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Ab iotiske faktorer

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O local de ingresso dos filhos dos trabalhadores estava muito condicionado ao local de moradia da família. Se as colônias da São José basicamente forneciam trabalhadores quase que exclusivamente para a área agrícola, e as colônias Pedreira, São Benedito e Santo Antônio para o chão de fábrica, a colônia São Luis via “seus filhos” ingressando em funções administrativas.

O capital social era uma estratégia que as famílias lançavam mão para inserir seus filhos na empresa. Se os trabalhadores da São Luís eram aqueles que estavam mais próximos da cúpula da empresa, morando fisicamente próximos a eles, inclusive, é “natural” que pleiteassem posições mais bem colocadas para seus filhos. Um pai não se conforma com o ingresso de um filho em uma posição radicalmente inferiorizada em relação ao posto que ele pai ocupa. (BERTAUX, 1979).

Existem dois casos de famílias cujas gerações se sucederam em funções administrativas: a Família Carniel e a Família Franco. Por diversas gerações, os membros dessas famílias ingressaram na empresa apenas em postos administrativos. Mesmo aqueles membros que seriam da geração equivalente a dos jovens que fizeram o SENAI ingressaram em funções administrativas, naquilo que os trabalhadores simplesmente designavam por “Escritório”. A essas famílias foram sendo reservadas diversas vagas de comando dentro da empresa, bem como um preparo diferenciado, envolvendo formação em nível superior ao invés de capacitação técnica, como aquela fornecida pelo SENAI. Os membros dessas famílias, por estarem próximos dos “doutores” da empresa, tinham condições de reivindicar posições mais elevadas do que simplesmente “um encaminhamento para o SENAI”.

Nem sempre somente os filhos dos moradores da São Luís é que eram destinados a essas funções. Algumas vezes, filhos de moradores de outras colônias assumiam funções destinadas à “colônia dos chefes”. Joaquim Paulo, por exemplo, constitui um caso emblemático. Embora filho de uma família de lavradores, em que todos os integrantes realizaram trabalhos braçais, ingressou na empresa sem passar pela mesma labuta, sem “pegar na enxada”. Iniciou suas funções como “Analista de Laboratório”. É seu irmão, Arquimedes, quem nos relata sua trajetória.

O Joaquim foi para Usina, ele foi para ser chamado para ir no meu lugar no almoxarifado. E o Caio, o engenheiro, queria que eu fosse para o laboratório. E na época meu chefe não quis me ceder para o laboratório. [...] Surgiu o nome dele. Veio o senhor Roberto e disse: “eu fiquei sabendo que tem o irmão do Arquimedes aí, então, traz ele aqui, e o Arquimedes vai trabalhar comigo”. “Não. Não. Se for para o Arquimedes ir para lá, então que vá o Joaquim e assim ensina uma vez só.” [...] De lá ele começou a ter uma pouco de ramificações e influências na área de informática, e começou a assumir as responsabilidades. E então surgiu a questão de definir quem seria o gerente de informática e foi o Joaquim. (Arquimedes).

O depoimento de Arquimedes é revelador e demonstra um procedimento que era muito comum dentro do universo das relações entre usina e seus trabalhadores: O simples fato de se saber que existiam jovens que eram parentes desse ou daquele trabalhador já os condicionava ao ingresso na empresa. O ingresso do Joaquim se dá “porque ele é irmão do Arquimedes”. Percebe-se que ele não tem de fazer a mesma trajetória do irmão, “cortar cana, realizar trabalhos braçais” etc. É como se a capacitação de um necessariamente estivesse incrustada no outro.

Muitos trabalhadores mencionaram que “a empresa sabia reconhecer”. Pensamos que o mecanismo de identificar nos integrantes de uma mesma família características e

“competências” comuns e daí facultar o acesso desses à empresa seja uma das principais faceta desse “reconhecimento”.

Outro exemplo sinaliza a capacidade que a empresa tinha de reconhecer o desempenho dos trabalhadores e estendê-lo – como se fosse indistinto – aos seus descendentes. Trata-se do “processo” que resultou na contratação do filho mais velho de um dos moradores da colônia Santo Antônio para trabalhar no Escritório Central.

Processo de seleção? Em 1984? Isso não existia na época... Como iria completar 14 anos, tive a oportunidade de ser "entrevistado" pela Keila (Filha do Lineu Zacarias) pelo João Garcia (Encarregado do RH do Escritório Central). O pessoal do escritório central iria precisar de um novo "office-boy". Eles pretendiam aproveitar algum filho de funcionário das "colônias" e como naquele exato momento eu estaria fazendo e completando os 14 anos, simplesmente entrei e fui contratado diretamente como "mensageiro" ou seja "office-boy" ... Isso está lá escrito no meu primeiro registro de minha carteira de trabalho... Não disputei vaga com ninguém! (João)

O fato do Sr João Paulo não ter disputado “vaga com ninguém” era algo corriqueiro. A presença de Keyla e Lineu Zacharias – pai e filha – era significativa, ajudando a melhor dimensionar o mecanismo. Ambos chefiavam os setores de Assistência Social e Ambulatório Médico da empresa, respectivamente. Havia um sistema informal que nutria os líderes, supervisores, encarregados e chefes com nomes de jovens, filhos de fulanos e beltranos, para o preenchimento de determinadas vagas. E para muitos, a Assistência Social tinha esse papel.

