ou não do indivíduo dependia unicamente dele próprio. O discurso era meritocrático. É um aspecto paradoxal, até porque esses trabalhadores não desconsideram as injustiças ocorridas através das indicações realizadas entre as famílias.

Eram vários os fatores que determinariam se a pessoa iria ter uma carreira ou não. Eu tive caso de colegas meus, não vou citar os nomes, que o pai morou no São Luiz, só que na época a gente já achava que ele já tinha consciência que o pai era chefe, que ele não precisava se esforçar que um dia ele iria ser chefe.

70 Como visto em capítulo anterior, Chatão era o local de moradia destinado aos primeiros trabalhadores

safristas. A criação deste alojamento é coincidente com o início do término de grande parte das colônias, em meados da década de 1960.

Portanto que nunca foi. E nem empregado do sitio. Porque ele achou que pelo fato do pai ser influente ele teria emprego garantido. E nunca foi. Por outro lado eu vi filho de patrão chegar no escritório por o pé na mesa, e bater no peito e dizer: “um dia eu vou mandar em tudo isto”. Hoje trabalha para viver. E tem sobrenome Ometto. Então quer dizer, em cima da pergunta que você fez, não é o sobrenome ou classe, que determinava... mais as circunstâncias da época, seu envolvimento, se adequasse ao serviço que você abraçou. Eu tive um colega que trabalhava ensacando comigo. Ele sabia que nunca seria um funcionário da empresa. Era o Calazans, o dentista. (Risos) Ele sempre falou. “ Eu nunca vou trabalhar na Usina”. Quando ele trabalhava para gente ele era um dos piores. Por ele sabia que não queria ir por ali. Ele mesmo dizia. Se bem que ele foi lá e estudou e tornou-se um ótimo ortodontista. Este eu não tenho medo de citar o nome. Ele tinha o pai que era chefe, mas nunca usou o nome dele para conseguir cargo. Alguns tentaram, mas quebraram a cara. (Eduardo).

No ideário dos entrevistados haveria ainda uma diferença tácita entre ser morador na usina ou ser morador da “Vila”, nome utilizado por muito tempo pelos moradores para se referir à cidade de Pradópolis. A mão-de-obra da empresa sempre foi complementada por grande parte dos moradores dessa cidade. Nos anos de 1960 – época em que a cidade se emancipou de Guariba –, 1970 e 1980, o trabalhador morador das colônias sentia-se diferenciado em relação aos trabalhadores não-residentes. Pelo privilégio e infraestrutura da moradia (que para muitos era muito melhor na Usina, nos anos de 1950, 60 e 70) e pela concreta possibilidade de ascensão e ingresso dos filhos.

Perguntado se havia certo diferenciamento entre quem era “das colônias” e quem era “da vila”, um entrevistado afirmou:

Isso era evidente e existia um verdadeiro “apartheid”. Os funcionários das colônias eram meio que “encaminhados” para os serviços internos nos departamentos de melhores estruturas da época, como por exemplo: Escritório Central, Escritório Agrícola, Almoxarifados e etc. (João).

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