As colônias São Pedro, São Paulo, Coloneita, Monte Sereno, São José e Central faziam parte da Segunda Seção da Cia Agrícola Fazenda São Martinho. Nos tempos do café, todas essas colônias foram destinadas para receber a maior parte dos trabalhadores da Fazenda. Como vimos anteriormente, toda a infraestrutura da fazenda de café concentrava-se ao redor destas colônias.
Até o final dos anos de 1960, a maior parte dessas colônias será demolida. As de duração mais longeva serão as colônias São José e Central, demolidas apenas nos anos de 1990.
A colônia São José era constituída por 73 casas, construídas de forma linear, geminadas e subdivididas em diversos grupos. Próxima da casa de número 73, localizava-se uma escola infantil, que continuará a funcionar durante a administração da família Ometto. Já a colônia Central, também linear, tinha uma composição mais homogênea, sendo formada por doze grupos de quatro casas geminadas, que totalizavam 49 moradias.
As casas em questão não tinham mais que 50m², sendo compostas por três quartos, sala, cozinha e banheiro externo. Nas colônias em questão, durante muito tempo, existia, ao fundo dos quintais, uma vasca, espécie de reservatório de água, compartilhado com outras famílias, sendo destinado à lavagem de roupa. As casas dispunham de água encanada, saneamento e energia elétrica. Nos anos de 1970, várias casas tiveram construídos os banheiros dentro da moradia, assim como aquilo que poderíamos chamar de “área de serviço”.
Assim como na Santo Antônio, a existência e o cuidado com os quintais era algo recorrente. O caráter rural da moradia era muito mais intenso nestas colônias da 2ª Seção da Usina São Martinho. Os quintais eram extensos, e durante muito tempo os moradores cultivaram produtos e tinham criação de animais. É um filho de administrador da seção e ex- funcionário da empresa que relata essa característica. Em suas palavras:
“Os quintais, tanto da colônia São José como da colônia Central eram bastante grande, bem maior que da colônia Santo Antonio. Na Central, começava no fundo da colônia ia até o córrego Monte Sereno. Alem do plantio de Hortaliças, muitos criavam galinhas, patos, perus, etc. tinham mangueirões de porcos, uns tinham cavalos.” (Joaquim Araújo).
É ainda o entrevistado que aponta para o início da transformação nessa estrutura, ocorrida já nos anos de 1960, com a proibição do cultivo nos “imensos quintais”. Mais uma vez, segundo o entrevistado:
“Lembro que todas as casas das colônias tinham um jardim na frente e um quintal no fundo, no qual criavam galinhas, porcos e cultivavam hortaliças,essa pratica foi proibida, isso desgostou muitas famílias,mais para a empresa pouco importava,o que ela queria eram desocupar as casas e derrubá-las. [...] Não lembro bem em que ano, mas por volta de 1967/8 houve esta proibição tanto na colônia São José como na Central, nas colônias que pertenciam à sede da Usina [...].Não posso afirmar se houve um relaxamento dessa ordem na seção São José porque meus pais mudaram da colônia Central no inicio da ano de 1972. [...] Essa proibição partiu da diretoria da empresa, sei que ano que passava o plantio de cana ia se aproximando das colônias.” (Joaquim Araújo).
Independentemente das “melhorias” que foram realizadas nas colônias remanescentes, Central e São José sempre foram consideradas inferiores em relação às colônias que ficavam
ao redor da Usina São Martinho, não só por conta da estrutura da moradia – casas sem forro, banheiros externos, etc., mas principalmente por conta de abrigar trabalhadores que exerciam as funções mais subalternas em uma usina de açúcar: lavradores.
Dessa forma, morar nas colônias, para os filhos dos trabalhadores, significava “entrar na usina” em funções eminentemente rurais. O isolamento físico dessas colônias em relação a outros adensamentos populacionais parece contribuir para o estabelecimento dessa única perspectiva.
O efeito dessa “predestinação” parece ser exposto na análise de Sarti (1995), segundo o qual:
No universo cultural dos pobres, não estão dados os recursos simbólicos para a formulação deste projeto individual que pressupõe condições sociais específicas de educação, de valores sociais, alheios a seu universo de referências culturais, tornando projetos individuais inconcebíveis e inexeqüíveis. A tradição mantém- se, assim, como uma referência fundamental da existência. Pensam seu lugar no mundo a partir de uma lógica de reciprocidade de tipo tradicional em que o que conta decisivamente é a solidariedade dos laços de parentesco e de vizinhança com os quais viabilizam sua existência. Sua busca em serem modernos, ou seja, de usufruírem da possibilidade, dada por nossa época, torna-se busca frustrada, em que aparece o peso de sua subordinação social. Seus projetos são formulados de acordo com a tradição, caracterizada pela preexistência de hábitos de padrões que moldam os comportamentos e, conseqüentemente, pela precedência do todo sobre as partes. Não têm, portanto, as condições para participar da possibilidade de emancipação moderna, traduzida no desenvolvimento da dimensão individual. (SARTI, 1995, p. 47).
Durante os anos de 1950 e 1960, as colônias da Segunda Seção abrigaram imensos contingentes de trabalhadores destinados ao corte familiar de cana de açúcar. A promulgação do Estatuto do Trabalhador Rural (1963) e do Estatuto da Terra (1964) é decisiva para o início do processo de demolição das colônias e da mudança do perfil do trabalhador que permanecerá, com sua família, nas colônias remanescentes.
Dessa forma, as colônias Central e São José notabilizar-se-ão por abrigar, nos anos de 1970 a 1990, uma maioria de trabalhadores rurais. Não nos referimos a cortadores de cana, mas todos aqueles outros trabalhadores relacionados com as funções agrícolas não- temporárias, como plantio de cana, capina, pulverização de herbicidas etc. Além desses, será frequente a presença de operadores de máquinas e motoristas.
Havia instalações administrativas nessas colônias, (a Fazenda São José era sede da Agropecuária Monte Sereno) bem como local para consertos e abrigo de máquinas e equipamentos agrícolas. Basicamente, morar na São José ou na Central era sinônimo de ser “trabalhador rural”.
A São José e Central dispunham de uma infraestrutura que as isolava das outras colônias mais próximas da São Martinho. Ambulatório médico, gabinete dentário, escola infantil durante muito tempo estiveram presentes. Havia ainda campo de futebol – e uma rivalidade com o time da São Martinho – muito embora os moradores frequentemente se deslocassem para o “lazer oficial próximo da usina”, como cinema, bailes, para a Educação Física etc. Central e São José continuaram, durante toda a sua existência, até meados da década de 1990, a fornecer mão-de-obra para os setores agrícolas da empresa.
“[...] os filhos dos moradores das colônias Santo Antônio, São Luiz e Pedreira (tinha também a São Benedito, lembra-se?) eram que meio direcionados para os cargos da indústria e escritório. Começavam a trabalhar na Usina (divisão industrial). Muitos deles faziam cursos técnicos no SENAI em Ribeirão Preto /SP. Já o pessoal da Central, São José - tinha também a colônia São Paulo - eram muito aproveitados na Monte Sereno (divisão agrícola).” (João Paulo).