O capital social não era o único elemento a explicar o ingresso dos filhos dos trabalhadores na empresa. Havia “algo mais”, que pode ser caracterizado pela observação que setores da empresa faziam acerca do comportamento desses ou daqueles jovens, sem que se levassem em consideração a colônia em que residiam.

A educação física era um mecanismo de preparo dos futuros trabalhadores e, ao mesmo tempo, uma ferramenta de observação dos “mais aptos” e “disciplinados”. Da mesma forma, a escola primária na empresa foi também uma ferramenta para a observação dos “futuros recursos humanos da Usina São Martinho”.

Mesmo quando os jovens passam a ser transportados pela empresa a fim de estudarem em Pradópolis, continua a existir certo mecanismo de observação. Havia funcionárias – moradoras das colônias – contratadas somente para “olhar a molecada dentro dos ônibus”, a caminho da escola. Alguns afirmaram que elas eram, muitas vezes, em épocas de “seleção de meninos”, ouvidas para saber se aquele jovem era “comportado ou não”. Essas

moças eram vinculadas funcionalmente ao setor de Assistência Social, fazendo parte, portanto, desse sistema de “recrutamento interno” existente na São Martinho.

Tais mecanismos funcionavam de forma mais rigorosa para a avaliação do ingresso dos filhos dos trabalhadores em funções ditas administrativas, sendo parcialmente utilizados para a seleção dos meninos que iriam para o SENAI e, posteriormente, para as áreas industriais, não sendo presentes na realidade agrícola.

São exteriorizados pelo próprio chefe do Escritório Central, Sr João Garcia, que afirmou:

A gente ficava de olho na garotada. Quando completasse quatorze anos, pela família, pelo jeito da pessoa, já sabíamos e íamos namorando o funcionário. E como João Paulo, existiram muitos outros que foram assim. E por que disto? Por que na sessão de pessoal é onde dentro da empresa, ocupa o maior número de gente. Então o funcionário, ali era o primeiro passo para eles começarem a trabalhar. Isto por que ficávamos sabendo onde surgiam as vagas para os trabalhadores. [...] Os próprios funcionários eles indicavam. Por que, em primeiro lugar, ali era a sessão pessoal. Eles iam à assistência social e falavam do perfil do funcionário que eles estavam precisando. Estou precisando de tantas pessoas, e se tiver alguém aí. Então a gente já ficava de olho, e ia indicando, olha tem o fulano, e eles respondiam, acho que aquele lá é meio nervoso, não vai dar certo. [risos] E nos joguinhos de futebol a gente ia vendo sempre onde a pessoa se encaixava melhor. Isto era um passo para estar preparando o futuro. (João Garcia).

As redes sociais e os mecanismos de observação tornaram-se mais evidentes na década de 1980, momento em que parece haver uma maior mobilidade no ingresso dos filhos dos trabalhadores em áreas distintas daquelas áreas em que seus pais e antepassados trabalhavam.

As memórias do Sr João Paulo, nascido em 1969, apontam para o início da trajetória de alguns de seus contemporâneos. Trata-se de jovens, moradores das três colônias mais próximas da usina, Santo Antônio, São Luís e Pedreira, que ingressaram em diferentes funções, sem que o critério de filiação ou moradia estivesse tão presente.

Vanderlei Marcandalli. Iniciou o trabalho no almoxarifado da agrícola (Monte Sereno) no departamento chefiado pelo “Piu”; Alan Ferracini Começou no setor de Instrumentação Industrial (São Martinho); José Roberto Zanelatto Começou no setor de Contabilidade do Escritório Central (São Martinho); José Renato Zanelatto. Começou no Departamento Agrícola, chefiado pelo Roberto Pupulin (São Martinho); Maurício Toratti Começou no setor de Recursos Humanos do Escritório Central (São Martinho); Paulo César Quaglio Começou no setor de Desenho Industrial; Sidinei Zilião Trabalhava no departamento de Manutenção Industrial, mais precisamente, manutenção de Ar Condicionado; Eugênio Marcello (Geninho) Começou no setor de Recursos Humanos do Escritório Central (São Martinho); Valéria Marcandalli Trabalhava como secretária no

departamento de desenho industrial e depois no escritório agrícola; Sérgio Rodrigues (Mungão) Começou a trabalhar na Monte Sereno. Não me recordo o departamento.(João Paulo).

Sabemos que alguns desses trabalhadores ainda permanecem na empresa, muitos ainda na mesma função em que ingressaram, outros com postos de chefia.

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