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José Roberto Peixoto é o único dos netos de Antônio Paulo a ainda trabalhar na Usina São Martinho. Atualmente presta serviços no Almoxarifado Central. Está na empresa há vinte anos. Seu irmão, Antônio Carlos, também trabalhou na empresa, na área administrativa, permanecendo lá até o início dos anos de 1990. Entram na empresa na época em que o pai, José Peixoto, estava na ativa, tratorista da empresa residente na Fazenda São Bento. A aposentadoria do pai significará a saída da fazenda, e a mudança da família para a cidade de Guariba. O desligamento também significou uma mudança de perspectiva. Para Antônio Carlos, o desaparecimento de qualquer chance de continuidade; para Gilberto, o mais novo, o ingresso impossível.

Embora o filho de José e Antônia seja o último a ainda permanecer na empresa, não foi o primeiro neto de Antônio Paulo a ingressar na empresa. Os filhos de Elza – filha mais velha de Antônio – e Anésio serão os primeiros. Sílvia ingressará, no início dos anos de 1980, no laboratório de sacarose. Assim como a mãe, mantém a “tradição” de se casar com filho de moradores das colônias, Alfredo Perassoli, também trabalhador da empresa. Ambos são

desligados no início dos anos de 1990. Odair trabalhará como mecânico de manutenção automotiva durante a década de 1980. Devair, o único da família a iniciar estudos em nível superior, trabalhará no escritório agrícola até o início dos anos de 1990. Antônio Cirino é o único dos netos de Antônio Paulo a ser trabalhador braçal do setor agrícola. Não no corte de cana, mas em todos e quaisquer serviços da área agrícola. Depois, é promovido para trabalhos nas oficinas automotivas da usina, onde permanecerá na empresa até o final dos anos de 1980. Com o desligamento de Anésio da empresa, que desempenhava a função de tratorista, a família sairá da fazenda Calaborante, vindo a residir em Pradópolis.

Os filhos de Lázaro e Ângela também ingressarão na empresa. Moradores das colônias da empresa tinham no acesso à empresa algo concreto. Diferentemente dos filhos de outros moradores da colônia Santo Antônio e da Pedreira, os filhos do casal não farão SENAI, por um ato de teimosia do próprio Lázaro, que “não via futuro se os filhos continuassem na empresa, no chão da fábrica”. O primeiro a ingressar vai ser João Paulo, que assim descreve sua trajetória na empresa:

Entrei em 14/10/1984 como Office-Boy (está assim registrado na minha carteira de trabalho!). Fazia serviços de entrega e retirada de documentos, cheques e envelopes entre os escritórios e secretárias dentro da Usina São Martinho. Buscava também “leite de soja” na vaca mecânica e os distribuía no Escritório Central e Agrícola. Dois anos depois, com 16 anos completos, passei para Auxiliar Administrativo e exercia as tarefas de organizar e controlar recibos de pagamentos das turmas volantes (cortadores de cana!). O objetivo seria facilitar o acesso a esses documentos em decorrência de possíveis ações trabalhistas. Comecei nesta época a assinar as carteiras de trabalho desses funcionários e a coletar assinaturas nos contratos de trabalhos temporários (safristas). Saía de madrugada (por volta das 03h00min horas da manhã!) para ir de encontro às turmas volantes, para coletar comprovantes de entrega de contratos, botinas, facões, “carneiras” (protetores das pernas/canela) e outros documentos. Aos 18 anos exercia a função de Escriturário/Digitador. Foi uma época de muitas mudanças (Informatização dos sistemas). Alguns meses depois passei para Programador de Sistemas de Recursos Humanos (Fazia a folha de pagamento e controle dos débitos da farmácia). Em 08/10/1991 saí da Usina São Martinho.” (João Paulo Prado).

Paulo César ingressará na empresa no setor de Relações Industriais, órgão responsável pela gestão de pessoas na empresa. Durante os anos em que permanecerá na empresa, até meados dos anos de 1990, PC – como era conhecido – desempenhará diversas funções administrativas, sendo responsável principalmente por acompanhar visitantes – muitos deles estrangeiros – ao parque industrial da empresa.

O filho mais novo de Lázaro não teve a oportunidade de ingressar na empresa. Não porque não o desejasse, já que os colegas de mesma idade entraram praticamente todos na

empresa, mas simplesmente por uma escolha de seu pai, que ao final dos anos de 1990 via o esfacelamento da relação empresa e funcionário da forma que havia conhecido: profissionalizava-se a gestão ao mesmo tempo em que se destruíam as colônias. Talvez fosse melhor a vida “fora da usina”, como aquela experimentada pelo irmão mais velho, por exemplo.

O irmão mais velho assim se pronunciará sobre sua visão da empresa, bem como motivo de sua saída.

Para você ter uma idéia, meu “índice” quando saí era 4,2 salários (Isso atualizado para os dias de hoje, seria como algo em torno de R$ 2.163,00, ou seja, R$ 515,00 X 4,2). Fui ser ESTAGIÁRIO na White Martins em Ribeirão Preto /SP, para ganhar METADE do valor que a Usina São Martinho me pagava. Percebi que na Usina São Martinho, não seria aproveitado como estou sendo até hoje na White Martins. Ouvia na época que seria melhor eu pagar um consórcio de um carro do que a mensalidade da faculdade (UNAERP). Isso era um dogma local! Não concordava com isso em hipótese nenhuma! Saí por isso! Ainda bem! Foi uma decisão muito acertada! (João Paulo do Prado).

Lázaro se aposentará em 1992, continuando a trabalhar na empresa, como eletricista até 1996, momento em que é demitido. Sai magoado da empresa, tendo se sentido ultrajado por terem iniciado a demolição de sua casa sem que ele houvesse concluído sua mudança.

Os filhos de Joaquim e Arquimedes – os membros mais bem sucedidos da família dentro da empresa – não ingressarão na empresa.

4 A PERCEPÇÃO DOS TRABALHADORES SOBRE OS MECANISMOS DE DOMINAÇÃO.

Em nossos primeiros capítulos procuramos descrever a permanência das moradias dentro de uma usina de açúcar e álcool, e, fundamentalmente, a relação diferenciada estabelecida entre patrões – no caso “doutores” – e empregados.

Embora o alvo principal da discussão fosse assentado sobre um período cronológico específico, dos anos de 1950 aos anos de 1990, a relação trabalho e moradia na empresa era anterior, remontando ao final do século XIX, ainda nos tempos do café.

Se num primeiro momento poderíamos supor que houvesse certa continuidade na existência e funcionalidade das moradias tanto nos tempos do café quanto no do advento da cana-de-açúcar, enquanto mecanismo de subordinação do trabalhador e de sua família, garantindo abundante fornecimento de mão-de-obra, a reconstrução de todo esse período histórico estabeleceu certas diferenças, notadamente quando grande parte dessas moradias é erradicada, a partir dos anos de 1960.

Dessa década em diante, há uma mudança na funcionalidade da moradia, que deixa de ser apenas um “celeiro” de mão-de-obra familiar e disciplinada e passa a ser um local de presença de trabalhadores mais estratégicos. Tal mudança não se dá pura e simplesmente pela passagem da produção cafeeira para a produção canavieira, na década de 1940, ou mesmo pela troca do comando da Usina São Matinho, da família Prado para a família Ometto, no princípio da década de 1950, mas sim por uma alteração que é legal, jurídica, instituída por dispositivos como o Estatuto da Terra e o Estatuto do Trabalhador Rural.

A literatura corrente apresenta esses dispositivos como os responsáveis pelo fim do sistema de colonato – típica relação presente na São Martinho até os anos de 1960 – e, por conseguinte, das moradias existentes nas fazendas. Entretanto, se parte das moradias ao redor da usina desaparecerá a partir daquele momento, contingentes significativos de “colônias” continuarão existir, sob uma funcionalidade reconfigurada.

Pretendemos demonstrar de que maneira essas diferenciações se processavam, explicitando o novo caráter da moradia, das relações familiares, das “ações positivas praticadas pelos doutores”, da visão erigida pelos moradores sobre esses mesmos “doutores”, das contrapartidas, do preparo da própria mão-de-obra familiar e, por fim, o próprio desaparecimento deste universo, de relação de subordinação consentida.

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